• Sonuç bulunamadı

B ESERİ MEYDANA GETİRENİN ESER SAHİPLİĞİ 1 Genel Olarak

Em 16 de novembro de 1927, o chefe do Departamento Nacional de Saúde Pública – DNSP dr. Clementino Fraga recebeu, juntamente com diretor do Serviço de Endemias Rurais dr. Lafayette de Freitas, para uma reunião extraordinária o dr. Michael Connor e o dr. Fred Soper com o intuito de montar uma estratégia de rechaçar o diagnóstico efusivo de febre amarela dado pelo dr. Guedes Pereira ao caso Jacaraú e manter a controvérsia intentada por ele em sigilo absoluto. A resolução dos médicos da Fundação Rockefeller e dos médicos representantes dos órgãos de saúde pública do Brasil em suspender o programa antivetorial no estado do Ceará185 para colocar à prova a presença da febre amarela na região, ditada por razões epidemiológicas , implicava certamente na não punição dos atores envolvidos na afronta científica, mas não excluía, necessariamente, uma rigorosa averiguação das suas implicações e das circunstâncias em que fora contestada.186

Com a reunião extraordinária com os médicos Michael Connor e Fred Soper, os representantes brasileiros puderam submetê-los a questionamentos e inquirições, na tentativa de deslindar a trama oculta na negação radical ao surto de febre amarela naquela região. O que efetivamente eles apreenderam nessa reunião continua a ser um mistério: os papéis do DNSP, a instância responsável pela deliberação dos assuntos referentes aos estados brasileiros, no caso, aos estados nordestinos, não aludem ao caso Jacaraú . Além disso, a documentação dos médicos norte-americanos, obrigados a relatar cada detalhe das ações em

185 O estado do Ceará é territorialmente vizinho ao sertão da Paraíba do Norte e desde o começo

dos anos de 1920, devido às obras contra a seca e às estradas de ferro, configurou -se como um canal de entrada e disseminação da febre amarela pelo estado paraibano.

186DUFFY, John ed. Andanzas por el mundo de la salud: memorias de Fred Lowe Soper.

todos os locais de atuação da Fundação menciona a investigação e diagnóstico positivo dirigido pelo médico representante da Fundação Rockefeller na Paraíba do Norte dr. John Autin Kerr, tornando plausível a hipótese de que o dr. Michael Connor teria ou agido por conta e risco próprios, na base da autoconfiança como um savant da ciência epidemiológica, ou se recusado a deixar transparecer a intenção política de ter apresentado, de modo apressado, a erradicação da febre amarela nas Américas.

Ainda assim, os que participaram da dita reunião extraordinária sabiam mais sobre os propósitos da negação do diagnóstico positivo de febre amarela do caso Jacaraú do que nos é dado a saber atualmente. Pelas linhas que delineiam seu ofício, o historiador encontra-se muitas vezes em posição análoga à do detetive – no sentido de acessar, de selecionar e de se apropriar do corpus documental – e como este, utiliza-se dos vestígios do passado, confronta as informações dando-lhe sentido movido pela expectativa de construir uma possibilidade da realidade enquanto ato. Ou seja, o historiador, enquanto detetive, abre possibilidades, constrói realidades possíveis por meio de ações, tanto interpretativas de dar sentidos, como também analíticas. No caso Jacaraú , a ausência de registros ipsis litteris dos interesses políticos em negar qualquer diagnóstico positivo de febre amarela – se chegaram a existir, foram certamente excluídos – o que confirma a atuação dos historiadores como detetives, seguindo indícios do que ocorreu.

No entanto, as comparações entre o historiador e o detetive não vão muito além, o que abre a possibilidade de reverter os maus resultados do historiador em sua aventura investigativa. Afinal, se existem respostas que os doutores Clementino Fraga e Lafayette de Freitas obtiveram e que hoje nos são inacessíveis, o inverso também ocorre, pela simples razão de que eles não puderam formular as questões que formulamos hoje. Seus objetivos de inquirição recaíam em um campo muito restrito, o da controvérsia e seus autores. A reunião extraordinária visava conhecer nomes e circunstâncias; a trama esgotava-se, pala eles, numa cadeia de poucos elos, entendida num arco de tempo também limitado. Não lhes interessavam articular aquela divergência com as querelas entre o próprio dr. Michael Connor e seu colega de instituição

dr. John Austin Kerr, com as tradições políticas e culturais norte-americanas e as que vicejavam nas regiões endêmicas da doença. Depreende-se da atitude do dr. Michael Connor que ele teria visto apenas mais uma da extensa galeria de análise de casos suspeitos que ele analisou– certamente uma das mais radicais, mas ainda assim apenas mais uma análise.

