Quando eu voltei lá no sertão Eu quis mangar de Januário Com meu fole prateado
Só de baixo, cento e vinte [...]44
Precisamente, a trajetória artística de Luiz Gonzaga está ligada ao seu pai, Januário, que foi sua matriz sonora e, indubitavelmente, seu primeiro professor de
43 TROTTA, Felipe Costa. Som de cabra macho: sonoridade, nordestinidade e masculinidades no
forró. Comunicação, Mídia e Consumo. São Paulo, v. 9, p. 151-172, 2012.p.155. Disponível em: <http://revistacmc.espm.br/index.php/revistacmc/article/view/349/pdf>. Acesso em: 25/04/2013.
sanfona. O mestre Januário, com sua oficina, foi o responsável pela introdução de Gonzaga no meio artístico na região do Araripe.
Para compreender a produção sonora do sanfoneiro do Riacho Brígida, torna-se pertinente observar e analisar a trajetória do mestre Januário e sua chegada à Serra do Araripe. Ele era procedente não se sabe ao certo se de Flores ou de Pajeú das Flores, Pernambuco. Conta-se que ele e seu irmão, Pedro Anselmo, filhos de Anselmo e de Conceição – da família dos Quidutes e dos Anselmos –, tornaram-se migrantes à procura de uma região fértil, para que pudessem tirar o sustento da agricultura e da criação de gado.45
Os dois rapazes chegaram ao Araripe por volta do ano de 1905. Fugiam de uma intensa seca46 que assolava o território pernambucano e outras partes do “Nordeste” (nesse período chamado de Norte), entre os anos de 1900 e 1904. Noticiava-se o deslocamento de sertanejos para outras regiões, movidos pelas estiagens no Nordeste desde tempos remotos, de forma que as migrações “[...] já eram comuns em secas anteriores; a de 1692, uma das primeiras a serem registradas, provocou a migração de algumas famílias paraibanas para Sorocaba (SP)”47. Nos momentos posteriores, esse “fenômeno” se alastrou, progressivamente,
sobre a região, como explicado no fragmento:
45 Para tratar da trajetória da família de Luiz Gonzaga, foram utilizadas as biografias e obras
analíticas: SÁ, Sinval. Luiz Gonzaga: O sanfoneiro do riacho da Brígida. 8a ed. Fortaleza: Realce,
2002. DREYFUS, Dominique. Vida de Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Editora 34, 1996. OLIVEIRA, Gildson. Luiz Gonzaga: O matuto que conquistou o mundo. 6a ed. Recife, 1991. MORAES, Jonas Rodrigues de. Sons do Sertão: Luiz Gonzaga, música e identidade. São Paulo: Annablume, 2012. Entre outras produções.
46 Ver Anexo 1 - Quadro das secas ocorridas no
“Nordeste”. “A vasta literatura histórica sobre a seca pode ser dividida em três momentos distintos: um primeiro onde predominam as obras de autoria de intelectuais ligados às oligarquias nordestinas, quase sempre memórias, em que procura dentro de uma visão positivista, factualista e cronológica, arrolar todas as secas passadas, discutir suas causas e soluções. Num segundo momento predominam obras de matriz tecnicista, cujos autores são quase sempre técnicos ligados ou não as oligarquias da região e que abordam o problema do ponto de vista estritamente técnico, limitando-se à discussão das causas do fenômeno e proposta de soluções. Num terceiro momento surge um grupo de autores que possuem uma visão mais globalizante ou crítica acerca do problema, percebendo-o não apenas como simples fenômeno natural, mas pensando como um fenômeno com implicações sócio-econômicas e que apenas agrava distorções presentes nesta estrutura social.” ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Falas de Astúcia e de
Angústia: a seca no imaginário nordestino - de problema à solução (1877-1922). Dissertação
(Mestrado em História do Brasil), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Campinas-SP, 1988, p.1.
47 Corolano Medeiros. Apud: ALMEIDA, José Américo de. A Paraíba e seus problemas. Paraíba:
As secas do século XVIII acentuaram a migração de nordestinos para a região das minas; a seca de 1844-45 levou alguns nordestinos a procurarem as plantações de café do Rio de Janeiro. Veremos, no entanto, que a migração de 1877-79 adquirirá conotações novas, não decorrentes do fenômeno climático em si, mas da conjuntura que o cercava.48
O “fenômeno” das secas torna-se importante para compreender o imaginário discursivo sobre o Nordeste e os nordestinos que ocupavam o sertão.
