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1.2. CAYDIRICILIK TEORİSİ

1.2.3. Caydırıcılığın Temel Varsayımları

Dentre as atividades desenvolvidas pelo Conselho de Bairro e encampadas pelo Centro Comunitário, destaca-se a constituição de uma biblioteca comunitária, no início dos anos 1970, que veio a se tornar fundamental no processo associativo do bairro, como espaço de socialização e discussão política. Denominada Biblioteca Comunitária do Dias Macedo, era então coordenada por um grupo de jovens moradores, na maioria adolescentes, que se revesavam nas funções de empréstimo e catalogação de livros para a comunidade. Entretanto, não se restringia a esses objetivos. Os jovens participavam, concomitantemente, de uma série de atividades, tais como cursos de dramatização e de inglês, além de jogo de xadrez, prática de esportes27 e realização de festas, as quais eram verdadeiros acontecimentos no bairro e tinham o intuito de angariar fundos para a biblioteca.

A coordenação do grupo foi substituída por volta de 1974. A nova direção engendrou um cunho marcadamente político às discussões e atividades, sendo então estimulada pelo pároco local, um francês de idéias progressistas, conhecido no bairro como Padre Raimundo, e por novos moradores que chegam ao lugar com um acúmulo de experiências em movimentos políticos contrários ao regime ditatorial. Esse grupo de jovens principiou então um debate em torno dos problemas do bairro na biblioteca, desdobrando-o para outros espaços e situações, desde os momentos de lazer nos jogos de futebol, às conversas sob o velho pé de maracujá. A política tornou-se a tônica e os diálogos findaram por originar a Associação de Moradores do Bairro Dias Macedo, em 1981. O papel desempenhado pela biblioteca é assim narrado por um dos seus integrantes:

Lá dentro da biblioteca, com o andar... porque a biblioteca era o nosso mundo! Na biblioteca existia de tudo. Era jogos, era xadrez, aprendi a jogar xadrez, de ler, de gostar de ler, ajeitar livro, quer dizer, era um mundo completamente diferente do que um garoto de... que até chegar aos 14 anos tinha encontrado lá onde eu morava, no Papoquim (...) Na biblioteca, eu sempre digo, que foi onde começou o movimento político do Bairro Dias Macedo, talvez até de Fortaleza, juntamente com o Pirambu. No Pirambu já existiam grupos organizados e aqui no Dias Macedo tava começando com a biblioteca. Só que a gente, eu por exemplo com 16 anos, não tinha noção do que seria isso, sabe, dessa coisa política. (...) A Associação de Moradores é fruto desse grupo de jovem da biblioteca comunitária do Dias Macedo, do qual o Inácio foi o primeiro coordenador né (entrevista 20)

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Foram eles os responsáveis pela criação dos clubes esportivos do bairro, os quais foram comentados previamente.

Após a expulsão do Centro Comunitário, com a efetivação do AI-5, o grupo pertencente à biblioteca e mais alguns moradores preocupados com as dificuldades enfrentadas no bairro, sobretudo em relação à problemática da água, sentiu a necessidade de organizar-se. A esse respeito relata um morador:

Na verdade, eu acho que na cabeça de cada um já tava embutido aquele sentido social da coisa, do movimento mesmo, porque nós precisamos tomar uma atitude em relação ao nosso bairro, das coisas que tão precisando. Nós não temos energia, nós não temos água, nós não temos calçamento, num temos saneamento, então ta na hora da gente começar a mudar, digamos assim de atitude, parar de ficar nessa coisa de só mesmo jogar e partir mais pro agir. Começar a enxergar a nossa própria situação num sentido diferente, ver as nossas próprias necessidades. E temos um número enorme de pessoas que começaram: a Mônica, a Rosa Bizerra... Se tem uma pessoa que eu possa considerar como sendo a fundadora, a criadora, a incentivadora, chama-se Rosa Bizerra e o Padre Raimundo (entrevista 20).

