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Araştırmada Kullanılan Yöntemlerin Seçimi

4. ARAŞTIRMA YÖNTEMİ

4.2 Araştırmada Kullanılan Yöntemlerin Seçimi

Enquanto o diálogo sobre o texto de Efésios mobilizava, pelo menos três momentos, neste item trabalharemos com dois textos: a Apologia a Anastásio, de Rufino, e sua refutação por Jerônimo na Apologia contra Rufino.

Sobre os efeitos que a Apologia a Anastásio, de Rufino, produziu em Roma ou sobre o próprio papa Anastásio não se tem muita certeza, apesar de Jerônimo ter-se detido muito sobre esse texto e ter ocupado boa parte do segundo livro de sua Apologia discutindo- lhe as idéias. No ano de 401, o papa recebeu uma carta de um velho amigo de Rufino, João de Jerusalém, consultando o pontífice sobre Rufino e, provavelmente, assumindo a defesa do velho amigo e, naquele momento, partidário das mesmas idéias e do mesmo ódio à pessoa e às posições de Jerônimo. O texto da carta de João de Jerusalém ao papa Anastásio não chegou até os nossos dias, mas o texto da resposta de Anastásio a João de Jerusalém, ao contrário, chegou-nos na íntegra. Jerônimo enviou uma cópia desse texto a Rufino, no verão do ano 401, junto com sua Apologia contra Rufino. O papa Anastásio condena, em seu texto, a Orígenes e suas obras, não manifestando preocupação com as crenças de Rufino, deixando- o livre e entregue à própria consciência e ao julgamento divino, quanto ao que quer que animae nostra corpora, ut et uxores in viros, et corpora redigantur in animas. Et nequaquam sit sexuum ulla diversitas, sed quomodo apud angelos non est vir et mulier, ita et nos, qui similes angelis futuri sumus, jam nunc incipiamus esse quod nobis in coelestibus repromissum est...”

180 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 562: “...Si corpora in animas redigentur, ergo secundum te non solum carnis

resurrectio non erit, sed nec corporum, quod confiteri istos quos tu fecisti haereticos, dicis...”

181 São Jerônimo, Apologia, p. 80: “...Et reuera ubi inter uirum et feminam castitas est, nec virincipitesse,nec

tivesse feito. O papa Anastásio aprová-lo-ia em sua tarefa de tradução, se buscasse evidenciar os aspectos daninhos da obra de Orígenes, mas condená-lo-ia se tivesse a intenção de pura e simplesmente divulgar a obra de Orígenes, sem ter o cuidado de evidenciar aqueles aspectos que, no entender de Anastásio, não deveriam ser ocultados.

O texto da Apologia a Anastásio que pudemos consultar na coletânea de Migne182 inicia-se com a observação de que o nome de Rufino havia sido mencionado na presença do papa em relação a controvérsias, seja a respeito de fé, seja a respeito de outras questões quaisquer. Rufino rejubila-se que o papa Anastásio não tenha dado ouvidos àqueles que o caluniavam, junto àquela autoridade romana, na sua ausência. Justifica junto a Anastásio a impossibilidade de estar presente para defender-se, devido ao fato de ter feito longa viagem de volta a Aquiléia para rever os pais, depois de cerca de trinta anos de ausência, e não querer despedir-se deles tão rapidamente, por ter sido tão tardio o reencontro, e por ser incapaz de suportar o esforço de uma nova viagem.183 Jerônimo menciona, em uma epístola de elogio a Marcela, uma intimação feita a Rufino de comparecer diante do pontífice para defender-se de uma acusação de heresia, mas que, uma vez citado, não se atreveu a comparecer; e era tal a pressão de sua consciência que preferiu ser condenado como ausente que refutado estando presente.184

Rufino evidencia, no texto de sua carta, sua fé submetida à provação, pelo que havia sofrido no tempo da perseguição em que vivia na Igreja de Alexandria, nos cárceres e exílios; e mostra-se pronto a manifestar sua posição quanto às doutrinas que certamente seriam o alvo de sua intimação junto ao pontífice: as doutrinas de Orígenes.

Quanto à doutrina da Trindade, Rufino sustenta sua crença em uma única natureza, uma mesma virtude e substância, asseverando que não há nenhuma diferença entre as três pessoas. Em resumo, sustenta que Deus existe em três pessoas subsistentes e que existe

182 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 623-628.

