3. Belediyelerin Türk İdarî Teşkilâtındaki Yeri
4.3. Belediye Encümeni
Já que começamos a citar nossos sujeitos de pesquisa, vamos trilhar os caminhos ao lado deles, nossos parceiros na caminhada. Para tanto, precisamos conhecer o cronotopo em que a professora pesquisadora e sujeitos alunos estavam inseridos e como se deu a constituição do trabalho.
Conforme já dissemos, nossa pesquisa surgiu após a atividade realizada em sala de aula, numa turma de EJA, nível III, turno noturno, de uma escola municipal de Natal. Enquanto docente da turma, ainda dispúnhamos dos trabalhos produzidos pelos alunos quando vislumbramos nos inserir no mestrado. Inseridos no Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, na área de Linguística Aplicada, na condição de aluno especial, interessamo-nos pelos estudos culturais e de identidades ao cursar, em 2013, a disciplina “Práticas Discursivas e Subjetividade”. Com o desafio de propor um projeto, percebemos que os textos produzidos pelos alunos, os diários pessoais, os quais ainda possuíamos, eram uma fonte riquíssima de dados que poderiam nos fazer investigar como se dá a construção de identidades de alunos da EJA. O interesse pela EJA não foi por acaso. Uma de nossas primeiras experiências enquanto docente se deu em uma turma de EJA, numa escola estadual de Natal. Desde então, nossos caminhos sempre se cruzaram, pois, por vários anos, ministramos disciplinas na modalidade, seja na rede pública e/ou privada. E foi esse contato que nos trouxe inúmeras inquietações, que iam desde a crescente juvenilização na modalidade, à evasão, aos conteúdos curriculares ministrados, dentre outros aspectos.
A turma que nos proporcionou o corpus de pesquisa integrava, como dissemos, uma escola municipal situada na zona norte da cidade de Natal. A escola foi criada sob decreto nº 5.729, em 23 de agosto de 1995 e está presente na comunidade desde 1998. É uma escola de porte I18, ou seja, possui grande número de alunos matriculados (cerca de 1500), funciona em três turnos e aderiu ao projeto Mais Educação19.
Nossa EJA III C (como chamávamos a turma) era composta por cinquenta e um alunos matriculados. Desses, trinta e quatro alunos frequentaram com alguma regularidade. Ao final do semestre letivo do ano de 2012, quinze alunos foram aprovados e dezenove foram retidos na disciplina de Língua Portuguesa. Esse dado é muito relevante e preocupante, pois podemos notar que mais da metade da turma, trinta e seis alunos, apenas se matriculam, evadiram-se no meio do processo escolar ou não conseguiram êxito no final do período letivo, interrompendo
18 Uma escola de porte I é aquela que possui mais de 1200 alunos matriculados. Isso implica em valores repassados à escola, bem como as gratificações pagas aos gestores. Mais informações em: <http://www.mineiropt.com.br/media/uploads/lib/89Mensagemn089PLCDefineoscritriosparaaclassificaodasesco laspblicasestaduais.pdf>. Acesso em: 28 jan. 2015.
19 “O Programa Mais Educação, instituído pela Portaria Interministerial nº 17/2007 e regulamentado pelo Decreto 7.083/10, constitui-se como estratégia do Ministério da Educação para induzir a ampliação da jornada escolar e a organização curricular na perspectiva da Educação Integral. As escolas das redes públicas de ensino estaduais, municipais e do Distrito Federal fazem a adesão ao Programa e, de acordo com o projeto educativo em curso, optam por desenvolver atividades nos macrocampos de acompanhamento pedagógico; educação ambiental; esporte e lazer; direitos humanos em educação; cultura e artes; cultura digital; promoção da saúde; comunicação e uso de mídias; investigação no campo das ciências da
natureza e educação econômica”. Disponível em:
mais uma vez sua progressão educativa. Em nossa disciplina, observamos que a reprovação se deu pela baixa frequência e não acompanhamento das atividades propostas. Isso nos trouxe apreensão. Em conversa com colegas docentes, constatamos que a problemática não foi pontual, mas ocorreu em quase todas as turmas da referida escola, o que causa preocupação e pesar.
Mais um aspecto que merece nossa atenção se dá pela juvenilização que a turma apresentava, mas também pela disparidade etária entre os alunos. A idade da turma variava entre os catorze anos (aluna mais nova) aos sessenta e um anos (aluno mais velho). A maioria dos alunos estava na faixa entre dezesseis e dezenove anos, mas também havia um número considerável de alunos na faixa dos trinta anos. Os alunos mais novos, normalmente já estudaram na escola, mas pela repetição, desistência e/ou indisciplina, foram transferidos para o turno noturno. Os discentes de mais idade, os adultos, retornaram à escola pela necessidade de completar os estudos e, assim, melhorar sua qualificação profissional ou poder entrar de forma mais efetiva no mercado de trabalho. Sabemos disso a partir da leitura de outros diários produzidos pelos discentes na atividade.
A diferença etária e a mistura de adolescentes, jovens e adultos na mesma sala tornava o processo educativo difícil de ser realizado. Eram comuns as conversas paralelas, as saídas durante a aula e a troca de agressões verbais entre os alunos, notadamente os mais novos. Outro obstáculo era a recusa em realizar atividades de produção textual. Dentre as muitas queixas, a mais comum era a de que “não sabiam escrever”, pois “produzir texto é algo difícil”. Para tentar minimizar essas duas dificuldades, propomos aos alunos assistir ao filme “Escritores da Liberdade”20
, pois esse filme traz um contexto social que se aproximava do vivenciado pela turma: violência, descrença nos próprios potenciais, resistência à atividades de escrita. Houve uma ótima aceitação do filme. Os alunos gostaram da trilha sonora (Hip
Hop) e da superação demonstrada, ainda mais quando souberam que o filme é baseado em
fatos reais. Podemos arriscar que houve uma forte identificação, tanto que partindo de uma aluna, houve a sugestão de que se produzissem diários pessoais, como o filme retratou.
