A partir da lei nº 311 de 8 de abril de 1846 foi reestabelecida a Escola Normal da então capital mineira. Já no ano seguinte, em 1847, voltava a funcionar um centro formador em Ouro Preto. Em fala à Assembleia Legislativa no ano de 1847, o Presidente Quintiliano José da Silva discorre sobre os preparativos para a instalação do instituto. Conforme o presidente, ele encontrava-se, à época do pronunciamento, quase que inteiramente pronto, e que para ser aberto só era necessário chegar “[...] da Corte diversos objectos, que lhes são indispensáveis e que se esperão a cada momento” (MINAS GERAIS, 1847).
A Escola deveria, a priori, ser regida pelo secretário do governo, o professor Antonio José Osório de Pina Leitão, e os alunos desta teriam que ser habilitados pelo método simultâneo. No relatório, Quintiliano José da Silva informa ainda que havia sido transferida, naquele período, a biblioteca pública da cidade de Ouro Preto para o prédio em que funcionaria a Escola Normal.
A lei nº 311 além de estipular a criação, pela segunda vez, do curso normal de Ouro Preto, estabelecia de maneira obrigatória a frequência neste curso dos indivíduos que pretendiam ingressar na carreira docente, assim como para aqueles que já atuavam na profissão.
De acordo com Inácio et al. (2006) a partir da obrigatoriedade da frequência na Escola Normal, foram produzidos elementos que tornariam legítimos ou não os conhecimentos dos professores que já atuavam ou que deveriam atuar nas cadeiras das primeiras letras. Ou seja, ao mesmo tempo em que se estabeleciam critérios para a formação do professor, também se criava a imagem do docente não preparado, qual seja, o que não frequentou o instituto formativo:
[...] quando se estabilizou a ideia da necessidade da formação de um modelo de professor, o sentido anterior foi obscurecido, ou seja, o professor desqualificado era aquele que não passou pela Escola Normal. A criação de um modelo foi, ao mesmo tempo, a criação da figura do professor desqualificado (INÁCIO et al., 2006, p. 68).
Assim, de acordo com a norma de 1846, após frequentarem o instituto normal por um período de dois meses, os professores deveriam prestar um exame perante o governo provincial, com a finalidade de avaliar os conhecimentos adquiridos após a conclusão do curso e com isso habilitarem-se à docência. Logo:
Esses exames para provimento das cadeiras da instrução pública tinham como objetivo demonstrar os conhecimentos adquiridos durante a frequência na Escola Normal. Os exames se constituem como uma pauta de preocupações em torno das quais os sujeitos deveriam ser formados e para as quais deveriam construir determinadas sensibilidades (INÁCIO et al., 2006, p. 65).
Após o término do curso normal, a direção do instituto deveria emitir um atestado de frequência, informando estar o docente apto ou não para realizar o exame. Um destes atestados foi emitido no dia 23 de janeiro de 1848, em que o professor que já atuava na profissão, Carlos José Ferreira, após ter frequentado a Escola Normal por dois meses, recebeu a declaração do diretor Antônio José Osorio de Lima Leitão, considerando-o preparado para realizar o exame avaliativo perante o governo, em conformidade com a lei de 1846 “Attesto que o Sr. Carlos José Ferreira, professor da cachoeira do campo, frequentando essa aula desde o dia 04 de novembro do anno passado, época de sua matrícula, acha-se prompto actualmente para o exame, de que se trata o artigo 11 da lei provincial n. 311” (APM, IP1/6 - Cx 01, 1848).
Como apontam Faria Filho et al. (2006) todos os exames realizados pelos alunos da Escola Normal de Ouro Preto dos anos de 1846 até 1850 possuíam basicamente o mesmo modelo de escrita e eram compostos, quase sempre, por conteúdos semelhantes. De acordo com Rosa (2001), estas avaliações deveriam contemplar os seguintes elementos:
[...] constava de uma dissertação sobre os métodos de ensino que eram adotados na província mineira até então, e daquele que era ensinado na Escola Normal, além de uma prova, que consistia na escrita de um texto na língua portuguesa e na resolução de um problema de aritmética (ROSA, 2001, p. 113).
Portanto, a avaliação após a frequência na Escola Normal se dava não só pelos conteúdos apreendidos, mas também pelo domínio do método de ensino oficial da província:
A fundação da Escola Normal de Ouro Preto tinha como objetivo formar os professores em consonância com as novas metodologias de ensino, que buscava romper com o chamado método individual, reputado como de pouca eficiência e acientificidade. A ênfase na formação dada aos professores passa a basear-se nos métodos de ensino (INÁCIO et al,, 2006, p. 68).
