• Sonuç bulunamadı

3. MİMARİ MEKANIN OKUNMASI

3.1. Araştırma Tasarımı Olarak Mimari Mekan Okuması

3.1.2. Araştırma Yaklaşımı

Existe seguramente uma certa propriedade da mente, P, que permitiria a uma pessoa adquirir uma língua em condições de experiência pura e uniforme e certamente P (caracterizada pela GU) é posta em uso sob as condições reais de aquisição de uma língua.

Noam Chomsky

A partir da segunda metade da década de 1950, a aproximação interdisciplinar da Psicologia, da Antropologia e da Linguística com os domínios recentemente criados da Inteligência Artificial (IA), das Ciências da Computação e da Neurociência permitiu o que

21

Sobre as clivagens e falhas fundamentais dos/nos sujeitos, consultar Pêcheux (2009) – em especial o anexo

Gardner (1986) chamou de “Revolução Cognitiva”. Nesse contexto, a crítica chomskyana do texto “Verbal Behavior”, de Skinner, em 1959, colocou os postulados da Psicologia Experimental em xeque, obtendo um papel fundamental para a fundação de uma nova abordagem dos fenômenos psíquicos, a da Psicologia Cognitiva (GARDNER, 1986).

Ao contrário de Skinner, que considerava que os fenômenos do espírito humano somente poderiam ser observados de maneira indireta/experimental pelos cientistas (em 1948, Wiener intitula tal hipótese de Caixa Preta), Chomsky (1959) argumentou que o cérebro humano é arquitetado por diferentes subsistemas inatos em interação limitada (hipótese da modularidade). A linguagem seria uma dessas faculdades, juntamente com a faculdade dos números, do sistema visual e do sistema de coordenação motora, todos oriundos do processo de evolução da espécie humana. Nesse viés, o empreendimento gerativista contribuiu para desenvolver, pelo menos, cinco hipóteses importantes em Ciências Cognitivas, em particular no que toca à Linguística:

(I) A Linguística é uma ciência subordinada à Psicologia – relação entre Linguística e Psicologia;

(II) A linguagem humana deve ser explicada com relação à herança biológica da espécie humana (hipótese do inatismo da linguagem) e não com relação às organizações sociais – relação entre Linguística e Biologia;

(III) A linguagem humana é constituída por um conjunto de algoritmos implementados (leia-se inatos) no nosso cérebro, de modo que ela funciona através da Gramática Universal (GU). Ela é responsável pelo fato de cada indivíduo ser capaz de gerar um número infinito de frases em sua língua vernácula a partir de um conjunto limitado de regras sintáticas (hipótese da autonomia da sintaxe), base da

competência linguística (em vista disso, a teoria chomskyana é chamada de

Gramática Gerativa) – relação entre Linguística, Neurociências e Matemática;

(IV) A Linguística deve se formalizar22(Chomsky (1977) utiliza o termo “Linguística Matemática”) e propor a elaboração de programas que, ao mesmo tempo, devem

22

No âmbito da Fenomenologia, Merleau-Ponty (2012) faz críticas esclarecedoras a essa questão. A esse

respeito, consultar, em especial, os capítulos “O fantasma da linguagem pura” e o “Algoritmo e o mistério da linguagem”.

explicar a aprendizagem humana e possibilitar teorizar sobre a Inteligência Artificial – relação entre Linguística, Filosofia Analítica e Inteligência Artificial;

(V) O racionalismo filosófico (fundado sobre o dualismo cartesiano) fundamenta a relação entre o corpo e os fenômenos mentais, sustentando que a estrutura representacional do pensamento humano é prévia a toda experiência do corpo.

