2.5. YOKSULLUĞUN BOYUTLARI
2.5.2. Dünya’da Yoksulluğun Boyutları
De um lado, a cultura brasileira demanda que relações pessoais (CALDAS, 2009) sejam estabelecidas por aqueles que se inserem em seu contexto. Essa característica pode se colocar como uma ferramenta estratégica para que o GP estabeleça relações de confiança e liderança, ao ganhar respeito e colaboração de seus stakeholders. Por outro lado, teme-se que o exagero dessas relações pessoais possam justamente contribuir da forma oposta, quando o cliente ou recurso de projeto percebe sua instrumentalização em prol de benefícios. Essa linha tênue e presente deve ser objeto de atenção para o GP, no exercício de sua função.
Quando DaMatta (2010) afirma que há igualdade somente perante os que se percebem parte de um mesmo grupo, desconfiamos que haja uma iminente possibilidade de rejeição do GP e de sua autoridade, confiança e liderança quando ele está aquém do grupo dominante por algum fator psicodemográfico que possua. Ou seriam as relações profissionais pragmáticas o suficiente, se colocando acima de qualquer diferença? Devemos, então, entender as relações que regulam o reconhecimento desse profissional de projeto como um membro do grupo de stakeholders como parte indissociável dessa pesquisa. Para tanto, novamente recorremos às revelações de campo para podermos inferir uma conclusão.
A percepção da existência dessas relações na cultura brasileira, frente à outras culturas, nos foi deflagrada pelos seguintes fragmentos de discurso:
Eu acho que o fato de eu ser política, e não ser fria […], isso me atrapalhou [citado no contexto de um problema grave de relacionamento com um recurso de projeto
inglês]. Mas isso é um ponto que me ajuda nos projetos aqui [no Brasil]. De eu conseguir criar um coleguismo com o cliente, de tratá-lo educadamente, eu recebo educação. (E01)
Ele achou o cabelo dela bonito. Ele tocou no cabelo dela: -"Nossa! Que cabelo bonito que você tem!" Fez um elogio. A menina era noiva. Na cultura dela [cultura árabe] a aproximação com o toque é uma coisa muito grave. Ela reclamou com o sponsor do projeto que era de outro país e essa pessoa teve que ser repatriada. O stakeholder achou aquilo um desrespeito muito grande, né, e teve que ser repatriado. (E09)
Nos fragmentos de discurso acima, percebemos necessidade fundamental do distanciamento físico, destoando do que é vivenciado na cultura brasileira. No discurso de E01, houve problemas em se aproximar de um recurso de projeto de origem inglesa, como denotado pela seleção lexical “Eu acho que o fato de eu ser política, e não ser fria […], isso me atrapalhou”. De forma semelhante, destacamos a seleção lexical da fala de E09 “Na cultura dela a aproximação com o toque é uma coisa muito grave”, revelando problemas graves em um projeto no oriente médio por uma atitude que seria culturalmente aceita no Brasil.
Em nota etnográfica, trazemos o relato de uma discussão de uma equipe de projeto sobre a informalidade em assinar e-mails corporativos com saudações informais como: “um
beijo” ou “um abraço”. Em outras culturas, tal demonstração afetiva seria inaceitável e
prejudicial ao projeto.
No fragmento de discurso abaixo, esta realidade ficou patente no segmento lexical
“Então eu sinto que aqui no Brasil a relação tende a ser mais calorosa”. Entendemos que o
campo perceba portanto diferenças comportamentais entre a cultura brasileira e outras culturas, sendo a primeira, de fato, mais pessoais e clientelistas, impactando diretamente no exercício das soft skills pelo GP. Assim:
Então eu sinto que aqui no Brasil a relação tende a ser mais calorosa. […] Isso é mais presente do que quando você trabalha com pessoas de outros países, porque eles são mais pragmáticos. Você tem um cronograma e essa tarefa você tem que fazer, o relacionamento é mais frio. Então como a gente aqui, e não é só o Brasil, a América Latina ela tende a valorizar mais esse lado. Então você precisa fazer com que aquela pessoa compre a sua ideia. (E10)
Destacamos a existência de um choque cultural no fragmento de discurso de E04, em
especial pelas seleções lexicais “totalmente arraigado à cultura” e “eu custei a me tocar que
isso complicava a minha vida, aqui com os meus dealers brasileiros”:
Então, eu acho que isso também é totalmente arraigado à cultura. Eu não tinha esse hábito, eu ligava pras pessoas e já ia direto ao assunto, e eu custei a me tocar que isso complicava a minha vida, aqui com os meus dealers brasileiros. Eles esperam que você pergunte como foi o final de semana, como passou as férias, o que achou de ter sido escolhido um papa argentino, eles esperam que você pergunte isso. (E04)
De fato, as relações pessoais se fazem bastante presentes, estando o GP passível de exercê-la e por ela ser envolvido. Cabe a esse profissional, todavia, perceber os stakeholders que destoem dessa generalização cultural.
