• Sonuç bulunamadı

4. BULGULAR

4.1. Bireylere Ait Sonuçlar

Como analisado, a lógica de acumulação do capital foi descrita por Marx por meio da fórmula D – M – D’, segundo a qual determinada quantidade de dinheiro é investida nos meios produtivos e no pagamento da força de trabalho, os quais serão mobilizados com o fito de produzir mercadoria, a ser vendida no mercado, apurando-se, no término do ciclo, mais dinheiro do que o inicialmente gasto. Esse excedente, por sua vez, será reinvestido em mais mercadorias e, por conseguinte, será obtido mais dinheiro ainda, num movimento incessante e repetitivo no qual o dinheiro é utilizado com o escopo de engendrar, ao final da operação, si próprio, mas numa quantidade maior, sendo, por isso, chamado de movimento tautológico de valorização do valor.

O lucro auferido só foi possível porque o trabalho, ao incidir sobre a matéria-prima por intermédio das máquinas, transforma a natureza e cria algum objeto útil que será disponibilizado no mercado, quando, então, passará a ter valor de troca. Essa é a lógica fundamental do sistema produtor de mercadorias.

Contudo, é relevante salientar que o trabalho humano e a criação de objetos úteis, embora imprescindíveis, desempenham apenas papéis secundários em todo esse processo. Se, para alcançar mais lucro, for preciso reduzir o número de empregados e intensificar o trabalho dos remanescentes, assim será feito, e tem sido feito. O desemprego estrutural e a instauração de relações precárias de trabalho analisados até aqui o demonstram.

Quanto aos objetos úteis que o trabalho humano produz, estes, da mesma forma, têm suas qualidades definidas e limitadas em razão do lucro. Caso, apesar da concorrência, seja mais rentável vender um objeto de qualidade inferior, a produção será voltada para esse desiderato. Destarte, a satisfação das necessidades humanas só é almejada à medida que contribui para a acumulação do capital.

O capital não trata valor de uso (o qual corresponde diretamente à necessidade) e valor de troca como duas coisas separadas, mas de um modo que subordina radicalmente o primeiro ao último. O que significa que uma mercadoria pode variar de um extremo a outro, isto é, desde ter seu valor de uso realizado, num extremo da escala, até jamais ser usada, no outro extremo, sem por isso deixar de ter, para o capital, a sua utilidade expansionista e reprodutiva.3

Acentua-se, desse modo, o que o pensador húngaro István Mészáros, comentado por Ricardo Antunes, chama de taxa de utilização decrescente do valor de uso das coisas, que nada mais é do que a redução induzida do tempo de vida útil dos bens, de modo que, em pouco tempo, será necessário comprar outro produto em substituição ao anterior, que se estragou antes do tempo.

E, sempre segundo Mészáros, essa tendência decrescente do valor de uso das mercadorias, ao reduzir a sua vida útil e desse modo agilizar o ciclo reprodutivo, tem se constituído num dos principais mecanismos pelo qual o capital vem atingindo seu incomensurável crescimento ao longo da história.4

Isso significa que, muitas vezes, a mercadoria, pelas condições tecnológicas existentes, tinha totais condições de durar por bastante tempo, mas, para acelerar a rotação do capital, o produto é previamente concebido para se deteriorar mais cedo. É uma tática também chamada de obsolescência programada, pelo fato de a mercadoria ser condicionada a ficar obsoleta antes do que devia.

Assim, a carência de consumidores é, em parte, compensada pelo fato de o mesmo cliente ser obrigado a comprar vários produtos da mesma espécie num tempo reduzido. Como nem todo mundo pode consumir, então que a mesma pessoa compre várias vezes. Por isso, André Gorz afirma que o mercado de inúmeros bens é essencialmente de substituição, pois “a produção serve principalmente para



3 ANTUNES, Ricardo. O caracol e sua concha: ensaios sobre a nova morfologia do trabalho. São

Paulo: Boitempo, 2005. p. 119. (Mundo do trabalho).

substituir os equipamentos usados e não para dotar os domicílios ainda não equipados”.5 É uma forma artificial de criar valor.

O valor de troca, em realidade, é apenas a manifestação exterior da qualidade intrínseca de valor que já possui a mercadoria no ato da produção, por intermédio do dispêndio de trabalho abstrato. Como esclarece Marx:

Quando no início deste capítulo, para seguir a maneira ordinária de falar, havíamos dito: A mercadoria é valor de uso e valor de troca, isso era, a rigor, falso. A mercadoria é valor de uso ou objeto de uso e “valor”. Ela apresenta-se como esse duplo que ela é, tão logo seu valor possua uma forma rápida de manifestação, diferente da sua forma natural, a do valor de troca, e ela jamais possui essa forma quando considerada isoladamente, porém sempre apenas na relação de valor ou de troca com uma segunda mercadoria de tipo diferente. No entanto, uma vez conhecido isso, aquela maneira de falar não causa prejuízo.6

Destarte, as transformações radicais almejadas não podem cindir-se a meras alterações no âmbito da circulação. As modificações exigidas precisam ser direcionadas para a própria esfera da produção, momento em que a forma valor da mercadoria é engendrada. Ater-se à questão da troca da mercadoria no mercado é preocupar-se com os efeitos e olvidar as causas.