Comentando sobre um debate realizado entre ele e Foucault em Amsterdã, na Holanda, no qual foram abordados temas como a “natureza humana” e o “aspecto político do saber”, Chomsky (1977) relembra o curioso fato de tanto ele quanto Foucault terem conseguido aproximar as suas opiniões acerca do primeiro tema, enquanto que o mesmo não ocorreu com relação ao segundo. A seu ver, isso pode ser explicado pela seguinte metáfora: “quanto ao conceito de natureza humana, pareceu-me que cavávamos a mesma montanha a partir de direções opostas” (CHOMSKY, 1977, p. 78-79).

Embora seja difícil supor um consenso entre o pesquisador norte-americano, defensor do inatismo da linguagem, e o filósofo francês, um dos principais nomes da empreitada filosófica de “dispersão do sujeito”, o primeiro supõe que, no fim das contas, isso é possível pelo fato de eles se deterem sobre as mesmas questões, embora partindo de pontos diferentes. Para Chomsky (1977), a pesquisa científica é devedora de dois aspectos: 1) as propriedades constituintes do espírito (“um dos lados da montanha”); e 2) as condições sociais e intelectuais que possibilitam a emergência e a consolidação dos saberes em um dado período histórico. Não se trataria de escolher entre um ou outro, pois ambos estão relacionados. Ele se deteria sobre o primeiro, abordando os processos de aquisição e de desenvolvimento da linguagem nos indivíduos, enquanto Foucault priorizaria a análise das grades históricas que possibilitam a conformação social do conhecimento em meio às relações de saber-poder em um dado período histórico (CHOMSKY, 1977).

Para nós, o problema do argumento de Chomsky (1977) está em não atentar para o fato de que os lados da montanha não podem ser separados de forma estanque, pondo indivíduo-sujeito (na sua perspectiva, cérebro e mente se reduzem entre si tanto quanto indivíduo e sujeito), de um lado, e as grades históricas do saber, de outro. Aproveitando-nos do seu raciocínio, seria interessante, então, nos perguntar: de que forma as grades históricas do saber possibilitam a constituição e a emergência das propriedades constituintes do sujeito em um dado indivíduo? Como vimos, a filosofia foucaultiana, a qual influencia sobremaneira

tanto os estudos de Pêcheux (2009) quanto os de Maingueneau (2007), busca tratar também do espírito humano, mas na forma de razão prática e histórica, isto é, como prática discursiva.

Não obstante, embora discordemos da explicação chomskyana, pois o pensamento não pode ser separado da constituição histórica dos saberes, consideramos que o seu foco de análise é legítimo ao abordar um dos aspectos mais importantes da linguagem humana, a cognição. Se assumimos parte de sua proposta teórica, ou seja, a necessidade de se teorizar sobre a formação do “espírito humano”, é porque corroboramos Pêcheux (2009) quando o autor afirma que o analista deve atentar permanentemente para o fato de que não se pode destruir algo sem colocar outro algo em seu lugar. Ademais, Gadet e Pêcheux (2010) reconhecem dois avanços importantes trazidos pelo Gerativismo chomskyano, quais sejam:

I) A gramática tal como proposta por Chomsky avança na superação da dicotomia estanque entre os conceitos de língua e fala, de modo que a performance (a língua em uso) seria regulada pela competência (estrutura universal da língua). Nesse sentido, a fala não seria a pura subjetividade materializada na forma da língua, mas a efetivação do sistema enquanto regulador das possibilidades enunciativas (os infinitos ditos estão em relação de recursividade com as finitas regras – os algoritmos). Pode-se notar certa semelhança entre esse raciocínio e o desenvolvido por Foucault (2008) acerca da raridade dos sistemas enunciativos (FDs), reapropriado tanto por Pêcheux (2009), ao tratar da relação entre formações discursivas e memória, quanto por Maingueneau (2007), ao propor a existência de uma “competência discursiva”;

II) O Gerativismo teria percebido a relação de continuum existente entre o agramatical e o gramatical na formação de proposições computáveis como corretas ou válidas em uma dada língua natural. Neste viés, uma frase gramatical obtém o seu sentido pela sua possiblidade de agramaticalidade, definida como a construção sintática “ilógica” em uma dada língua. A semelhança entre os raciocínios decorre da forma como a perspectiva de historicidade radical põe em relação o sentido ao sem- sentido (non-sense): o que significa o faz em oposição ao vazio de sentido; o dito se apresenta em relação ao não-dito23; o dizível é possível pelo não-dizível.