O periódico da Assembleia Legislativa Provincial de Minas Gerais - O Compilador34
,
em sua edição do dia 18 de maio de 1847, noticia o pronunciamento de um dos deputados da província o Sr. Pinto de Carvalho, afirmando que o método adotado pela Escola Normal era o simultâneo, sendo ele o mais adequado para Minas “[...] estando já estabelecida a Escola Normal, onde se ensina o methodo simultâneo, e sendo de reconhecida vantagem o emprego deste methodo [...]” (O COMPILADOR, 1847).
Contudo, apesar deste veículo comunicar que a Escola Normal de Ouro Preto adotava o método simultâneo, na prática, ao que parece, não foi este o modelo ministrado pelo instituto, pelo menos não na maior parte de seu funcionamento. Pelos documentos, o que se entende é que a Escola adotou, em considerável período da sua segunda fase, o método denominado como “misto”35, como é possível ver nos exames dos alunos prestados após a
frequência na instituição.
Após avaliação perante os representantes do governo provincial, no dia 27 de novembro de 1847, um dos alunos do instituto normal habilitou-se para o exercício do magistério pelo método misto:
[...] attendendo aos documentos de Américo Brasiliense de Azevedo, ao exame que fez perante ao governo das matérias do 2 grau, marcadas na mesma lei, e da theoria e prática do méthodo do ensino misto daptado na Escola Normal d’esta cidade, onde se habilitou conforme a lei provincial nº 311 de 8 de abril de 1846, e finalmente aos requisitos que n’elle concorrem para exercer o cargo de professor público da Villa de Pomba [...] (APM, IP- 04, 1847).
34 O periódico O Compilador, da Assembleia Legislativa Provincial de Minas Gerais, era editado na cidade de
Ouro Preto pela Tipografia Imparcial de B. X. P. de Sousa, sendo publicado quatro vezes por semana.
35 É importante ressaltar que o modelo misto, adotado pela Escola Normal de Ouro Preto, também foi utilizado
em outras localidades brasileiras neste mesmo contexto. De acordo com Faria Filho (2011), já em finais dos anos 1830, o método mútuo passa a ser paulatinamente substituído nas províncias e nos textos oficiais pelo misto.
De acordo com Inácio et al. (2006) no que tange a avaliação correspondente ao método, os exames dos alunos da Escola Normal seguiam, geralmente, o mesmo padrão, o que possibilita a inferência de que os textos poderiam ser escritos em conjunto, ou seriam cópias fiéis das anotações das aulas ministradas no curso. Segundo os autores, os alunos iniciavam os textos, quase sempre, apresentando a importância da frequência no instituto normal, e a habilitação no método de ensino por ele ministrado. Em seguida, o modelo individual passa a ser descrito, sendo este considerado de pouca eficiência. O método simultâneo também é explicitado, bem como o mútuo, apresentando-se os benefícios e problemas dos mesmos. Por fim, coloca-se o modelo misto como o mais eficiente, sendo ele a junção do que havia de melhor nos outros, e, por este motivo, o que superaria as lacunas deixadas pelo uso exclusivo de cada um deles.
Como reitera Rosa (2001), o método misto foi adaptado na Escola Normal de Ouro Preto pelo seu diretor José Osorio de Lima Leitão, e seria apontado pelos alunos, em suas avaliações perante os representantes do governo provincial, como o mais completo e recomendado para a instrução pública mineira do período. Ainda conforme a autora, apesar de ser pregado na Escola Normal, o método misto, à época de sua adoção pelo instituto, ainda não havia sido experimentado na prática na ocasião em que os alunos frequentavam as aulas normais, não sendo possível a comprovação de sua total eficácia naquele contexto.
Pela análise das fontes se observa a busca incessante do governo provincial em encontrar o melhor e mais vantajoso modelo de ensino para a educação da juventude em Minas Gerais na primeira metade do século XIX. É compreensível esta busca, tendo-se em vista que era a primeira vez em território mineiro que se pretendia uma instrução pública mais ampla e que atendesse a um grande contingente populacional. O método deveria auxiliar, pois, no atendimento a um maior contingente de alunos, com baixos custos para os cofres públicos provinciais.
Neste sentido, a adoção do modelo misto, adaptado pelo diretor da Escola Normal, apresenta-se como o primeiro realmente a diferenciar-se dos outros pregados na província até aquele momento. Isso porque era o único que não havia sido incorporado pronto de outros países, os considerados “civilizados” do período. Apesar de trazer os elementos destes métodos importados, o modelo misto, ao ser adaptado no interior do próprio instituto, apresenta-se como uma das primeiras tentativas de adoção de um recurso metodológico que se atentasse para as especificidades locais mineiras.
Contudo, apesar de todas as tentativas da Escola Normal de Ouro Preto, não foram sanadas muitas das dificuldades enfrentadas por ela e pela instrução pública mineira de maneira geral neste período, fatores estes que culminaram, mais uma vez, na suspensão de várias escolas, e entre elas a normal.
2.3 Mais uma crise: a suspensão pela segunda vez da Escola Normal de Ouro Preto