4. ARAŞTIRMA YÖNTEMİ
4.3 Örnek Olay Çalışmaları
4.3.2 Örnek olay çalışmalarında araştırma tasarımı ve detayları
Jerônimo dedica a terceira parte do segundo livro de sua Apologia a justificar a sua obra de tradução da Bíblia a partir dos originais hebraicos, que ficou conhecida como
Vulgata. A Jerônimo horrorizava o estilo pouco cuidado das velhas traduções latinas, do que nos dá testemunho a sua epístola mais conhecida, em seu parágrafo mais clássico, o da narrativa do célebre sonho.209 As traduções da Bíblia a partir do hebraico, empreendidas por nosso autor, constituem um movimento audacioso e renovador no âmbito da cultura cristã, pois os latinos careciam de um texto de boa qualidade lingüística e estilística, já que as traduções mais consistentes do Antigo Testamento eram lidas em grego, a famosa edição dos Setenta ou Septuaginta, e o texto original do Novo Testamento, também em grego.
O empreendimento de Jerônimo tem início com o aprendizado da língua hebraica no deserto de Cálcis com o monge judeu Baranina, chegando até o ponto do autor defender para suas traduções bíblicas, a partir dos originais hebraicos, a prerrogativa da hebraica
ueritas, que consiste em restaurar os parâmetros culturais da sociedade judaica, a fonte dos textos bíblicos. Acreditamos que tal empreendimento representa um forte impacto cultural (pelos frutos que trouxe para os cristãos de língua latina) e uma iniciativa original e sem precedentes (pelo empenho e conhecimento que tal tarefa requeria do tradutor e pelo volume de trabalho que a extensão dos textos representava). Um trabalho verdadeiramente hercúleo que nosso autor legou ao Ocidente e que nutriu a cristandade medieval por, pelo menos, um milênio inteiro, sendo a principal fonte do texto bíblico até a época da invenção da Imprensa.
Jerônimo refuta os ataques de Rufino às suas traduções bíblicas. E os ataques começam com o apelido que Rufino impõe ao mestre judeu de língua hebraica, cujas lições Jerônimo freqüentou no deserto de Cálcis, Baranina, mudando esse nome, de modo pejorativo, com sentido de profunda rejeição a tudo que trouxesse a marca judaica, para Barrabás. O anti- semitismo passa a ser pretexto para desqualificar a empreitada das traduções bíblicas, cujo alcance avaliamos no parágrafo anterior, com acusações de que Jerônimo havia se tornado
209 São Jerônimo, Epistolario I (1993), p. 242: “...Si quando in memet reuersus prophetam legere coepissem,
sermo horrebat incultus et, quia lumen caecis oculis non uidebam, non oculorum putabam culpam esse, sed solis...”
refém dos judeus, já que deles partilhava o “espírito judaico”.210 Jerônimo argumenta que sua obra de tradução, a Vulgata, não desmerece a tradução grega dos Setenta nem resulta em uma nova obra pois, sendo tradução de uma obra, de uma cultura estrangeira, tem por obrigação manter o teor do texto de partida na língua de chegada. Além disso, Jerônimo argumenta a todo instante que suas traduções bíblicas são uma alternativa à tradução bíblica dos Setenta, mas que ele, educado na tradição da tradução dos Setenta, sustenta que a tradução grega mantém o seu lugar, não pretendendo o autor subvertê-la com a sua Vulgata. Jerônimo reagiria a inúmeros agravos da parte de Rufino, os quais ele imagina Rufino lhe faria quanto ao seu empreendimento de tradução: “...homicida, adúltero, sacrílego, parricida...”211.
Citando o prefácio à tradução do livro do Gênesis212, Jerônimo distingue o vates ou propheta do interpres, ao separar do trabalho de tradutor aquilo que é da alçada do profeta e da profecia. A distinção serve para rechaçar a confusão que Rufino criou em sua Apologia contra São Jerônimo, dizendo que “o Espírito Santo havia inspirado o trabalho dos setenta sábios, sob o comando de um único homem (Jerônimo!), apadrinhado por Barrabás”.213 A tradução da Vulgata superaria a da Septuaginta pois, no entender de Jerônimo, o que fora profetizado por profetas do Antigo Testamento torna-se história nos tempos posteriores ao advento de Cristo e, portanto, ao que era profecia somam-se as evidências da história214.
