As eleições presidenciais de 1989 representaram o fim de um ciclo, iniciado em 1964 e prolongado até meados da década de 1980 com o Colégio Eleitoral que
86
PARTIDO DOS TRABALHADORES. Resoluções de Encontros e Congressos 1979-1998. Alianças no Parlamento, item 185. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998, p.343.
87
Ibid., p.344
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elegeu Tancredo Neves como presidente e José Sarney como vice-presidente89. Para concorrer a essas eleições, o PT buscou uma composição com o PC do B e o PSB, denominada Frente Brasil Popular. Essa aliança com os partidos situados ideologicamente no campo da esquerda procurou aglutinar as classes trabalhadoras em torno de uma proposta de mudança, representada por Luiz Inácio Lula da Silva90, ex-metalúrgico, líder sindical e um dos principais fundadores do PT. Disputando espaço com Lula no campo da esquerda, encontrava-se Leonel Brizola do PDT.
As expressivas vitórias nos pleitos municipais representaram para o PT, por um lado, a expressão de uma nova relação de forças existentes na sociedade, traduzindo eleitoralmente a acumulação obtida em quase dez anos de lutas sociais. Por outro, propiciou uma nova correlação política, que mudou radicalmente o quadro da disputa presidencial 91.
A conjuntura política daquela campanha foi marcada pela rejeição ao governo do presidente José Sarney. Conforme Amaral (2003), todos os candidatos centristas, tentando reverter a situação adversa, acabaram se desligando do governo, o que provocou “um curioso cenário no qual, todos os 22 candidatos ao Palácio do Planalto se proclamaram de alguma forma, opositores ao governo Sarney” (p.62). Até mesmo o PMDB, partido do presidente, declarou-se “independente” ao lançar a candidatura de Ulysses Guimarães em março de 1989.
Nesse quadro de rejeição à política do governo e de descrédito dos partidos do centro, o espaço político foi ocupado pelos candidatos de oposição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Leonel Brizola (PDT).
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Assumiu interinamente no dia 15 de março de 1985, em função da internação do presidente Tancredo Neves, que veio a falecer em 21 de Abril de 1985. No dia 22 daquele mesmo mês, Sarney foi investido oficialmente no cargo.
90
Vice – Jose Paulo Bisol – PT.
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PARTIDO DOS TRABALHADORES. Resoluções de Encontros e Congressos 1979-1998. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998, p. 376.
No campo da direita, surgindo como “o caçador de marajás”, Fernando Collor de Mello92 apresentou-se à sociedade como um homem corajoso e indignado com a corrupção, polarizando com a esquerda a disputa presidencial.
Lançado por legendas inexpressivas como o PRN, PSC, e PST, Collor soube tirar proveito da legislação e usou o horário eleitoral gratuito desses partidos na TV a seu favor. Em pouco tempo, assumiu o primeiro lugar nas intenções de voto. Sua rápida ascensão lhe garantiu o apoio informal do PFL, que, apesar de contar com a candidatura de Aureliano Chaves, preferiu apostar no nome com mais chances de vitória.
Dentre os 22 candidatos em disputa, Lula (PT) e Collor (PRN) enfrentaram-se no segundo turno das eleições presidenciais de 1989. Naquela conjuntura, os partidos da Frente Brasil Popular, liderados pelo PT, obtiveram – no segundo turno – o apoio formal do PDT e do PSDB. O PMDB deu sinais que integraria uma aliança anti-Collor, mas foi rechaçado pela direção do PT, que temia a identificação com o governo Sarney (AMARAL, 2003).
Apesar da derrota, a experiência de 1989 marcou positivamente o PT, demonstrando sua força política e sua responsabilidade diante da militância e da sociedade. O partido reconhece que “nossas relações com a institucionalidade, ocorre hoje, com um caráter de dramacidade de quem deve dar respostas muito concretas a uma exigência já estabelecida” 93. Por outro lado, a possibilidade de vitória despertou também antigos receios quanto ao parlamento, visto que se constata uma crítica do próprio partido sobre “certo grau de acomodação, de adaptação “exagerada” aos trâmites, usos e costumes da vida institucional.
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Conforme Amaral (2003), Collor apoiou-se no discurso de que a corrupção e a ineficiência administrativa eram as principais causas da crise social que assolava o país, sendo projetado pela mídia nacional durante os anos de 1987 e 1988 como um político moderno, jovem e impetuoso. Ao declarar-se candidato, em março de 1989, já desligado do PMDB, surpreendeu atingindo 9% das intenções de voto, superando os candidatos de centro e de direita: Paulo Maluf (PDS), Ulysses Guimarães (PMDB) e Mário Covas, do recém criado PSDB.
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PARTIDO DOS TRABALHADORES. Resoluções de Encontros e Congressos 1979-1998. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998, p. 449.
Registra-se certa perda do ardor revolucionário das primeiras obras” 94 (grifo nosso).
