• Sonuç bulunamadı

Bir İşte Çalışmıyor Olmaktan Kaynaklanan Sorunlar

BÖLÜM 3: ARAŞTIRMANIN BULGULARI

3.1. Ev Hanımlarının Ev Hanımlığına Yönelik Görüşleri ve Yaşadıkları Sorunlar

3.1.4. Bir İşte Çalışmıyor Olmaktan Kaynaklanan Sorunlar

Os procedimentos cervantinos na construção dos protagonistas de sua obra, Dom Quixote e Sancho Pança, serão fundamentais para a consolidação da imagem da dupla: a imagem do cavaleiro e do escudeiro atingirá tal grau de consolidação que bastarão poucos traços para que a dupla seja identificada. Esse fenômeno foi tratado por alguns especialistas como Riley (2001) e Watt (1997).

Riley, em “Don Quijote, del texto a la imagen”, esboça algumas respostas para a questão da popularidade e da recorrência das imagens das personagens cervantinas. Primeiro, centra-se na questão da gênese das personagens e, depois, na técnica narrativa de Cervantes.

Com relação à origem das personagens, Riley, apoiado em Bakhtin, afirma que o autor espanhol poderia ter-se inspirado nas figuras de Quaresma e Carnaval, amplamente conhecidas desde a Idade Média. Outra possibilidade seria a recriação de Ganassa e Botarga, dois cômicos italianos muito populares no final do século XVI. As duplas em questão apresentam os mesmos aspectos físicos de Dom Quixote e Sancho: um é alto e magro; outro, baixo e gordo. Porém, o fato de as referidas duplas e de as personagens cervantinas terem sido extremamente populares na época em que foi lançado o Quixote não justifica a permanência da popularidade do cavaleiro e do escudeiro ao longo dos séculos. Por isso, Riley perscruta o texto cervantino.

Nele, Riley aponta três aspectos da técnica do autor que poderiam ser responsáveis pela fixação das imagens na mente dos leitores: a descrição, a caricatura e as questões de percepção visual apresentadas dentro da estrutura do livro. Porém, dois desses aspectos serão rechaçados — especificamente, a descrição e a caricatura.

Com relação à descrição, o crítico escocês diz:

Anteriormente creía que la naturaleza extremadamente memorable de los recuerdos visuales tenía algo que ver con el realismo, o al menos con el effet du réel de Barthes. Pero si es así, evidentemente no ha de ser mediante la profusión de descripciones pormenorizadas como las que utilizaron los grandes realistas modernos, como Balzac, Dicken, Galdós o Arnold Bennet. Las descripciones físicas cervantinas de sus héroes y de otros componentes de la imagen son siempre concisas y relativamente poco frecuentes (...). La viveza se

logra más por el uso de detalles bien escogidos y dosificados que por la enumeración de particulares. [p. 177]

Em nosso modo de ver, a descrição é, de fato, bastante importante para a fixação da imagem da dupla na mente dos leitores do Quixote. Essa “concisão” apontada por Riley é um dos elementos, como vimos anteriormente, responsáveis pela flexibilização do texto e que propiciarão ao artista a oportunidade de ilustrar a obra segundo sua própria interpretação (como veremos adiante, a figura de Dom Quixote está bem delineada na obra de Cervantes; Sancho, por sua vez, embora apresente poucos traços, resume-se aos traços essenciais para defini-lo).

Riley acredita que a concepção das personagens poderia estar relacionada com a caricatura, técnica já existente na época de Cervantes; porém, afirma que não há nenhuma distorção de alguma forma física extratextual, como nas caricaturas plásticas, ou seja, não existe um modelo anterior, um original distorcido pela representação caricaturesca. Nesse ponto, discordamos de Riley, pois, a nosso ver, Dom Quixote e Sancho são inegavelmente caricaturas: eles são caricaturas do cavaleiro andante e do escudeiro — tanto tradicionais como ficcionais. Na literatura cavalheiresca, essas personagens são geralmente homens jovens, belos e fortes, justamente o oposto das personagens cervantinas.

