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O conflito jurídico é condição de possibilidade de uma decisão que não o elimina, mas o soluciona, o finaliza e impede que seja novamente rediscutido441, de modo que “a função da

jurisdição implica, em última análise, buscar uma solução definitiva e indiscutível para o litígio que provocou o exercício do direito de ação e a instauração do processo”.442 Essa estabilização tem ressalva nos casos em que os pedidos da demanda rescisória são julgados procedentes. Mais recentemente, ampliou-se a doutrina que defende a possibilidade de relativização da coisa julgada inconstitucional,443 tese acolhida em hipóteses excepcionais pelo STF.444

438 STF. MS 26.085/DF. Pleno. Rel. Ministra Cármen Lúcia. DJ 12.6.2008.

439 STF. RE 591797 RG/SP. Rel. Min. Dias Toffoli. DJe 24.9.2010: EMENTA DIREITO CONSTITUCIONAL. PRINCÍPIOS DO DIREITO ADQUIRIDO E ATO JURÍDICO PERFEITO. POUPANÇA. EXPURGOS INFLACIONÁRIOS. PLANO ECONÔMICO COLLOR I. VALORES NÃO BLOQUEADOS. EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL.

440 STF. RE 699535 RG/RS. Rel. Min. Luiz Fux. DJe 18.3.2013. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. PREVIDENCIÁRIO. MILITAR APOSENTADO. EX-COMBATENTE. PENSÃO POR MORTE. REVISÃO DE OFÍCIO. REDUÇÃO DA REMUNERAÇÃO MENSAL. AUSÊNCIA DE CONTRADITÓRIO PRÉVIO. DECADÊNCIA. ARTIGO 54, LEI 9.784/99. ARTIGO 103-A LEI 8.213/91. ALEGADA OFENSA AO ATO JURÍDICO PERFEITO. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA.

441 DINIZ, Maria Helena. Lei de introdução ao código civil brasileiro interpretada., 9ª ed. São Paulo Ed. Saraiva, 2002 p. 163.

442 THEODORO JÚNIOR, Humberto; FARIA, Juliana Cordeiro de. A coisa julgada inconstitucional e os instrumentos processuais para seu controle. In: NASCIMENTO, Carlos Valder do (Coord.). Coisa julgada inconstitucional. 3. ed. Rio de Janeiro: América Jurídica, 2003, p. 88.

443 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; MEDINA, José Miguel Garcia. O dogma da coisa julgada: hipóteses de relativização. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003, p. 39. “Trata-se, isto sim, de uma certa desmistificação da coisa julgada. Ao que parece o instituto da coisa julgada, tal qual vinha sendo concebido pela doutrina tradicional, já não corresponde mais às expectativas da sociedade, pois a segurança que, indubitavelmente, é o valor que está por detrás da construção do conceito da coisa julgada, já não mais se consubstancia em valor que deva ser preservado a todo custo, à luz da mentalidade que vem prevalecendo”. DINAMARCO, Candido Rangel. Relativizar a coisa julgada material. Disponível em:<http://www.processocivil.net/novastendencias/relativizacao.pdf>. Acesso em: 10 set. 2013: “[...] é inconstitucional a leitura clássica da garantia da coisa julgada, ou seja, sua leitura com a crença de que ela fosse algo absoluto e, como era hábito dizer, capaz de fazer do preto branco e do quadrado, redondo. A

Nos termos da legislação processual em vigor, a força da sentença transitada em julgado irradia-se em uma eficácia que atinge apenas as pessoas que foram partes no processo (art. 472 do CPC445), não podendo os seus efeitos beneficiar ou prejudicar terceiros que não tenham de qualquer forma tomado assento na ação judicial.446 Complementa a noção de coisa julgada o comando de que “a sentença que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de

lei nos limites da lide e das questões decididas.” Esta força de lei é que define o que seja a

coisa julgada material. Com efeito, embora as decisões proferidas não vinculem hipóteses semelhantes que envolvam outras partes, o sistema de uniformização de precedentes e os novos modelos de repercussão geral e processos repetitivos garantem maior confiabilidade ao ordenamento jurídico.