23 Segundo Pêcheux e Gadet (2011a, p. 103. Grifos dos autores): “a principal descoberta de Chomsky é sua compreensão entre a relação do gramatical e do não-gramatical como um continuum ou uma consistência natural

É interessante notar ainda o quanto Pêcheux (2009) considera importantes as contribuições saussurianas para os estudos da linguagem. Se, por um lado, o linguista suíço organiza o seu arcabouço teórico propondo as suas famosas dicotomias conceituais, por outro, o mesmo reconhece a importância de se compreender a língua enquanto sistema, no qual o sentido não estaria presente nos componentes em si, mas nas relações que eles estabelecem entre si como entidades linguísticas discretas e descritíveis. A superação da análise da língua pelo subjetivismo solipsista seria, portanto, a principal contribuição de Saussure às Ciências da Linguagem. Retomada por Chomsky, ela recebe um tratamento anti-estruturalista24.

Como crítica a Saussure e a Chomsky, Pêcheux (2009) e Gadet e Pêcheux (2010) opõem um sistema que não é totalizável nem inato, pois socialmente criado e compartilhado através das relações materiais institucionalizadas. Para os analistas do discurso, a língua, como sistema, é fragmentada e representável pelo ideológico, na medida em que a história (o real da história) atravessa a língua (real da língua). Não se deve, todavia, cair na tentação equivocada de interpretar a língua no âmbito da superestrutura das sociedades (estrutura ideológica), em oposição à infraestrutura (estrutura socioeconômica)25

. Se ela não é apartada da história, do mesmo modo, não se reduz a ela, pois se organiza por outra lógica. Língua e história tornam-se possíveis mutuamente na composição da linguagem humana. As regularidades se devem aos sistemas enunciativos, e estes são submetidos às contradições ideológicas decorrentes das distintas formas de organização dos homens em sociedade26

. Nesse viés, a “origem” do sentido não é acessível aos sujeitos, na medida em que tanto a história quanto a língua estão em relação de (relativa) opacidade com os mesmos.

Em oposição a Saussure, Pêcheux (2009) sustenta que propor uma análise da fala (linguística da fala) não se contrapõe à análise da língua (linguística da língua). Ao contrário disso, deve-se aproximá-las, entendendo-as na sua interface com os processos históricos, responsáveis por definir os dizíveis e os sentidos como campos de possibilidades restritos. O todo da língua é uma idealização. Em oposição a Chomsky, o autor afirma que a competência não é inata, mas determinada pelas FDs, assim como as regras não são algorítmicas, mas históricas. A sintaxe, embora tendo uma ordem própria, não é autônoma em relação à história, sequência como sendo excluída, exceto o fato de que ela é excluída. Portanto, não há fronteira ou ponto assinalável de mudança linguística entre o gramatical e o não-gramatical. Há somente trabalho na língua, em que o significado é definido em relação ao que não faz sentido, o sem-sentido”.

24

A respeito da crítica do autor ao empreendimento linguístico-estrutural europeu, consultar Chomsky (1977; 1994).

25

Para uma crítica ao Marrismo e à abordagem stalinista da linguagem, consultar Gadet e Pêcheux (2010). 26

Para Pêcheux (2009), as contradições sociais são instituídas pelas relações desiguais de produção e apropriação econômicas, fundamento da luta de classes, segundo o Materialismo Histórico.

pois a forma da língua só se materializa em uma dada prática discursiva, constrangida por possibilidades que não são da sua própria ordem. Contra ambos, a forma deve ceder espaço ao funcionamento.