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Irene Simões (1988, p. 176) afirma que, em Tutaméia, o texto oral se transforma em escrito: “Analisando os textos das Terceiras estórias (tanto os narrados em primeira quanto em terceira pessoa), temos, inicialmente, a postura do ‘contador de estórias’ que se dirige aos seus ouvintes.”

Conforme a pesquisadora, o narrador de Tutaméia assume a posição do contador de “estória recordada”. Em Estória no 3, por exemplo, temos no final do conto, a frase: “Conte-se que uma vez.” Esse contador, às vezes, se dirige aos ouvintes e se insinua nos comentários. Outras vezes, ele é o próprio ouvinte “que registra a fala do outro narrador”, como acontece no conto Desenredo: “Do NARRADOR aos seus ouvintes.” (Grifo do autor).

Ao colocar esses traços típicos de narrativa oral, Guimarães Rosa quer registrar não apenas o brotar do texto escrito, que nasce do oral, mas ressaltar elementos altamente condensados no processo de narração, elementos que estão latentes no ato de narrar e que se insinuam pelo corpo, através do gesto, da voz, da respiração. São esses elementos que estamos chamando de nicas textuais e iremos mostrar a seguir. Antes disso, convém fazer algumas reflexões sobre a poesia oral, estudada por Paul Zumthor.

Zumthor afirma que a escrita e a fala têm ritmo próprio. A escrita nasceu da necessidade de se fixar textos que antes eram orais. Na poesia oral, o copista, ao escrever, inconscientemente recriava o texto que lia. Nesse sentido, segundo o pesquisador, o copista, além de escritor, era também um leitor. Muitos traços do texto oral não eram registrados, pois passavam pelo filtro do copista. Dependendo de sua cultura, de seus valores, da sua memória, de seus interesses pessoais, algumas características eram realçadas e outras, não. Há, pois, nesse processo, um trabalho de memória e esquecimento. A escrita permitiu a conservação do texto, mas trouxe também a perda de boa parte da memória. Com a chegada da imprensa, houve uma separação entre o oral e o escrito. O texto manuscrito, segundo Zumthor, ainda tem traços orais. É interessante registrar que alguns copistas sabiam escrever, mas não liam. Eram como desenhistas de textos, escreviam, mas não tinham acesso ao significado.

Estudando a poesia oral, Paul Zumthor faz agudas reflexões sobre o papel do intérprete e do ouvinte. Para Zumthor (1997, p. 225) o intérprete é “o indivíduo de que se percebe, na performance, a voz e o gesto, pelo ouvido e pela vista.” Zumthor afirma que o papel do intérprete é mais importante do que o do compositor. Através do intérprete e de suas reações, o público vai ter acesso a elementos auditivos e corporais, que podem ter sidos programados ou não, já que quem interpreta pode trair.

Poderíamos dizer que esse intérprete, a que se refere Zumthor, corresponde ao que estamos chamando de narrador-copista, nas narrativas rosianas, que têm natureza oral. No conto O homem do pinguelo, por exemplo, como já vimos, há duas vozes narrativas e o segundo narrador vai comentando a escrita do primeiro.

Assim, em alguns contos de Guimarães Rosa, além do narrador que conduz o texto, muitas vezes há um segundo narrador, que Zumthor, na poesia oral, chama de intérprete. O ouvinte, nas narrativas rosianas de Tutaméia, seria tanto o leitor quanto o próprio narrador, que ouve de outro narrador, como ocorre em Desenredo. Há, pois, nesse conto, um primeiro narrador oral que narra para um segundo narrador, que é também ouvinte e que narra por escrito (mas deixando sempre substratos orais) para os leitores.

Através desse narrador copista, em alguns contos, Guimarães Rosa usou um recurso original para registrar uma escrita em estado primeiro, texto do corpo, da voz, texto da respiração, do murmúrio, enfim as nicas textuais. O vocábulo “nicas” é usado por Guimarães Rosa em seu terceiro prefácio, no glossário, como sinônimo de tutaméia. Essas nicas vêm à tona, em alguns contos, através desse narrador-copista, ou às vezes do narrador onisciente. Ambos pontuam essas “pulsações do corpo”, como chama Lúcia Castello Branco. Nessas pulsações estão a voz, o olhar, o sussurro e o sopro, elementos que se insinuam no entrelugar da linguagem na “gênese do discurso”, oscilando entre a superfície e os subterrâneos da palavra. (CASTELLO BRANCO, 1995a, p. 67). Vale ressaltar aqui que a voz não se limita ao fônico, nem remete ao sentido, mas ao corpo, ao que não se pode dizer. (MANDIL, 2003, p.245).