Nota-se uma perspectiva distinta diante da realidade: a necessidade de agir no sentido de mudar, de buscar melhores condições de vida no bairro, na cidade. Essa postura, geradora de formas inovadoras de atuação política, assumiu um papel de tomar a frente e agir, ou seja, não esperar que acontecesse, e ocorreu não como um fato isolado e restrito ao bairro ou à cidade. Como se discutiu em capítulo precedente, a emergência dos Movimentos Sociais Urbanos se fez notar por uma série de condições históricas, políticas, e mesmo por se deparar com o processo de expansão urbana das cidades, marcadamente desigual, excludente. Os moradores tomaram a iniciativa e a sua luta originou mudanças, transformações no espaço do bairro, num período de fortes pressões sociais e políticas impostas com a ditadura militar, que apresentava seu momento mais crítico. Toda e qualquer movimentação com mais de quatro pessoas era rapidamente taxada de “atividade subversiva”, fato, aliás, responsável pela expulsão do grupo de jovens do Centro Comunitário.

No caso do Bairro Dias Macedo, a organização de grupos pré-existentes facilitou a congregação dos moradores em torno de questões maiores. Reunindo-se nos quintais, nas residências ou mesmo em plena rua, as pessoas discutiam os problemas que afligiam a vida, os quais não se limitavam a carências de equipamentos de consumo coletivo ou de serviços públicos, mas diziam respeito ao compartilhar dificuldades comuns, tais como o desemprego, a fome, o não ter moradia. Dessas reuniões participavam, sobretudo, as mulheres, donas de casa, professoras, que questionavam e criticavam a realidade vivida no cotidiano do bairro. Dentre estas se destaca Dona Rosa Bizerra, migrante determinada a mudar de vida na cidade grande e que principia um trabalho com famílias carentes na vizinha comunidade Boa Vista. Uma moradora que vivenciou esse momento juntamente a Dona Rosa relata:

Eu iniciei mesmo na época com a Dona Rosa né. A gente começou um trabalho primeiro de igreja né. Um trabalho, porque nós fazíamos parte né das CEBs né, que era da igreja. A gente trabalhava com o pessoal que morava em área de risco, pegando ali a Boa Vista e a gente fazia esse trabalho com eles. Quando a gente visitava, a gente via a necessidade porque o pessoal não queria só rezar. Queriam, a reza só pra eles não dava, só ler. Eles queriam que resolvesse as questões de moradia deles. (entrevista 21).

O bairro, nesse momento, era ainda bem diminuto e todos os moradores se conheciam, fato dinamizador dos encontros e reuniões, que facilmente se articulavam, bastando o boca a boca. Aos poucos foi se constituindo um “sentimento de pertença” entre os moradores e o bairro, o qual passou a compor elemento identitário. Os vínculos estabelecidos a partir da realização de atividades diárias, como caminhar, trabalhar, participar das festividades religiosas ou o lazer nos campos de futebol estendiam-se no debate sobre os problemas do bairro. Essas ações costumeiras contribuíram para apropriação do lugar, tornando-o familiar. Apropriação, de acordo com Pol e Valera (1994, p. 05), não no sentido de posse legal, mas de identidade, de proximidade, fazendo do lugar parte da vida do morador. O sentimento de pertencer ao lugar e de dividir suas agruras e venturas favoreceu a organização dos moradores em iniciativas associativas.

Acrescente-se a isso o fato de que algumas pessoas vieram a residir no bairro trazendo uma experiência incorporada de outras lutas e contextos políticos, sobretudo ligados ao MEB – Movimento de Educação de Base. Atuavam, então, em comunidades rurais, organizando os moradores e promovendo um processo pedagógico e de discussão política, tecendo aguda crítica à repressão imposta pela ditadura militar e mesmo à problemática dos latifúndios, lutando por reforma agrária.

Em suma, muitas são as relações tecidas na construção do Movimento; este não surge do vácuo, mas vai sendo tecido por meio de variadas relações que envolvem experiências de vida distintas, as quais se somam, encontram-se e originam formas de mobilização entre os antigos e novos moradores que em comum possuem a vivência do bairro, incluindo todos os problemas já abordados. Uma dessas moradoras, Mônica Martins, participante do MEB nacional, exerceu papel fundamental na constituição e politização do grupo de jovens que atuava no Centro Social. Mônica, que veio a ser presidente da Federação das Entidades de Bairros e Favelas de Fortaleza, iniciou um trabalho com crianças e, em seguida, com suas famílias, sendo, juntamente a Dona Rosa, uma das fundadoras da Associação de Moradores.