Finalmente, o terceiro e último aspecto apresentado por Riley, que parece ser a explicação para as questões por ele colocadas, está relacionado com a percepção da realidade pelo Cavaleiro da Triste Figura:

En tercer lugar, el Quijote es una novela concebida en términos fuertemente visuales, y las cuestiones fundamentales de percepción visual se plantean dentro de la estructura del libro. De ahí su perspectiva dual: es a consecuencia de la peculiar locura de don Quijote por lo que se recuerda repetidamente al lector de forma indirecta cómo son las cosas y las personas del libro, incluido el propio caballero. La aberración óptica por la cual los objetos cotidianos se transforman a los ojos de su mente — los molinos se convierten en gigantes, las ovejas en

soldados, las ventas en castillo, etc. — tiene un efecto de sugestión recíproca en el lector. Plantea la comparación de las dos cosas en su interior, aunque sea de forma momentánea. Ello vale también para el propio personaje. Lo vemos imaginándose a si mismo como apuesto caballero con una armadura resplandeciente, o como un joven galante, y recordamos continuamente el espectáculo absurdo que da a los demás. Esta sugestión funciona a menudo sin ninguna descripción añadida, y consolida la impresión general que nos hemos formado de su apariencia. [op. cit. pp. 177-178]

O crítico britânico conclui seu ensaio afirmando que a imagem do Quixote é a expressão da idéia do quixotesco, ou seja, as imagens evocam, sobretudo, o que são. A razão para isso é que as personagens são figuras míticas e que as reconhecemos talvez porque podemos encontrá-las dentro de nós mesmos.

Outro autor que relaciona a perenidade das imagens quixotescas com sua essência mítica é Ian Watt, que considera tais personagens verdadeiros “mitos visuais”.

Em Mitos do individualismo moderno, Ian Watt (1997) faz interessantes observações sobre a gênese e o desenvolvimento do mito21 quixotesco. Porém, o

que nos interessa, efetivamente, destacar nesse texto, e que está diretamente relacionado ao nosso trabalho, é a afirmação do autor de que as personagens converteram-se, ao longo dos séculos, em “mitos visuais”: "ao contrário de Fausto ou de Dom Juan, Dom Quixote e Sancho tornaram-se mitos visuais, graças, pelo menos em parte, ao modo como foram caracterizados por Cervantes (...)" [p. 84].

É interessante observar que Watt aponta os dois protagonistas da obra como mitos. Sancho, muitas vezes relegado a segundo plano por críticos e ilustradores, é parte intrínseca do mito:

21

Dada a complexidade do tema "mito" e as inúmeras definições que essa palavra recebeu ao longo do tempo, na introdução de seu livro, Watt nos apresenta a definição com a qual trabalha no momento em que o escreveu: "uma história tradicional largamente conhecida no âmbito da cultura, que é creditada como uma crença histórica ou quase histórica, e que encarna ou simboliza alguns dos valores básicos de uma sociedade". [p. 16]

Outro aspecto da permanente universalidade do nosso mito vem do fato de Cervantes ter criado não um, mas dois personagens convincentes em sua esfericidade; ele apresenta a relação entre Dom Quixote e Sancho Pança de um modo psicologicamente autêntico e ao mesmo tempo útil no enlace de alguns temas maiores do romance. [p. 84]

Um fator fundamental para a gênese do mito é a maneira como Cervantes atribui às suas personagens aspectos físicos e psicológicos. À primeira vista, as duas personagens nos parecem opostas; porém, examinando-as mais detalhadamente, observamos que uma complementa a outra — ou seja, há alguns fatores de unificação das personagens:

As imagens visuais de Sancho e Dom Quixote incorporam muito dos contrastes entre as idéias que os dois defendem. Começam tais contrastes na diferença de ordem física —magro e gordo, alto e baixo, chegando a algumas dualidades de ordem geral e simbólica. No plano psicológico, Quixote e Sancho apresentam as polaridades do espírito e da carne, cérebro e estômago, céu e terra, sonho e realidade, passado e presente, literatura e vida; na esfera social, evidencia-se a dicotomia de cavaleiro e camponês, do herói autoproclamado em face do covarde confesso, de introvertido e extrovertido, de solitário e de gregário, de solteirão e homem casado.

(...)

