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9. Birleşmeyi Öğrenin
Houaiss (2007) apresenta as seguintes acepções para a palavra protagonista: “Personagem mais importante do teatro grego clássico, em torno do qual se constrói toda a trama; principal personagem de uma peça de teatro, de um livro, de um filme, uma telenovela etc.; indivíduo que tem papel de destaque num acontecimento31”. Tais acepções contribuem para ser concebida a ideia de que existe o sujeito da história construtor de seu destino, considerando suas possibilidades e limites. Esse sujeito/agente/ator/personagem é objeto da perspectiva de pesquisa do protagonismo histórico, que enfoca o papel do indivíduo na história das coletividades, trazendo à tona, por exemplo, a sua história de vida.
Os protagonistas da história são as pessoas que fazem a história cotidianamente, sendo, ao mesmo tempo, agentes e narradores de suas histórias. Essa possibilidade de cada pessoa ou grupo produzir a sua narrativa contribui para a mudança de paradigmas da História Tradicional. Tais narrativas formam uma rede de informações que podem funcionar como
31Ainda segundo Houaiss (2007), a etimologia da palavra protagonista vem do grego “prótagónistês,oû 'que combate na primeira fila; o que desempenha o papel principal em uma peça teatral; falar em público; ter o primeiro lugar', de prôtos 'primeiro' + agónistês 'lutador, atleta', do v. agónídzomai 'concorrer em jogos públicos, lutar, disputar o prêmio; combater'”.
uma ferramenta poderosa para a consolidação da cidadania de todas as pessoas. A valorização social da memória potencializa os sujeitos como agentes de suas próprias histórias (COSTA e GONÇALVES, 2006). Segundo Vasconcelos (2000), citado por Costa e Gonçalves (Ibidem), a pesquisa com histórias de vida possibilita articular biografia e história.
Perceber como o individual e o social estão interligados, como as pessoas lidam com as situações da estrutura social mais ampla que se lhes apresentam em seu cotidiano, transformando-o em espaço de imaginação, de luta, de acatamento, de resistência, de resignação e criação. Permite refletir a respeito da memória para muito além dos registros efetivos pela história oficial. Aponta para aquilo que é fabricado, inventado ou transmitido como realidade. Sinaliza também para tudo que é escondido, obscurecido, mascarado e precisa ser recuperado libertado do silêncio, tirado da penumbra (Idem, Ibidem).
A história de vida é essencialmente narrativa, pois trabalha com explicações e narrativas montadas pelo narrador a partir de marcos guardados seletivamente em sua memória. Essas explicações e narrativas constroem a identidade do narrador, fazendo que ele reconheça a si próprio, contribuindo para o sujeito colocar ordem e coerência à sua experiência, dando sentido aos acontecimentos de sua vida. Na sua história, o sujeito/protagonista organiza e revela, aos outros, aquilo que é reconhecido em sua memória (COSTA e GONÇALVES, 2006).
Segundo Harres (2008), “de modo privilegiado, as fontes orais oferecem um conjunto de evidências subjetivas sobre os processos históricos”, [...] contribuindo para trabalharmos “no âmbito mais profundo das percepções dos protagonistas e das representações por eles construídas”. Nestes termos, Rosa (2007, p.3) afirma que a história oral “possibilitou uma abertura para a aceitação do valor dos testemunhos diretos”, neutralizando as tradicionais críticas ao reconhecimento da subjetividade como uma fonte para pesquisa. Tal método de pesquisa explora as relações entre memória e história, rompendo com a visão determinista que elimina a liberdade dos homens e colocando em evidência a construção dos atores de sua própria identidade. Nessas condições, “a história oral aparece como via privilegiada para a humanização da História, apesar dos contextos inibidores quer de natureza política, quer acadêmica” (Idem, Ibidem, p.1).
Como afirma Silva (2000), a opção pela “história oral como uma alternativa de estudo referente à vida social de pessoas” provoca uma interferência no conceito de personagem histórico, pois tal método
trabalha, também, com a questão do cotidiano, evidenciando a trilha da história dos “cidadãos comuns” em uma rotina explicada na lógica da vida coletiva de gerações que vivem no presente. Caracterizada como história do “tempo presente” é conhecida como história viva (Idem, Ibidem).
O estudo do tempo presente, ao abandonar o paradigma positivista e estruturalista, contribui para o desenvolvimento de pesquisa capaz de tornar a vida individual ou todas as individualidades em documento de história ampliada, com seus desdobramentos e descontinuidades históricas. Mais do que mosaicos singulares, os relatos biográficos são diferentes perspectivas que se articulam reciprocamente no tempo e no espaço da experiência individual e coletiva (CASSAB e RUSCHEINSKY, 2004, p.12).
2.3.1 Protagonismo histórico e estruturas sociais
A perspectiva do protagonismo histórico enfoca o sujeito como agente de sua própria história, colocando em questão análises estruturais que tornam o sujeito seu prisioneiro. Entretanto, não podemos desconsiderar a importância de situar o ator histórico em seu contexto, pois ele nunca é totalmente independente do ambiente social.
Segundo Vainfas (2002, p.139), Pierre Bourdieu, sociólogo adepto de análises estruturais, em seu artigo intitulado A ilusão bibliográfica, chama a atenção para a tendência que estudos biográficos têm para a diluição dos contextos, da superfície social e da “pluralidade de campos” de que os indivíduos são prisioneiros.