Em Antiperipléia, como já mostramos no terceiro capítulo, o personagem- narrador, um guia de cego, levanta diversas hipóteses sobre a morte do patrão, o cego Seu Tomé. De repente, surge a palavra “suspiros”, que evidentemente não é pronunciada pelo guia. Irene Simões vê nessa palavra a entrada de um segundo narrador, mas não dá detalhes. Acreditamos que esse segundo narrador corresponde ao que estamos chamando de narrador- copista. Se em O homem do pinguelo, esse narrador-copista está explícito, em Antiperipléia, ele quase se ausenta e apenas se insinua na palavra “suspiros”. Não é o guia que está mais narrando. Prova disso é que a palavra “suspiros” está no plural. Há, pois, um narrador que se distancia do personagem-narrador, o guia, insinuando-se num espaço de vacância, registrando as reações corporais do personagem que narra, evidenciando ausências do texto que não são mencionadas no plano da escrita pelo personagem-narrador no instante em que narra.

Como já mostrou Irene Simões, além de um narrador em terceira pessoa, costuma aparecer, principalmente nas narrativas de Tutaméia, um narrador em primeira, que como intérprete do narrador principal, vai acompanhando, nos vazios do texto, a estória. Vera Novis também demonstrou que em Tutaméia há uma série de recursos utilizados com relação aos deslocamentos do narrador, que ora se distancia da narrativa, ora se aproxima do personagem, como ocorre em Antiperipléia e, outras vezes, se esconde completamente. É o caso de Ladislau, personagem de Intruge-se, mas que se manifesta como narrador de outros contos, entre eles, O outro ou o outro. A pesquisadora lança até a hipótese de Ladislau ser o narrador de todos os contos de Tutaméia. Ladislau é, segundo a ensaísta, um nome que tem semelhança sonora com Estanislau, nome do santo do dia em que nasceu Guimarães Rosa.

Na trilha dos estudos de Vera Novis e de Irene Simões e lançando mão do conceito de “intérprete”, utilizado por Paulo Zumthor, podemos acrescentar que tanto o

personagem-narrador quanto o narrador onisciente, em alguns contos rosianos, funcionam também como intérpretes de reações corporais, espécie de resíduos que entram na tessitura das narrativas. Em Curtamão, afirma o personagem-narrador: “ – O sr.? Amigo...” – ele, vem, me espreitou nos centros, ele suspirava pelos olhos. Suspirei junto: – “Estou para nascer, se isso não faço´ – rouquei – desfechada decisão. (Curtamão, p. 43, grifo em itálico do autor, grifo sublinhado nosso). Em Uai, eu? (p. 177), o personagem-narrador faz referência ao suspiro do patrão: “[... ] ele de uso de suspiro.” (p. 177,Grifo nosso). Em A vela ao diabo (p. 27), o narrador em terceira pessoa registra as reações do corpo: “Sentados os dois, ombro com ombro, a fim de arredondados suspiros ou vontade de suspirar.” (Grifo nosso). Em Estoriinha (p. 64), encontramos uma referência ao respirar: “Ela chupava-lhe a respiração dos ventos.” (Grifo nosso ).Em Estória no 3 (p. 61) há o seguinte trecho: “Por ora, seca a goela e amargume, o doer de respirar, como um bicho frechado.” (Grifo nosso ).

Em outros contos, há personagens que gaguejam, murmuram, fazendo lembrar os resmungos de personagens de outras narrativas, como por exemplo, Campo geral, como já mostramos no segundo capítulo. Em Tutaméia, o protagonista de Mechéu é gago, o mesmo acontecendo com João Porém, de João Porém, criador de perus e com o velho Nhácio, de Hiato, que também gagueja. Em Arroio das Antas, as velhinhas “arrulham”. Em vários outros contos, é possível destacar essas nicas textuais que vão acompanhando o texto maior num registro em surdina, evidenciando o que não está escrito.

Voltemos ainda ao conto Curtamão. Além da referência à respiração (“Ele suspirava pelos olhos”), há ainda o registro da voz: “rouquei”: Suspirei junto: – “Estou para nascer, se isso não faço´ – rouquei – desfechada decisão. (Curtamão, p. 43, grifo do autor, grifo nosso sublinhado), fundindo respiração e voz, realçando a aliança entre Armininho e o personagem-narrador. Nesse caso, unindo som, imagem e respiração, Guimarães Rosa intensifica nessa estória a firme determinação do personagem-narrador de construir a casa, apesar de todos os obstáculos. Como podemos perceber, além do texto escrito, há ainda resíduos textuais, a nível do corpo, que vão acompanhando a escrita.

Em O outro ou o outro, já não é a respiração, mas o gesto, a voz e o olhar que suplementam o texto. A linguagem corporal de Prebixim, um cigano que é interrogado por Tio Dô, é freqüente seja através da fusão dos sentidos (“E pôs os olhos à escuta”) (O outro ou o outro, p. 105) seja através da inclinação do corpo: “Aprumara seu eixo vertebral, sorria por todos os distritos do açúcar.” (O outro ou o outro, p. 106). Também a voz é realçada: “Mas simples sem cessar, na calma e paz, que irradiava, felicidade na voz” (O outro ou o outro, p. 106).