Uma das primeiras e, sem dúvida, mais significativas ações implementadas enfocou o problema da água, que obrigava os moradores a enfrentar enormes filas nos parcos chafarizes desde a madrugada. Nesse sentido, como forma de pressionar os órgãos competentes, promoveram a famosa e significativa Passeata da Lata Vazia, no dia 17 de janeiro de 1981, ano em que seria constituída legalmente a Associação de Moradores do Dias Macedo. A Passeata da Lata Vazia representa a um marco no movimento do bairro, quando as ações passaram a adquirir uma feição pública, ganhando as ruas, sendo noticiadas na imprensa. O Jornal O Povo noticiou a manifestação com o texto que segue:

[...] Líderes comunitários organizaram a passeata, na esperança de que os ecos chegassem até as autoridades que podem resolver o problema. Faixas e cartazes abriam o cortejo enquanto os organizadores, em um Fiat com alto-falante, lideravam o movimento com slogans, ladainhas e frases de efeito. Aproveitando a ocasião, voluntários vendiam exemplares do jornal Tribuna Operária e cuja manchete, coincidentemente, trazia em tipos grandes “Feijão, só para os ricos”. Na passeata, o custo de vida foi também denunciado como intolerável. ‘Queremos chafarizes. Basta de promessa’, era o apelo geral. A crise é uniforme no bairro. Praticamente ninguém possui água em casa. Poucos são os que podem cavar poços profundos e os poços artesanais de há muito secaram. As donas-de-casa já não agüentam atravessar as noites ‘na beira da cacimba, esperando que crie um pouco de água barrenta para lavar os pratos’, como se queixaram [...] (Jornal O Povo, 18.01.1981, p. 06)

A Passeata da Lata Vazia saiu da favela Papoquinho e contribuiu para um ânimo redobrado dos moradores. As ações eram planejadas em função das necessidades do bairro e, pouco a pouco, integraram comunidades vizinhas, unificando as lutas. Uma das primeiras consistiu, além da Passeata, no aluguel de uma pequena casa, onde puderam realizar as reuniões que então se davam nas residências, nos quintais. Lá se iniciou um trabalho na área de saúde, atendimento ambulatorial. Duas médicas vinham voluntariamente atender os moradores do bairro. Dessa organização primeira decorreu a conquista do posto de saúde do bairro, em 1982. Assim, o trabalho começou a tomar corpo, adquirindo feições novas e a idéia de associação foi se fortalecendo.

Paralelamente, alguns integrantes desse grupo que principiou as ações passaram a compor os quadros do Partido Comunista do Brasil – PC do B –, o qual mantinha-se na clandestinidade, como os demais partidos de esquerda. Inácio Arruda, atual deputado federal pelo PC do B, antigo morador do bairro, integrante e incentivador do grupo de jovens e dos grupos esportivos, foi um dos recrutados nesse momento, também compondo o grupo que veio a originar a associação e, posteriormente, a Federação das Entidades de Bairros e Favelas de Fortaleza - FBFF. O trabalho foi introduzido na comunidade da Boa Vista, assolada ano a ano pelas cheias do Cocó; contudo, não ficou circunscrito aos limites do bairro, realizando,

desde 1977, articulação com outros locais, como a Bela Vista e Jardim Nova Esperança, na promoção do Movimento Interbairros (Cf. capítulo 1, item 1.2). O bairro Dias Macedo concentrava pessoas-chave do Movimento Interbairros que veio a formar a FBFF, em 1982. Desde as primeiras ações, o caráter de articulação se fez presente. Com relação a esse aspecto, narra um ex-diretor da Associação de moradores:

Participamos do Movimento contra a Carestia. Fizemos também a Passeata da Panela Vazia lá no Dias Macedo. Porque o Dias Macedo, naquela época, principalmente depois que a Mônica foi pra lá... eu, a Mônica, o Raimundo, o Inácio, a gente deu muita vida no trabalho comunitário e em Fortaleza existia um trabalho semelhante na Bela Vista e isolado num e noutro bairro. O trabalho nosso do Dias Macedo era um trabalho de referência pela organização, pela combatividade. Teve o Movimento Contra a Carestia, o Encontro Nacional, nós mandamos Dona Rosa. Dona Rosa foi pra Brasília participar do Encontro Contra a Carestia. Quer dizer, todos esses movimentos a gente participava. Aí, depois, nós formamos o Movimento Interbairros (entrevista 14).

