BÖLÜM II: FUTBOL VE BASKETBOL MEVZUATIMIZIN TANIDIĞI ULUSLARARASI SPOR BİRLİKLERİ TANIDIĞI ULUSLARARASI SPOR BİRLİKLERİ
2.6. Avrupa Futbol Federasyonları Birliği (UEFA)
Depois de todas as discussões que foram desenvolvidas nesta tese até esse ponto, cabe-nos definir aqui qual é especificamente nossa postura perante a leitura, cabe- nos definir qual a concepção de leitura que nos serviremos para lançar nossos olhos sobre o Enem e o baccalauréat.
Para começar nossa delimitação, afirmamos que leitura é um signo. Sobre essa arena, várias vozes exercem seus jogos de força para determinar o significado do termo. É possível delimitar leitura a partir de variadas vertentes em diversos pontos da história. Esses posicionamentos sobre a leitura são por vezes excludentes, como a leitura ascendente e a descendente; e às vezes complementares, como ocorre na perspectiva interacionista de leitura, que associa aspectos de uma e outra no complexo do processo leitor.
Pensando que a herança sígnica contribui para a delimitação de um signo, dizemos que o signo resulta de um processo histórico que leva em conta os valores de
sentido de sua história associado aos atuais valores que ele carrega. A leitura não é mais concebida unicamente como ela era na Idade Média, mas a herança sígnica, que dá alça à memória do signo, atua como uma força tradicionalizadora. Assim, mesmo a leitura tendo evoluído em diversos aspectos ao longo de sua existência, as experiências mais marcantes de sua vida ainda determinam, ainda que em menor medida, as práticas de leitura atuais.
A leitura é um instrumento de controle ideológico. Esta determinou a leitura no
percurso da história segundo convinha para ela de modo a facilitar o gerenciamento das massas. Assim, a Igreja limitou a classe leitora, depois limitou o modo de ler, depois limitou o que deveria ser lido, depois limitou como o que era lido deveria ser lido, até que perdeu o controle sobre a leitura. O que temos aqui é um processo histórico de perda do poder sobre a leitura, mas também uma insistente tentativa de o manter nas rédeas eclesiásticas. Esse percurso moldou o desenvolvimento social da leitura durante séculos, desde a invenção do cristianismo até o fim da Idade Média. Assim, ler tornou-se uma passividade, o ato de coletar informações do texto, de ouvi-lo e acatá-lo, de não questioná-lo. A emancipação da leitura, evento ocorrido no Renascimento, nos indica que se a leitura tomou rumos diferentes na história, é porque também a sociedade se alterou.
A leitura é uma prática social. Ela passou dos limites estranguladores
monásticos para as ruas comerciantes. Esse deslocamento acontece concomitantemente com a perda da força da Igreja. A prática social da leitura está sempre do lado do time social mais forte, se assim podemos vulgarizar o saber científico. Antes, quando a Igreja dominava, a leitura era controlada pelas vias cristãs. Depois, com a expansão da burguesia e o barateamento do material de leitura e escrita, ela se associou aos burgueses.
A prática social da leitura está sempre atrelada à força social e política de grupos. Ela é um exercício altamente elaborado e simboliza um tipo de poder. Lembramos dos relatos de leitura de Manguel (1998), que nos conta a passagem dos índios Nhambiquaras que, ao verem Strauss escrever, faziam suas garatujas e pediam para que ele as lessem.
Vamos pensar em outro momento da história da Igreja com a leitura. A revolução de Lutero por exemplo atuou sobre a leitura da bíblia. O modo de ler passou de indireto,
de uma aceitação da leitura por parte dos líderes católicos, a uma leitura efetiva, uma vez que agora o livro sagrado deles estava escrito na língua que eles falavam. A leitura em língua vernácula permitiu uma maior democratização do saber. Esse saber, no entanto, ainda era religioso. Ainda que isso aponte uma descentralização da Igreja, a leitura continua sendo de base religiosa.
