Apresento aqui os princípios metodológico e procedimental e os conceitos que orientam a coleta e análise dos dados. A referência central é a reflexão de Vygotsky sobre pensamento e linguagem e de seu encaminhamento de que, para se entender o significado da linguagem é preciso entender o seu subtexto, que é afetivo-volitivo (VYGOTSKY, 2010c).
Vygotsky (2010b) coloca que a palavra representa uma unidade viva de som e significado e contém todas as propriedades básicas do conjunto do pensamento discursivo. O autor explica que a palavra é, em termos psicológicos, uma generalização, pelo fato de que ela nunca se refere a um objeto isolado, mas a todo um grupo de classe de objetos; e essa generalização, por sua vez, é um ato verbal do pensamento que reflete a realidade de modo inteiramente diverso daquele como esta é refletida nas sensações e percepções imediatas. Assim, o autor refere um salto dialético, que não é só uma passagem da matéria não-pensante para a sensação, mas também uma passagem da sensação para o pensamento e, com isso, está querendo dizer que o pensamento reflete a realidade na consciência de modo qualitativamente diverso do que o faz a sensação imediata.
Dessa maneira, o autor coloca que o significado é ao mesmo tempo um fenômeno da linguagem e do pensamento, ele faz parte inalienável da palavra, pois esta sem o significado é apenas som vazio.
A linguagem, segundo Vygotsky (2010b), tem duas funções que são muito interligadas: da comunicação e do pensamento. O significado é uma unidade presente nessas duas funções. A comunicação pressupõe uma generalização e o desenvolvimento do significado da palavra e o pensamento, por sua vez, é onde o homem reflete a realidade de modo generalizado.
O significado da palavra só é um fenômeno de pensamento na medida em que o pensamento está relacionado à palavra e nela materializado, e vice-versa: é um fenômeno de discurso apenas na medida em que o discurso está vinculado ao pensamento e focalizado por sua luz. É um fenômeno do pensamento discursivo ou da palavra consciente, é a unidade da palavra com o pensamento. (VYGOTSKY, 2010c, p. 398)
Vygotsky (2010c) introduz, assim, na teoria do pensamento e da linguagem a descoberta de que os significados das palavras se desenvolvem, derrubando definitivamente o postulado da constância e da imutabilidade do significado da palavra, que serviu de base para as teorias anteriores.
Nas palavras do próprio autor: “O significado da palavra é inconstante. Modifica-se no processo do desenvolvimento da criança. Modifica-se também sob diferentes modos de funcionamento do pensamento. É antes uma formação dinâmica que estática” (Ibidem, p. 408).
O autor coloca que a relação entre o pensamento e a palavra é um processo, um movimento do pensamento à palavra e da palavra ao pensamento. Ao transformar-se em linguagem o pensamento se reestrutura e se modifica e, assim, o pensamento não se expressa na palavra, mas se realiza nela.
Juntamente a isso o autor desenvolve estudos sobre o que ele chamou de linguagem interior5. Ele refere que, em certo sentido, pode-se dizer que a linguagem interior é um processo de transformação do pensamento em palavra. É sua materialização e objetivação. Uma de suas peculiaridades centrais é a abstração do aspecto sonoro da linguagem e a diferenciação definitiva da linguagem interior e linguagem exterior.
“A linguagem interior é uma linguagem para si. A linguagem exterior é uma linguagem para os outros”, afirma Vygotsky (2010c, p. 425).
Vygotsky (2010c) faz então uma comparação entre três formas de linguagem: linguagem escrita, linguagem falada e linguagem interior.
Ele fala da tendência à abreviação e à predicatividade6 na linguagem falada, principalmente nos casos em que os participantes do diálogo já sabem do que se está falando. Esse fenômeno não é possível na linguagem escrita, o que faz desta uma linguagem muito mais completa e detalhada. Já na linguagem interior, verificam-se os fenômenos da abreviação e da predicatividade constantemente e em sua forma mais pura e absoluta, uma vez que sempre sabemos do que se trata em nossa linguagem interior. Para o autor, a linguagem interior é, no sentido exato, um discurso quase sem palavras.