Em algumas falas, reconhecemos traços favoráveis do personalismo à gestão de projetos dentro da cultura brasileira. Houve indicação frequente que, ao estabelecer vínculos afetivos com seus stakeholders, os GP’s exerciam suas soft skills com maior facilidade e traziam muitas vezes resultados favoráveis, mesmo quando a situação do projeto era crítica ou problemática.
Tem ponto positivo, porque tem vezes que você precisa de exceções, e a pessoa, por estar te vendo numa situação muito ruim, ela abre aquela exceção, realmente por amizade, caramba, ela está muito mal, então vamos ajudá-la. (E01)
Porque o cliente, ele não é tão duro quando é teu amigo. Entendeu? Já trabalhei com amigo do outro lado. Então antes de, de... Amigo, porque ele trabalhou comigo em outra empresa. Então antes dele fazer alguma coisa, ele me ligava. Ele falava: - “Tá, tá vacilando. Não tô conseguindo segurar isso aqui por muito tempo. Entendeu? Tenho que mandar um e-mail. Faz alguma coisa ai do teu lado pra resolver essa parada aqui, pra não subir.” Então essa relação com o cliente é muito melhor. Eu acho que com a equipe também é boa. (E02)
Desses fragmentos, destacamos seleções lexicais que denotam algum favorecimento ao projeto quando o GP tem laços de amizade com stakeholders. Seja para facilitar a
execução de tarefas: “ela abre aquela exceção, realmente por amizade, caramba, ela está muito mal, então vamos ajudá-la” (E01). Seja para ganhar novas chances de reverter um problema ou para não ser surpreendido por uma crise: “Faz alguma coisa ai do teu lado pra
resolver essa parada aqui, pra não subir” (E02).
Vamos pegar um exemplo: tem uma pessoa que você gosta muito. Você gosta dela como pessoa. E tem aquele cara que é um carrasco. Se o carrasco te liga no meio da madrugada dizendo: -“Tô com um problema aqui. Me ajuda aqui?”, se você não for estritamente obrigada a fazer você vai dizer pro cara: “Olha, sinto muito! Se vira.” Se for aquela pessoa de quem você gosta e respeita profissionalmente, você vai fazer um esforço adicional. (E03)
Porque aquele contato pessoal facilita às vezes quando você tem que administrar alguma crise no projeto, você ter tido pelo menos algum contato antes com a pessoa, e não só pelo telefonou por e-mail. (E13)
Do segmento lexical “Se for aquela pessoa de quem você gosta e respeita profissionalmente, você vai fazer um esforço adicional” (E03), apreendemos que tal relação afetiva favorece não apenas o GP e o projeto, mas também seus stakeholders. É um laço facilitador em mão-dupla.