A articulação segue no apoio a outros movimentos promovidos na cidade, inclusive na luta contra a expulsão dos moradores da favela da José Bastos e junto aos moradores da Favela das Placas, no Papicu. Vê-se, a partir dos anos 1980, um aspecto de unificação e integração de demandas comuns entre os moradores dos vários bairros da cidade. As lideranças estabeleceram redes, articulações, no intuito de promover não apenas trocas, mas, sobretudo, o fortalecimento das ações e da força de pressão diante do poder público. As demandas eram direcionadas ao Estado e o discurso da cidadania, do direito, adquiriu destaque entre as lideranças e os moradores da cidade.

No Dias Macedo, o trabalho de saúde realizado já na casa alugada como sede provisória, bem como a Passeata da Lata Vazia, foram fundamentais na congregação dos moradores, no estabelecimento de laços de solidariedade. Foi possível manter contato mais direto entre os moradores e suas necessidades mais prementes. O fortalecimento e o amadurecimento das ações deram sentido ao surgimento da Associação de Moradores do Bairro Dias Macedo, no dia 9 de junho de 1981.

Como a casa havia sido alugada, os líderes locais promoviam uma série de eventos com o intuito de obter recursos para cobrir as despesas com a Associação. Dentre os eventos, destacaram-se as “Feiras do Cacareco”, ou seja, feira de objetos usados, organizadas nas esquinas das ruas do bairro, bem como a promoção de bingos e festas.

Fundada a Associação, realizaram-se importantes mobilizações no bairro e nas comunidades vizinhas. Uma das mais relevantes foi a Passeata das Lamparinas, organizada na

comunidade da Boa Vista pelos diretores e sócios da entidade. Esta comunidade enfrentava há anos a inexistência da energia elétrica, o que tornara comum o uso de lamparinas nas residências. Com o intuito de reivindicar esse serviço público essencial, os moradores percorreram a Boa Vista em direção à igreja matriz do Dias Macedo, portando lamparinas acesas e exigindo do poder público a solução do problema. A passeata aconteceu no dia 11 de março de 1984, segundo o Jornal Diário do Nordeste. De acordo com o depoimento de uma das organizadoras da passeata e integrante da Associação dos Moradores, “essa Passeata da Lamparina foi linda, linda, linda, linda, linda”.

Ressalte-se ainda o apoio da igreja católica, na pessoa do Padre Raimundo, um grande incentivador nas mobilizações dos moradores. Padre Raimundo disponibilizou o espaço da igreja, bem como apoiou todas as principais lutas travadas no bairro e nas comunidades vizinhas, incentivando mesmo o ingresso das lideranças em partidos políticos de esquerda. Sua participação favoreceu o engajamento de muitas donas de casa e moradores cuja experiência política foi sendo construída no próprio movimento do bairro, envolvendo- se, em alguns casos, em pastorais e nas CEBs. Sobre o Padre Raimundo, diz uma das lideranças locais:

Ele, juntamente com Dona Rosa, ele talvez tenha sido o maior incentivador, porque já vinha de um país com tradição social grande, né, e incutiu realmente na cabeça da gente. A partir daí, desse momento, foi que a gente foi começando a enxergar essa coisa do socialismo, do comunismo, porque até então só se ouvia falar em comunista matando criança, era a besta fera, essa coisa toda... comia criancinha (entrevista 20). De acordo com discussão anterior, a Igreja Católica assumiu papel preponderante no incentivo, apoio e mesmo organização dos Movimentos ocorridos nas décadas de 1970 e 1980. Constituiu um verdadeiro discurso pedagógico na condução das lutas, a partir dos princípios da Teologia da Libertação e mesmo da elaboração de documentos nos quais se refletiam os grandes problemas existentes na cidade e que subsidiaram discussões nas entidades comunitárias. Barreira (1992, p. 62) destaca a existência de diferentes facções religiosas no interior da Igreja, com discursos e práticas diferenciados, tornando-se mais expressivos em momentos de confronto direto com o Estado, a exemplo da luta travada pelos moradores da Favela José Bastos, em 1978. Nesse momento, a instituição, de certa forma, recua ante as investidas de negociação com o Estado. Todavia, é inegável sua atuação não somente como impulsionadora de movimentos, mas enquanto suporte discursivo, contribuindo para a construção de um discurso do “povo como sujeito da História”, capaz de lutar e transformar sua realidade.

