A. Bina ve Yapı Eserinin Bulunması Koşulu
1. Bina Kavramı
A futurologia é o capítulo mais incerto das ciências sociais.52 Seria, porém, renunciar às armas que elas nos proporcionam negar-se à análise das tendências, de longo e curto prazos, que os processos sugerem.
52 A esse respeito, é salutar recordar as sarcásticas palavras de Alan Wolfe (1987:369): “...não é possível saber o que nos reserva o futuro. Embora fosse satisfatório prever com exatidão a que se parecerá a próxima etapa, somente um néscio, um astrólogo ou um cientista político pode- riam tentar afirmá-lo”.
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V DE M O C R A C I A E FO R Ç A S AR M A D A S N O CO N E SU LDe diversas perspectivas teóricas, percebe-se a convergência quan- to ao fator “técnico” no que concerne à identificação dos riscos militares para a democracia. Um liberal pluralista como Robert Dahl alicerça seus temores em relação às “poliarquias” existentes numa exposição de longa duração histórica. Segundo ele, o desenvolvimento técnico propiciado por exércitos de massa, com ampla difusão popular das armas, foi favo- rável à democracia, situação da qual hoje nos distanciamos, em grande medida pelo alto grau de sofisticação da guerra.53 Apesar disso, afirma que as poliarquias se multiplicaram e atribui o fato ao desenvolvimento de estratégias de “subordinação militar” por parte do poder civil. A sor- te da democracia seria jogada, então, no espaço existente entre o fortale- cimento de um núcleo militar resistente, que — por seus princípios de funcionamento institucional e por seu objetivo final, a guerra — respon- de a uma lógica oposta à da democracia, e a eficácia dos meios de subor- dinação militar empregados pelo poder político. Resumindo, poder-se-ia dizer que as condições técnicas e organizacionais atuais da guerra, ao ex- porem, com mais agudeza do que nunca, o “paradoxo do controlador- controlado”,54 exacerbam a responsabilidade política em relação à admi- nistração do fator militar, em termos da manutenção e da qualidade dos regimes democráticos.
53 Raciocinando com Robert A. Dahl (1991:292 e segs.), pode-se fundamentar uma tese contrá- ria à de Huntington com relação aos efeitos da “neutralidade” política a que levaria um elevado nível de profissionalização nas Forças Armadas. Isso não só por aproximação com uma postura como a de Stepan, e sua fundamentação de um “novo profissionalismo” que inclui o papel polí- tico, como por razões mais profundas. A reprodução da ordem institucional militar, apoiada em normas disciplinares e hierárquicas que constituem seu eixo e produzem um ethos específi- co, garante a reprodução de uma ordem social sempre assimétrica, em maior ou menor medi- da. Vista dessa forma, a neutralidade do profissionalismo militar decorre da inércia da dominação civil, o que se torna ainda mais transparente no discurso do próprio Huntington, quando expõe o “realismo conservador” do militar profissional (ver Huntington, 1985). Em se- gundo lugar, como organização complexa capaz de fixar seus próprios fins, a instituição militar nos remete à tese de Dahl: quanto maiores o tecnicismo, a racionalização e a eficiência no cumprimento dos objetivos, maiores as dificuldades de controle por parte de instituições hete- ronômicas à militar.
54 Bañón & Olmeda (1985:33 e segs.). Esse paradoxo resulta do fato de as Forças Armadas serem, ao mesmo tempo, representantes da idéia abstrata de Estado e suporte material de seu poder real e contingente. Isso provoca uma persistente ambigüidade entre “lealdade à nação e simples obediência ao governo”. Como instituição do Estado, exemplifica uma rup- tura na lógica do liberalismo, no que diz respeito às fontes de legitimidade entre os políti- cos e os funcionários de Estado. A legitimidade destes últimos não decorre da escolha direta dos cidadãos, mas da sujeição a normas profissionais internas destinadas a otimizar a execução dos fins institucionais. “Este deslocamento das fontes de legitimidade não pode senão reforçar o espírito corporativo e a percepção da organização intermediária como au- têntico critério definidor dos fins” (p. 35). Daí se conclui que qualquer lacuna na definição dos fins institucionais e de controle do seu cumprimento maximiza o potencial autônomo da instituição.
Nas correntes teóricas ligadas à sociologia crítica, o tema militar re- presentaria um caso específico dentro de uma tendência política contempo- rânea contraditória: enquanto o âmbito daquilo que se pode decidir politica- mente tende a se ampliar, os espaços de decisão são cada vez mais restritos e sujeitos a mecanismos tecnocráticos que aumentam a quota de autoritaris- mo nos regimes políticos, reduzindo o debate sobre fins (específico da polí- tica) a questões de meio (espaço privilegiado do técnico).55
Esses limites de análise significam que um diagnóstico sobre as pers- pectivas da democracia em relação às Forças Armadas deve incluir uma du- pla avaliação: as implicações para a democracia do grau e da forma pelos quais as Forças Armadas se ajustam às exigências do campo técnico e orga- nizacional, e a margem de subordinação atingida no âmbito político, que pode ser vista pelo ângulo da “supremacia civil”,56 que, no fundo, decorre de uma relação entre ambos os aspectos. De qualquer modo, esta não ga- rante o bom desempenho democrático de um regime, porque são concebí- veis — e exemplificáveis historicamente — casos bem-sucedidos de subordi- nação militar, sem resultados democráticos. A democracia implica, ineludi- velmente, uma questão de valores.
Refletindo-se sobre a instituição militar, conclui-se que ela saiu for- talecida em sua coesão corporativa, em conseqüência da defesa dos atos praticados durante a ditadura e do desenvolvimento posterior de suas fun- ções. A vitória sobre a “subversão” — sobretudo da “inteligência” — e a posterior inserção num esquema de atuação em operações regionais e con- juntas com forças da ONU contribuíram para diminuir seu tradicional ethos difuso de serviço, decorrente do pouco destaque conferido a sua missão essencial. Estaria, pois, em vias de superar suas síndromes históri- cas de “mimetismo civilista” e “identidade difusa” a que já me referi. O fa- to, porém, de essa afirmação de identidade se dar por intermédio do bom desempenho da ordem interna em “tarefas não-tradicionais” não é de bom augúrio para a democracia.
A implantação social da instituição militar remete ainda a um velho problema uruguaio: a difícil visualização das funções militares pelos cida- dãos. Mais ainda quando a redução orçamentária e de efetivos não foi acompanhada de uma reforma estrutural que compensasse, em qualidade do serviço, a diminuição de importância e defendesse, no nível popular, a credibilidade e a legitimidade das missões que as Forças Armadas têm a cumprir. Isso endossa a propensão a uma “ingênua militarização da socieda-
55 Bauman (1996).
56 Para fins de análise, pode-se entender por “supremacia civil” “a capacidade de um governo civil democraticamente eleito de levar adiante uma política geral, sem intromissões militares; de definir as metas e a organização geral da defesa nacional, de formular e executar uma políti- ca de defesa e de supervisionar a aplicação da política militar” (Agüero, 1995:49).