Enquanto objeto de avaliação no Enem e no baccalauréat, a leitura também representa uma prática social legitimada como provedora da mobilização social, como porto de passagem para os grupos sociais dominantes. Resta-nos investigar como a leitura nesses exames é trabalhada. Para responder a essa questão, lançamos depois nosso olhar sobre o material que é lido, e também sobre como a leitura é trabalhada no espaço de cada projeto discursivo fragmentado.
Enquanto o espaço da mobilização social, e enquanto ponto de trocas entre as estruturas e as ideologias, a leitura é, assim, situada no espaço da interação. Ela é a colocação em vida da linguagem. Se fora de um contexto enunciativo, a linguagem é considerada morta, a leitura é o modo de atribuir vida a essa linguagem que espera por um sopro enunciativo. Quando a palavra escrita não é lida, repousa sobre a inércia do livro, da tela. Quando ela participa de um evento de leitura, a palavra escrita encontra seu objetivo de existência: ser lida.
A linguagem é o lugar da interação. A escrita determina esse lugar com uma ilusão de fixação do espaço, de delimitação concreta do espaço e dos modos da interação. Podemos dizer que esta é uma verdade do ponto de vista da escrita, mas a leitura rompe com esses espaços porque ela é a colocação em funcionamento da dinâmica em si. A escrita repousa no sono profundo dos significados até que a leitura a recobre com uma teia de sentidos. Sem a leitura, a escrita não passa de registro, de um corpo em busca de uma alma. A essência do texto escrito não está em suas palavras, mas no modo como essas palavras vão articular a interação entre os interlocutores e entre as ideologias.
Essa ideia nos aproxima bastante da perspectiva anunciada por Soares, mas pouco explorada. A leitura é um ato enunciativo. Quando consideramos enunciação oral, ela é efêmera e toma como base as condições de produção mais imediatas ao momento em que o enunciado é proferido. A enunciação oral se dá também em forma de gêneros discursivos, e isso quer dizer que ela pode retomar dentro de si outros gêneros,
recuperar outros textos, mas a priopri, ela é determinada pela condição de produção enunciativa, ou seja, pelos elementos contextuais mais imediatos. A escrita é uma inovação que permite romper com o compromisso daquilo que se diz com apenas um momento dado. A cada leitura, esse texto se transforma em uma enunciação diferente. A cada leitura, laços novos com o contexto imediato são estabelecidos.
Gostaríamos aqui de nos posicionarmos quanto à ideia amplamente difundida tanto no meio científico e acadêmico quanto nas escolas. Um texto escrito não é múltiplo porque permite várias leituras. A possibilidade de leituras, que variam com o tempo, o espaço e o leitor, não faz o texto se transformar em vários textos. Ele segue sempre como uma unidade. A leitura é que é a responsável por esse sentido plural. É a leitura que é plural, porque também é plural a colocação em cena de vozes e o modo como elas dançam na arena do signo. O texto segue uma unidade, enquanto a leitura é que se desenvolve diversamente. Por isso a leitura é um ato enunciativo, por isso ela é irrepetível.
Vamos pensar um pouco sobre essas considerações a respeito do modo como a Igreja tratou a leitura na Idade Média. Limitar a leitura é uma forma de limitar a difusão do conhecimento. Quando apenas uma classe é detentora do saber ler, essa classe é a única capaz de dialogar com as vozes que se deslocam no tempo e no espaço. Se ler é ouvir as vozes dos que estão longe, a capacidade de ouvir essas vozes é dada somente a um seleto grupo. O modo como essas leituras se transmitem dos grupos leitores aos grupos não leitores é o ponto chave da manipulação social.
Quando o público leitor começa a extrapolar os limites dos membros eclesiásticos, a Igreja passa a controlar aquilo que deve ser lido e como esse material deve ser lido. Ainda vemos que existe neste movimento uma tentativa de silenciar a voz do leitor. A leitura que se serve dos saberes difundidos no texto sem dialogar com eles é uma leitura autoritária, porque o representante social dominante, a Igreja, não se altera perante a leitura de seu interlocutor.
Essa condição na leitura em que o interlocutor representante da classe dominante não se altera perante o ato enunciativo da leitura é uma réplica do comportamento de ditadura. A voz é sempre unilateral e não admite respostas fora dos padrões determinados. Quando a Igreja não pôde mais controlar o grupo seleto de leitores, ela
buscou controlar o que se lia e como se lia o que se lia. Ou seja: buscou estabelecer um modelo de leitura em que o leitor se coloca à escuta do autor, em um esquema que desconsidera a leitura como evento interativo.