As muitas dualidades que Dom Quixote e Sancho representam não são, portanto, nem absolutas nem monolíticas (...) a sabedoria da loucura de Sancho é o perfeito complemento da sabedoria da loucura do Quixote. Quanto mais os vemos e ouvimos, tanto mais claro vai se tornando que — contrariamente às várias simplificações de seu relacionamento implícitas na visão popular expressa por Orwell — Cervantes realmente pinta Quixote e Sancho com um senso de humor e uma concretude verdadeiramente indestrutíveis; por isso, eles não podem ser confinados nos limites de nenhuma padronizada tendência de oposição social, moral ou psicológica. [p. 88]

Porém, o que parece tornar as personagens verdadeiros mitos visualizáveis é principalmente o contraste físico entre ambas, pois, ao descrever o mito, Watt parece descrever-nos um quadro:

Se nos fosse dado ver22 um cajado e uma bola andando emparelhados por uma estrada, imediatamente os reconheceríamos como Dom Quixote e Sancho Pança. Os contrastes evocados pela aparência visual da dupla são inumeráveis, eles parecem abarcar quase tudo: Quixote,

22

esquálido e empertigado, como uma maltratada cúspide gótica tentando tocar o céu, e Sancho, curto e encurvado, olhando para baixo por cima de sua barriga e pensando no que lhe irá acontecer da próxima vez. Suas montarias completam a comicidade dos dois: Rocinante, o cavalo esquelético, e Ruço, o asno arredondado, animais que, como seus donos, são ridiculamente incompatíveis, mas inseparáveis. [p. 88]

Segundo essa descrição, não apenas os homens, mas também suas montarias comporiam o mito visual, ou seja, imediatamente reconhecemos as personagens cervantinas quando vemos um cavaleiro alto e magro sobre um cavalo igualmente esquelético e um escudeiro baixo e gordo sobre um burrico. Porém, os animais, embora sejam personagens de relevo na obra de Cervantes, não são indispensáveis para a identificação da dupla.

A nosso ver, há outros elementos tão ou mais importantes que as montarias — e que também funcionam como “explicitadores” do mito, isto é, como marcas identificadoras e mitificadoras das personagens cervantinas —: são os moinhos de vento e o bacielmo.

Com relação ao episódio dos moinhos de vento, o próprio Watt afirma que

(...) O recontro nos proporciona uma imagem pictórica altamente representativa do mito; sua qualidade emblemática iria tornar-se evidente na adoção do lugar-comum "investir contra moinhos de vento". A frase provavelmente denota um empreendimento cuja total impraticabilidade deriva da disparidade ridícula entre certo propósito criado pela imaginação de um indivíduo e a poderosa insensibilidade do seu objeto. No uso popular a frase tem ainda uma conotação especificamente idealista: o indivíduo não está buscando qualquer vantagem; é inspirado por uma nobre mas ilusória idéia de ajudar a humanidade. [pp. 76-77]

A nosso ver, além desses dois sentidos da expressão “lutar contra moinhos de vento", há outro: o homem que luta idealisticamente contra forças superiores à sua. Entretanto, o que nos importa nessa citação de Watt é a sua afirmação de que a luta com os moinhos de ventos “é uma imagem pictórica altamente representativa do mito”.

Hasta ahora, he sugerido que la efectividad de esta imagen deriva de una asociación extratextual. Pero debe notarse igualmente que su efecto más inmediato es evocar todo el contexto quijotesco. Contemplar la imagen de Don Quijote inclinado hacia un molino significa captar el sentido de ese “adjetivo familiar” que es quijotesco. La imagen es una expresión visual de las principales cualidades que asociamos con don Quijote en sus primeros días, los más locos: caprichoso, desorientado, poco práctico, idealista, militante, incompetente. La función primordial de los molinos en la imagen es proclamar que “atacar molinos es quijotesco”. [p. 181]

Concordamos com Riley que o episódio dos moinhos de vento condensa as principais características de Dom Quixote. A imagem é de uma força plástica extraordinária, dadas as proporções dos oponentes: de um lado, Dom Quixote velho, magro, vestindo uma pesada armadura, sobre um esquelético cavalo; de outro, as estruturas imensas e móveis dos moinhos de vento. Além disso, os moinhos conjugam as duas perspectivas que norteiam a obra: a aparência e a essência ou a imaginação e a realidade. Em aparência, eles são moinhos, mas, na essência, são gigantes; no plano da realidade são moinhos, no da imaginação, são gigantes. Se compararmos a “luta” contra os moinhos de vento com o ataque às ovelhas — que, pela percepção de Dom Quixote, compunham exércitos —, notamos que, visualmente, o impacto da primeira batalha é muito maior que o da segunda.

