I. BÖLÜM
6.4. Dördüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular ve Yorumlar
Dentre o conjunto de características que formava esse habitus da Pista, identificamos uma categoria própria daquela localidade, esta pôde ser identificada na fala dos sujeitos por meio da expressão local, usada para caracterizar aqueles que se consideravam e eram, pelo grupo que já se apropriava do espaço, considerados locais da Pista Pública de SBC. Essa classificação forjava um motivo para a exclusão daqueles que não eram considerados locais, fazendo surgir, com isso, as disputas espaciais.
Por essa ótica, os locais da Pista eram não apenas moradores das imediações, mas também aqueles que frequentavam a Pista há mais tempo e que eram, assim, reconhecidos. Já aqueles que vinham de fora, que não moravam nas imediações, nem eram reconhecidos enquanto pertencentes aquele grupo, sendo considerados não locais. Estes últimos, muitas vezes eram recebidos com hostilidade por alguns locais:
[...] quando eu cheguei aqui, era curitibano, então na época eu já era taxado assim como playboyzinho, só porque era do Sul e porque também outros que vieram e que eram skatistas famosos até no meio do esporte, vieram andar aqui e ficaram querendo folgar aí, né. [...] nessa época aí era muito difícil, aqui em São Bernardo pra andar, tinham caras que andavam aqui com faca, tesoura na mão, assim, que já era pra intimidar, você trombava com eles, assim já dava briga [...] (Sk. 6: M OS St.).
Os relatos sobre essa questão muitas vezes são baseados não apenas na memória desses sujeitos, mas em histórias contadas e recontadas que foram sendo assimiladas por aqueles que começaram a frequentar a Pista nos seus últimos anos antes do surgimento do Parque da Juventude:
Assim, eu vi muita coisa acontecer, mas eu nunca participei de nada, porque como eu era muito criança então eu sempre tava longe deles né. Mas assim, de briga, porque existiam uma coisa de territorialismo, assim era a galera de São Bernardo, local, quem vinha de fora realmente tinha dificuldade pra andar aqui. [...] existia muito isso aqui na época. É o que a galera mais comenta é justamente a respeito disso. (Sk. 2: M NG O)
Na busca de compreender melhor essas relações sociais, encontramos uma semelhança entre o ser considerado ou não local e ser considerado ou não do pedaço, categoria da antropologia urbana desenvolvida por Magnani (2012), para esse autor ser considerado do pedaço possui conotações diferentes quando consideramos os espaços da periferia, e mesmo áreas residenciais do centro, e quando nos referimos a pontos de encontro e lazer de regiões centrais. Para o autor, nos primeiros, ser do pedaço significa estar situado e ser reconhecido numa rede de relações que combina laços de parentesco, vizinhança, procedência, entre outros. Ou seja, a rede de relações permite forjar um código capaz de selecionar quem é e quem não é do pedaço. Já quando algum ponto de encontro ou de lazer do centro é analisado, o sentido de ser do pedaço muda, nesse caso seus frequentadores não necessariamente se conhecem, mas se reconhecem “como portadores dos mesmos símbolos que remetem a gostos, orientações, valores, hábitos de consumo e modos de vida semelhantes” (MAGNANI, 2012, p. 92).
Por outro lado, ser considerado local da Pista do Paço, ao que nos parece, possuía particularidades presentes nas duas noções de pedaço desenvolvidas pelo autor. Ser local naquela época significava, por um lado, ser reconhecido enquanto portador de determinados símbolos, naquele caso, andar de skate e possuir hábitos e gostos próprios dos skatistas da época. Mas por outro lado, queria dizer também estar situado e ser reconhecido enquanto pertencente à mesma rede de relações, não de parentesco, mas de vizinhança – aqueles skatistas que moravam nas imediações eram, por isso, considerados locais da Pista, é o caso de um skatista que, quando indagado se conseguia andar nessa época, explica: “Eu era muito criança, conseguia. Pelo fato de morar, sempre morei aqui, então eu vivia aqui, não tinha como” (Sk. 2: M NG O). E também de procedência, ou seja, aqueles skatistas que já frequentavam a pista há muitos anos ou que fizeram parte da conquista daquele espaço, mesmo sendo naturais de outra região, também eram considerados locais. Essa ideia pode ser melhor compreendida a partir de um trecho da entrevista de um Old School curitibano:
Eu, quando cheguei aqui, eu tinha um amigo e esse meu amigo, ele que veio aqui e me apresentou pro pessoal antigo, local, porque ele era local. Não, ele também era curitibano, mas já morava aqui há dez anos e ele já era considerado assim. (Sk. 6: M OS St.)
