2.4 Türkiye’de Sanat Eğitimi
2.4.2 Cumhuriyet Dönemi ve Sonrası
No percurso da presente investigação, fomos compreendendo, gradativamente, que um minucioso estudo acerca do ensino-aprendizagem do inglês em uma unidade socioeducativa deveria perpassar, necessariamente, por uma fundamentação teórica sobre o espaço. Isso ocorreu na medida em que compreendemos que as relações e as produções envolvidas no ensino e na aprendizagem do inglês (bem como na coleta do corpus) estavam diretamente atreladas ou afetadas pelo espaço encarcerado dentro do qual os sujeitos enunciavam. É desse modo, portanto, que o espaço ganha centralidade nesta investigação.
Na temática de Foucault, o espaço está sempre discutido como aparato ou instrumento indispensável a qualquer exercício de poder. Lefebvre (1974), nesse sentido, em seu livro dedicado exclusivamente à produção do espaço, defende ser o espaço um produto social sendo, portanto, espaço e sociedade ligados e interdependentes. Deste modo, o autor afirma que o termo espaço não pode ser visto simplesmente como uma localização, uma definição do “aqui” ou “ali” ou como um compartimento a ser preenchido. Mais que isso, o espaço deve ser considerado como algo dinâmico, construído socialmente sob formas de controle, dominação e poder.
Nos primórdios do campo filosófico, a noção de espaço era discutida como simples oposição entre o cheio e o vazio; entre a matéria (aquilo que ocupa) e o espaço. Em Platão, a noção segue se aproximando daquilo que dá forma aos elementos e, é vista assim, como receptáculo, isto é, como simples morada dos elementos criados (MORA, 2001).
Mora (2001) salienta que, em Aristóteles, espaço é, então, definido como lugar, sendo, portanto impossível considerar as coisas fora de seu espaço. Nestes termos, a concepção aristotélica de lugar, o espaço deve ser considerado como algo ocupado e, portanto transformado, e não como um receptáculo vazio.
Outros filósofos, como Descartes e Kant, também passaram pela discussão espacial para compreender outras questões que envolvem o ser humano e suas relações. Em Descartes encontramos, assim, o espaço como algo externo, fora do sujeito e, portanto, passível de ser mensurado. Daí a criação das medidas, da velocidade, da energia, etc., elementos que se
interligam à geometria, vendo aí a possibilidade de ter seu espaço representado e compreendido.
Para Kant, por outro lado, o espaço possui uma ligação íntima e fundamental com o ser humano. Nesses termos, a noção de espaço nasce com o homem e é ela a responsável por todo desenvolvimento da constituição espacial do ambiente que se dá posteriormente. O espaço é, assim, constitutivo do sujeito.
Saber quem é o sujeito esbarra, necessariamente – e talvez anteriormente, ou pelo menos concomitantemente – em saber sobre o espaço por ele ocupado e sobre o modo com que ambos se constituem aí. Skliar (2003) relaciona o conhecimento do sujeito à espacialidade ocupada por ele. Nos termos do autor, a pergunta a ser inquirida no intuito de conhecer o sujeito, ou aquele tido como diferente, não seria “quem é, verdadeiramente, o outro”, mas, sim, quais são as espacialidades por ele assumidas, negadas, delegadas, etc. nas palavras do autor. Entendemos, enfim, que:
A pergunta é uma pergunta que volta a insistir sobre a espacialidade do outro e não sobre sua literalidade. É uma pergunta sobre as espacialidades assinaladas, designadas, enunciadas, anunciadas, ignoradas, conquistadas. Sobre a distribuição do outro no espaço da mesmidade e num espaço outro. Sobre o perpétuo conflito entre os espaços. Sobre a negação e a afirmação dos espaços. Sobre a perda e o encontro dos espaços. Sobre os espaços que, ainda em convivência, se ignoram mutuamente. Sobre os espaços que não convivem, mas que, certamente, respiram seu próprio ar (SKLIAR, 2003, p. 103).
Como indicado, no recorte acima, a pergunta a ser feita no intuito de conhecer a realidade do sujeito está atrelada à complexidade envolvida no modo como este sujeito ocupa um dado espaço, considerando seus conflitos e o dito constitutivo desse espaço. Deste modo, assumimos que a espacialidade também perpassa o âmbito discursivo.
Leander (2002) salienta que a relação entre os lugares e as práticas deve ser considerada a partir do modo como as próprias práticas produzem os lugares. Em outras palavras, segundo o autor é necessário considerar o modo como as práticas agem sobre os lugares, constituindo-os ou moldando-os. O autor ainda afirma que barreiras são quebradas e remodeladas não pelo efeito do espaço e do tempo, mas pelas práticas e relações sociais que acontecem em dado espaço em dado momento.
Lugar e espaço aparecem, desde os primórdios, como sendo sinônimos. No entanto, De Certeau (1988) nos oferece uma relevante distinção entre os termos. Lugar é o modo com que os elementos estão distribuídos e coexistem em acordo com uma dada ordem. Nestes termos, não há a possibilidade de dois objetos estarem em um mesmo lugar (localização). Há, segundo De Certeau (1988), a lei das regras apropriadas do lugar a serem respeitadas na
concepção de lugar. Nessa lei, os elementos considerados são dispostos um ao lado do outro, cada um localizado em seu próprio e distinto lugar. O lugar significa, então, uma configuração espontânea de posições, fato que indica uma estabilidade à definição de lugar.