No entanto, o PT avalia95 a política de alianças traçada desde 1985 e conclui que ela demonstrou-se exitosa. Reconhecia que se colocava para o PT uma responsabilidade maior na busca de alianças capazes de viabilizar um governo democrático-popular com os partidos mais próximos aos seus objetivos programáticos. Entretanto, algum tempo após a experiência de 198996, Lula faria o seguinte comentário: “teria feito tudo outra vez. Só não teria cometido o erro de não ter ido conversar com Ulysses Guimarães no segundo turno de 1989. Esse é um erro que assumo. [...] perdi do Collor com uma diferença de votos que teve o Ulysses97”.
No que se refere ao plano institucional, o PT buscou formar uma ampla frente de oposição ao governo Collor e às suas medidas de caráter neoliberal, atraindo o PC do B, o PCB, o PDT e o PSB, visando ainda às eleições seguintes. A partir da década de 1990, o PT consolida-se como partido de esquerda, passando a ocupar um papel decisivo entre as forças políticas que compõem o sistema partidário brasileiro. As articulações políticas em torno da formação de alianças para as eleições presidenciais de 1994 ganharam força após a vitória do presidencialismo no plebiscito98 de 1993.
Ressalta-se, entretanto, que a conjuntura política de 1993 foi marcada pela renúncia do Presidente Collor e pelo governo do vice Itamar Franco, que completou o mandato até 1994. Naquele contexto, o PT colocou-se na oposição o novo governo, impedindo, inclusive, uma aproximação, ou mesmo uma
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PARTIDO DOS TRABALHADORES. Resoluções de Encontros e Congressos 1979-1998. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998, p. 451.
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VII Encontro Nacional, ocorrido entre os dias 31 de maio e 3 de junho de 1990 em São Paulo.
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Conforme dados do TSE, Fernando Collor venceu obtendo 53 % dos votos válidos, contra 47% de Lula.
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Entrevista de Lula ao jornal O Globo, publicada no dia 25 de novembro de 2001.
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Em 1993 os eleitores foram chamados a escolher entre forma de governo – Monarquia ou República – e sistema de governo – Presidencialismo ou Parlamentarismo. O plebiscito foi proposto na Assembléia Nacional Constituinte, em 1987, como emenda popular, com mais de um milhão de subscritores. Após o plebiscito manteve-se tanto a forma quanto o sistema de governo.
composição de seus quadros com o mesmo. Nesse processo, merece destaque uma decisão tomada pela direção do PT. Na formação dos nomes para compor o presidencialismo de coalizão do governo Itamar Franco, a ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, foi convidada e, mesmo o PT estando na oposição, aceitou o convite e compôs o Governo. A direção do Partido decidiu então punir a ex-prefeita, conforme mostra trechos da Resolução do Diretório Nacional:
[...] considerando: 1 – Que a companheira Luiza Erundina, ao aceitar convite do presidente da República para o cargo ministerial, sem consulta ao partido e em desrespeito à decisão deste, de se situar na oposição ao governo, rompeu com a disciplina partidária; [...] 6 - que finalmente, o cumprimento das obrigações para com o cargo que a companheira Luiza Erundina ocupa no governo, é incompatível com o exercício de seus direitos e deveres para com o partido, estando este na oposição: O Diretório Nacional do PT, no exercício de suas atribuições e com base nos Estatutos e no Regimento Interno do Partido resolve: – suspender todos os direitos e deveres partidários da companheira Luiza Erundina pelo prazo de um ano. 99
Consoante ao exposto, argumenta-se que naquela conjuntura pós-Collor, o PT não se sentia responsável pela governabilidade, impedindo qualquer vínculo com as forças políticas do presidencialismo de coalizão100. No decorrer desse período, o PT já buscava outros partidos para formar uma coligação que viabilizasse o seu programa de governo e a candidatura Lula à presidência da República no pleito de 1994. Dessa forma, o partido decidiu101 buscar uma composição com os seguintes partidos:
[...] uma composição partidária mais ampla que a dos partidos que se assumem como esquerda, como o PSB, o PPS, o PC do B, o PCB e o PSTU. Merecem análise à parte os partidos e articulações de centro- esquerda, particularmente Brizola, com seu PDT e o PSDB, que vêm tendo políticas ambíguas, mas que poderão interferir decisivamente na disputa de hegemonia posta na conjuntura102.
99
Partido dos Trabalhadores. Resolução do DN sobre Luiza Erundina. BOLETIM NACIONAL. São Paulo, n. 68, p. 04, Março de 1993.
100
Sobre esse assunto ver artigo de SANTOS, Fabiano In: Reforma Política no Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2006.
101
VIII Encontro Nacional, ocorrido entre os dias 11 e 13 de junho de 1993 em Brasília.
102
PARTIDO DOS TRABALHADORES. Resoluções de Encontros e Congressos 1979-1998. Item 06. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998, p. 568.
Entretanto, cumpre recordar que as resoluções acima foram votadas numa conjuntura em que as disputas internas tornaram-se mais complexas, culminando com a derrota da corrente mais pragmática, sendo que as alianças com o PDT e o PSDB não foram viabilizadas pela nova direção do partido.