Por esta razão, se a linguagem escrita é diametralmente oposta à falada em termos de desdobramento máximo e ausência total daquelas circunstâncias que suscitam o declínio do sujeito nesta, a linguagem interior também é diametralmente oposta à falada só que em um sentido inverso, uma vez que nela domina a predicatividade absoluta e constante. A linguagem falada ocupa, assim, uma posição intermediária entre a linguagem escrita e a linguagem interior. (Ibidem, p. 459)
5 É um termo que está ligado à categoria de linguagem egocêntrica de Piaget que foi discutido e
desenvolvido por Vygotsky e que o autor refere ser uma série de estágios anteriores a desenvolvimento da linguagem interior. (VYGOTSKY, 2010c)
6 Nos seus estudos Vygostsky viu que a linguagem falada tem a tendência para a abreviação e para a
predicatividade pura dos juízos, esta tendência surge em dois casos: quando a situação de que se fala é clara para ambos os interlocutores e quando o falante traduz na entonação o contexto psicológico do enunciado.
E uma das razões para que a linguagem interior tenha seu funcionamento desta maneira é o predomínio do sentido da palavra sobre o seu significado.
Vygostsky (2010c) coloca que o sentido da palavra é a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciência. Ele é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. Já o significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso, zonas estas que são mais estáveis, uniformes e socialmente dominantes. O autor explica que em contextos diferentes a palavra pode facilmente mudar de sentido. No entanto, o significado dela é um ponto imóvel e imutável que permanece estável em todas as mudanças de sentido da palavra e em diferentes contextos. Ele acrescenta ainda que, pelo fato do sentido das palavras ser determinado pelos seus diferentes contextos e aplicações, ele pode ser inesgotável.
Além disso, o sentido também pode ser separado da palavra que o expressa e colocado em outra palavra. Assim, mesmo separado da palavra, o sentido se preserva, mostrando dessa forma que as palavras podem existir sem sentido e o sentido também pode existir sem palavras.
Com essa compreensão de sentido é possível, então, explicar porque a linguagem interior seria ininteligível se fosse externalizada de forma idêntica à que ocorre internamente no indivíduo, como refere Vygotsky (Ibidem). Essa ininteligibilidade se daria pelo fato de ocorrerem juntos os fenômenos de abreviação, tendência à predicatividade e, ainda, a predominância do sentido ao invés do significado da palavra no desenrolar da linguagem interior. Uma vez que o indivíduo tem total clareza do que se passa na linguagem interior, esta pode ser simplificada em sua forma mais absoluta, forma esta que não fará o menor sentido para qualquer pessoa que não seja o próprio indivíduo que a produziu.
Assim, Vygotsky (Ibidem) concluiu que o pensamento não coincide diretamente com sua expressão verbalizada, nunca é igual ao significado direto das palavras, ou seja, o caminho entre o pensamento e a palavra é um caminho indireto, internamente mediatizado.
Porém, segundo o autor, o pensamento não é a última instância em todo esse processo, pois ele não nasce de outro pensamento e sim do campo da nossa consciência,
que o motiva, que abrange nossos pendores, necessidades, interesses, motivações, afetos e emoções.
O pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, por nossos desejos e necessidade, nossos interesses e emoções. Por trás de cada pensamento há uma tendência afetivo-volitiva, que traz em si a resposta ao último "por que" de nossa análise do pensamento. (VYGOTSKY, 2010c, p. 129)
O autor coloca que por trás da linguagem existe um subtexto oculto e que a compreensão efetiva e plena do pensamento alheio só se torna possível quando descobrimos esse subtexto afetivo-volitivo. Na análise psicológica de qualquer enunciado só chegamos ao fim quando descobrimos o plano interior e mais encoberto do pensamento verbal que é a sua motivação.
O pensamento faz, então, o seguinte percurso para que possa ser expresso no discurso do sujeito: “[...] do motivo, que gera algum pensamento, para a informação do próprio pensamento, para a sua mediação na palavra interior, depois nos significados externos das palavras e, por último, nas palavras”, afirma Vygotsky (Ibidem, p. 481).
Vygotsky sugere então a busca do subtexto como forma de análise do discurso como um meio para aferir as motivações e os desejos do sujeito que possam estar ocultos em sua fala.
E em outro momento, ainda completa:
Se antes comparamos o pensamento a uma nuvem pairada que derrama uma chuva de palavras, a continuar essa comparação figurada teríamos que assemelhar a motivação do pensamento ao vento que movimenta as nuvens. A compreensão efetiva e plena do pensamento alheiro só se torna possível quando descobrimos a sua eficaz causa profunda afetivo-volitiva. (Ibidem, p. 479-480)
Dessa forma, Vygotsky alertava para a importância de estar atento às questões que não se apresentam de forma direta; valorizava o que é apreendido indireta e
mediadamente e enfatizava que sempre havia algum tipo de subtexto nas frases, sejam elas da vida cotidiana ou de textos científicos.
