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2. LİDERLİK KAVRAMI VE DÖNÜŞTÜRÜCÜ LİDERLİĞE BAKIŞ

2.7. Dönüştürücü Liderlik Örnekleri

Registra-se que, em 1603, Pero Coelho ergueu, em Aracati, o primeiro forte, e que inicialmente essa localidade era chamada de São José do Porto dos Barcos, passando à Cruz das Almas, posteriormente Santa Cruz de Aracati e, finalmente, Aracati. Escrevia-se Aracaty ou mesmo Aracati, o que para muitos especialistas significava “Vento que soprava do norte e refrescava os ardores do estio”. Os aracatienses, no entanto, a chamam de “Terra dos Bons

Ventos”. Os moradores de todo o Vale do Jaguaribe sentam-se em suas calçadas ao fim da tarde e na boca da noite à espera do Aracati, traço cultural que marca um dos muitos vínculos que se constituem entre o litoral e o sertão.

Os documentos históricos levantados por Nobre (1976) apontam que, em 1747, o Rei de Portugal, Dom João V, ordenou que fosse erguida uma vila na foz do Rio Jaguaribe. Registra-se que, nesse período, já havia, no local, o Porto das Barcas, por onde circulavam embarcações de pequeno porte. O ouvidor geral do Siará Grande cumpriu a determinação e fundou a Villa de Santa Cruz do Aracati. Como visto anteriormente, as fronteiras nesse período eram fluídas, e oficialmente Aracati fazia limite com a vila de Aquiraz e a vila de Icó, sendo este o nascedouro do Rio Jaguaribe, na Serra da Joaninha.

Como podemos observar, a fundação da vila de Aracati está diretamente ligada ao Rio Jaguaribe; sua foz, o fluxo do oceano e a relativa proximidade dos portos de Pernambuco e Bahia deram um diferencial competitivo para a localidade. Porter (1993), alguns séculos depois, chamaria a atenção para a formação de aglomerações produtivas, de concentrações e, nesse período, as grandes fazendas de criação de gado estavam localizadas às margens do Rio Jaguaribe. Sua produção era escoada sob os próprios pés dos animais, pelas estradas ribeirinhas do rio, que se conectavam à foz, onde passavam por técnicas de conservação nas oficinas de carne utilizando o sal marinho, também produzido em Aracati e secado sob o sol da região equatorial. Na figura 9, o mapa apresenta a localização da sede do município de Aracati às margens do Rio Jaguaribe.

FIGURA 9 - Localização da sede do município de Aracati

No Ceará, há um dito popular de que “do boi só se perde o berro”. Depois que as carnes eram secas e podiam ser transportadas para os mercados consumidores, tratava-se o couro em curtumes artesanais e eram usados os ossos e os chifres para a produção de utensílios. Formou-se, no Ceará, e especificamente em Aracati, uma “civilização do couro”, nas concepções de Cândido Couto Filho (FIEC, 2015).

As relações com o Rio Jaguaribe não foram sempre harmônicas. A numerosa população aracatiense convivia com cheias e secas, que marcaram a prosperidade e o declínio de sua importância para o estado do Ceará.

FIGURA 10 - Cheias e secas do Rio Jaguaribe: impactos na cidade de Aracati

Fonte: Acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS).

Além das variações climáticas, Aracati disputava com o Rio Grande do Norte a posse da localidade de Areias. Os conflitos eram intensos e sempre relatados pelas duas vilas à coroa portuguesa através do conselho ultramarino.9 Outro fato reportado continuamente à coroa era que os currais de peixes montados no rio prejudicavam a navegabilidade e aterravam as águas, sendo os comerciantes e donos de sumacas10 prejudicados diretamente, havendo ordem geral para que os currais do rio Jaguaribe fossem desmontados e as estacas removidas.

Assim surgiu a cidade de Aracati, com seus casarios construídos às margens do rio Jaguaribe, sob forte influência da Igreja Católica e com “vocação” comercial e exportadora. Configurou-se, sob a égide do poderio econômico dos coronéis de gado, uma das

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Previsão Régia demarcando o terreno que se deve dar à Villa de Aracaty (Revista do Instituto do Ceará, 1892). 10

aglomerações urbanas mais importantes para o estado do Ceará nos séculos XVIII e XIX. Podemos observar, através das imagens abaixo, a imponência da arquitetura do lugar.

FIGURA 11 - Registros dos tempos lentos de Aracati: costumes e tradições

Fonte: Museu da Imagem e do Som, Acervo Nirez, sem data.