183 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 623: “...Ad me tamen quoniam appetitae existimationis meae fama pervenit,

aequum putavi, ut (quoniam ipse post triginta fere annos parentibus redditus sum, et durum satis atque inhumanum erat, si tam cito desererem eos, quos tam tarde reviseram: simul et quia tam longi itineris labor fragiliorem me reddit ad iterandos labores) literis meis satisfacerem Beatitudini tuae, non ut de sancta mente tua, quae velut quoddam Dei sacrarium aliquid iniquum non recipit, maculam suspicionis abstergerem, sed ut aemulis adversum me forte oblatrantibus, baculum quemdam tibi confessionis meae, quo abigerentur, offerrem...”

184 São Jerônimo, Ep. 127, 10: “...dum acciti frequentibus litteris heretici, ut se defenderent, uenire non ausi sunt

unidade em sua natureza e substância.185 Quando Rufino se expressa no singular, referindo-se à hipótese de alguém desejar atacar sua fé, Jerônimo reage a isto, esquivando-se de ser o alvo visado por Rufino e desconstruindo o discurso de Rufino por uma substituição do singular pelo plural, sendo muitos os “latidos” que chegavam até Rufino.186

A respeito do Filho de Deus, Jerônimo sustenta que a confissão que sobre esse tema faz Rufino187 nada tem de novo a acrescentar ao que é de conhecimento geral.188 Jerônimo insiste, ao contrário, em saber qual é o ponto de vista de Rufino sobre a origem da alma de Cristo: a pré-existência da alma de Cristo, antes que Cristo nascesse de Maria; o traducianismo, que sustenta que a alma de Cristo nasceria do Espírito Santo e seria criada concomitantemente ao corpo, na concepção virginal no seio de Maria; o creacionismo, pelo qual se crê que a alma de Cristo foi enviada do céu ao corpo de Cristo que então estava sendo gerado no ventre de Maria.189

A respeito da ressurreição da carne, quando Rufino diz que a carne, na qual hoje vivemos, haverá de ressurgir sem amputação de absolutamente nenhum membro, ou a separação de alguma parte do corpo, contrariamente às calúnias que lhe são feitas, ele aponta, como promessa do Apóstolo Paulo, que a ressurreição tornará incorruptíveis os corpos corruptíveis, a enfermidade dará lugar ao vigor, a ignomínia, à glória, o corpo animal, ao corpo espiritual.190 Mas Jerônimo questiona esse ponto do texto de Rufino para saber se ele inclui na ressurreição da carne também o sangue que, juntamente com a carne, constitui também o corpo; ou também importaria saber se os corpos se reduziriam aos quatro elementos que os compõem. Com uma pitada de bom humor, Jerônimo fecha com um chiste o

185 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 624: “...sciat quod de Trinitate ita credimus, quod unius naturae sit, unius

Deitatis, unius ejusdemque virtutis, atque substantiae, nec inter Patrem et Filium et Spiritum Sanctum sit prorsus ulla diversitas, nisi quod ille Pater est, et hic Filius, et ille Spiritus Sanctus. Trinitas in subsistentibus personis, unitas in natura atque substantia...”

186 São Jerônimo, Apologia, p. 106: “...De uno dubitas, cum multorum latratus ad te usque peruenerint...” 187 MIGNE, J.-P., PL. XXI, col. 625: “...Filium quoque Dei in novissimis diebus natum esse confitemur ex

Virgine et Spiritu Sancto: carnem naturae humanae, atque animam suscepisse, in qua et passus est, et sepultus, et ressurrexit a mortuis: in eadem ipsa carne resurgens, quae deposita fuerat in sepulcro: cum qua carne simul, atque anima post resurrectionem ascendit in caelos: unde et venturus exspectatur ad judicium vivorum ac mortuorum...”

188 São Jerônimo, Apologia, p. 106: “...Puto quod et daemones confiteantur ‘Filium Dei natum esse de uirgine’

et ‘carnem naturae humanae atque animam suscepisse’...”

189 São Jerônimo, Apologia, p. 106: “...Anima ista quam suscepit Iesus, erat antequam nasceretur ex Maria, an

in origine uirginali, quae de Spiritu Sancto nascebatur, cum corpore simul creata est, uel, iam in utero corpore figurato, statim facta et missa de caelo est? De tribus unum quid sentias scire desidero...”

190 MIGNE, J.-P., PL XXI, col 625: “...Non ut quidam calumniantur, alteram pro hac resurrecturam dicimus; sed

comentário sobre o tópico, com a imagem da Jerusalém celeste repleta de eunucos, sem nariz e sem orelhas191, ironizando a relevância que se dá ao fato de que não haverá amputação ou corte de nenhum membro.