As primeiras ações da Associação de Moradores enfocaram não apenas a luta pela água, por energia, mas vislumbraram a política numa perspectiva mais ampla, trazendo para o cotidiano do bairro a discussão das eleições diretas. De forma pioneira, promoveram, em março de 1984, um plebiscito sobre o Movimento das Diretas Já, quando todo o país envolvia-se com a luta contra a ditadura. Promovido pelo Comitê Pró-Diretas do bairro, o plebiscito contou com ampla participação dos moradores, revelando um movimento que, mesmo localizado no âmbito do bairro e da cidade, conseguia articular a política localizada e relacionada às carências do lugar, a um movimento de caráter geral, coletivo. Segundo documento produzido pelos moradores no período, 99,1% dos moradores que participaram do evento político demonstraram ser favoráveis às eleições diretas. De acordo com o mencionado documento,

O acampamento na pracinha foi animado e funcionou dia e noite, orientando o povo, distribuindo material, fazendo pequenos comícios. Outra urna estava na Farmácia Santa Rita e quando foram apurados os votos contamos com a presença dos suplentes de deputados estadual e federal do PMDB Benedito Bizerril e Tarcísio Leitão. Bola pra frente! Diretas Já!

Ao mesmo tempo, havia toda uma preocupação no sentido de se capacitar a atuação das lideranças. Sentia-se a necessidade de uma atuação competente, qualificada, capaz de elaborar propostas passíveis de execução. Conhecer a problemática urbana e refletir criticamente sobre os problemas que afetavam a vida dos moradores, tais como o desemprego, a política habitacional, as condições de saneamento, saúde, educação, bem como a própria legislação urbana constituiu o que se denominou Ciclo de Debates – Fortaleza: Problemas e Soluções, conforme se discutiu no capítulo anterior, promovido pela FBFF, cuja diretoria era então composta pelas principais lideranças do bairro Dias Macedo. Conhecer como se administra a cidade, a competência dos poderes municipais e estaduais, o papel de um vereador, de um deputado, a segregação sócio-espacial de Fortaleza foram questões imprescindíveis para a condução das lutas, no desvelar a cidade.

Ao mesmo tempo, outras lutas e conquistas se fizeram notar. A sede definitiva da Associação de Moradores veio junto a um projeto da FBFF, em 1984, então denominado Frentes de Serviço nos Bairros e Favelas de Fortaleza, como enfrentamento ao problema do desemprego crescente na periferia da cidade. O projeto efetivou-se a partir de uma parceria entre a Federação e Secretaria da Indústria e Comércio/SINE, a qual veio após intensa mobilização dos moradores em passeatas e discussões. Envolvia a construção de uma infra- estrutura nos bairros, utilizando a mão-de-obra desempregada, pois, segundo Mônica Martins,

“no Dias Macedo tinha gente comendo rato, comendo cachorro, comendo gato! Era uma brabeza”. O Ministério do Trabalho financiou a construção de uma obra social em dez bairros de Fortaleza, ficando a critério de cada bairro a escolha da obra a ser construída. O bairro Dias Macedo optou por uma creche comunitária, a qual passou a ser utilizada como sede da associação no período noturno. Os recursos financeiros eram geridos pelas próprias associações e os resultados foram, segundo Mônica, extraordinários.

Nesse mesmo período, o bairro ainda enfrentava problemas cruciais, como a falta de água e a precária coleta de lixo, cujo caminhão passava em apenas três ruas, acumulando lixo e ratos pelas vias do bairro. A fedentina nas ruas tornara-se insuportável e os moradores dividiam o espaço dos pontos de ônibus com os vazadouros de lixo e lama que corria a céu aberto. O bairro chegou aos anos 1980 enfrentando todos os problemas relativos à periferia de uma cidade em expansão extremamente desigual e excludente. No entanto, as reivindicações enfocam, conforme se abordou, uma discussão política ampliada. Extrapolaram os aspectos