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4. TÜRKİYE’DEKİ ENERJİ KAYNAKLARI

4.2. Türkiye’nin Yenilenebilir Enerji Kaynakları Potansiyeli

4.2.3. Biyokütle Enerjisi

Quantas imagens podem habitar o olho do poeta, tornando visíveis as imagens invisíveis, porque esquecidas ou pouco imaginadas. Na “sinuosidade e limpidez” de suas águas inconscientes, o poeta se traveste de criança e solta a sua imaginação,

413 SILVA, K. G. Poesia. Ocupação da imagem pela palavra. Papéis: R. Letras UFMS, Campo Grande, MS, 2(4): 6-13, jul./dez., 1998. p. 10.

brincando com as palavras que se deixam ocupar pelas imagens. No poema que continua na leitura do leitor, essa cobra pode ser uma forma delicada e amorosa de expressar o choro, a tristeza, ou mesmo a emoção, que vem se arrastando e se transfigura em água salgada que escorre pelo rosto, mas que, antes disso, anda pelo olho. Ainda com Silva, vale pena adentrar um pouco mais na emoção que o poema causa:

[...] percebemos imediatamente que sua realidade filia-se a estados oníricos em que a sensação dos objetos não obedece à ordem do mundo prioristicamente concebido como unidade lógica e real, mas à lógica do mundo em que é possível patos andarem em árvores e gatos sorrirem[...] Nessa relação impertinente a linguagem cresce, instaura o inesperado, tornando o texto poético. As relações incompreensíveis que o acaso e o jogo estabelecem são desentranhadas e pulsam na imagem414.

Na criação deste mundo próprio, o mundo do texto poético, as crianças e os poetas parecem aproveitar e usar a linguagem de uma forma menos utilitária415, algo

que para os adultos fica mais fugidio, devido à primazia de experiências pautadas por relações de causa e efeito, próprias ao excesso de racionalidade e ao excesso de processo secundário416, levando em conta a psicanálise tradicional. O poeta, sabiamente, destacou: “Nada há de mais presente em nós senão a infância. O mundo começa ali” 417. Conforme Bachelard, a casa onírica recupera a casa da infância, aquela que já não existe:

414 Idem. p. 11.

415 CONCEIÇÃO, M. Manoel de Barros, Murilo Mendes e Francis Ponge: nomeação e pensatividade poética. Jundiaí: Paco Editorial, 2011.

416Segundo a psicanalista winnicottiana Edna Vilete: “O processo primário, como um modo de funcionar o inconsciente, foi considerado por Jones uma das mais importantes descobertas de Freud. Estranhamente, porém, ele não chegou a explorá-lo com mais detalhes, talvez porque as portas que se abriram para novos conhecimentos foram tão amplas que ele jamais pôde retornar a esse tema fascinante. Como resultado, a teoria do processo primário permaneceu estacionada em sua primeira formulação econômica e, até bem recentemente, era definida principalmente em termos de catexia de energia. Em 1923, quando Freud introduziu a teoria estrutural, ele integrou o conceito de processo primário como um modo de organização do id, mas não chegou a estendê-lo dentro de uma psicologia do ego que então surgia. Assim, enquanto o processo que rege o pensamento consciente – o processo secundário – passou a ser visto sob um constante e gradual crescimento, o processo primário, atado a um preconceito, era considerado como ligado para sempre a um padrão infantil de organização. Seria o processo de pensamento existente no início da infância e serviria à criança até que ela desenvolvesse um processo de pensamento lógico, relacionado e orientado para a realidade externa, isto é, o processo secundário” In: VILETE, E. Sobre a arte da psicanálise. São Paulo: Idéias & Letras, 2013. Considero pertinente sublinhar que esta parece ser a base da crítica tanto de Bachelard quanto de Winnicott à supremacia do processo secundário tematizada por Freud. Sob os mesmos argumentos, defendo a importância de se aprofundarem estudos e pesquisas sobre a temática do processo primário, onde a criatividade e a imaginação, bem como a poesia tomam assento.