Norbert Elias, no livro Mozart: sociologia de um gênio, no qual constrói uma análise sociológica e psicológica desse músico e compositor do século XVIII, destaca a importância de considerar a situação social de Mozart para tornar sua situação humana mais fácil de entender. Pois, mesmo uma personalidade incomparável, ou que tenha concebido importantes realizações individuais, precisa ser inserida em um quadro claro das pressões sociais que agem sobre o indivíduo.
Tal sociólogo considera ainda que o agente histórico, apesar de sua personalidade ou realizações individuais, não pode ter sua vida realmente compreendida se a análise isolar o sujeito da estrutura social na qual está inserido. Nestes termos, Elias (1995, p. 19), afirma:
[...] o desenvolvimento pessoal de Mozart [...] não pode ser percebido de maneira realista e convincente caso se descreva apenas o destino da pessoa individual, sem apresentar também um modelo das estruturas sociais da época, especialmente quando levam a diferenças de poder. Só dentro da estrutura de tal modelo é que se pode discernir o que uma pessoa como Mozart, envolvida por tal sociedade, era capaz de fazer enquanto indivíduo, e o que – não importa sua força, grandeza ou singularidade – não era capaz de fazer.
Em seu estudo, Elias (Ibidem, p. 19) considera que “Mozart só emerge claramente como um ser humano quando seus desejos são considerados no contexto de seu tempo”. Tal
enfoque sociológico destaca a importância do objeto de estudo estar inserido em uma estrutura social que constitui o ambiente no qual as ações dos sujeitos são realizadas, “delimitadas” pelas pressões sociais que agem sobre os sujeitos.
Entretanto, não podemos desconsiderar a capacidade dos agentes em se opor ou escapar às estruturas da sociedade, pois apesar de homens e mulheres cumprirem papéis na sociedade na qual estão inseridos, seus papéis sociais não dão conta da complexidade humana, das experiências de vida dos indivíduos. Estas palavras de Heller (1989, p. 106) contribuem para elucidar essa consideração:
O homem é mais do que o conjunto de seus papéis, antes de mais nada porque esses são simplesmente as formas de suas relações sociais, estereotipadas em clichês, e posteriormente porque os papéis jamais esgotam o comportamento humano em sua totalidade. Assim como não existe nenhuma relação social inteiramente alienada, tampouco há comportamentos humanos que se tenham cristalizado absolutamente em papéis.
Quando Elias (1995) defende a importância de situar o sujeito no contexto do seu tempo, na sua estrutura social, é preciso deixar claro que tal posição do autor não o identifica como um adepto do estruturalismo,pois o sociólogo alemão é contra a utilização de conceitos analíticos prontos e estáticos geralmente utilizados nas análises estruturalistas. Assim, o autor defende que para estudar uma vida ou caso é preciso evitar operar com conceitos e categorias estáticas, pois não contribuem para a captação das peculiaridades do objeto enfocado.
Em outras palavras, os conceitos cuja acuidade não alcança o indivíduo não permitem dar conta da questão do sujeito social (protagonista), que ao mesmo tempo faz história e é feito por ela. O trabalho de pesquisa teórico que busca dar conta da especificidade e da complexidade de uma história de vida exige ir além da apropriação de categorias prontas, necessitando da ação de construção de novas categorias pertinentes ao nível da pesquisa proposta (PATTO, 1993).
O historiador E. P. Thompson, em A Miséria da Teoria, faz críticas severas ao estruturalismo de Althusser, intelectual que acusaria os historiadores de não ter nenhuma teoria. Segundo Thompson (1981, p. 49), na realidade o ofício de historiador possui sim seu posicionamento teórico-metodológico, o qual pode ser expresso nestes termos: o historiador apresentaria uma rejeição explícita e autoconsciente aos conceitos analíticos estáticos dos estruturalistas, pois são inadequados à “lógica da história”.
Segundo Sartre (apud THOMPSON 1981, p. 48): “A história não é ordem. É desordem: uma desordem racional. No momento mesmo em que mantém a ordem, isto é, a estrutura, a história já está a caminho de desfazê-la”. Dessa maneira, como o processo histórico não está preso a estruturas, Thompson (Ibidem, p. 49) afirma que o historiador
necessita desenvolver o método da “lógica histórica”, o qual é adequado a investigação dos materiais históricos, pois “a história não é ordem”, sendo o historiador produtor de um discurso que ordena e produz uma determinada lógica aos fatos enfocados. Assim, para produzir o discurso histórico o pesquisador-historiador necessita colocar conceito e evidência em constante diálogo, um diálogo conduzido por hipóteses sucessivas, de um lado, e a pesquisa empírica, do outro. “O interrogador é a lógica histórica; o conteúdo da interrogação é uma hipótese; o interrogado é a evidência, com suas propriedades determinadas”.
O ofício de historiador que objetiva reconstituir, explicar, e compreender seu objeto: a história real, necessita manter um constante diálogo entre teoria e método, construindo uma constante discussão teórico-metodológica, uma contínua confrontação entre conceitos e evidências (THOMPSON, 1981).
Não são as estruturas que constroem a história, mas as pessoas carregadas de experiência. A experiência humana expressa o que há de mais vivo na história: a presença de homens e mulheres retornando como sujeitos, construtores do devir e do presente. Essa experiência é construída na consciência e na cultura de pessoas e agrupamentos, de acordo com suas afinidades. Assim, a cultura é engendrada no âmago da experiência social, tomando corpo e construindo uma coerência interna, passando a atuar no embate de outras experiências. Dessa maneira, constitui-se um grau de consciência social conquistado na experiência e na cultura, o qual determina os caminhos da história que, no processo, é indeterminada (BEZERRA, 1995, p. 125-126).