A igualdade constitui questão fundante da democracia. Para Aristóteles135:
(...) a justiça é igualdade, coisa que é aceite por todos sem ser necessária demonstração. Ora, se a igualdade é um meio, a justiça será também um meio. Por outro lado, a igualdade implica pelo menos dois termos. É necessário, por conseguinte, que a justiça seja um meio e uma igualdade por relação com qualquer coisa, bem como relativamente a algumas pessoas. Em primeiro lugar, enquanto meio, encontra-se entre dois extremos (a saber, entre o mais e o menos); segundo, enquanto igual, é igual entre duas partes; por fim, enquanto justo, é justo para certas pessoas. É necessário, pois, que a justiça implique pelo menos quatro termos, a saber, duas pessoas, no mínimo, para quem é justo que algo aconteça e duas coisas enquanto partes partilhadas. E haverá uma e a mesma igualdade entre as pessoas e as partes nela implicadas, pois a relação que se estabelece entre as pessoas é proporcional à relação que se estabelece entre as duas coisas partilhadas. Porque se as pessoas não forem iguais não terão partes iguais, e é daqui que resultam muitos conflitos e queixas, como quando pessoas iguais têm e partilham partes desiguais ou pessoas desiguais têm e partilham partes iguais.
É, pois, a igualdade (também denominada de isonomia, equiparação ou paridade), norma jurídica (princípio e regra) valorada, apresentando-se, pois, no texto constitucional brasileiro, sua dicotomia: igualdade formal (art. 5º, caput, primeira parte) e igualdade material (por exemplo, a igualdade jurisdicional, consoante estabelecido expressamente no art. 5º, inc. XXXVII).
135 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de António de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas,
E, segundo Humberto Ávila136:
A igualdade pode funcionar como regra, prevendo a proibição de tratamento discriminatório; como princípio, instituindo um estado igualitário como fim a ser promovido; e como postulado, estruturando a aplicação do Direito em função de elementos (critério de diferenciação e finalidade da distinção) e da relação entre eles (congruência do critério em razão do fim).
Jurisprudencialmente, o Supremo Tribunal Federal (STF) entende a igualdade de modo autoaplicável e vinculante:
O princípio da isonomia, que se reveste de autoaplicabilidade, não é – enquanto postulado fundamental de nossa ordem político-jurídica – suscetível de regulamentação ou de complementação normativa. Esse princípio – cuja observância vincula, incondicionalmente, todas as manifestações do Poder Público – deve ser considerado, em sua precípua função de obstar discriminações e de extinguir privilégios (RDA 55/114), sob duplo aspecto: (a) o da igualdade na lei; e (b) o da igualdade perante a lei. A igualdade na lei – que opera numa fase de generalidade puramente abstrata – constitui exigência destinada ao legislador que, no processo de sua formação, nela não poderá incluir fatores de discriminação, responsáveis pela ruptura da ordem isonômica. A igualdade perante a lei, contudo, pressupondo lei já elaborada, traduz imposição destinada aos demais poderes estatais, que, na aplicação da norma legal, não poderão subordiná- la a critérios que ensejem tratamento seletivo ou discriminatório. A eventual inobservância desse postulado pelo legislador imporá ao ato estatal por ele elaborado e produzido a eiva de inconstitucionalidade. (MI 58, Rel. p/ o ac. Min. Celso de Mello, julgamento em 14-12-1990, Plenário, DJ de 19-4- 1991.)137
Concernente à igualdade formal, verifica-se na expressão “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Tem origem na Revolução Francesa (1789), com a proclamação dos direitos do homem e do cidadão.
Entretanto, Uadi Lammêgo Bulos138 considera que “o que o princípio busca garantir é a proteção da igualdade real, material ou substancial, e não a isonomia puramente formal” (grifo no original). Nesse contexto, a lei deverá tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades. Seu surgimento remonta à Revolução Russa, originária do Estado social intervencionista.
136 ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 12. ed.
São Paulo: Malheiros, 2011. p. 162.
137 BRASIL. Supremo Tribunal Federal (STF). A Constituição e o Supremo. 3. ed. Brasília:
Secretaria de Documentação, 2010. p. 61.
138 BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p.
Também Ruy Barbosa de Oliveira139 menciona:
A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo, não dar a cada um, na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.
Vê-se, pois, que o legislador constitucional pátrio elegeu tanto a igualdade formal (comutativa) quanto a igualdade material (substancial), eis que as efetiva frente aos bens da vida, e não apenas perante o direito.
Para Francisco Glauber Pessoa Alves140:
O princípio da igualdade (art. 5º da CF) demanda tratamento igualitário para os iguais. Mas, desde longa data, sabe-se que demanda igualdade
substancial e não meramente formal, de modo que os desiguais tenham
tratamento desigual, no escopo de se buscar uma igualdade efetiva entre diversos. Da medida em que posta indiferentemente a todos os entes federativos, sem que haja razões de fato para tanto, agride-se o cânon isonômico e, portanto, a própria Constituição Federal. (grifos no original).
Não se pode também se esquecer do fato de que “o princípio da igualdade dirige-se ao próprio legislador, vinculando-o à criação de um direito igual para todos os cidadãos”, conforme destaca José Joaquim Gomes Canotilho141.
É ele – o legislador – quem detém parcela significativa do poder estatal, ainda que, em tese, a titularidade deste pertença ao povo. Ora, principalmente no Estado de Direito (democrático), as relações humanas, cada vez mais conflitantes, devem ser reguladas por lei.
A lei, pois, deve ser aquela apta a garantir segurança jurídica e enaltecer uma igualdade justa, sendo cediço que o próprio filósofo grego Pitágoras “identificava a justiça como a relação numérica de igualdade”, conforme lembra Cláudio de Cicco142.
139 OLIVEIRA, Ruy Barbosa de. Oração aos moços. Leme: Edijur, 2006. p. 22.
140 ALVES, Francisco Glauber Pessoa. A remessa necessária e suas mudanças (leis 10.259/2001 e
10.352/2001). Revista de Processo, São Paulo, v. 27, n. 108, out./dez. 2002. p. 122.
141 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 7. ed.
Coimbra: Almedina, 2003. p. 426.
142 CICCO, Cláudio de. História do pensamento jurídico e da filosofia do direito. 6. ed. São Paulo:
Aliás, nos dizeres também de José Joaquim Gomes Canotilho143, “a
igualdade pressupõe um juízo e um critério de valoração”, em que a igualdade material deve ser reconduzida “à proibição geral do arbítrio: existe observância da igualdade quando indivíduos ou situações iguais não são arbitrariamente (proibição
do arbítrio) tratados como desiguais”.
Então, será que o duplo grau de jurisdição obrigatório corrobora tal “igualdade justa”?
Conforme já estabelecido, e no que diz respeito ao reexame compulsório, os aspectos de justiça e igualdade serão efetivamente discutidos nos itens 2.6.5 e 2.6.6 deste ensaio.