A seca é pensada como a agonia do sertão, pois tudo morre, pois tudo demonstra esta agonia, tanto da natureza, como do homem, esta morte lenta. A imagem tradicional da seca está impregnada da imagem da morte, morte agoniada, pois morre- se aos poucos, de sede e de fome, seja um animal, seja o ser humano.49
As andanças pelo sertão nordestino levaram Januário e Pedro Anselmo a subirem a Serra do Araripe e se estabelecerem na encosta do sopé da serra. Nessa localidade há muito tempo morava um tio dos dois rapazes que, com certeza, lhes ajudaria a encontrar trabalho e, assim, ter uma qualidade de vida um pouco melhor50. O Araripe, de fato, era uma região úmida e oferecia boas perspectivas.
Acho que Exu nunca sofreu uma seca como se escuta falar em outras regiões, onde morre gente. Isso nunca ouvi por aqui. O pé de serra tem sempre essas matas, essas montanhas que atraem as chuvas. Tem um vento que desvia o rumo da chuva. Ela se forma, vem e quando chega no alto da serra, se divide, parte pra tudo que é canto.51
À procura de trabalho no Vale do Araripe, os irmãos Quidute (ou Anselmo) conheceram o Coronel Sete Moreira, considerado na região uma pessoa temida e severa. Entretanto, tinha a fama de ser justiceiro e “[...] bom com todos aqueles que tivessem a sorte de cair em suas graças. Para ele, o valor do homem media-se pela
48 ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Falas de Astúcia e de Angústia: a seca no
imaginário nordestino - de problema à solução (1877-1922). Dissertação (Mestrado em História do Brasil), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Campinas-SP, 1988, p.25.
49 Ibidem, p.97.
50 Ver DREYFUS, Dominique. Vida de Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Editora 34,
1996, p.28.
disposição para o trabalho e pelo equilíbrio do caráter”52. O Coronel admirava e tinha
respeito por homens sérios, trabalhadores e honestos. No entanto, “[...] cabra safado, enxerido e metido a besta, esse em suas rédeas, ou se aprumava ou era enxotado para bem longe dos limites de suas cancelas”53.
Essas qualidades de homem sereno, honesto e trabalhador Sete Moreira encontrou no sanfoneiro de oito baixos Januário. Os dois sentaram e conversaram longamente sobre as tarefas a serem desenvolvidas na fazenda Caiçara. A partir daquele momento, Januário, o caboclo do Pajeú, estava contratado como morador, de modo que teria a garantia também da proteção dos legítimos descendentes do barão do Exu, Gualter Martiniano de Alencar Araripe54.
A chegada dos irmãos Januário e Pedro Anselmo à fazenda Caiçara propiciou o encontro com Santana – a mais nova – e Maria (conhecida por Baía), filhas de Ifigênia e de José Moreira Franca de Alencar. Esse casal tivera mais duas filhas: Vicença e Josefa (cujo apelido era Nova). O apreço de Santana pelo canto provinha de seu pai, José Moreira de Alencar (loiro e de olhos verdes), que era cantador, poeta e seresteiro. Ele percorria o Araripe e seus arredores montado a cavalo, procurando conquistar os corações das moças por meio de serestas com modas de viola.55
Januário, o sanfoneiro de oito baixos, mirou Santana, e Pedro Anselmo se interessou de imediato por Baía. Essa troca de olhares dos irmãos Quidute com as irmãs Franca de Alencar levou à realização dos casamentos, numa manhã de setembro do ano de 1909, na Igreja do Bom Jesus dos Aflitos, padroeiro de Exu-PE.
Do casamento de Januário com Santana foi constituída uma família com nove filhos: João (Joca), o primogênito, Luiz Gonzaga, Efigênia (Geni), Severino, José, Raimunda (Muniz), Francisca, Socorro e Aloísio.56 Seus filhos foram criados ali na fazenda Caiçara e nas vizinhanças com simplicidade e muita dificuldade.
52 FERREIRA, José de Jesus. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Sua vida, seus amigos, suas canções.
São Paulo: Ática, 1986, p.7.
53 Ibidem. 54
“Como dona Bárbara e seu irmão Luís Pereira de Alencar, foi o barão Guálter Martiniano um ilustre filho de Araripe. Barão de Exu por decreto imperial de 15 de novembro de 1888, o insigne patriarca nasceu na fazenda Caiçara [...] em 18 de junho de 1822. Senhor de muitas terras e de muitos escravos [...] faleceu no seio da família em 22 de julho de 1889.” Ibidem, p.8.
55 DREYFUS, Dominique. Vida de Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Editora 34, 1996,
p.28.
