O pensamento humeano defende a idéia de que os indivíduos seguem sua vida pessoal segundo as determinações de seu próprio interesse particular, sendo, geralmente, incapazes de visualizar o interesse público como algo capaz de promover o bem estar de todos e, inclusive, ampliar o bem-estar individual.
É por essa razão que Hume analisa as convenções sociais como mecanismos que buscam consolidar o interesse público a partir da determinação das regras de justiça, complementarmente ao interesse individual.
Em um primeiro momento, Hume avalia que a origem do governo não pode ser compreendida como o resultado de um contrato, pois, para ele, um contrato social é uma ficção. Ademais, o ponto de vista hobbesiano sobre a destrutividade intersubjetiva
e o lockeano, que se fundamenta na crença da bondade universal, são fantasias pouco pertinentes em relação à realidade histórica.
Para Hume, a sociedade poderia ter vivido um período de segurança sem a existência do contrato, ou seja, da sociedade civil, bastando para isso que sua economia não tivesse se desenvolvido. Considera normal a tese de que em um estágio primitivo da sociedade os homens estruturaram as suas relações de convivência sem a invenção da autoridade. Somente com o crescimento econômico, aliado a escassez dos bens, ao próprio interesse (“self-interest”) e a generosidade limitada, é que tornou necessário o aparecimento do governo.
Os governos são uma invenção humana e a obediência política não deve ser fundada na promessa de um contrato social, como querem os jusnaturalistas. Para Hume, não há qualquer possibilidade de o contrato social ter ocorrido historicamente. Ele chega a afirmar que os governos sempre foram fruto da usurpação e da violência, e que isso pode ser verificado empiricamente na história.
Dessa forma, é possível compreender que a visão humeana sobre o poder político e a obediência ao governo pode ter uma vinculação com o argumento utilitarista. Ademais, pode-se encontrar no pensamento humeano a crença de que a obediência às leis é o resultado do interesse que os indivíduos têm na manutenção da autoridade política em virtude dos benefícios que o governo promove para a sustentação da sociedade. Nesse sentido, Hume afirma que:
A segurança do povo é a lei suprema; todas as outras leis particulares são subordinadas a esta lei e dela dependem. E se no curso ordinário das coisas elas são seguidas e levadas em consideração, é apenas porque a segurança a o interesse públicos ordinariamente requerem um exercício assim equânime e
imparcial148.
Hume assegura que o Estado, para ser instaurado, requer o raciocínio e a avaliação mais acurada das necessidades da comunidade em seu conjunto. É, pois, a partir dessa avaliação que se obtém o reconhecimento da importância do governo para
a sociedade. Deve-se concluir, portanto, que a obediência ao governo não advém de qualquer promessa dada ao governante, mas do pleno e consciente reconhecimento da necessidade da obediência para assegurar a paz e a prosperidade. Desta forma, tem- se um argumento conseqüêncialista como base de sustentação para a criação e manutenção do poder político.
Segundo Hume, o governo possui duas funções básicas. A função de
execução da justiça, pois deve assegurar o cumprimento das três regras de justiça que
garantem a posse e a transmissão da propriedade e a função de decisão, que pode ser entendida como a capacidade que o governo possui de unir as qualidades individuais dos cidadãos em projetos gerais, como a construção de uma estrada, por exemplo. Ademais, segundo Hume,
por meio dessas duas vantagens, que se encontram na execução e na decisão da justiça, os homens adquirem segurança contra a fraqueza e as paixões dos demais, e também contra as suas próprias; e, sob a proteção de seus governantes, começam a saborear confortavelmente a parte doce da
sociedade e da assistência mútua149.
Esse esforço cooperativo que o governo é capaz de imprimir na sociedade é que cria o hábito de os indivíduos se convencerem de que tal instituição seja benéfica para todos.
Tocados pela situação de risco que a vida em comum sofre pelos conflitos gerados pela disputa por propriedades, os indivíduos são impulsionados a ter sentimentos de repulsa pela dor gerada por tal conflito e, consequentemente, desenvolvem um interesse pelo bem público. Para que o mesmo possa ser devidamente assegurado, propõem artificialismos como a virtude da justiça e do governo. Tais artificialismos são possíveis pelo fato de os indivíduos estarem pensando de forma utilitária, no sentido de possuírem instituições capazes de promover o bem- estar para a maioria dos membros da sociedade.
Em relação ao tema da desobediência civil, tão caro aos jusnaturalistas, Hume assume uma postura mais conservadora do que a de Locke. Afirma que os indivíduos podem rebelar-se contra o tirano, mas que é admissível um governo que cometa pequenos atos abusivos e, ao mesmo tempo, promova mais benefícios à sociedade. Para Hume, não há situação pior do que a inexistência da autoridade política, que, segundo ele, é a única capaz de fazer valer as regras de justiça150.
Tal posição pode ser justificada no argumento utilitarista que se encontra no pensamento humeano. Deve-se dizer que Hume considera que a justificação da sociedade procede do fato de que os homens perseguem seu próprio interesse e que este é defendido muito melhor dentro da sociedade. Todavia, como existem muitas desordens e conflitos dentro da sociedade, principalmente quando esta cresce, faz-se necessário à criação do governo para o controle da estrutura passional humana. O governo é então o instrumento útil para dirigir certas paixões e articular os interesses dos indivíduos.
A partir da argumentação humeana, pode-se afirmar que todo poder do governo está fundado na sua necessidade de existir para promover o bem-estar dos indivíduos. Tal instituição não pode, como querem os jusnaturalistas, ser baseada em algum princípio metafísico como o de garantir direitos naturais ou de promover a paz como valor universal como queriam, respectivamente, Locke e Hobbes.
Talvez seja imprudente afirmar ser o pensamento de Hume utilitarista, conforme se entende o utilitarismo clássico de Jeremy Bentham. Contudo, não é possível deixar de reconhecer que no texto humeano existem diversas expressões que fazem parte do repertório utilitarista e que, na obra moral e política do filósofo possuem uma função construtiva.