A sugestão não agradou a todos, principalmente, aos alunos homens, porque eles relacionam a atividade diarista ao universo feminino. No entanto, a aluna que sugeriu a atividade defendeu tão bem sua proposta que conseguiu convencer os colegas resistentes. E com a concordância de todos e todas, pudemos explicar como se daria a atividade. Escolhemos um dia da semana para nos dedicarmos à produção, sextas-feiras, e juntos fomos
20 Ver nota de rodapé 12.
elaborando a estrutura do diário que eles escreveriam. Decidimos que haveria um cabeçalho, um vocativo, a exposição dos acontecimentos mais importantes da semana e/ou de um dia específico. As alunas perguntaram se poderiam decorar a folha em que escreveriam e acertamos que sim. Desenhos, gravuras e adesivos poderiam ser utilizados. Assim, na semana posterior ao filme, iniciamos as produções.
A atividade conseguiu ser realizada por aproximadamente um mês e só foi interrompida porque houve greve docente na rede municipal de educação. Em nosso retorno, com o pouco tempo que nos restava para cumprir as atividades previstas, encerramos a produção dos diários.
Como dissemos, o tema para cada diário era a escrita de algo considerado relevante na semana e/ou em um dia específico. No entanto, em uma semana de produção, um dos alunos sugeriu que escrevessem sobre a escola. Consultada a turma e com aprovação da mesma, houve essa variação. E foi justamente essa produção que escolhemos para nossa pesquisa, pois através dela poderemos apreender como os sujeitos alunos da EJA apresentam a escola que frequentavam, em seus aspectos positivos e negativos. Nesse dia de produção, tivemos a escrita de dezesseis diários. Eles seriam, inicialmente, nosso corpus de análise. No entanto, reduzimos, conforme dissemos, a cinco diários (dois produzidos por alunos, três produzidos por alunas) que trazem a temática da escola e formam nosso corpus para que possamos, através de seus enunciados, pesquisar como se dá a construção de identidades pelos alunos da EJA. Os diários estão analisados em dois grupos. No primeiro grupo, trazemos os posicionamentos otimistas em relação à escola. No segundo grupo, os mesmos sujeitos autores posicionam-se negativamente, denunciando aspectos da escola com os quais não concordam. Em um terceiro momento, realizamos o encontro dessas vozes sociais, numa relação dialógica.
Ao trabalhar com esses enunciados, nosso olhar de pesquisadora procurou fazer uso da exterioridade e, assim, dar um acabamento possível ao dito nos diários. [...] “eu não posso me arranjar sem um outro, eu não posso me tornar eu mesmo sem um outro; eu tenho de me encontrar num outro para encontrar um outro em mim” (BAKHTIN apud FARACO, 2009, p. 76). Sem perder de vista o material – a palavra – e suas muitas possibilidades, sempre voltada ao contexto e ao valor que carrega consigo, para criar com meus autores-criadores a co-criação, para dar um acabamento e, desse modo, poder estabelecer uma relação dialógica com um olhar ativo-responsivo ao que nossa pesquisa pretende: identificar a construção das identidades culturais de alunos da EJA em seus diários pessoais.
6 IDENTIDADES QUE SE CONSTROEM, CAMINHOS QUE SE ENTRECRUZAM: ANÁLISE DO CORPUS
O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.
João Guimarães Rosa
Nossos caminhos agora nos levarão à análise do corpus de pesquisa cuja orientação baseia-se na concepção bakhtiniana de linguagem (BAKHTIN, 2010), analisando os enunciados concretos de sujeitos situados, respondentes e ativos no gênero discursivo diário pessoal. Respaldamo-nos ainda nos estudos de Bauman (2001, 2005) no que concerne à modernidade líquida e nos estudos de Hall (2011, 2012) acerca das construções identitárias, tendo em vista que as identidades são líquidas, fluidas e móveis, estando em um constante processo de (re)construção.
Ademais, tentaremos responder às questões de pesquisa: quais são as identidades culturais construídas pelos alunos da EJA III de uma escola municipal de Natal por meio de seus diários pessoais? Quais as relações dialógicas entre os discursos produzidos por esses alunos em seus diários pessoais? Para tanto, analisaremos os diários que foram agrupados de acordo com os posicionamentos apresentados em seus enunciados, orientando-nos pela teoria exposta nos capítulos anteriores.
Realizaremos essa tarefa agrupando os enunciados que apresentam traços comuns de posicionamento, localizados através dos possíveis campos semânticos21. Por conseguinte, marcaremos esses posicionamentos destacando as marcas linguísticas com negrito e sublinhado simultaneamente. Ressaltamos que se precisarmos reportar algum trecho do diário, o faremos através do uso das aspas. Lembramos que, por motivos de ética na pesquisa, conforme expusemos na metodologia (seção 4) preservamos os nomes dos sujeitos alunos que produziram os diários usando pseudônimos e reproduzimos ipsis litteris o que cada discente
21 Entendemos campo semântico como um conjunto de palavras unidas pelo sentido, considerando tanto sua relevância em termos de atributos semânticos do léxico quanto sua construção.
escreveu. Nesse contexto, pretendemos evidenciar as construções de identidades culturais de alunos da EJA, nível III de uma escola municipal de Natal.