Um resíduo textual que se aproxima da letra está no conto “Lá, nas campinas”. No primeiro parágrafo, há uma referência à voz. A fim de realçar a imprecisão da voz do personagem, o autor mineiro mistura a cor (escura) e o tato (amolecida), além de fazer referência à “modulação”, uma espécie de “rascunho da voz”, gaguejo do protagonista Drijimiro: “Está se ouvindo. Escura a voz, imesclada, amolecida; modula-se, porém vibrando com insólitos harmônicos, no ele falar aquilo.” (Lá, nas campinas, p. 97). Há aqui uma descrição do som por parte do narrador, que está camuflado em terceira pessoa. Durante toda a narrativa, tem-se a impressão de que o narrador é onisciente, mas no final o leitor é surpreendido com a frase “Mas não acho as palavras”, evidenciando a posição do narrador- copista, que tentando traduzir o tropeço sintático de Drijimiro, preso a um resto de frase – “lá nas campinas” – também tropeça na elaboração do texto que está traduzindo para o leitor. Portanto, a palavra se mostra fracassada para expressar a coisa.

Ainda com relação a esses elementos textuais mínimos, é interessante observar que, em algumas narrativas de Tutaméia, há determinados rumores que chamam atenção: tosse, fungados e tonalidade de voz aparecem em um bom número de contos. Tais traços, juntamente com o olhar, o gesto, a voz dão novas modulações ao texto. No conto Hiato, por exemplo, o narrador registra um “fungado” e uma tosse do vaqueiro Nhácio: “Vaqueiro o Nhácio, tossidiço, estacou. – ‘Sirvo mais não, para a campeação, ach’-que. Tenho mais nenhuma cadência...’ – fungado.” (Hiato, p. 63, grifo do autor, em itálico, grifo nosso sublinhado). Essa tosse e esse fungado funcionam como um suplemento textual que, através do corpo, realça o sentimento de frustração do velho vaqueiro, que assustado pelo touro, desiste de campear. Importa ressaltar que a fala do velho Nhácio está em itálico. Já a palavra “fungado” está em tipo comum, evidenciando que se trata do narrador-intérprete, que acompanha, na sombra, os dois vaqueiros Nhácio e Põe-Põe.

Quando Guimarães Rosa afirma, em uma de suas entrevistas, que em Tutaméia, cada palavra pesa, é preciso levar mais a sério essa afirmação. Por trás de um simples “fungado” do vaqueiro Nhácio, por exemplo, é possível perceber a linguagem do corpo, texto não-verbal, não conceitual, evidenciando a decepção do velho vaqueiro por ter se assustado com um simples touro que surgiu de repente do mato.

Esses elementos mínimos (tosses, gestos, olhares, suspiros, toques), que estamos chamando de nicas, são dejetos textuais que aumentam a polissemia, desalojam a frase da rigidez sintática, tornando-a mais flexível, mais visual ou auditiva. Tais traços aparecem como contraponto da linguagem escrita, pedindo do leitor uma atenção redobrada, levando-o a recriar essas frases condensadas, que escapam à linguagem.

Ao colocar essas tutaméias textuais, elementos suplementares da escrita, que muitas vezes passam despercebidos na narrativa, Guimarães Rosa busca a linguagem oral, resgatando a presença do corpo, através da voz, do gesto, da respiração, do murmúrio e do resmungo, voltando assim aos primórdios da narrativa.

Ao registrar esses traços mínimos, o autor mineiro, colocando um narrador- intérprete ou mesmo um narrador onisciente, que traduz traços não-verbais, chama a atenção para elementos pulsionais, que são inscritos no corpo, agindo como suporte da experiência, já que o narrar, na sua origem, tem a ver com a experiência. (BENJAMIN (1987b, p. 198). Registrando tais nicas textuais, Rosa reforça o caráter artesanal das narrativas primeiras, como afirma Benjamin (1987b, p. 198): “A narrativa,que durante tempo floresceu num meio de artesão – no campo, no mar e na cidade –, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação.”

A utilização do narrador-copista é um recurso rosiano (mas não o único, pois às vezes até o próprio narrador onisciente pode exercer esse papel) para registrar esses elementos mínimos do texto, próximos do significante, da materialidade sonora da linguagem. Esse narrador, que “copia” o texto oral, passa mais facilmente uma atmosfera do artesanato da narrativa.

Na leitura que fizemos anteriormente, ressaltamos o papel da oralidade e do corpo na escrita. Nas leituras que faremos dos contos a seguir, vamos mostrar, mais detalhadamente, de que modo essas nicas textuais se manifestam em outros níveis em alguns contos de Tutaméia.