56 SÁ, Sinval. Luiz Gonzaga: o sanfoneiro do Riacho da Brígida. 8a ed. Fortaleza: Realce, 2002, p.27.
Januário morava “nos domínios da fazenda Caiçara, numa modesta casinha de taipa construída com a participação de alguns amigos [...]”. FERREIRA, op. cit., p.10.
Indiscutivelmente, a formação musical de Luiz Gonzaga esteve relacionada ao conserto e afinação de sanfona na oficina do mestre Januário, bem como aos sambas (forrós) tocados nas redondezas do Araripe. Com efeito, diversos membros da família Januário se tornaram músicos. Observa-se na fotografia seguinte a família de Januário.
Figura 1 – Da esquerda para a direita, Luiz Gonzaga, Januário e seus filhos.57
Cabe assinalar a participação do mestre Januário, com sua sanfona de oito baixos, na animação dos arrasta-pés nas vizinhanças do Araripe. A presença de Januário foi marcante nas primeiras décadas do século XX nessa territorialidade, onde tocava em festas de casamento, batizado e bailes. Informações dão conta de que ele percorria os distritos nas proximidades de Exu-PE58, formado pelos
57 Acervo do pesquisador Wilson Seraine.
58 A historiografia relacionada a Exu registra que a povoação dessa localidade ocorrera nas primeiras
décadas do século XVIII. O encontro dos proprietários baianos, os Garcia D‟Avila, donos da fazenda da Torre – localizada à margem do Rio São Francisco –, com os indígenas Ançu (nação Cariris) favoreceu o povoamento da região. Anteriormente os Ançu tinham desenvolvido uma amizade com os vaqueiros que trabalhavam nessas bandas, o que facilitou a entrada dos fazendeiros. Os portugueses, entre eles Leonel de Alencar Rêgo e seus irmãos, arrendaram de Francisco Dias D‟Avila a sesmaria localizada no Vale do Brígida. A abrangente propriedade de Leonel Alencar, conforme autos de demarcação e divisão, envolvia a Fazenda Caiçara e Barrigudinho. Vieram os jesuítas, que ajudaram na catequização e na construção de uma capelinha em homenagem ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos, que se tornou o padroeiro da cidade. Entre os anos de 1846 e 1906 – 60 anos –, o município de Exu ora era distrito, ora vila. Em 1907 retornou definitivamente à condição
povoados Baixio (hoje Timorante), Bom Jardim (atualmente Claranã, pertencente ao município de Bodocó-PE), Tabocas, Canabrava (atual Viração) e Rancharia (distrito de Granito).59 O mapa a seguir mostra algumas cidades do Araripe, com destaque para Exu-PE – nº 03.
Figura 2 – Cidades do Araripe.60
O mapa acima trata em parte dos municípios do Araripe pernambucano. No total, essa região possui 1.063.000 hectares, sendo 47% no estado do Ceará (15 municípios): Missão Velha, Abaiara, Brejo Santo, Porteira, Jardim, Jati, Penaforte, Barbalha, Crato, Nova Olinda, Santana do Cariri, Araripe, Potengi, Campos Sales e Salitre; 36% no estado de Pernambuco (12 municípios): Araripina, Trindade, Ouricuri, Ipubi, Exu, Santa Cruz, Bodocó, Cedro, Moreilândia, Granito, Serrita e Terra Nova; e 17% no estado do Piauí (11 municípios): Belém, Caldeirão Grande do
de vila com o nome de Novo Exu, desmembrando-se de Granito-PE. ALENCAR, Thereza Oldam de.
EXU: três séculos de história. Exu-PE: Editora do autor, 2011.
59 “Exu abrangia os atuais municípios de Araripina, Bodocó, Cedro, Granito, Ipubi, Moreilândia,
Ouricuri, Parnamirim, Salgueiro, Santa Cruz, Santa Filomena, Serrita, Terra Nova e Trindade.” Ibidem, p.43.
60 FUNDAÇÃO ARARIPE. Projeto Araripe Pernambucano. Crato - CE, s/d. Disponível em: <http://
www.fundacaoararipe.org.br/content/temp/ParticipacaoCoGestaoDasAguasBioregiaoAraripe.php>. Acesso em: 12/04/2013.
Piauí, Caridade do Piauí, Curral Novo do Piauí, Francisco Macedo, Fronteiras, Jaicós, Marcolândia, Padre Marcos, Pio IX e Simões.61
A experiência cotidiana do conserto de sanfonas na oficina do mestre Januário contribuiu para que Luiz Gonzaga aprendesse os primeiros acordes e a manejar a harmônica de oito baixos, em meio ao exercício na oficina e a paixão pelo instrumento do pai, “[...] a quem ajudava na animação de festas religiosas e forrós. Sua interação com o meio artístico o levou a aprender a tocar zabumba e cantar os benditos das novenas”62.