Percebemos também que as relações pessoais contribuem na construção da confiança para com o GP, como explicitado abaixo:
Então eu acho que o que constrói a tua relação de respeito é exatamente isso: é o companheirismo. É você estar lá, junto. Então faz diferença? Faz toda a do mundo. Porque as pessoas te veem ali. “Pô, o cara tá arregaçando a manga e está aqui comigo. Tá fazendo outra coisa porque ele não pode me ajudar, mas ele está aqui do meu lado.” [simulando o pensamento de algum recurso do projeto sobre o GP] (E03)
Você tem sempre que ter na sua cabeça isso: estou aqui pra trabalhar e não para fazer amigo. Mas se você conseguir fortalecer alguns laços... [apertando os lábios, olhando pra baixo e sacudindo levemente a cabeça, dando um tom sarcástico à frase] (E03)
Vemos, pelo segmento lexical da fala abaixo “se aproximar do stakeholder através de identidade cultural” que o reconhecimento do GP pelos seus interlocutores, como alguém que compartilha a mesma identidade do grupo, é um importante elemento facilitador para que esse exerça sua função:
Mas essa aproximação, o brasileiro ele se relaciona, ele gosta desse tipo de relação, de falar de futebol, entendeu? Esse tipo de coisa. Então, esse caminho de você se aproximar do stakeholder através de identidade cultural, seja por esporte, seja por hobby, seja pelo que for, eu acho que isso é válido (E09)
Em especial, a seleção lexical do fragmento de discurso de E09 “ele gosta desse tipo de relação, de falar de futebol” tende a sugerir um traço machista, já que, no limite, excluiria as mulheres e gays. Tais barreiras de socialização são objetos de estudo na próxima seção.
No fragmento de discurso de E11, percebemos como a esfera pública invade a vida privada, abrindo margem para possíveis discriminações:
“A parte de envolvimento, capturar o envolvimento do pessoal e fazer com que o pessoal da EMPRESA_W trabalhasse junto, foi através de amizade, envolvimento, sair junto com as pessoas, conversar na hora do almoço, bater papo, puxa assunto, fala de futebol, assunto de trabalho, pega a decisão, estou batendo papo com as pessoas. Poxa, a gente realizou o pacote que estava descrito aqui na entrega do cronograma. Dá pra assinar aqui? Tudo bem, valeu. E as pessoas assinavam. Então vale muito esse negócio de envolvimento emocional, pra ter resultado técnico e financeiro também.” (E11)
Isso é confirmado em falas de E11 e na de E17:
“Eu consigo através disso [relacionamentos pessoais], talvez superar muitas barreiras.” (E11)
“Às vezes você tem um cliente que ele chega pra você, você está trabalhando com ele, fazendo um projeto. E um cliente gosta de futebol, que é uma coisa que eu não gosto. Mas aí, como você está trabalhando nesse projeto, esse cliente é um parceiro seu. Então de repente eu vou perder cinco minutos do meu tempo pra poder assistir a uma partida de futebol, pra trazer esse cliente comigo, pra conseguir que a gente toque essa parceria.” (E17, homem, homossexual)
Ainda, encontramos registros de que as relações pessoais favoreceriam o projeto, sem todavia impedir, caso não se estabelecessem, a sua realização e o seu sucesso. E por conseguinte, também não deveriam se colocar como uma barreira para o sucesso do GP. Ela se apresenta como um fator adicional e não primordial, como abaixo relatado:
O approach deve ser: você procurar atingir os objetivos do projeto. Eu acho que o contato, essa identidade cultural, pra dar proximidade pelo lado da amizade, olhando a cultura brasileira, eu acho que ela deve ser um complemento. Ela não deve ser um objetivo e eu acho que ela não deve afetar o projeto. Eu acho que ela não deve ser forçada, ela deve acontecer naturalmente. Quando ela é forçada, o cliente percebe. (E09)
No fragmento de discurso de E14, a confiança também se estabelece através da amizade:
É claro que essa liberdade, essa amizade, essa confiança, essa troca, acaba fazendo com que o cliente confie em você e você possa vender outros projetos, continuar lá, ele confia no seu trabalho, confia em você, tem uma certa amizade. Então acaba te ajudando, mas geralmente não é com essa intenção. (E14)
Captamos, como uma nuance das relações pessoais, algumas evidências de que o humor possa ser usado como mecanismo de regulação, mascarando preconceitos à diversidade. Seriam passíveis aos seus efeitos, os introjetando ou não, aqueles indivíduos que se distanciam do poder androcêntrico, caucasiano, católico e heterossexista (DaMATTA, 2010; BOURDIEU, 2007). E nesse grupo de indivíduos não se exclui um GP. A fala de E05, caracteriza o humor como uma forma subjetiva de criticar e regular um comportamento, salientado no segmento lexical “num tom de brincadeira, falam-se verdades, ou num tom de verdade fala-se brincadeiras”:
[…] a discriminação, ou o preconceito, ou como a gente queira definir, ele está
muito próximo, porque, num tom de brincadeira, fala-se verdades, ou num tom de verdade fala-se em brincadeiras. (E05)
Nos fragmentos de discurso abaixo, o humor ofensivo é explicitamente percebido, mas seus efeitos são implicitamente sentidos. Isso nos transparece pelo segmento lexical: “você vê o que ofende” do entrevistado E01:
Mais sensível a piadas, sensível à... Você consegue tomar mais as dores de outras minorias, de outras pessoas, você vê o que ofende, você entende melhor o que ofende a pessoa em termos do preconceito. (E01)
Como também quando o entrevistado E02 se ressente e tem uma atitude defensiva frente a uma piada sexista. Bem, aquilo não ofende não causa reação. Ilustramos com o fragmento de discurso abaixo:
Não! É indiferente [falando sobre as piadas]! Pra mim é indiferente! Não me abala! ‘Lugar de mulher é no fogão’, não sei o quê... Sou tão bem resolvida comigo mesmo que não me ofende. Não me ofende. Essas piadinhas não me ofendem. […] Não, não me ofende! [pontual] Não, não me ofende. -“Ha-ha-há! Que legal!” [simulando uma reação aparentemente mascarada e de autoproteção]. Pra mim o cara deve ter “pau pequeno” [reativa em seu pensamento]. Não me ofende. (E02)
Nos fragmentos abaixo, o humor se revela algoz com a diferença de gêneros:
Olha, na boa?! Hoje em dia não me afeta de jeito nenhum! De jeito nenhum, porque eu levo na brincadeira. Mas existe. Ó, eu vou te dar um exemplo do Zacharias, que é
um fofo. No dia que eu tava fazendo entrevista pra cá [para contratação na EMPRESA_P], aí eu passei. Aí eu vim conversar com o X. Lembra do X, né e tal?
Aí eu vim conversar com o X e ele falou pra mim: “Olha, E04, você passou. Parabéns! Não sei o quê... Você vai trabalhar na área ABC.” E, nisso, o Y [então
diretor da área] passou. E aí ele chamou o Y e falou: “Olha, você vai trabalhar pra
ele. Y, essa é a nova PM que vai trabalhar contigo.” Aí ele [Y; o diretor] falou pra
mim: “Ai, mulher?! [com entonação de brincadeira] Você não vai chorar se alguém brigar contigo numa reunião, não, né?” [rindo]. (E04)
Já, já senti [o efeito de piadas] por ser mulher. (E13)
O mesmo acontece em relação à orientação sexual:
Rolar já rolou. Mas eu nunca me senti ofendido. Também nunca participei, incentivando, do tipo fingindo, sabe? - "Ah! Aquele cara é viado mesmo!" Entendeu? Fazendo aquelas brincadeiras sexistas assim. Nunca me posicionei incentivando esse tipo de coisa. E, na verdade, nunca incentivei também no ambiente de trabalho esse tipo de coisa. Nos projetos que eu atuei, eu sempre procuro evitar. (E09)
Eu já me senti mal por estar num projeto e ter uma pessoa que é gay, e ter piadinha por causa disso. Eu me senti desconfortável pela pessoa, eu não achei que isso ainda existisse, para falar a verdade. (E13)
Mas se há espaço para essas demografias, deduz-se que o mesmo aconteça para as demais.
Vemos também que quando há envolvimento emocional e laços pessoais e políticos entre dois atores, o humor relega a ofensa a um outro alguém, mesmo que o receptor detenha o traço psicodemográfico achincalhado na piada. O fragmento de discurso abaixo ilustra isso, onde ressaltamos as seleções lexicais “os dois maiores amigos é aquele cara que chama o outro de viado, não dizendo que o cara seja gay” e “não é viado homossexual, é viado de piada”:
Mas aquele negócio afetivo brasileiro, que os dois maiores amigos é aquele cara que chama o outro de viado, não dizendo que o cara seja gay assumido, não é viado homossexual, é viado de piada. A gente dava aquela risadinha, ficava meio de lado, mas ficava tranquilo em relação a isso. (E17)
O emissor da piada absolve de culpa seu receptor, o seu amigo, apesar desse segundo estar enquadrado no público alvo do chiste. Mas, no mesmo fragmento, o segmento lexical “A gente dava aquela risadinha, ficava meio de lado, mas ficava tranquilo em relação a isso” revela que, para o receptor, há um custo pessoal em relevar a ofensa. Ele se percebe discriminado, mas exerce certa resiliência para aceitar o escárnio já que se percebeu tolerado pelo emissor. Contudo, tolerância não é sinônimo de respeito e tampouco de igualdade social.