Apesar da sugestão de Vygotsky, da análise do subtexto para aferir as motivações e desejos ocultos no discurso, a compreensão desse tipo de análise é difícil, pois Vygotsky não criou um sistema fechado e acabado para tal devido à sua morte tão precoce aos 37 anos.
Mas essas reflexões constituem referências para a construção do desenho do método da presente pesquisa que tem como objetivo conhecer os sentidos da busca pela saúde no pronto socorro que não estão aparentes nas queixas manifestadas pelos usuários no momento em questão.
Para isso, buscamos fazer uma breve caracterização dos atendidos no pronto socorro, levantamos as motivações que levaram os usuários a irem ao pronto socorro e a história de busca por atendimento à saúde dos entrevistados e procuramos entender o sentido de saúde para essas pessoas, bem como o de pronto socorro.
A metodologia utilizada para a coleta de dados se enquadra no modelo de estudo etnográfico e de caso7, que utiliza a observação participante e a entrevista semi- estruturada, com um roteiro de perguntas abertas e fechadas que eram direcionadas aos usuários. Já com os funcionários as entrevistas não continham perguntas fechadas e nem um roteiro de entrevista sendo permitido que eles falassem livremente. Tanto com os usuários como com os funcionários as entrevistas tinham esta cara. As perguntas fechadas do roteiro de entrevista visaram o levantamento do perfil dos sujeitos e procedência e as abertas, visavam informações individuais acerca das ideias e sentimentos dos sujeitos relacionados ao atendimento que eles estavam recebendo ou já haviam recebido naquela ocasião e em outras buscas ao pronto socorro (Apêndices).
Cientes da limitação imposta pelo contexto da pesquisa: a sala de espera de um pronto socorro, que limitava o tempo de entrevista e induzia à emoções tristes, procuramos perguntar diretamente sobre afetos e não só os vivenciados no momento,
7Segundo Chizzotti (1995, p. 102), estudo de caso “é a pesquisa para coleta e registro de dados de um ou vários casos, para organizar um relatório ordenado e crítico ou avaliar analiticamente a experiência com o objetivo de tomar decisões ou propor ação transformadora”.
mas vivenciados antes e depois da experiência no pronto socorro e elaborar uma espécie de diário de campo com o registro do observado durante a pesquisa: expressões afetivas, alegres ou tristes, conversas e outros fatos relacionados aos sujeitos da pesquisa que pudessem esclarecer o objetivo da pesquisa, caracterizando assim o um relato de inspiração etnográfica da pesquisa realizada. A postura da pesquisadora foi de observar tudo que ocorria no ambiente de pesquisa e, nas entrevistas, voltar a atenção também ao que não foi explicitamente verbalizado
A etnografia caracteriza-se como uma “descrição densa”, o que significa que é uma descrição (grafia) do que se dá no campo de pesquisa, os gestos, os atos, os atores, as sensações, os motivos de tais fenômenos etc. Ou seja, é também a “interpretação” dos fenômenos descritos, quando se identificam as relações entre os fenômenos e os atores sociais (GEERTZ, 1989, p. 14-16).
A análise das entrevistas com os usuários será orientada pelas reflexões de Vygotsky sobre sentido, significado, linguagem e subtexto uma vez que o pensamento não coincide diretamente com sua expressão verbalizada, Para desvelar o subtexto, a análise deverá ser orientada pela busca das unidades temáticas emergentes relacionadas à saúde, cuidado, sofrimento e sentimentos, que, como sugere Lane (1999), esgotem todos os significados possíveis tanto em relação ao que foi dito como ao não-dito, com destaque às expressões que representem a base afetivo-volitiva: afetos e motivos.
Dessa forma, será feita a análise do discurso dos sujeitos e dos profissionais buscando-se as unidades de sentido, levantando hipóteses sobre o subtexto dos discursos, motivação, afetos e cruzando as unidades de sentido das entrevistas dos profissionais e dos usuários. Também será apresentado o registro do diário de campo para caracterizar os usuários, o atendimento de cada dia da semana e a observação das expressões afetivas não verbalizadas, que possam indicar a “linguagem interior” definida por V, conforme apresentada acima.
CAPÍTULO II