Cremos que o episódio dos moinhos de ventos é um dos mais ilustrados. Recentemente, a editora Peirópolis lançou uma versão do Quixote em quadrinhos para o público infanto-juvenil. O desenhista, Caco Galhardo, em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo23, conta-nos sobre sua dificuldade em evitar o episódio:

“Quando comecei a desenhar, tentei fugir da cena [dos moinhos], que muitos artistas já retrataram. Mas não consegui. Ela é realmente muito forte, não é à toa que foi tão visitada”. Entretanto, como veremos, nem sempre esse episódio teve a sorte de ser escolhido para compor o conjunto de ilustrações de algumas edições. No século XVIII, ele será excluído de importantes edições ilustradas.

23

O outro elemento citado por nós, o bacielmo, é também de importância fundamental para a criação dessa imagem do mito. Assim como os moinhos de vento, ele é um objeto carregado de simbolismo. Segundo Dom Quixote, no capítulo 21 da primeira parte, o bacielmo é um “yelmo de oro”; para Sancho, é “una cosa que relumbra”, “que vale un real de a ocho como un maravedí”, um “almete, que no semeja sino una bacía de barbero pintiparada”; para o narrador, é uma “bacía de azófar”. Dom Quixote imagina que o estranho formato do elmo deve-se ao fato de que ele caiu em mãos de alguém que não sabia seu valor e, como era de ouro puríssimo, seu novo dono o derreteu e vendeu a metade do ouro; com a outra metade fez aquele elmo. O cavaleiro promete consertar o bacielmo no primeiro lugar onde haja um ferreiro e deixá-lo melhor que o elmo que “forjó el dios de las herrerías para el dios de las batallas”, ou seja, o elmo que o deus Vulcano teria forjado para Marte.

Ainda nesse capítulo, Sancho pergunta a Dom Quixote se pode trocar a albarda de seu asno pela albarda do asno do barbeiro, que estava em melhores condições. O cavaleiro permite a troca, alegando ser a albarda um despojo de guerra. Observemos que em nenhum momento nesse capítulo a albarda é chamada de “jaez”, como ocorre com a bacia, que diversas vezes é tratada de “elmo”.

No final do capítulo 44 da primeira parte, cavaleiro e escudeiro reencontram o barbeiro na estalagem de Juan Palomeque. O barbeiro, ao ver a albarda que Sancho lhe havia tomado a título de botim, chama-o de ladrão e exige a devolução da albarda e da bacia. Nesse momento, chega Dom Quixote e diz que na pendência da albarda não se mete; o que aconteceu foi que seu escudeiro pediu-lhe licença para retirar os jaezes do cavalo do vencido e ele a concedeu. O que Dom Quixote não sabia explicar era como o jaez se transformou em albarda. Segundo o cavaleiro,

“esas transformaciones se ven en los sucesos de caballería”. Porém, o cavaleiro não tinha dúvidas com relação à bacia: aquele objeto não era uma bacia, ma sim o elmo de Mambrino. Durante essa discussão, se era bacia ou se era elmo, Sancho cria o neologismo “baciyelmo”, a justaposição do vocábulo “bacia” ao vocábulo “elmo”.

Na iconografia do Quixote, o bacielmo é um dos objetos que melhor representam a loucura de Dom Quixote, pois um cavaleiro andante com uma bacia de barbeiro na cabeça é a imagem cômica e ridícula de um louco, características próprias de Dom Quixote. E notemos que, embora atualmente pouca gente saiba como é uma bacia de barbeiro do século XVII, esse elemento sobrevive até hoje através da iconografia do Quixote. Poderíamos dizer que já deixou de ser bacia para ser elmo, graças, principalmente, a suas inúmeras representações pictóricas, iniciadas, como vimos, com os ilustradores.