Da mesma forma, a mudança da forma jurídica da propriedade se torna inócua se não for acompanhada da abolição da lógica que regula a produção das mercadorias. O fato de a propriedade ser privada, estatal ou mesmo coletiva de viés democrático não vai significar qualquer metamorfose nos imperativos de rentabilidade e de acumulação, o que preservará os problemas atuais de desemprego e de vulnerabilidade social. Ainda nos seus escritos de juventude, Karl Marx já tinha concluído que:

A propriedade privada constitui, assim, o produto, o resultado, a conseqüência necessária do trabalho alienado, da relação externa do trabalhador com a natureza e com si mesmo.

A propriedade privada decorre-se, portanto, da análise do conceito de trabalho alienado, ou melhor, do homem alienado, do trabalho alienado, da vida alienada, do homem estranho a si próprio.7



5

GORZ, André. Adeus ao proletariado: para além do socialismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense- Universitária, 1987.

6 MARX. Karl. O Capital: crítica da economia política. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe.

V. 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 62-63. (Os economistas).

7 MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2004. p. 120. (Coleção

Como se vê, não foi a propriedade privada que concebeu o trabalho alienado, mas foi o modo alienado em que a realização do trabalho passou a ser requerida que aperfeiçoou a forma jurídica da propriedade atual. Com isso, a forma moderna do trabalho representa o âmago da reprodução capitalista, funcionando como a fonte que gera o valor das mercadorias e constituindo-se em momento de alienação humana. A sociedade obedece a leis econômicas como se naturais fossem.

Resta claro, então, que o objetivo da produção não é gerar empregos, tampouco satisfazer as necessidades humanas, mas gerar valor e, a partir daí, viabilizar a extração de mais valia. O problema é que, como o sistema precisa de consumidores, o desemprego estrutural por ele engendrado, além de ter ocasionado o maior problema social contemporâneo, também criou as condições para a própria crise do capitalismo, a despeito de seus subterfúgios, tendo em vista que a extraordinária produtividade alcançada pelas inovações tecnológicas não estão acompanhadas do correspondente aumento do mercado consumidor, que foi encolhido por ocasião da exclusão de boa parte da mão-de-obra.

Tal é a irracionalidade da lógica de valorização do dinheiro que, em situações de queda acentuada dos preços provocada por uma superprodução seguida de subconsumo, colossais quantidades de meios de produção ficam paralisadas à espera de tempos melhores. Em situações extremas, os bens que já foram produzidos são simplesmente demolidos. Isso tudo para forçar a alta dos preços, assegurando, enfim, que a finalidade do valor seja alcançada. Nesse sentido, escreve Robert Kurz:

A submissão do conteúdo sensível do trabalho e das necessidades à auto- reflexão cega do dinheiro é de caráter monstruoso. Essa monstruosidade manifesta-se, durante a evolução da modernidade, em escala historicamente crescente, nas crises em que enormes quantidades de recursos humanos e materiais ficaram paralisados por não poderem cumprir, por motivos incompreensíveis, aquela finalidade absoluta de transformar trabalho vivo em dinheiro.8



8 KURZ, Robert. O Colapso da Modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da

economia mundial. Tradução de Karen Elsabe Barbosa. 6 ed. rev. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 24.

Com isso, toneladas inteiras de alimentos são destruídas sob o pretexto de equilibrar a disparidade entre a oferta e a procura, ao passo que milhões de seres humanos passam fome porque não contribuem para a rentabilidade do capital. Um exemplo conhecido que ocorreu muito no Brasil foi a queimada de incontáveis sacas de café, quando o preço desse produto decaiu, no segundo quarto do século passado, para um patamar bastante reduzido em função da crise de 1929.

A progressiva importância do capital financeiro, como já ventilado, serviu, durante algum tempo, como disfarce para as deficiências enfrentadas pelo setor produtivo, permitindo a valorização do dinheiro a partir de projeções superestimadas de lucro, sem compromisso com as estruturas reais de produção. A crise iniciada em 2008, entretanto, revelou essa farsa, fazendo desaparecer, ainda mais rapidamente do que havia criado, centenas de bilhões de dólares de créditos podres, como num passe de mágica.

A partir de então, quando a valorização fictícia do capital passa novamente a depender preponderantemente dos fatores reais de produção, o desemprego estrutural e o trabalho precário, malgrado já fossem fatos consumados e insuperáveis, crescem em tal rapidez que pulveriza os sonhos de pleno emprego e de progressiva melhoria das condições sociais, alimentados durante as décadas de expansão que se seguiram após a 2ª Guerra Mundial.

