Previamente, esclarece-se aqui a dificuldade de análise do currículo em administração no recorte histórico em questão, apesar de extenso conjunto de estudos curriculares na área (ver SILVA, 2008). A maioria das pesquisas realizadas sobre o desenvolvimento e produção de currículos das IES foram direcionadas às ações após a formalização da profissão do administrador em 1965 e a promoção do currículo mínimo aos cursos em 1966. Assim, para uma análise dos currículos da ESAN entre 1941 e 1961, não há análises prontas sobre o desenvolvimento e evolução das disciplinas até a formalização do administrador como um profissional com curso superior.
Explorando pelo viés histórico, percebe-se que o ensino de administração se desenvolveu de maneira rápida no Brasil, mesmo com a oficialização tardia da profissão. Apesar da notável influência americana no desenvolvimento da área no Brasil, deve-se lembrar que as influências originais dos cursos de ensino superior no país eram baseadas nos modelos europeus, os quais, aos poucos, foram sendo desvirtuados conforme os processos históricos (COELHO, 2006). Maranhão (2010) reforça este ponto ao mencionar que a estrutura do ensino superior brasileiro deu-se com base no modelo francês, cuja característica principal é sua matriz de ensino universitário profissionalizante.
Entretanto, é evidente que esta referência francesa não ocorreu sob os mesmos contextos sociais no Brasil, já que na época a França preparava os alunos para uma missão universitária desde o ensino médio, exercitando-os desde então para questões culturais e científicas. Por consequência, nestes padrões o jovem estaria mais preparado para a escolha de sua profissão futura, ao contrário do ocorria no Brasil. A adaptação deste modelo ao sistema de ensino brasileiro foi exclusivamente direcionada ao ensino superior, perpetuando uma estrutura do ensino médio desprovida de questões relativas à cultura, filosofia e ciência. Nestas condições, o jovem brasileiro recém-saído do ensino básico escolhia sua profissão de maneira mais precoce, sem refletir sobre o futuro daquela a ser seguida. E foi exatamente essa escolha precipitada de profissão que marcou o início da vida acadêmica no Brasil, fato que contrariava o modelo americano de ensino superior adotado a partir das escolas de administração (MARANHÃO, 2010). Portanto, a adoção do modelo dos Estados Unidos para estas instituições de ensino, além de ser condizente com as questões estratégicas que permeavam o contexto da Segunda Guerra Mundial (TOTA, 2000), serviu para delinear, assim como no ensino americano, um curso de graduação de formação geral e científica.
Nicolini (2000) aponta para uma crítica importante quanto ao desenvolvimento das escolas de administração serem na maioria das vezes vinculadas às faculdades isoladas e privadas, movimento típico do processo de expansão do ensino superior do país. Essa desvinculação com as universidades, no interior das quais era frequente a criação e a evolução dos cursos superiores, impedia a construção científica no campo de administração, conforme o autor cita no trecho:
“O fato de não estarem vinculadas essas instituições às universidades permitiu um crescimento do número de escolas em escala exponencial. Assim, a maior parte das instituições que ofereciam o curso de Administração estava desvinculada do processo de construção científica. Abriram mão do seu papel como sujeito da história administrativa, para apenas repetir o que já estava sistematizado por outras instituições no Brasil e, particularmente, no exterior. Descolaram-se da investigação e da discussão científica e da necessária redução sociológica do conhecimento que ministram.” (NICOLINI, 2000, p.19-20)
Um dos principais fatores para esta dissociação foi a recorrente relação, no setor administrativo, da formação universitária com a formação profissional, fundamental no período de criação das primeiras instituições de ensino entre as décadas de 40 e 60. A crítica a estes currículos, frequentemente considerados “rígidos” e demasiado interdisciplinares (MOREIRA & CANDAU, 2007; NICOLINI, 2003), deve levar em conta o contexto histórico e tecnicista pelo qual a administração foi estabelecida como ensino superior e o foco no
treinamento de profissionais para as empresas emergentes na época. Outra crítica amiúde à formação do administrador relacionada à estrangeirização das bibliografias dos cursos também deve reconsiderar a contextualização do período, uma vez que até acordos foram feitos entre instituições para incentivar a ida dos professores dos cursos de Administração no Brasil para exterior para sua capacitação, ao mesmo tempo que profissionais norteamericanos eram trazidos para atuarem nas novas escolas.
Segundo Barros, (BARROS, 2013, pg. 149), estes profissionais norte-americanos atuaram mais no campo de ciências políticas, já que a Fundação Ford não financiou departamentos de outras ciências humanas, como por exemplo o de história. Por este motivo, estas áreas de humanidades permaneceram sob influência de um modelo tradicionalmente europeu. Ainda assim, de uma maneira geral, apesar de ter atuado para uma forte divulgação do americanismo, as atividades da Fundação Ford no ensino superior brasileiro foram benéficas inclusive às Ciências Sociais pelo desenvolvimento na área através dos investimentos nas pesquisas. As críticas à influência americana no ensino de Administração no Brasil foram posteriores se comparadas às outras áreas, tornando-se mais evidente após os argumentos apresentados pelas Ciências Sociais.