417 BARROS, MANOEL. Memórias inventadas: a segunda infância. São Paulo: Planeta, 2006. Cap. XVII.

Assim, uma casa onírica é uma imagem que, na lembrança e nos sonhos, se torna uma força de proteção. Não é um simples cenário onde a memória reencontra as suas imagens. Ainda gostamos de viver na casa que já não existe, porque nela revivemos, muitas vezes, sem nos dar conta, uma dinâmica de reconforto. Ela nos protegeu, logo ela nos reconforta, ainda. O ato de habitar reveste-se de valores inconscientes, valores inconscientes que o inconsciente não esquece418.

Bachelard lança o leitor a examinar melhor seus anseios, anunciando que, caso se mantenha atento, poderá encontrar espaço para acalmá-los e satisfazê-los. Homens, mulheres e o infantil latente em si demandam acolhimento desde os tempos primevos. Logo, a teoria bachelardiana alarga as vias que propiciam o alcance deste lugar, o lugar da solidão. Trata-se de uma solidão que não é tristeza, mas é reflexão, é silêncio, é oportunidade de escutar a si mesmo, muito embora isso seja assustador algumas vezes. Tal teoria encontra-se com o pensar e a clínica winnicottianos no que se refere à noção da solidão essencial.

Essa aproximação, então, cria a possibilidade de se discorrer sobre a noção da solidão essencial em Winnicott como um espaço que permite o isolamento básico da pessoa. Tal espaço leva a imaginar a existência de pontos em comum com o espaço poético em Barros. Partimos todos, segundo Winnicott, dessa solidão essencial, desse isolamento básico que irá nos acompanhar por toda a vida e que será preservado de alguma forma. Conforme Dias:

Há um nada antes do começo e um nada depois do fim. A vida se constitui do intervalo entre esses dois nadas. Mas a vida não reina plena, como um acontecimento imune a esses dois nadas. Eles a atravessam de ponta a ponta[...]. Na morte, que é o grande retorno, a solidão essencial se fechará sobre si mesma, completando o ciclo da vida. Enquanto o indivíduo estiver vivo, ela (a solidão essencial) permanecerá como o fundo, como a reserva inconfigurável que entrega o homem à tarefa de existir como história inédita e pessoal, sem apoio em nenhuma determinação, sustentado tão-somente na ilusão de poder criar. Permanecerá também como matriz de todas as possibilidades de retorno, de recuo do indivíduo que, quando é saudável, sente necessidade de descansar da tarefa de existir e de ter de, permanentemente, separar a fantasia da realidade, o subjetivo do objetivamente percebido. A solidão essencial é a única verdadeira e desconhecidamente almejada quietude, a que mais se aproxima da condição de pura simplicidade que custa nada menos que tudo419.

O que decanta dessa referência diz respeito a uma ideia cara à clínica winnicottiana e, de modo semelhante, à poética barrosiana: para poder escutar é preciso,

418 BACHELARD, G. A terra e os devaneios do repouso. São Paulo: Martins Fontes, 1990. p.92. 419 DIAS, E. A teoria do amadurecimento de D.W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago, 2003. p. 299.

antes, saber fazer silêncio e poder ficar em silêncio. Para escrever também acontece o mesmo; para respeitar os próprios limites e descobrir quem se é principalmente. Como afirma Dias: “Permanecerá como matriz de todas as possibilidades de retorno”, ou seja, estamos no espaço transicional, no espaço poético, no espaço dos devaneios e das criações. Nesses espaços é possível acolher a solidão essencial, abrigando-a de forma amorosa, o que representa dar guarida à “única verdadeira e desconhecidamente almejada quietude, a que mais se aproxima da condição de pura simplicidade que custa nada menos que tudo”, conforme assinala a autora.

Portanto, faz-se mister destacar a contribuição de Bachelard no que diz respeito aos devaneios voltados para a infância, tendo em vista que eles contribuem para amplificar a discussão, verticalizando-a. Ao falar sobre as imagens da infância, ele aponta para uma reflexão pertinente, que se refere às imagens da solidão:

Assim, as imagens da infância, imagens que uma criança pode fazer, imagens que um poeta nos diz que uma criança fez, são para nós manifestações da infância permanente. São imagens da solidão. Falam da continuidade dos devaneios da grande infância e dos devaneios do poeta420.