Na transição da Idade Média para o Renascimento, o material de leitura foi ampliado, mas as leituras continuavam ainda a ser controladas. Tratava-se mais de uma réplica de leituras, de um reconhecimento de leituras autorizadas do que uma produção de leitura efetiva. Por isso, podemos considerar monológico o evento leitor que toma como parâmetro o silenciamento do leitor, tornando-o passivo, receptor de um discurso alheio a ele, de modo a adotá-lo como seu. Trata-se de uma leitura ditatorial, de um modo de controle da prática da leitura.
Podemos considerar que a transição da leitura orientada para uma leitura independente marca o que chamamos aqui de emancipação da leitura. Enquanto na Idade Média, principalmente, a leitura era orientada para ser realizada enquanto uma prática monológica, a emancipação da leitura possibilitou que esta prática se tornasse dialógica, ou seja, se tornasse uma rede cada vez mais complexa de diálogos estabelecidos nos planos textuais, enunciativos e ideológicos.
A leitura dialógica é aquela que contempla todo o contexto da enunciação.
Quando ler é sinônimo de dar voz à enunciação, as condições mais imediatas de produção da leitura são responsáveis em grande parte pela orientação da produção de sentidos. Na leitura autoritária, o contexto de leitura é um dos modos de se manter a uniformidade da leitura. Lia-se na escola, no espaço religioso e sempre da mesma forma. As leituras feitas fora desses contextos eram ligadas ao exercício da cidadania. Ligar a leitura a todo o contexto imediato de produção é respeitar que ela é um ato dialógico que coloca em interação os interlocutores (escritor e autor), os discursos aos quais eles se filiam através dos enunciados aos quais respondem e as ideologias que eles representam no evento enunciativo.
Se a leitura é um ato enunciativo, e toda enunciação se manifesta por meio de um gênero discursivo que por sua vez regulamenta um modo específico de interação dentro de uma esfera de atividade humana, então, a leitura é um modo de colocação em funcionamento desse gênero discursivo. Ler é fazer as vozes contidas nos textos brotarem na superfície enunciativa e realizarem seus projetos interativos com as outras
vozes que encontram no âmbito extralinguístico. Considerando que os gêneros são classificados em primários e secundários, o modo como a interação se passa também é caracterizado diferentemente em um e outro gênero.
Para falar das dinâmicas interacionais no momento da leitura de gêneros discursivos primários e secundários, recuperamos a primeira pista que damos sobre esse assunto na segunda parte da tese. Falamos um pouco a esse respeito quando tratamos do exame enquanto um gênero secundário. Vamos começar pelo gênero primário e para isso retomamos a diferença da dinâmica interacional no discurso oral e no escrito há pouco tratada.
No discurso oral, os laços com o momento da enunciação estabelecidos pelo enunciado são fortes e necessários para a compreensão daquilo que se diz. Quando tratamos do discurso escrito, o enunciado só se torna enunciado no momento da leitura, e a relação da enunciação é então partilhada entre leitor e autor. O leitor considera o texto do autor a partir do contexto em que este é lido. Um texto escrito permite infinitos momentos de leitura. O momento da escrita liga essa ação ao extralinguístico de um determinado modo. Ao ler, essa relação com o extralinguístico é alterada, porque o leitor afasta-se desse extralinguístico e conecta a leitura que faz ao seu próprio extralinguístico. Por isso, o ato de ler produz infinitos sentidos sobre aquilo que se lê.
A partir dessa breve discussão que define a leitura em nosso ponto de vista, desenvolvemos também algumas ferramentas que utilizamos nas análises que se seguem. Elencamos aqui os principais pares: leitura emancipada x o reconhecimento de leitura, leitura autoritária x leitura dialógica. Nossa próxima etapa trata especificamente dos exames baccalauréat e Enem a partir de uma pesquisa que observa as expressões numéricas relacionadas às provas e também a partir de uma leitura interpretativa do corpus.