Diferentemente, a abordagem histórica permite alinhar informações em escala muito mais ampla dos que as lentes microscópicas dos médicos brasileiros, ao recuar a investigação em direção ao universo no qual as posições do dr. kerr emergiram. Ademais, as incertezas com que se defronta o historiador contemporâneo delega tratamento diverso às fontes e às circunstâncias do tratamento dado por parte dos médicos brasileiros no calor dos acontecimentos. No caso da suposta insuficiência de dados para o diagnóstico de febre amarela, dr. Clementino Fraga recorreu à prática de suspender o serviço no Ceará para silenciar as ponderações do dr. Guedes Pereira e do dr. Kerr, apoiando o dr. Michael Connor. Já o historiador opta pelo aprofundamento da análise, ligando o caso específico ao contexto, entendido aqui como um campo de possibilidades historicamente construídas. Obviamente temos que observar as diferentes peculiaridades entre os protagonistas médicos e o historiador contemporâneo.

Para tanto, é importante responder a uma das questões que o dr. Clementino Fraga não poderia sequer formular: que condições históricas concorreram para a constituição de um projeto filantrópico de erradicação da febre amarela de cunho científico? Convém sublinhar dois aspectos: em primeiro lugar, trata-se de proceder à integração de realidades e possibilidades e de ampliar o estatuto do conhecimento histórico, admitindo termos como construção e possível 187. Em segundo, o contexto não é pensado como um fato determinante do comportamento do dr. Michael Connor ou do dr. Kerr, sugerindo uma relação mecânica entre eles; ao contrário concebe-se o contexto de forma mais ampla, como uma instância que molda as

187 BENATI, Antonio Paulo. História, Ciência, Escritura e Política. In: RAGO, Margareth e GIMENES,

Renato Aloísio de Oliveira (orgs). Narrar o passado, repensar a história. Campinas, SP: UNICAMP, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2000. p 63-103.

condições de possibilidade para a ocorrência de um determinado evento e os objetivos dos atores históricos podando ou dilatando suas ações.

Este método não se confunde com a tradicional contextualização, cuja propriedade é explicar um evento por meio do ambiente histórico que se desencadeou. Trata-se de algo diferente. No caso dos médicos norte- americanos, a opção de restringir a análise ao domínio estrito da epidemiologia significava empobrecer o aspecto mais importante das suas ideias, ou seja, o de considerar a mobilização de estratos políticos múltiplos no interior de um projeto científico específico. Suas ideias surpreendem porque remetem ao ritmo ágil do pragmatismo. Já não nos basta responder apenas de que modo eles, os médicos e pesquisadores norte-americanos, se apropriam de um conjunto de dados empíricos. É necessário apreender as razões desta apropriação no interior das expectativas e dos objetivos políticos que não mais suportam apenas um rótulo na perspectiva epidemiológica . Assim, neste capítulo, dr. Kerr parece indicar a possibilidade de se partir de suas ideias para entender a cultura científica que se formou na Paraíba do Norte durante a década de 1920.

Para construir o ambiente em que dr. Kerr circulava é preciso ir além das suas relações com a epidemiologia. Essas relações são excessivamente restritas às trocas de dados numéricos, o que oblitera tanto o ambiente em que ela ocorre, como a rede de atores na qual está inserido. Se as práticas empíricas do dr. Kerr foram decisivas para a organização da sua visão de mundo, não o foram menos os indivíduos com quem partilhara aquela experiência cotidiana – que é, afinal de contas, o importante filtro por meio do qual elaborava suas ideias.

Daí a necessidade de focalizar o dr. Kerr na Paraíba do Norte, o ambiente em que, segundo ele, viveu situações muito atípicas, estudando os casos suspeitos e coordenando a equipe de funcionários da Fundação Rockefeller; daí a importância de examinar os círculos que ele frequentou, as pessoas que conheceu, recompondo a complexidade das relações que o ligavam àquela sociedade. Isto talvez nos ajude a entender por que ele fomentou uma filantropia científica e a transformou na oposição ao fundamento de uma ação política velada, aos moldes da atuação do dr. Michael Connor, pois os conflitos e tensões surgem no seio da Fundação Rockefeller. Descolar a análise em direção

à Paraíba do Norte, em busca das práticas e dos valores políticos e científicos ali vigentes é, também, um esforço de entender o significado da aventura do dr. Kerr, definindo os limites do adjetivo contestador . Como foi observado no capítulo anterior, o dr. Michael Connor era afeito aos debates acalorados.