3.1. ARAŞTIRMANIN DESENİ
3.1.2. Araştırmanın Felsefi Temeli
Situações de ansiedade e estresse em decorrência das inúmeras dificuldades enfrentadas no cotidiano laboral foram relatadas pelos catadores. A instabilidade da renda adquirida com a reciclagem, sem a existência de um salário fixo, levou-os a preocupações com a sobrevivência futura.
Ah, o estresse né, é voltar com o carrinho vazio, sem ter nada dentro. Tem dia que tá melhor, tem dia que tá mais pior, é assim, só pensando nas conta pra pagar (Marcos).
E eu me sinto assim, um pouco sem mim, sem mim quanto ao meu trabalho, porque eu tenho que correr no tempo, porque eu pego o resto, eu não tenho aquele serviço fixo pra mim (Sandra).
A carga mental que a gente tem sempre foi assim, uma coisa difícil, porque a gente fica ansioso, a gente não dorme um sono gostoso. Dorme um sono porque a gente tá esgotado! Mas não é um sono tranqüilo. Por quê? Porque amanha a gente não sabe o que vai catar! Você só fica pensando no que você vai fazer amanhã, se vai ter muita coisa pra pegar, se vai ter menos, entendeu? Então a gente fica pensativo. Porque a boca não pára. A boca da gente tem que comer! (Luiz).
Ai fia, estresse, muito estresse! Porque tem vez que você sai e você não arruma nada! E você volta pra casa. E às vezes você tem uma coisa pra comprar, por exemplo, meu gás acabou. Se eu tivesse de sair agora, eu já ia em um estresse, porque você fica oh minha nossa senhora, eu tenho que conseguir, eu tenho que conseguir , e isso sua cabeça dói, o corpo dói, as perna dói... é o estresse! Você pega, você vem embora pra casa, e você não quer saber de nada. Você quer deitar, tomar um banho e dormir! (Simone).
Pesquisa realizada por Alencar, Cardoso e Antunes (2009) identificou entre catadores a existência de sentimentos de baixa autoestima, desamparo e ansiedade, esta última relacionada às preocupações de sobreviver frente à instabilidade financeira. Como o ganho dos catadores depende de sua produção diária, ou seja, da quantidade e qualidade do material coletado, esses trabalhadores também vivenciam um trabalho exaustivo, visto que não há períodos delimitados para o trabalho e o descanso, condição característica do trabalho informal e autônomo.
Ele (o catador) tem que ter um equilíbrio muito grande, porque o dia a dia é pesado, é difícil. Porque você tem contrariedade, você tem dor intensa, você tem
uma dor de dente, você tem uma dor de barriga, mas você não pode parar né? Como é que faz? Então a gente fica estressado, a mente às vezes fica cansada... (Luiz).
Por que a gente estressa? Porque o catador deveria ter um horário pra começar e um horário pra terminar, e o final de semana para descansar, o que não acontece. Então minha saúde vai, porque eu não tenho tempo de descansar o corpo. Minha saúde vai deteriorando. Fora a preocupação que eu tenho de coisas melhores. Eu quero coisas melhores entendeu? Eu quero descansar, uma coisa agradável entendeu? (Sandra).
As vivências no trânsito também foram citadas como situações geradoras de estresse e irritabilidade nos catadores, manifestadas pelo medo do acidente de trabalho e pelos conflitos interpessoais.
Estresse, problema no trânsito, ficar nervoso... Porque tem dia que tu não tá bem da cabeça, lógico né, não tem como não ter esse esgotamento da cabeça, de ver as outra pessoa brava sabe? No trânsito, eu fico apavorado mesmo! E pode causar, às vezes, tu causar um acidente por causa dela né, porque a gente gruda no carro né...se tu vê a pessoa estressada gritando com a outra, o motorista né, se tu tá estressado também já vai dar confusão, então aquilo ali é esgotante (Márcio).
O preconceito foi apresentado pelos trabalhadores também como um condicionante da produção de estresse. Os sentimentos de raiva, desvalorização e impotência frente à discriminação no trabalho podem resultar em desgaste mental, que quando permanente, pode gerar doenças importantes, dentre elas a depressão.
O catador, ele tem que ter uma cabeça boa, ele tem que sair tipo: Eu vou trabalhar, e não vou pensar no que a outra pessoa pensa . Os dias que mais me estressa é quando eu saio pra catar e alguém me humilha. Aí eu fico muito estressada, aí eu ando pela rua conversando sozinha, e até a minha filha falou pra mim: Você parece uma louca, você conversa sozinha! . Claro que eu converso sozinha! A coisa que eu tenho mais raiva é da pessoa passar perto de mim e falar: Vai arrumar um serviço credo, não tem vergonha de mexer nessa nojeira não? . Eu fico pensando, tem gente que pensa assim, que vai ser assim bem pro resto da vida... Deus é justo fia! Deus é justo! (Simone).
Tem que ter paciência! Tem hora que você tem vontade de bater na pessoa, de mandar a pessoa para aquele lugar, mas não vai adiantar, não adianta! (Maria Aparecida).
Eles olha pra gente como se a gente fosse um bicho, entendeu? Então quando você chega em casa e toma um banho, e já ta assim, cansado mesmo, eh, mais um dia foi. Mas eu acho que, não sei se isso aí é psicólogo ou psiquiatra que vai entender, mas isso abala muito a emoção. Porque a gente vê, não é questão de inveja. Mas poxa vida, porque é que eu não podia ser fulano que sai, porque eu não posso limpar esse carro igual fulano faz? Acho que ele teve sorte? Pode ser que ele teve sorte... (Luiz).
Relatos de humilhação, desvalorização e vergonha também foram encontrados no estudo de Alencar, Antunes e Cardoso (2009), visto que os participantes da pesquisa referiam esconder-se de outras pessoas durante a realização de seu trabalho na reciclagem.
Um estudo transversal sobre a ocorrência de distúrbios psiquiátricos menores (incluindo ansiedade, depressão e distúrbios somatoformes) em catadores brasileiros, realizado por Silva, Fassa e Kriebel (2006), detectou que a prevalência dessas alterações foi 44.7% maior do que a identificada em um grupo controle com condições sociodemográficas semelhantes. Os referidos autores constataram que as posturas estáticas, a baixa satisfação no trabalho e a ocorrência recente de acidentes laborais foram fatores ocupacionais associados às alterações psíquicas.
Observa-se que a importância do valor social do trabalho do catador é comumente negada, apesar de sua contribuição para a sociedade, meio ambiente e mercado da reciclagem. Segundo Dejours (1994), um trabalho isento de significado e valorização produz um sofrimento com impactos cruciais na saúde mental dos trabalhadores.
Para Franco, Druck e Seligmman-Silva (2010), os cenários de precarização laboral presentes na sociedade contemporânea têm mostrado um esvaziamento de sentido por meio do empobrecimento do significado do trabalho, produzido a partir de situações de humilhação, incertezas e injustiças vivenciadas pelos trabalhadores, o que representa a violação dos valores éticos e morais no trabalho.
As referidas autoras indicam que tais situações, características do trabalho precarizado, podem gerar desgaste mental, sendo comuns os quadros depressivos, o esgotamento profissional
(Burnout) e a dependência de bebidas alcoólicas e outras substâncias (FRANCO; DRUCK; SELIGMMAN-SILVA, 2010), sendo esta última frequentemente apontada em estudos com catadores (PORTO et al., 2004).