De Certeau (1988) afirma que já a concepção de espaço está envolvida a uma noção de movimento. Para o autor, “um espaço existe quando se leva em consideração as variáveis dos vetores de direção, velocidade e tempo”17 (p. 117). Portanto, prossegue De Certeau (1988), o espaço é composto pela intercessão de elementos móveis. O autor ainda assevera que o espaço ocorre pelo efeito produzido por operações diversas que o orientam, o situam, o temporalizam. Nesse sentido, o espaço é como o movimento de uma palavra até que ela seja dita. Isto é, o espaço é como uma palavra que, após dita, convive com a possibilidade de ser apanhada na ambiguidade de uma atualização; transformada pelo tempo por causa de ocasionais convenções; ou modificada por transformações causadas por contextos sucessivos. Portanto, como distinção, o espaço, ao contrário do lugar, não carrega em si qualquer univocidade ou estabilidade própria. Resumidamente, entendemos enfim que “o espaço é um lugar exercitado”18 (DE CERTEAU, 1988, p. 117).
A prática de um lugar confere a ele o status de espaço. Essa necessidade de movimento e dinâmica garante ao lugar a denominação de espaço. Tal prática somente pode ser exercida pelo ser vivo. Na concepção de De Certeau (1988), uma rua geometricamente definida como tal apenas é transformada em espaço pela ação dos pedestres, motoristas e tudo que ali a configuram como espaço rua. Outro exemplo que o autor oferece é o espaço da leitura. Para De Certeau (1988), a leitura é o espaço produzido pela prática do texto escrito, sendo este o lugar constituído por um sistema de signos e movimentado pelo leitor.
A articulação desenvolvida por De Certeau (1988) nos permite compreender não apenas a distinção entre lugar e espaço, mas, sobretudo, considerar que um espaço não se faz por si, é necessário que haja ação e esta é desenvolvida por sujeitos em dado tempo sobre um dado lugar. Vemos aí, a articulação necessária para compreendermos que tempo e sujeito em ação em um dado lugar, o transforma em um determinado espaço, que não será, desta forma, estático.
Além dessa articulação entre lugar e espaço, apropriamo-nos do constructo acerca da ligação entre espaço, tempo e memória elaborado por De Certeau (1988) em sua discussão sobre o Tempo da História. Para o autor, o funcionamento da memória em uma dada duração
17 Tradução nossa do original inglês: “A space exits when one takes into consideration vectors of direction,
velocities, and time variables”.
temporal, formula a ocasião. A ocasião é, portanto, enciclopédica, o que significa que ela tem a capacidade de lançar mão do valor das experiências remotas e do inventário das possibilidades contidas aí.
Assim, a ocasião é tida como uma ligação extremamente importante entre todas as práticas cotidianas, suas relações e as histórias populares aí distribuídas. A ocasião, no entanto, pode produzir distorções nas situações envolvidas por trazer consigo dimensões qualitativamente heterogêneas, não por serem contraditórias, mas porque implicam na existência de uma justaposição de espaços diferentes dentro de um único quadro. Assim, na sequência em que dada ocasião está inserida, a justaposição das dimensões heterogêneas diz respeito ao tempo e ao espaço, ou à situação e à ação.
Entre as diferenças qualitativas, De Certeau (1988) destaca dois tipos, cujas inserções requisitam dois tipos distintos de compreensão. A primeiro se refere à diferença entre espaço e tempo, enquanto a segunda diz respeito à diferença entre o ser estabilizado (um estado) e a operação (uma produção e uma transformação) combinada com a primeira diferença (entre espaço e tempo). Atemo-nos, no entanto, na constituição da primeira diferença.
Assim, apresentamos a seguinte sequência a ser teoricamente observada: a composição (física) do lugar inicial (I), e o modo com que a memória (II) interfere no momento exato (III) e produz modificações do espaço (IV) (DE CERTEAU, 1988, p. 84). Segundo o autor, neste tipo de diferença, as séries encontradas apresentam uma organização espacial como seu começo e fim; o tempo é o intermediário, um processo peculiar do lado de fora é estabelecido e é promovida a transição de um lugar para outro. Deste modo, a temporalidade irrompe entre dois pontos de equilíbrio. Observemos como isso é representado no DIAG. 1 abaixo:
Diagrama 1 - A diferença entre espaço e tempo
ESPAÇO I II TEMPO
IV III
Fonte - De Certeau, 1988, p. 84
Esse esquema nos oferece uma forma de estudar um dado espaço, explorando sistematicamente os eventos que ali são delimitados, bem como seus desdobramentos. Com isso, a aula de ILE que acontece em uma unidade socioeducativa servirá como base para a
compreensão detalhada do que acontece no ensino-aprendizagem que ali ganha forma. A sala de aula de inglês (ponto de partida; lugar inicial da/para a investigação) e as memórias ali ativadas constituem uma temporalidade reveladora das dimensões qualitativamente heterogêneas formadoras desse espaço e suas relações.
Vemos, assim, que a memória vem de um lugar fora de si mesmo, movendo as coisas à sua volta e mediando, portanto, as transformações espaciais (DE CERTEAU, 1988). O autor destaca alguns procedimentos utilizados pela memória para a organização das ocasiões e relações estabelecidas cotidianamente. Esses artifícios são, a saber, o jogo de alteração, a força metonímica da singularidade e, o que nos interessa de modo muito particular, a mobilidade confusa e astuciosa.
Convém, no entanto, discutir e problematizar tais aspectos em uma subseção a parte, a ser delimitada a seguir.