Corrêa (2013, p. 61) afirma que as cidades são lugares dotados de singularidade,11 e assim se diferenciam dos demais. Essa identidade cultural12 do lugar é expressa de muitas formas nos aspectos sociais. Em Aracati, existem diversas referências históricas que constituem sua identidade e sua singularidade – ressaltamos, no entanto, não haver uma identidade única, uma cultura homogênea que resuma todas as múltiplas expressões desse lugar. Descreve-se, na obra de Le Bosse apud Corrêa (2013, p. 226), que a construção da identidade passa pelas heranças e pela preservação de um patrimônio sócio-histórico, mas

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Dotado de singularidade, de algo que o distingue dos outros.

12 “A identidade cultural de uma cidade pode ser, de modo marcante, o resultado de uma construção intelectual, derivada de uma tradição étnica cujos traços são permanentemente recriados”. (CORREA, 2013, p. 61).

principalmente pela capacidade de um povo de recordar, preservar e perpetuar um passado, surgindo, assim, os “lugares de memória”.

Em Aracati, antigos espaços aparecem com novos usos e novos espaços, com “marcas proeminentes que se notabilizam por um padrão turístico”. (FERRARA, 2010). Esses aspectos são associados e potencializam o desenvolvimento de um espaço para a prática do turismo. Um exemplo emblemático da ocorrência desses lugares de memória é o Instituto Museu Jaguaribano, antiga residência que evidencia reminiscências de um passado de apogeu econômico e de fortes amálgamas com o Vale do Jaguaribe.

FIGURA 12 - Refuncionalização de edificações: de residência a museu

Fonte: Museu da Imagem e do Som, Acervo Nirez, sem data e C. M. Diógenes, 2014

O Instituto do Museu Jaguaribano é mantido por um grupo de sócios que notabilizam e afirmam a identidade de Aracati através de fragmentos da história e das práticas desse lugar. A antiga residência foi refuncionalizada e transformada em um registro das heranças dos períodos de riquezas. De acordo com Costas (2015, p. 125), de modo geral, a refuncionalização, a renovação ou a requalificação vem servindo à ideologia do consumo e não às praticas culturais. Em Aracati, existem algumas edificações refuncionalizadas, mas

elas ainda não foram apropriadas pela atividade turística como um “produto”. O fim dos ciclos das charqueadas e do algodão transferiu para a capital Fortaleza o

rico patrimônio histórico e cultural “submerso” diante das dificuldades sociais do município. A população acostumou-se com os casarios da Rua Grande, deixando de enxergar a forte personalidade do lugar.

FIGURA 13 - Fases econômicas: do período arcaico ao pós-moderno

Fonte: Desenvolvido pela autora a partir do Guia de Bens Tombados do Ceará (2006).

Após a queda do preço do açúcar e a “mudança” dessa indústria para a região do Caribe, com as bases lá solidificadas pelos holandeses expulsos do Brasil, a criação de gado, atividade correlata, também entrou lentamente em declínio. O algodão, ou ouro branco do Nordeste, também teve seu apogeu, mas foi rapidamente substituído. O Nordeste brasileiro já não possuía a mesma relevância para a economia: a centralidade do país havia mudado.

Galeano (1941, p. 55) afirmava que as regiões mais afetadas pelo subdesenvolvimento e pela pobreza são justamente aquelas “[...] que tiveram laços mais estreitos com a metrópole e desfrutaram períodos de culminância”. Assim, Aracati viveu períodos de apogeu e amargou fases de completa estagnação, quando seu patrimônio arquitetônico foi preservado – não por políticas de preservação ou por seu valor percebido, mas por falta de recursos financeiros para a “modernização” da Rua Grande.

Apenas no século XX, mais especificamente a partir dos anos 1970, novos olhares foram lançados sobre esse espaço. Dessa vez, o foco seria o litoral e não mais a sede do município. Então, começa a se desenvolver uma nova fração do espaço no município de Aracati, outros aspectos da paisagem passam a ser valorizados, sendo ressignificados, e um novo ciclo de relações se iniciou, novas redes de relações foram constituídas. Ao invés dos

Primeira metade séc. XVIII • Criação da cidade de Aracati, então conhecida como Cruz das Almas Segunda metade do séc. XVIII • Indústria do Charque Primeira metade séc. XIX • Agricultura de subsistência • Economia algodoeira Segunda metade do séc. XIX • Decadência de Aracati , ascensão de Fortaleza Segunda metade do séc. XX • A partir da década de 70, inicia-se o desenvolvi- mento da atividade turística

antigos vínculos estabelecidos com o sertão, as relações agora eram formadas com escalas geográficas mais amplas.