A desenvoltura de Januário na sanfona de oito baixos foi notada pelos sanfoneiros brasileiros. Luiz Gonzaga expressou a deferência que tinha por seu pai Januário em diversas falas e, particularmente, nas homenagens feitas nas canções. Visualiza-se na imagem Januário com sua sanfona de oito baixos (ou “pé de bode”).
Figura 3 – Januário dos Santos e sua sanfona de oito baixos.63
61 Informações da Área de Proteção Ambiental (APA) Chapada do Araripe, criada pelo Decreto nº
148, de 04 de agosto de 1997. UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ. Instituto de Ciências do Mar. Centro de Estudos Ambientais Costeiros - CEAC. APA da Chapada do Araripe. Eusébio - CE, s/d. Disponível em: <http://sispub.oktiva.com.br/oktiva.net/1364/nota/18279>. Acesso em: 13/04/2013.
62 MORAES, Jonas Rodrigues de. Sons do Sertão: Luiz Gonzaga, música e identidade. São Paulo:
Annablume, 2012, p.40.
63 Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. LP Nova História da Música Popular Brasileira. São Paulo:
A tradição musical de Januário foi seguida por Gonzaga, sanfoneiro do Araripe. O dialogismo estabelecido entre Gonzaga e Januário mostra “[...] que o tradicional se encontra enraizado na obra de Gonzaga, pela contextualização e interdiscursividade, uma vez que lugar e cena estão profundamente imbricados na obra do compositor”64. A exemplo de “Respeita Januário”65, considerada uma música
impactante na produção estética de Gonzaga.
O bem-querer de Gonzaga não foi enunciado somente na música “Respeita Januário”, mas num conjunto de LP‟s e canções dedicadas ao artista Januário – “Seu Januário” (instrumental), “Januário vai tocar”, “Fogueira de São João”, “O Maior Tocador”, “O Vovô do Baião”, “Rio Brígida”, “Adeus Januário”, “Prece Por Exu Novo”, “A Peleja do Gonzagão x Téo Azevedo” e “Dá licença prá mais um”66. Essas
canções são aqui analisadas na perspectiva de observar a importância de Januário e de Luiz Gonzaga para a memória acústica nordestina, em particular a da região do Araripe.
Com a participação de Januário tocando oito baixos, Luiz Gonzaga registrou na música “Januário vai tocar” a importância do pai para a propagação da sanfona de oito baixos, além de destacar as localidades no Araripe onde o velho Januário tocava. Gonzaga ressaltou por meio dessa canção o papel fundamental de seu pai como promotor de sociabilidades nos bailes comunitários. E, sobretudo, Januário reforçou “[...] a relação deste instrumento com o passado rural e as populações menos favorecidas economicamente: „a cidade te acha ruim, mas eu não acho‟”67. O
que se constata a seguir:
Ai, ai, sanfona de oito baixos Do tempo que eu tocava Na beira do riacho
Ai, ai, sanfona de oito baixos } bis
64 AUSTREGÉSILO, José Mário. Luiz Gonzaga: o homem sua terra e sua luta. Recife: Comunigraf
Editora, 2009, p.61.
65 Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Respeita Januário. Baião. 78 RPM. Victor 800658/B, 1950.
Essa música será analisada no segundo item deste capítulo.
66 Essas canções e produções de Luiz Gonzaga e seus parceiros em homenagem ao mestre
Januário, com os devidos créditos, estão registradas na obra de: MORAES, Jonas Rodrigues de.
“Truce um triângulo no matolão (...) Xote, Maracatu e Baião”: A musicalidade de Luiz Gonzaga na
construção da “identidade” nordestina. Dissertação (Mestrado em História Social) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, São Paulo, 2009, p.97.
67 PERES, Leonardo Rugero. Januário e sua sanfona de oito baixos. 28/06/2011. Disponível em:
<http://sanfonade8baixos.blogspot.com.br/2011/06/januario-e-sua-sanfona-de-oito-baixos.html>. Acesso em: 14/04/13.
A cidade te acha ruim Mas eu num acho Lá na taboca
No baxío, no Granito
Quando um cabra dá um grito Januário vai tocá
Acaba feira, acaba jogo, acaba tudo Zé Carvalho carrancudo
Tira a cota pra dançar } bis 68
A marcha junina “Fogueira de São João”69 mostra que as tradições culturais
nordestinas estiveram presentes no repertório estético de Luiz Gonzaga, fazendo referência a Januário nos versos “Seu Januário/ Venha ser o meu parceiro/ Não esqueça da sanfona/ Para animar o terreiro”. A canção em análise teve a participação da irmã do sanfoneiro do Araripe Chiquinha Gonzaga.