Inferimos, portanto, que esses mecanismos de dominação mascarados pelo humor, sutis mas presentes na cultura brasileira, tais quais descritos por Saraiva e Irigaray (2009),
influenciam as relações entre o GP e seus stakeholders, deixando aqueles GP’s que fujam do grupo dominante à margem do respeito, credibilidade e da liderança por conseguinte.
Notamos nos discursos comportamentos evasivos, de autoproteção, que também trazem em si tal quê de resiliência, onde seus agentes utilizam do benefício da dúvida para se manterem coligados ao grupo dominante:
Na verdade, eu não tenho relações de amizade no meu trabalho, entendeu? Minha relação no meu trabalho, e sempre foi assim, foi sempre muito profissional. Eu não tenho, é, no meu trabalho, ninguém que seja amigo fora do trabalho, entendeu? (E09)
Ou talvez eu não abri espaço. Nenhum dos projetos que liderei. Na hora de trabalhar, trabalhar. Assim na hora do almoço até surgia alguma coisa, mas nunca partiu de mim. Sempre eu fico na minha. Nunca me posiciono, na verdade, entendeu? (E09)
Se de repente isso viesse à tona, e se alguém viesse a me perguntar, por exemplo, no meu ambiente de trabalho, meu chefe ou alguém que estivesse diretamente acima: - "Ah! Você é homossexual?", eu diria assim: -"Qual a importância que isso tem no ambiente de trabalho? Por que que você quer saber isso?" Eu devolveria a pergunta. Sem a menor excitação. Entendeu? Tá, então... Porque eu acho que, de repente, isso não interessa pro ambiente de trabalho. Apesar de eu achar que, dependendo do porte da empresa, dependendo da natureza da empresa, entendeu? Isso pode fazer uma grande diferença nesse ponto que você tocou, de ser um impeditivo pra progressão e pra talvez até pra uma discriminação mesmo. (E09)
Mesmo fora das piadas e do humor, percebemos que os traços psicodemográficos de
alguns GP’s foram absorvidos como normais pelo grupo dominante, sempre que relações
pessoais eram estabelecidas. Suas características psicodemográficas se tornaram aparentemente invisíveis no momento em que tais profissionais se tornaram “membros do
clube”. Ilustramos com as seguintes retóricas:
Porque é interessante, as pessoas me conhecendo, eu acho que é natural isso. Quando você conhece as pessoas que estão ali com você, os dados demográficos vão por água abaixo. (E07)
O que é visto da primeira vez como fazendo parte do grupo. Você é visto como uma pessoa diferente. E até que essas pessoas se disponham a te conhecer, porque também tem muito isso, primeiro elas não estão muito abertas a te conhecer. Então quando elas se dispõem a te conhecer, e começam a ouvir outras a falarem bem de você, você passa então a fazer parte do meio. Então qualquer tipo de preconceito aí não existe. Mas isso também tem uma influência muito grande com todo o seu histórico de vida. Porque aí as pessoas começam a te conhecer (E17)
As observações do autor baseadas em sua experiência profissional em projetos ratificaram as opiniões acima. Percebemos comentários preconceituosos proferidos por stakeholders (clientes, pares e recursos de projeto), muitas vezes revestidos em humor e ditos como piadas. Eles tinham a intenção de ofender alguém com uma dada característica psicodemográfica, todavia, excluindo explicitamente aquele GP que compartilhava tal
característica. Quando questionados, as justificativas era que tal profissional não era discriminado ou percebido como objeto da discriminação, justamente por já ter sido aceito e reconhecido pelo grupo, tendo dele respeito e reconhecimento de sua competência.
A existência de preconceito por determinados traços psicodemográficos nos abre precedente para extrapola-los ao limite de se constituírem em barreiras de entrada e
progressão para os GP’s, objeto de investigação de nossa próxima seção.