É importante explicar que o termo local não é exclusivo dessa pista, sendo muito difundido entre skatistas de um modo geral. É muito comum nos picos de skate a existência de grupos de usuários considerados locais, principalmente naqueles mais antigos e tradicionais. Esse fator pode ter uma relação com a origem em comum do skate e do surfe, como vimos no
Capítulo 2. O documentário Dogtown mostra o localismo da equipe Z-Boys em relação ao trecho da praia onde eles surfavam e posteriormente, como vimos, quando o grupo passou a andar de skate em piscinas esse localismo continuou.
Na Pista do Paço, existiam duas formas de um não local ser aceito: vir acompanhado de um local ou ainda ser reconhecido por meio de seu desempenho no skate, ou seja, ser considerado um bom skatista.
Porque também tinha aquele lance de que quem era atleta e andava bem se enturmava mais fácil. Todo mundo quer conversar com quem acerta aquela manobra pra poder tirar umas ideias, poder acertar também, ninguém quer ficar ali com quem tá aí só atrapalhando na pista né. (Sk. 6: M OS St.)
Essa categoria, fortemente presente nas relações de apropriação da época, ainda se apresenta nas relações espaciais da atualidade do Parque, porém assume um sentindo diferente. “Porque a gente tem aquele lance da localidade, ela existe até hoje, porém hoje todo mundo é um pouco mais tranquilo com relação a isso” (Sk. 6: M OS St.). Nos dias atuais, aqueles que não são considerados locais não possuem restrições ou impedimentos de uso, porém não participam das mesmas relações de sociabilidade dos skatistas locais.
Certa vez, durante as observações, enquanto um grupo de skatistas conversa na guarita, surgiu uma dúvida sobre um skatista profissional, onde um deles achava que ele teria sido local da Pista de SBC antes de ficar famoso. Porém um outro falou: “Ah, ele gostava de andar aí, neh”. A partir disso surgiu uma discussão sobre o que significava ser ou não local. Percebi uma falta de consenso sobre essa questão. Para alguns ser considerado local relacionava-se à proximidade residencial: “Na verdade essa história de localismo na verdade remete ser próximo a sua residência, que é o local que você vai frequentar”. É válido ressaltar que quando eles falam sobre proximidade estão englobando não necessariamente a cidade de SBC, mas todo o ABC Paulista. “É, que na verdade o ABC é uma coisa só” (DC, 10/10/2013).
Porém, depois de um pequeno debate, percebemos que um fator muito importante para a definição do ser local nos dias de hoje é a sociabilidade. Segue trecho que exemplifica melhor esse entendimento:
Skatista 1: Ele pode ser local por que ele vem aqui todo dia ou por que ele é
considerado por todo mundo local neh, Mano. Skatista 2: Não, mas pra ser considerado local, o cara tem que vir aqui todo dia. Não dá pa só andar bem, Mano.
Skatista 1: Ou conhecer todo mundo, igual nóis aqui, óh! [...] Skatista 2: As vezes o
cara vem ai, anda bem mas não troca uma ideia [...] Oh nóis aqui óh, isso aqui é que é ser local. Ta ligado? Pow, você não precisa vir aqui de repente só pa andar de skate, as vezes eu tô, nem quero andar de skate, ah vou colar lá na pista. Hoje à noite, por exemplo, eu não vou descer pa andar de skate, mas eu desço, pa ver os cara, pa trocar
ideia. Isso é ser local, ta ligado? Tem dia que você vem, anda 15 minutos e fica três horas na pista [gargalhadas de todos]. Skatista 2: Iiiiiisso é ser local [risos]. (DC, 10/10/2013)
Percebemos, por meio disso, que, apesar de os skatistas não possuírem mais o poder de decisão quanto aos que andam na pista do Parque da Juventude, a característica de ser ou não considerado local da pista é ainda muito forte. Ela serve para diferenciar aqueles que possuem uma relação com o espaço e com seus frequentadores que extrapola o andar de skate e envolve o contato com o outro, as relações sociais, a partir de uma apropriação social do espaço. Assim compreendemos que as práticas de lazer estão intrinsecamente relacionadas às relações de sociabilidade, não podendo ser consideradas separadamente.