Na fogueira de São João Eu quero brincar
Quero soltar meu balão E foguinhos queimar (Na fogueira de São João Eu quero brincar
Quero soltar meu balão E foguinhos queimar) Seu Januário
Venha ser o meu parceiro Não esqueça da sanfona Para animar o terreiro Traga a famia
Que nós tem muito prazer De dançar com suas fia „Té o dia amanhecer [Bis]
No mesmo diapasão sonoro, a marcha junina “O Maior Tocador”70 já
homenageia Januário no título, que o classifica como o maior tocador. O respeito está na expressão “Seu Januário” e a destreza musical do mestre é explicitada no
68 Januário José dos Santos. Januário vai tocar. 78 RPM. 1954. Cf.: DREYFUS, Dominique. Vida de
Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Editora 34, 1996, p.27.
69 Luiz Gonzaga e Carmelina. Fogueira de São João. Marcha junina. LP São João na Roça. RCA,
1962.
trecho: “Puxe esse fole/ De oito baixo verdadeiro”. Nessa canção, o sanfoneiro explicitou a animação das festas de São João no Nordeste:
Seu Januário
Tome um gole de quentão Solta foguete
Quero ver animação Puxe esse fole
De oito baixo verdadeiro Bota gás no candieiro
E chama as moças pro salão } bis Seu Januário
Nesta festa de arraia Quem dança, dança
Quem dança, quer dançar } bis Lá no terreiro
É o que se vê falar É o maior tocador Que já veio nesse lugar Festa animada
Pra quem sabe aproveitar Puxa esse fole
Que eu quero me espaiá À meia-noite
Quero ver soltar balão Pra dar viva a Santo Antônio Meu São Pedro e São João } bis
A canção “O Vovô do Baião”71, por sua vez, abordou o problema de saúde
de Januário. A recuperação do mestre significava a continuidade da tradição. Portanto, a família devia rezar, porque seu Januário, “Com bem noventa anos”, “[...] merece viver”.
Seu Januário
Com bem noventa anos Tinha nos seus planos Fazer uma operação Sua família
Tava toda reunida Rezando pela vida Do Vovô do baião Vai Januário
Que nós reza por você
Coopera Januário Você merece viver Humberto Macário Famoso cirurgião Que abalou o Cariri O povo do Crato Ficou todo admirado Quando viu seu Januário Inteirinho sair
Tá, tá, seu Januário tá aí E olha ele aí
Na música “Rio Brígida”72, Gonzaga descreveu a paisagem da localidade,
detalhando geograficamente por onde passam as águas do Rio Brígida e os lugares que fazem parte da região do Araripe: Fazenda Gameleira, Novo Exu, Monte Belo, São Raimundo, Tamarina, Barriguda e Baraúnas. Na canção o sanfoneiro Gonzaga demonstrou a relação de amizade com Januário, nos trechos: “Quanto samba sem horário/ Eu e meu pai Januário/ Nós tocando sem parar/ São as lembranças/ Nessas água a rolar [...]”.
Nasce lá no pé da serra Na Fazenda Gameleira De seu Chico Alencar E vai descendo Vai rolando devagar Chega em Novo Exu
E com licença eu vou cantar Em Novo Exu
Ele chora e sai rezando Vendo gente se matando Briga de irmão com irmão Tem jeito não
Que isso é coisa de cacique E vai chegando
Em São João do Araripe Ah! Menino
Se esse riacho falasse Quanta coisa
Que ele tinha pra contar Ah! Quanta festa
Quanto samba sem horário Eu e meu pai Januário
Nós tocando sem parar São as lembranças Nessas água a rolar Vai cortando
Monte Belo, São Raimundo Tamarina, Barriguda, e Baraúnas E tem passagem
Por Granito, que bonito Olha aí Parnamirim Terra Nova e Orocó E desatou
No São Francisco esse nó } bis
A morte de Januário foi sentida profundamente por Luiz Gonzaga. Como demonstração de pesar, os compositores parceiros do sanfoneiro do Riacho Brígida compuseram a música “Adeus a Januário”73. A interjeição “Ai” era utilizada para
evidenciar o sofrimento e dor de Gonzaga. Comprova-se a amizade entre Januário e Gonzaga nos versos: “De um velho e grande amigo [...]/ Tão guerreiro, companheiro/ Conselheiro Januário”. A canção conclama ao supremo “Deus que ilumine os