Segundo Moreira e Candau (2007, pg. 54), é preciso considerar que esta influência americana no ensino curricular brasileiro não ocorreu somente como pura e simples transferência dos estudos curriculares americanos, já que, contrariamente, eram notórios atos de resistência. Em consequência, estes conflitos resultavam em constantes alterações e adaptações nos currículos da área. Portanto, para o autor é preferível falar em influência americana geradora de uma “hibridização curricular”, na qual “... tendências , modelos e discursos curriculares distintos disputam, mobilizam e articulam antigas verdades na produção de novas significações”.
Além da compreensão sobre o contexto histórico que persuadia a formação dos cursos em administração, é importante também considerar a influência política e social da própria instituição de ensino vinculada ao currículo estudado. Uma reflexão desta categoria permite uma visão crítica, por parte do aluno, da profissão para qual está graduando e compará-la à sua situação legal e profissional no mercado de trabalho, uma vez que que esta estrutura está ligada às possibilidades pedagógicas proporcionadas pelas escolas. Esta perspectiva está associada à discussão política proposta por Barbosa (MOREIRA,1990) sobre os currículos, a qual aborda a importância do papel dos personagens sociais envolvidos nas instituições de
ensino (como professores, alunos e funcionários) como formuladores das políticas curriculares com as quais trabalham. Esta perspectiva, como já salientado, permite uma análise voltada à contextualização do ensino em administração no Brasil, propõe reiterar a importância da compreensão dos contextos de época ao abordar o fenômeno educativo proposto.
Sobre o currículo mínimo de administração decretado em 1966, alvo das críticas mais recorrentes quanto ao curso de graduação (BARROS, 2014), a maioria delas é pelo fato de limitar o rol de disciplinas ministradas durante o curso, privilegiando “os conteúdos fixados em detrimento dos processos pedagógicos” (NICOLINI, 2000, pg. 23). Segundo Nicolini (2003), apesar deste regime garantir que a formação cumpra padrões básicos de qualidade e uniformidade necessários à obtenção do diploma, além de tornar a formação do administrador pouco humanista este estilo de graduação é pouco flexível e contribui para a denominada “fábrica de administradores”. Além disso, a padronização do currículo molda o aluno para um “produto final” até o mercado de trabalho, sem um projeto pedagógico para prepará-lo com um diferencial ou para uma visão pluralista para enfrentar os desafios da profissão (FISCHER et. al, 2006). Desta maneira, os futuros administradores encontram dificuldades porque o currículo ministrado não prioriza as matérias estruturais da área, ensinadas geralmente nos primeiros anos do curso, e consideram de maior relevância as disciplinas práticas, mas que também não possuem uma base teórica mais aprofundada. (CASTRO, 2003)
Contemporâneos à instauração do regime do currículo mínimo nos cursos de administração, dois importantes textos foram escritos criticando como a formação de administradores ocorria até 1967 (SILVA, 2008). Primeiramente, a obra de Wahrlich (1967) descreveu a importância da criação de um currículo que integrasse os conhecimentos da administração pública e da administração de empresas, até então ensinadas em currículos específicos, para uma formação mais completa dos alunos. Para tanto, foi denominado pelo próprio Conselho Federal de Educação a formação do currículo mínimo em “administração”, uma vez que o profissional formado seria designado como “técnico em administração”, sem a especificação “público” ou “de empresas”. Nesta linha, a discriminação de disciplinas e a crítica à dosagem de ensino prático e teórico foram assuntos debatidos no trabalho de Guerreiro et al (1967), que salientaram, em conclusão, a urgência de um currículo que também preparasse o corpo discente para atender a administração pública, uma vez que o desenvolvimento da sociedade
abrangia não só a administração de empresas, principal foco de interesse das instituições de ensino até então.
Fica claro, a priori, seguindo a premissa que há um sentido de poder comprometido ao abordar o currículo de uma IES (SILVA, 2008), que assim como a influência do contexto histórico foi determinante para o desenvolvimento da administração principalmente como área de ensino, por consequência a formação do currículo para os alunos na área, vista pela ótica histórico-sociológica, também deve ser considerada através dos desenvolvimentos políticos, econômicos e legais da época. Por fim, a regulamentação do currículo no ensino em administração, um curso superior tardio se comparado a outras áreas de ensino pelo fato da interdisciplinaridade com as áreas econômicas, foi sempre orientada (por este ou outros motivos) para a busca da identidade do administrador como centro da solução dos problemas no âmbito empresarial e público (SILVA, 2008). Portanto, ao analisar currículos prévios à regularização destes requisitos mínimos é necessário ter em consideração a influência dos programas estadunidenses de ensino e os acontecimentos locais e particulares de cada instituição para formular o programa de disciplinas dos cursos. O próximo capítulo abordará, assim, as particularidades da ESAN (e os seus currículos primários) como escola de ensino em administração e negócios inserida neste contexto histórico e social dissertado até aqui.
5 A CRIAÇÃO DA ESAN (1941-1961): DESENVOLVIMENTO DA PRIMEIRA