O bacielmo é um objeto que, assim como os moinhos de vento, condensa dois elementos básicos do Quixote: a realidade e a imaginação; porém, enquanto os moinhos representam algo maléfico — gigantes a serem combatidos —, o bacielmo conjuga o sublime — um elmo de oro comparado ao de deuses mitológicos — e o grotesco: uma simples bacia de barbeiro. E o mais interessante é que aqui não há oposição; de fato, com a formação do neologismo “baciyelmo” há uma harmonização dos dois elementos, a bacia e o elmo, da mesma forma que se justapõem o sublime e o grotesco. Porém, como apontado por Molho, na base deste neologismo está o elmo e não a bacia:

(...) Lo mismo ocurre con el baciyelmo, ya que el objeto controvertido no puede ser sino yelmo o bacía disyuntivamente. Designarlos como bacyelmo es optar por la base yelmo: un bacyelmo es un yelmo que es bacía, aunque nominalmente yelmo, y no una bacía que fuera yelmo.

Ahora bien: la condensación baciyelmo tiene por efecto evocar el yelmo de Mambrino bajo su aspecto específico y definidor de bacía, como cosa que, si es o parece yelmo, no deja de serlo por su misma especificidad de bacía. [p. 283]

Ou seja, se concordarmos com Molho que o elmo é preponderante sobre a bacia, deveremos considerar que o bacielmo é mais sublime que grotesco, pois é mais elmo que bacia. A nosso ver, esse objeto é um dos símbolos mais carregados de poesia que existem na obra de Cervantes.

Portanto, nesse conjunto descrito por Watt como “mito visual”, incluiríamos esses outros dois elementos: o bacielmo e os moinhos. Entretanto, todos esses elementos (cavaleiro alto e magro, cavalo esquelético, escudeiro baixo e gordo, asno, moinhos e bacielmo) não têm de estar necessariamente apresentados como um conjunto para identificarmos o mito. Geralmente, temos algumas associações entre esses objetos, sendo algumas mais importantes que outras para tal propósito. Um cavaleiro alto e magro sobre um cavalo magro, ambos retratado isoladamente, não nos remetem necessariamente a Dom Quixote, porém isso ocorrerá se juntarmos à cena o bacielmo ou o escudeiro gordo sobre o burrinho ou os moinhos de vento no segundo plano. Por outro lado, um lavrador baixo e gordo com seu asno, retratado isoladamente, não nos lembra necessariamente Sancho se não temos o cavaleiro ao lado. Obviamente, se as cenas são ilustrações acompanhadas do texto ou de alguma legenda, não caberá dúvida de que se trata das personagens cervantinas.

Diante da comprovação da popularidade das personagens Dom Quixote e Sancho e da recorrência de suas imagens, tanto Riley como Watt concordam que esse fenômeno é decorrente do fato de essas personagens terem-se, ao longo dos anos, transformado em verdadeiros mitos, ou melhor, em um só mito composto pelas duas personagens. Os dois autores são explícitos ao atribuir à iconografia da dupla uma importância fundamental na concretização desse mito. Watt, inclusive, afirma tratar-se de um mito visual.

Em nosso modo de ver, tanto a teoria de Watt como a de Riley justificam nossa afirmação de que há uma consolidação da imagem dessas personagens e que essa consolidação está, por um lado, intimamente relacionada ao texto cervantino e, por outro, à tradição iconográfica do Quixote. Como dissemos, no caso de Dom Quixote e Sancho, o texto cervantino não é tão flexível, gerando imagens muito mais bem definidas e, por sua vez, mais facilmente consolidáveis.

Observamos que a imagem do cavaleiro e do escudeiro, além de se consolidar, sofrerá um processo de ideogramização ao longo dos séculos. Como afirma Watt, basta uma pequena quantidade de traços (“um cajado e uma bola”) para reconhecermos a dupla. Esses poucos traços — assim como ocorre com os ideogramas — passam a ser uma espécie de símbolo gráfico que corresponde a uma idéia (justamente o conceito de ideograma) Ao vê-los, automaticamente remetemo-nos à obra cervantina.

O bacielmo e os moinhos são objetos tradicionalmente relacionados à figura de Dom Quixote. Assim como ocorre com esses objetos, observamos que, ao longo dos séculos, outros elementos do Quixote torna-se-ão tradicionais, conforme veremos no capítulo seguinte.