Citando passagem do livro do Êxodo215 e retomando o motivo bíblico da coleta dos materiais na comunidade dos filhos de Israel, por determinação de Iahweh a Moisés, Jerônimo, no prefácio ao prefácio ao livro de Samuel e dos Reis216 dá à sua tradução da Bíblia o paralelo da oferta das peles e pêlos de cabra. Aparentemente menos valiosos que o ouro, as pedras preciosas, a púrpura, o linho fino, o escarlate e o jacinto, a oferta das peles e pêlos de cabra, por Jerônimo, têm a virtude de proteger a beleza da tenda do ardor do sol e dos danos causados pelas chuvas. Estaria Jerônimo aludindo, com a imagem do sol e das chuvas, aos
210 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 615: “...Quis enim alius auderet ab Apostolis tradita Ecclesiae instrumenta
temerare, nisi Judaicus spiritus? Illi te, o mi frater, antequam a Judaeis capereris, carissime, illi te in haec mala praecipitant...”
211 São Jerônimo, Apologia, p. 170: “...Miror quomodo in eadem epistula homicidam et adulterum et sacrilegum
ac parricidam me esse non dixerit, et quicquid potest tacita mentis cogitatio intra se turpitudinis uoluere...”
212 MIGNE, J.-P., PL XXVIII, col. 179-184.
213 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 612: “...De quo ut omittam illud dicere, quod Septuaginta duorum virorum per
cellulas interpretantium unam et consonam vocem, dubitandum non est, Spiritus Sancti inspiratione prolatam, et majoris id debere esse auctoritatis, quam id quod ab uno homine, sibi Barraba aspirante, translatum est...”
214 São Jerônimo, Apologia, p. 176: “...nos, post passionem et ressurrectionem eius, non tam prophetiam quam
historiam scribimus...”
danos que as heresias vinham causando à Igreja de Cristo, como acontecia também à tenda, sujeitas a intempéries de vários tipos?
Importante ponto no prefácio ao livro das Crônicas217 é o retorno ao Hebreus pelo fato de eles serem a fonte das Escrituras do Antigo Testamento e a fonte viva de onde procede também boa parte dos textos do Novo Testamento. Isto justificaria o trabalho de tradução que recuperaria a hebraica ueritas, a fonte vital e original dos textos bíblicos.
Prefaciando o livro de Esdras218, Jerônimo lembra que, uma vez terem os gregos adotado sua tradução, ao lado das de Áquila, Símaco e Teodocião, com muito mais razão deveriam os latinos, com entusiasmo, adotar a sua. O conhecimento da língua hebraica por Jerônimo, ainda que ele próprio o considere modesto, é sem par no mundo cristão. Esse conhecimento “modesto” autoriza-o a transportar para a língua latina o que ele compreendeu nos textos hebraicos.
A tradução do livro de Jó, afirma Jerônimo no prefácio de tal tradução219, vem preencher uma importante lacuna que a outra tradução existente do mesmo livro tinha, em termos de reduções, mutilações, obscuridades e omissões ou, pelo menos, alterações devidas a erros dos copistas.
No prefácio da tradução ao livro de Isaías220, as outras versões (dos Setenta) ocultam muitos mistérios da vida do Messias que a profecia de Isaías prenunciava para o Cristo e que ganhou para os cristãos pleno sentido depois da encarnação histórica do Filho de Deus no homem de Nazaré. A existência de mais de uma tradução de um mesmo texto ajudaria a melhor compreender um texto da complexidade de uma profecia, e é a este título que Jerônimo apresenta a sua tradução do texto de Isaías.
Para finalizar este item, Rufino acusa a Jerônimo de ter traduzido e introduzido no texto do profeta Daniel, do qual Jerônimo apresenta aqui seu prefácio221, a história de Susana, o hino dos três meninos, as narrativas de Bel e do dragão que não figurariam nos volumes
216 MIGNE, J.-P., PL. XXVIII, col. 593-604. 217 MIGNE, J.-P., PL XXVIII, col. 1389-1394. 218 MIGNE, J.-P., PL XXVIII, col. 1471- 1474. 219 MIGNE, J.-P., PL XXVIII, col. 1137-1142. 220 MIGNE, J.-P., PL. XXVIII, col. 825-828. 221 MIGNE, J.-P., PL. XXVIII, col. 1357-1360.
hebraicos.222 A este agravo, Jerônimo reage impingindo-lhe o terrível rótulo cômico de sicofanta, termo que se pode encontrar nas comédias de Plauto e Terêncio.223