A coisa julgada permite que o intérprete tenha o problema como ponto de partida e sua solução como etapa posterior que passará pela fundamentação judicativa. Esse modelo estabiliza a decisão jurídica proferida e impede que novas decisões administrativas, legais ou judiciais a desconstruam. Com efeito, além de impedir a rediscussão da causa, também impõe

irrecorribilidade de uma sentença não apaga a inconstitucionalidade daqueles resultados substanciais política ou socialmente ilegítimos, que a Constituição repudia. Daí a propriedade e a legitimidade sistemática da locução,

aparentemente paradoxal, coisa julgada inconstitucional.” [...] “Para ilustrar a assertiva de que se levou longe

demais a noção de coisa julgada, Pontes de Miranda discorre sobre as hipóteses em que a sentença é nula de pleno direito, arrolando três impossibilidades que conduzem a isso: impossibilidade cognoscitiva, lógica ou jurídica. Fala, a propósito, da sentença ininteligível, da que pusesse alguém sob regime de escravidão, da que instituísse concretamente um direito real incompatível com a ordem jurídica nacional etc. Para esses casos, alvitra uma variedade de remédios processuais diferentes entre si e concorrentes, à escolha do interessado e segundo as conveniências de cada caso, como (a) nova demanda em juízo sobre o mesmo objeto, com pedido de solução conforme com a ordem jurídica, sem os óbices da coisa julgada, (b) resistência à execução, inclusive mas não exclusivamente por meio de embargos a ela e (c) alegação incidenter tantum em algum outro processo. Nessa mesma linha, Humberto Theodoro Júnior, invocando o moderno ideário do processo justo, os fundamentos morais da ordem jurídica e sobremaneira o princípio da moralidade que a Constituição Federal consagra de m modo expresso, postula uma visão larga das hipóteses de discussão do mérito mediante os embargos do executado. O caso que examinava em parecer era de uma dupla condenação da Fazenda a pagar indenizações pelo mesmo imóvel. Segundo se alegava, ela já havia satisfeito a uma das condenações e com esse fundamento opunha-se à execução que se fazia com base na outra condenação, mas pelo mesmo débito. Em suas conclusões, o conhecido Mestre mineiro propôs o enquadramento do caso na categoria do erro material, para sustentar afinal que, conseqüentemente, "não haverá a res iudicata a seu respeito".

444 STF. AI 665003 AgR/RJ. Rel. Min. Dias Toffoli. DJe 23.8.2012. “Agravo regimental no agravo de instrumento. Processual Civil. Ação civil pública. Coisa julgada. Limites objetivos. Ofensa reflexa. Relativização da coisa julgada. Possibilidade. Precedentes. 1. É pacífica a orientação desta Corte no sentido de que não se presta o recurso extraordinário à verificação dos limites objetivos da coisa julgada, haja vista tratar-se de discussão de índole infraconstitucional. 2. Este Supremo Tribunal Federal fixou entendimento no sentido de admitir, em determinadas hipóteses excepcionais, a relativização da coisa julgada. 3. Agravo regimental não

provido”.

445 Art. 472. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando, nem prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no processo, em litisconsórcio necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em relação a terceiros.

446 Art. 468. A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas.

Art. 469. Não fazem coisa julgada:

I - os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; Il - a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença;

barreira à modificação ou a extinção de atos administrativos que estejam albergados em sua proteção. As partes que tiveram pronunciamento definitivo do Poder Judiciário podem confiar, salvo referidas exceções, que essa decisão será mantida no curso do tempo.

Porém, assim como nas demais barreiras que se opõem à extinção ou a modificação do ato administrativo, os efeitos das soluções que se apresentam são estritamente fechados e binários (permanece ou extingue; ex tunc ou ex nunc).