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I. BÖLÜM

6.3. Üçüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular ve Yorumlar

[...] parece que a prefeitura não se interessava por isso aqui, queria mais que isso daqui virasse..., então isso aqui virou um polo meio de nóia, drogado, traficante, vagabundo. A gente era local, a gente vinha aqui e andava, mas não era um lugar agradável de se frequentar. (F/Sk. 2: M OS V)

Essa fala resume as características desse período, que compreende meados da década de 1990 até o ano de 2004, quando a Pista foi interditada. Esta fase está presente também

na memória dos outros skatistas entrevistados, a maioria deles já andava de skate nessa época e frequentava a Pista, mesmo que alguns ainda enquanto crianças. Os relatos sobre esse período evidenciam o caráter marginal que a mesma possuía: “Então todo mundo vinha pra cá. E..., e aí... a pista era muito marginalizada, né, porque tinha realmente alguns assaltos, tinha a galera que realmente usava drogas na, na área...”(F/Sk. 1: M NG V).

Essa visão de marginalização acabou ficando na memória daqueles que frequentaram apenas aquela fase antes do Parque. Uma das skatistas nos contou que acabou se abstendo de usufruir do espaço: “[...] eu deixei de frequentar essa pista um tempo, comecei a frequentar outras pistas por causa do trabalho, só podia andar à noite, e era perigoso vir pra pista aqui a noite, enquanto não era Parque [...]” (Sk. 4: F OS V).

Esse caráter de espaço marginalizado foi sendo construído a partir da falta de iniciativas públicas que garantissem sua manutenção, conservação e melhorias. Acreditamos que essa realidade, presente em muitos equipamentos públicos brasileiros, gera implicações que, por um lado, impedem sua apropriação, causando medo e consequente abandono da maior parte da população, restringindo seu uso a uma pequena parcela. Por outro lado, estimula o uso do espaço para atividades ilícitas, tais como pequenos furtos e o uso e comercialização de drogas, já que o espaço se encontrava à margem das leis e de medidas de controle social. “[...] por que isso aqui, muita gente tinha a fama daqui, que era um lugar só de nóia, antes dessa reforma, porque tava abandonado, nem polícia passava aqui pra ficar dando geral, nada. Pra você ver a situação, os governantes não queriam saber disso daqui” (F/Sk. 2: M OS V). Durante as observações um outro skatista também relatou que pouco tempo antes da pista ser fechada para a construção do Parque a mesma estava abandonada, frequentada por muitos usuários de crack: “Antes aqui era coisa feia” (DC, 26/08/2013).

Esses fatores estão em acordo com algumas características apresentadas por Carlos (2007) em relação ao plano do habitar. Para a autora, a crescente violência contribui para o isolamento das pessoas, que se refugiam em suas casas. Além disso, a deterioração do centro ocasiona processos de destruição dos referenciais urbanos.

Destarte, identificamos na fala dos skatistas que a Pista do Paço, no período em questão, passou por esse processo de deterioração dos espaços de sociabilidade dos centros urbanos expressados pela autora. Como segue no trecho a seguir:

Por que aqui era uma área que tava abandonada, imagine: só essa pista aqui, a metade árvore, mato, meio escuro. Você vai passar a noite aqui? É um lugar, aonde não tem polícia, não tem iluminação, ninguém toma conta, então fica um lugar que a vadiagem se apropriou [com ênfase] disso daqui. (F/Sk. 2: M OS V)

Além disso, o uso e a venda de drogas ilícitas também influenciavam nas relações espaciais da Pista, que acabava submetendo as suas formas de uso e apropriação aos interesses do narcotráfico. Como explica Carlos (2007):

A violência imposta pelo desenvolvimento do narcotráfico que coíbe e constrange o uso dos espaços da cidade, penetra a vida cotidiana a submetendo a sua convivência como condição de sua realização. O crescimento, na cidade, do narcotráfico como nova atividade econômica, por ser ilegal, se realiza dominando áreas imensas da cidade e imprimindo seu poder enquanto realização da violência explícita pela dominação do espaço da cidade. Esta atividade só ganha realidade fazendo a população prisioneira de suas estratégias. Através de diferentes formas, o narcotráfico invade e subordina os momentos da vida cotidiana, pela dominação do espaço. (CARLOS, 2007, p. 112)

Diante disso, começamos a compreender como a situação em que se encontrava a Pista naquela época influenciava o modo como os skatistas apropriavam-se dela, diante de todo um conjunto heterogêneo de pessoas que usufruíam daquele espaço e ainda sem o devido aporte de serviços públicos essenciais, tais como: segurança e serviço de atendimento de primeiros socorros. Essa realidade é percebida em algumas falas, como no depoimento seguinte de um skatista old school que lembra, com um certo ar de revolta, como era o seu cotidiano na Pista nessa fase:

Que aí você não conseguia vir aqui pra usar, você tinha que vir cedinho, com uma turma grande, chegasse aqui a tarde e a noite, sozinho, certo, [...] Os cara te roubavam mesmo, cara. Infelizmente acontecia isso e a delegacia a cem metros daqui, os caras, quando você ligava, alguma coisa, os caras: - Ah, tá bom. Tipo, acho que desligavam. Caia alguém aqui, você ligava pra ambulância, alguma coisa, o cara: - Ah, tá joia. Não vinham, os caras não vinham. [aumenta o tom de sua voz] Era um lugar que, meu, era terrível! (F/Sk. 2: M OS V)

Dessa forma, os skatistas locais tinham que encontrar em seu cotidiano formas para usar que pudessem, de fato, se apropriar do lugar por meio de suas práticas. Uma delas era a escolha dos horários para andar de skate.

É o que eu te falei, mesmo na época que tava largado, que tinha nóia, vagabundo, traficante aí, eu vinha com o meu filho andar, só que eu vinha, ele tinha uns nove anos, eu vinha de sábado e domingo de manhã, porque? Os nóias, traficante e os vagabundo tavam tudo dormindo, porque vagabundo passa cheirando, fumando, bebendo, fazendo vadiagem a noite inteira, cedo o cara tá dormindo. E meu filho falava: - não pai, mas eu vou a tarde. E eu falei: - não, não vai à tarde lá durante a semana, porque, você vai chegar, o cara vai tá doidão, ele vai te roubar. Eu conheço o cara, e ai, eu vou chegar lá, eu vou fazer o que? Eu vou matar o cara? Eu não posso. Eu falei: - Então infelizmente você vai comigo. (F/Sk. 2: M OS V)

Além disso, as falas expressam também uma espécie de código de conduta simbólico, não verbalizado ou formalizado, este legitimava a prática de alguns skatistas. Como segue: “Eu chegava aqui e andava, certo, com meus filhos, o cara: - Ôh, beleza. Respeitava, nunca fizeram nada, porque sabiam que eu tava aqui desde antes, certo, dele chegar. Mas se chegasse alguém de fora a noite: - ah certo, vamo dar um role... [...]” (F/Sk. 2: M OS V)

Para compreender melhor essas relações, tomamos como base o conceito de habitus desenvolvido por Bourdieu (2011), que o compreende enquanto o “sistema das disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de agentes” (BOURDIEU, 2011, p. 191). A partir desse entendimento, conseguimos compreender o modo como as formas de apropriação eram forjadas naquele espaço, sem que houvesse qualquer tipo de formalização de regras de uso, possibilitando aos skatistas realizarem suas práticas, mesmo com a presença de outros atores possuidores de objetivos e ações distintos.

Ainda segundo Bourdieu (1994) a noção de habitus relaciona-se ao fato de que estruturas estruturadas podem funcionar como:

[...] princípio gerador e estruturador das práticas e das representações que podem ser objetivamente ‘reguladas’ e ‘regulares’ sem ser o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um regente (BOURDIEU, 1994, p. 61).

Para Costa (2013), esse conceito de habitus compreende os processos sociais tanto como reflexos do espaço social, quanto a criatividade dos agentes. Sendo assim, as disposições duráveis e estruturantes podem ser criadoras de práticas reguladas e, ao mesmo tempo, não ser resultado unilateral da coerção direta de determinados arranjos sociais.

A seguinte fala demonstra o modo como o habitus da Pista se apresentava no período em discussão:

Sim, andava. Comecei a andar aí na pista em 98, ainda no formato antigo, e tal, eu já tinha uns..., num sei, quinze anos, quatorze anos e queria vir pra cá, minha mãe não deixava, né. Porque, aquele lance, eu já não era tão novinho, mas não podia vir, então eu vinha escondido, porque pra mim nunca foi perigoso, eu sempre via ela [a pista] de um jeito bonito, sempre... A gente via o que acontecia ao redor, mas pra quem vinha pra praticar, pra respirar skate, nunca teve problema, a galera nunca mexeu. Assim, era com a galera que passava ao entorno e tal. No miolo, ali na gema, a gente nunca teve problema, nem quando eu era criança, adolescente, nunca, nunca tive problema na pista, não. (F/Sk. 1: M NG V)

Sendo assim, entendemos que o habitus da Pista era forjado sem que houvesse uma única fonte de arranjo social, ao contrário, dependia de um conjunto de fatores que envolvia a relação que cada ator possuía subjetivamente com aquele espaço, além dos fatores sociais e culturais já pré-estabelecidos diante da realidade de deterioração em que aquela parte do centro se encontrava.