O que ressoa deste fragmento é o acento que se quer dar à solidão. Nela, há uma espécie de vazio, quem sabe um contato com o Nada, que se entende como potência e amor; o descortinar de uma janela que propicia a criação. Crianças e poetas necessitam do silêncio e do recolhimento para criarem, para invocarem esse Nada, que é não integração e que pode ser lido como Natureza naturante. Um tempo outro que possibilita o retirar-se da realidade, desobrigando-se a dar respostas e a obedecer aos mandos dos outros; liberando-se para inventar. Nesse domínio das invenções, Manoel de Barros é mestre:

14.

O que não sei fazer desmancho em frases. Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro. Aqui de cima não se vê nada.

Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento.421

420 BACHELARD, G. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 95.

Como seria fazer o nada aparecer? Desmanchando em frases o que não se sabe. A construção, para o autor do Livro sobre nada, sustenta-se na desestruturação, na decomposição de ordens, limites e “chatices da língua”.

Para os escritores Pereira e Marinho422, apesar de o Nada possuir múltiplas acepções, existem duas que se destacam nas reflexões que abrangem a filosofia: o nada como não ser ou como negação. Os autores manifestam interesse e preferência pela segunda abordagem, em que se destaca uma aproximação do niilismo. Depois de fazerem um percorrido pelos conceitos principais, ao estudarem os conceitos de filósofos, incluindo Heidegger, eles afirmam que Nietzsche foi quem expandiu a concepção de niilismo de forma mais profunda. Segundo eles: “O niilismo, segundo a visão nietzschiana, é uma consequência inevitável da decadência da moral e dos valores humanos” 423. Isso parece fazer todo sentido no que se refere ao pensamento de Barros

sobre essa decadência dos valores humanos e a consequente necessidade de revê-los a partir de uma recuperação de novos parâmetros quanto os conceitos de vida, homem, morte, finitude, eternidade, sociedade, relações, sentimentos, percepções, conhecimento. Ainda sobre o poema, o eu-lírico profetiza: “Perder o nada é um empobrecimento”. Com essa profecia, infere-se que o nada — coisa nenhuma — pode se transformar em vontade de potência, em criação. Ser o nada é importante, como ser uma pedra, ou uma árvore, ou um brinquedo. Retomando o “Pretexto”, presente no Livro sobre nada, o poeta diz: “[...] O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora” 424.

Barros deixa uma brecha para o leitor fazer suas elucubrações. Dentre as tantas possíveis, uma salta aos olhos: levar a palavra ao grau de aniquilação, desmanchando-a, decompondo-a, observando que novas propriedades ela pode adquirir, após sua destruição. Para Pereira e Marinho:

Nesse contexto descortina-se a sugestão de que a poesia de Barros procura desconstruir o lugar comum e o chavão literário. Busca-se recriar os acontecimentos através de um processo de negação e subsequente

422 PEREIRA, F.; MARINHO, M. Vertentes do Niilismo na obra poética de Manoel de Barros. In: MARINHO, M. Manoel de Barros: o brejo e o solfejo. Campo Grande: Letra Livre; Brasília: Editora Universa – UCB, 2009.

423 Idem. p.53.

aniquilação de conceitos, principalmente os que dizem respeito aos artificialismos do homem contemporâneo425.

Ao percorrer uma trilha que propicia novos itinerários, o homem poético do Livro sobre nada cresce em perspectiva, renunciando aos apelos da futilidade, mas também à monotonia de uma vida de pensamentos e sentimentos conhecida. A estética do primitivo em Barros liquida com a dimensão do homem acostumado com um modo de viver baseado em artificialidades. O poeta leva à radicalidade essa desconstrução com o propósito de manter acesa a faísca que faz queimar o apetite pela vida, pelo novo, pelo que produz sentido, porém sempre ancorado às ancestralidades e às raízes de uma transmissão.

Waldman, num breve artigo, porém rico, conta que mais de um século depois de Flaubert ter dito a Louise Colet que gostaria de escrever um livro sobre nada, o desejo do escritor francês teve ascendência sobre o apetite do poeta brasileiro. Segundo Waldman, o que o próprio Manoel ressalta é que

[...] o nada que persegue não é metafísico, nem existencial, nem tampouco a armação de um estilo que se sustente. É nada mesmo. Mas o nada feito poema distancia-se do nada. Erigido em forma, aponta direcções, carpe a memória, germina sentidos. Procura. O que procura o poeta? [...]426.