Logicamente, a séria crise da sociedade do trabalho é bem diferente do abandono vivenciado pelos miseráveis da Idade Média e do estado degradante e opressor do trabalho desempenhado pelo operariado do século XIX, conforme assevera Robert Castel:

A nova instabilidade, definida e vivida num cenário de proteções, é assim absolutamente distinta da incerteza do amanhã que foi, através dos séculos, a condição habitual do que então se chamava povo. De modo que não tem muito sentido falar hoje em “crise”, se não se avalia a exata medida dessa diferença.9

Não obstante as condições materiais dos desfiliados contemporâneos, para utilizar um termo do próprio Castel, sejam, de fato, bem superiores aos de seus antepassados, o que caracteriza a situação atual como crítica e excludente é menos



9 CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Tradução de Iraci

o patamar de vulnerabilidade social, o qual se encontra elevadíssimo conforme os dados apresentados no capítulo anterior, do que a ausência de correlação entre o desenvolvimento dos fatores de produção e o bem-estar da população.

A sociedade atual dispõe de todo o aparato técnico-científico para oferecer a todos os seres humanos os meios necessários para uma vida confortável e livre, requerendo um tempo mínimo a ser dedicado ao trabalho. Todavia, a lógica de reprodução do capital, interessada tão-somente em atingir o fim destrutivo e indomável de auto-acumulação do valor, erigiu o dinheiro à condição de sujeito desse processo, subordinando todas as pessoas e suas necessidades aos ditames da economia capitalista.

Desse modo, mesmo aqueles que ostentam uma posição de destaque na sociedade, podendo adquirir todos os bens que consideram importantes e usufruir das diversas formas de entretenimento disponíveis, se encontram igualmente servos da abstração que se tornou o trabalho. Conforme Herbert Marcuse, pensador alemão componente do grupo que ficou conhecido como a primeira geração da Escola de Frankfurt, o avanço dos meios de comunicação e de locomoção, as distrações midiáticas e o fácil acesso – aspirado ou real - a diversos artigos de luxo proporcionam uma relativa sensação de conforto que impede as pessoas de se atentarem para o verdadeiro problema, que é “a consciência de que poderiam trabalhar bem menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações”.10

Isso porque o que importa não é a mera comparação mecânica entre as condições de vida das gerações atuais e as das que a precederam, mas sim a efetivação das possibilidades concretas que os meios disponíveis oferecem para o livre desenvolvimento das faculdades humanas e para a consecução de maior satisfação material. Qualquer ponderação acerca de uma transformação qualitativa da sociedade deve visualizar o potencial que as forças produtivas e os recursos disponíveis oferecem e o modo pelo qual estão sendo aproveitados na prática.

Contudo, a satisfação das necessidades humanas, é preciso ressaltar, não será alcançada mediante a simples disponibilização, em todos os quadrantes do planeta, de uma montanha de bens de utilidade duvidosa, a serem descartados após



10 MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. 6.

pouco tempo de uso, para todas as pessoas consumirem de maneira destrutiva. É preciso modificar a cultura do descartável, do supérfluo, da efemeridade e do desperdício que marca o consumo e que, não raras vezes, se reflete na superficialidade das próprias relações sociais.

A produção, além de estar voltada para o benefício de todos, tem de obedecer aos limites naturais do planeta. A degradação ambiental, levada a cabo pelo desenvolvimento das forças produtivas, afeta toda a humanidade, comprometendo não só a qualidade de vida, mas a própria sobrevivência da espécie, como bem destaca Meton Marques de Lima:

O Direito Ambiental enquadra-se nos direitos fundamentais de terceira geração, mas de primeira preocupação. Os dinossauros, com apenas cem gramas de cérebro, viveram 150 milhões de anos na Terra, enquanto o ser humano, com apenas 1.500 gramas de cérebro, já dá sinais de sua auto- extinção aos dois milhões de anos.11

A racionalidade do ser humano acabou engendrando os próprios mecanismos que podem levá-lo à extinção. Porém, não cabe regressar a formas primitivas de organização, mas direcionar a tecnologia e demais produtos da inteligência humana para a satisfação de seus próprios objetivos, de maneira sustentável, o que pressupõe o rompimento com a lógica destrutiva do capital.

Mészáros, com um exemplo simples, elucida bem o tamanho grau de devastação que haverá se os recursos energéticos fossem utilizados, por todos os países, da mesma forma que os usam os Estados Unidos:

Basta pensar na tremenda discrepância entre o tamanho da população dos Estados Unidos – menos de 5 por cento da população mundial – e seu consumo de 25 por cento do total de recursos energéticos disponíveis. Não é preciso grande imaginação para se ter uma idéia do que ocorreria se os outros 95 por cento adotassem o mesmo padrão de consumo.12

Resta claro, portanto, que é condição do bem-estar da humanidade a construção de um novo modelo de metabolismo social que se contraponha ao



11

LIMA, Francisco Meton Marques de. Elementos de direito do trabalho e processo trabalhista. 12. ed. São Paulo: LTr, 2007. p. 223.

12 MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2004. p. 40. Apud ANTUNES,

Ricardo. O caracol e sua concha: ensaios sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 119 e 120. (Mundo do trabalho).

hedonismo consumista13 que vigora entre os mais abastados e que é difundido para todo o globo terrestre como o estilo de vida a ser seguido.