Ao tratar do juízo que haveria de acontecer e do castigo que caberia ao diabo, Rufino lembra que o juízo é o momento da retribuição pelas boas obras ou da punição pelas más obras e que, sendo o diabo para todos a causa do pecado, mais que todos o diabo, e todos os que realizam a sua obra, aí incluídos os que incriminam seus irmãos, herdarão as chamas eternas. 192 Jerônimo não apresenta objeções que denotem discordância ou oposição doutrinária às afirmações de Rufino. Ao contrário, critica a construção estilística de Rufino, como o caso da repetição do mesmo substantivo iudicium na oração principal e na oração relativa a ela subordinada193, denunciando-lhe a imperícia estilística em tom de zombaria194, bem como a engenhosidade da fórmula “entrarão em posse da herança do fogo eterno”195 para traduzir em latim o grego kleronomêsousin. Jerônimo reage mais uma vez à investida de caráter pessoal da parte de Rufino, quando este menciona “os que acusam seus irmãos”, contornando sabiamente a situação em que, novamente, seria alvo da malevolência do adversário, para acentuar que o diabo se aliviaria ao partilhar o castigo das chamas reservado a cristãos; no entender de Jerônimo, com a expressão que usou, Rufino deixa transparecer que “salva o diabo”, por isso Jerônimo aconselha a Rufino que ele lance uma maldição direta a seu adversário, evitando associar a maldição do adversário ao viés da condenação a que está submetido o diabo.196

191 São Jerônimo, Apologia, p. 108: “...Scilicet hoc timuimus ne sine naso et auribus surgeremus, et, amputatis

sectisque genitalibus, eunuchorum in caelesti Ierusalem ciuitas conderetur!”

192 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 625-626: “...Quod si homines recepturi sunt pro operibus suis: quanto magis et

diabolus, qui omnibus existit caussa peccati? De quo illud sentimus, quod scriptum est in Evangelio: quia et ipse diabolus, et omnes angeli ejus, cum his qui opera ejus faciunt, id est, qui criminantur fratres, cum ipso pariter aeterni ignis haereditate potientur(Matth.25)...”

193 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 625: “...Dicimus quoque et judicium futurum, in quo judicio unusquisque recipiat

propria corporis, prout gessit, sive bona, sive mala...”

194 São Jerônimo, Apologia, p. 110: “...Dixerat ‘iudicium futurum’, sed, homo cautus, timuit solum dicere ‘in

quo’ et posuit ‘in quo iudicio’, ne, si non secundo repetisset ‘iudicium’, nos, obliti superiorum, pro ‘iudicio’ ‘asinum’ putaremus!”

195 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 626: “...cum ipso pariter aeterni ignis haereditate potientur...” (observar os

termos em itálico).

196 São Jerônimo, Apologia, p. 114: “...Magis debueras, ut suspicionem salutis diabolicae declinares, dicere:

Rufino dedica um tópico especial à origem das almas em sua Apologia a

Anastásio, cujo texto Jerônimo transcreve em sua Apologia contra Rufino.197 Jerônimo critica no texto de Rufino os inúmeros defeitos de estilo como a falta de correpondência no emprego dos modos e tempos, a imprecisão que resulta da interpretação de um texto com uso freqüente de pronomes indefinidos como sujeitos como quidam, alii, o emprego dos substantivos

quaestio e querimonia como equivalentes, dentre outros problemas que tornam mais penoso o trabalho de quem se dispõe a criticá-lo que aquele esforço que teve empenhar quem o escreveu.198 Além dos defeitos de estilo, Jerônimo aponta problemas mais graves como a carência de uma posição certa e definida sobre o tópico, fazendo Jerônimo pensar na oposição que representaram Arcesilau e Carnéades ao dogmatismo estóico, pela recusa em apresentar soluções para os problemas que lhes fossem apresentados, além de tomar como testemunha a autoridade do pontífice. Jerônimo observa as referências do texto marcadas pela hesitação, pela falta de indicação bibliográfica segura, afirmações calcadas em opiniões (“puto”). Quanto a Orígenes, Rufino conhece perfeitamente a posição que aquele mestre tinha a respeito das almas, a de que tendo sido criadas a partir do nada, outrora, por Deus, no momento presente, o criador as distribui nos corpos199; entretanto, Jerônimo propõe que Rufino defina em termos éticos o que pensa Orígenes a respeito da origem das almas.

Quanto à questão da tradução da obra Perì Archôn de Orígenes, traduzida por Rufino a pedido de irmãos, Jerônimo lembra que o pedido era que se fizesse tradução e não correção do texto; que cabe sobretudo a um bom tradutor a fidelidade ao teor do texto original. O próximo item tratará abundantemente das adições ou supressões impostas ao texto de Orígenes, que Jerônimo já levanta neste tópico.