É interessante dar-se conta da riqueza que Barros espalha ao semear os seus poemas. Em cada semente em forma de verso lançada ao mundo, o poeta “germina sentidos” porque segue sempre os procurando. Afinal, o que o poeta procura? Acredita- se que ele procura a essência dos objetos, o “esgar” de cada palavra, a riqueza adormecida que elas possuem, o vigor que elas têm, “etc.etc.etc.”. Na busca pela fabricação das “coisas desúteis”, sem nenhuma ingenuidade, radica toda a sua potência, o nada é uma das fontes de sua poesia. Waldman, no patamar elevado de sua trajetória como crítica, oferece aos leitores uma boa pista para se chegar perto da resposta que se fez anteriormente: “O que o poeta procura”? Para a autora:

Submetido a um tropismo de volta, Manoel de Barros avança para o começo, persegue uma origem que esbarra no sem-sentido, sendo, pois, necessário reinventá-lo. Toda a sua poesia está animada desse movimento de volta – rio que vive de correr para as nascentes -, resultando daí muitas das suas características, como a recusa das suas abstrações e das generalidades, ou o

425 MARINHO, M. Manoel de Barros: o brejo e o solfejo. Campo Grande: Letra Livre; Brasília: Editora Universa – UCB, 2009. p.55.

não-intelectualismo (construído, é verdade), manifesto no tom geral da poesia e nas figuras que a atravessam (os loucos, andarilhos, vagabundos de estrada, que funcionam como sensores do mundo que lateja na vida vegetal, animal, mineral e humana, tudo em constante transformação)427.

Nesse clima de “tudo em constante transformação, o homem poético é esse homem que habita o Livro sobre nada da vida, abrindo as cortinas e vendo que há esperança e possibilidades de reforma no interior de si mesmo. Quando isso acontece, o mundo passa, então, a ser reformado e assim pode ser redescoberto, porque é reinventado. Conforme Waldman:

Manoel de Barros fecha o seu livro exercitando, num jogo de alteridade, a apresentação de quantos contribuíram para a sua desaprendizagem: o pintor boliviano Rômulo Quiroga, Mário-pega-sapo, Seo Antônio Ninguém, o filósofo de beco Bola-Sete, o louco genial Arthur Bispo do Rosário e o Andarilho Andaleço, todos colaboraram, cada qual a seu modo, para corrigir a roda do poeta, agora deslocado, quem sabe ubiquamente fora da posição autoral, para que o nada se arme no vazio do nome: “Falo sem alamares/Meu olhar tem odor de extinção./Tenho abandonos por dentro e por fora./Meu desnome é Antônio Ninguém./Eu pareço com nada parecido428.

Na tessitura do Nada barrosiano, saber-se sem parecer-se com nada parecido “aclara o Ser”, liberando-o para ser Tudo, nesse “lápis esquecido na península da memória”429 que pode ser Nada e, então, ser Tudo:

4.

Apenas de mês em mês aparecia uma carreta de mascate, puxada por 4 juntas de bois no fim daquele lugar. Levava caramelos, bolachinhas, pentes, argolas para laço, extrato Micravel, peças de algodoin para fazer saia branca, filó de mosqueteiro, vidros de arnica para curar machucaduras, brincos de peschibeque, - essas coisinhas sem santidade... Nossa mãe comprava arnica e bolachinhas. Dona Maria, mulher do Lara, comprava brincos e extrato Micravel.

Meu avô abastecia o abandono.

De tudo haveria de ficar para nós um sentimento Longínquo de coisa esquecida na terra – Como um lápis numa península.

427 Idem. p.301.

428 WALDMAN, B. Recensão crítica a Livro sobre nada, de Manoel de Barros. In: Revista Colóquio/ Letras. Recensões Críticas, nº. 143/144. Jan. 1997, p. 301-302. Disponível download em: <http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=143&p=301&o=r> Acesso em: 28 fev. 2016. p.301-302.

Nessa clareira, aparecem as crianças e os poetas, os loucos e os bêbados, que se retiram da miséria do cotidiano e criam outras realidades, múltiplas e criativas. Colocam no palco da brincadeira e da escrita a possibilidade de descentrar-se, permitindo-se jogar-se numa vida que é puro ensaio, puro devir, pura liberdade, ou seja, matéria-prima para uma escrita do viver e do continuar vivo.

Para Winnicott430, a criatividade que lhe interessa diz respeito a uma proposição universal que é justamente esse estar vivo, no sentido da vitalidade. “É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação”431.

Neste ritmo, cabe mencionar uma passagem do texto bachelardiano que virá enriquecer a problematização em questão no que se refere ao devaneio e à criação poética:

Oporemos o sonho ao devaneio. Então, nos nossos amores em palavra, nos devaneios em que preparamos as palavras que diremos à ausente, as palavras, as belas palavras, assumem vida plena e um dia será necessário que um psicólogo venha estudar a vida em palavra, a vida que adquire um sentido quando se fala432.

Considerando, assim, a vida que adquire sentido quando se fala e tomando a importância da dimensão da singularidade na constituição do psiquismo e na criação poética, abre-se o diálogo com a estética de Dufrenne, quando ele diz:

Pois há uma essência do objeto, uma essência singular e sensível. Singular porque ela pertence a um indivíduo. O indivíduo é a obra. Mas é também o autor. Pois essa ligação da obra com o autor, essa presença do autor na obra que define o estilo, ao mesmo tempo justifica a singularidade e ilustra a universalidade da essência. Só há singularidade humana se a singularidade implica a imanência do universal ao particular; só o homem vive e quer sua diferença como um meio de assumir a humanidade433.

Nesse vaivém das ideias e da possibilidade de articulá-las, recupero a voz de Manoel de Barros, na tentativa de reunir o que venho pensando até aqui a partir da afirmação de que as palavras são os únicos instrumentos que temos e que não devemos — nem podemos — nos furtar a isso. Experiência, singularidade, devaneio, mundo das imagens: esses elementos vão compondo o desenho do projeto estético barrosiano em que o homem se assenta no brincar com as palavras que se articulam formando imagens, despertando para o mundo de dentro, este que acorda aspirações recônditas e favorece

430 WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. 431 Idem. p. 79.

432BACHELARD, G. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p.54. 433 DUFRENNE, M. O poético. Porto Alegre: Editora Globo, 1969. p. 91.

que se vá longe, através de uma experiência interior, onde é permitido criar e reinventar- se nessa busca pela riqueza incompleta e misteriosa que é ser humano.

Cada palavra pode ativar no homem essa abertura ao sensível, à sensibilidade em si. A obscuridade da existência pode ser o início para a clarificação das descobertas, para novos nascimentos. As palavras, na obra poética barrosiana, têm este caráter de inventário do mundo. Manoel de Barros vai inventariando o ordinário e, através da sua imaginação, vai estimulando a sensibilidade estética do mundo no Ser, que também reside em si. Com isso, alcança a façanha de unificar o precário do homem com a complexidade própria da natureza, deixando um caminho livre para que o “homem- leitor” o percorra e também experimente essa unificação. Qual é o papel e o lugar do humano no mundo hoje? Quais são as suas responsabilidades e potencialidades? A porta dessa obscura existência fica entreaberta, porque Barros generosamente oferece esta trilha que se pode percorrer, lembrando-nos do quanto o viver pode ser mais interessante e mais enriquecedor caso os homens despertem para ele através do exercício e do contato com a sensibilidade e com a palavra poética. Segundo Barros:

Me agradam mais aqueles que se atrevem do aqueles que se atem. Me encanto com os palhaços que se aproveitam das bobagens pra pungir as verdades. Vou mais com o som áspero das cigarras do que com as melodias celestiais. Entre o ordinário e o insigne prefiro o ordinário. Gosto dos loucos de água e estandarte. Aqueles que urram de indignação prefiro aos dobradiços. Os que renovam a escrita prefiro aos que a repisam. Aqueles que mudam os dados do jogo resgatam meus goros. Nesse sentido, sou fã de Cristo, Rimbaud, Klee, Pessoa, Chaplin, Clarice, Guimarães Rosa, Woody Allen, Dalton Trevisan — entre outros434.

O objeto estético da poesia barrosiana é a própria capacidade do homem