2. MİMARİ MEKANIN ANLAMLANDIRILMASI
2.2. Mekanı Anlamlandıran İlintiler
2.2.2. Şiirsel Düşünme Olarak Mekan
2.2.2.2. Şiirsel İmgelem Olarak Mekan
O discurso, assim concebido, não é a manifestação, majestosamente desenvolvida, de um sujeito que pensa, que conhece, e que o diz. É um espaço de exterioridade em que se desenvolve uma rede de lugares distintos.
Michel Foucault
Para Foucault (2008), é preciso romper com a concepção de pensamento tal como proposto pela História das Ideias7
. No dizer do filósofo francês, esta define o humano pela sua capacidade racional de desvendar a realidade pelo acúmulo progressivo de conhecimentos, propondo-se, em vista disso, organizar os fenômenos históricos por uma espécie de coerência causal composta por uma sistematicidade harmônica. Contrariamente a essa perspectiva, o autor propõe que o pensamento humano e os sistemas de pensamento se organizam pela descontinuidade das ideias, decorrentes da opacidade da história em relação à linguagem. Isso significa que os novos saberes desautorizam os seus anteriores, emergindo por rompimento (descontinuidade) e não por complementação (continuidade).
A verdade sobre um dado referente/objeto8 é, para o autor, decorrente dos regimes de verdade, criados e reproduzidos pelas instituições sociais e pelas relações de forças instituídas entre elas em cada sociedade, sendo compostos por um conjunto de enunciados que definem os limites do que se pode ou deve dizer sobre um dado objeto em uma dada prática discursiva. A Ciência Moderna, por exemplo, seria o meio pelo qual a sociedade ocidental passou a conceber o “homem” como o objeto por excelência do saber científico. Almejando desvendar os seus componentes naturais, supunha-se possível compreender as leis que o regem, bem como os mecanismos pelos quais ele pode explicar o próprio mundo (FOUCAULT, 1981).
Sendo a linguagem uma produção social anterior aos indivíduos (ser orgânico), deve- se considerar que as formas simbólicas são as responsáveis pela instituição do sujeito (aquele que concretiza o enunciado), não sendo os primeiros a dizerem o que dizem, não são também
7Segundo Foucault (2008, p. 8): “Esta [História das ideias], na verdade, sob sua forma tradicional, se atribuía como tarefa definir relações (de causalidade simples, de determinação circular, de antagonismo, de expressão) entre fatos ou acontecimentos datados: sendo dada a série, tratava-se de precisar a vizinhança de cada elemento. De agora em diante, o problema é constituir séries: definir para cada uma seus elementos, fixar-lhes os limites, descobrir o tipo de relações que lhe é específico, formular-lhes a lei e, além disso, descrever as relações entre as
diferentes séries, para constituir, assim, séries de séries, ou ‘quadros’ [...]”.
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Para uma discussão introdutória perspectivada sobre o problema linguagem/referente/mundo no âmbito da Filosofia da Linguagem ao longo do século XX, consultar Araújo (2004) e Dutra (2014).
o locus da gênese do sentido. Engajar-se numa situação de produção de sentidos é, necessariamente, posicionar-se (ou ser posicionado) de acordo com as regras enunciativas vivenciadas e institucionalizadas em sociedade acerca de uma dada prática. Seus enunciados representam organizações historicizadas da forma de pensar, e não o revelar do conhecimento em si (no sentido de transcendência universal), tido como um a priori em relação àquelas. No dizer de Foucault (2008, p. 69):
Na análise que aqui se propõe, as regras de formação têm seu lugar não na "mentalidade" ou na consciência dos indivíduos, mas no próprio discurso; elas se impõem, por conseguinte, segundo um tipo de anonimato uniforme, a todos os indivíduos que tentam falar nesse campo discursivo. Por outro lado, não são consideradas universalmente válidas para todos os domínios indiscriminadamente; são sempre descritas em campos discursivos determinados, e suas possibilidades indefinidas de extensão não são reconhecidas antecipadamente. Podem-se, no máximo, por uma comparação sistemática, confrontar, de uma região a outra, as regras de formação dos conceitos.
Para o filósofo, a linguagem não é acessível em sua totalidade (o todo é uma idealização), pois ela é perspectivada pela forma particular como as formações discursivas (regras histórico-institucionais que regem as enunciações) autorizam/possibilitam os dizeres dos sujeitos. Assim, falar é agir (no dizer de Orlandi (2009), é trabalho), bem como é o modo pelo qual se institui uma instância dessubjetivada (linguagem) em sujeito (“aquele que diz”). Apenas através da fala (incluindo as diferentes semioses) nos tornamos seres na/pela linguagem, instância finita surgida nas/das condições de ação em uma dada situação enunciativa, na qual cada enunciado carrega consigo uma perspectiva específica sobre um dado objeto em uma dada situação enunciativa.
Produto das organizações históricas do saber, o objeto é criado e fragmentado pelas FDs, de modo que, ao ser tornado referente e predicado pela enunciação, seu enquadramento enunciativo, obrigatoriamente, exclui outros, seja por antagonização seja por diferenciação. Sua condição de existência é, portanto, o singular, o descontínuo, surgido na materialidade do acontecimento histórico (FOUCAULT, 2008).
Não obstante, a finitude de um enunciado não diminui a infinidade de possiblidades para a sua realização, se a sua emergência é possível em inúmeras formas (condizentes com as mesmas regras enunciativas), o seu sentido tende à raridade, pois constrangido pelas regras de enunciação que limitam o que se pode e/ou deve dizer em uma dada prática discursiva. Nessa perspectiva, o problema da gênese deve ceder espaço ao entendimento do singular (acontecimento discursivo) como produto emergente das regras enunciativas socialmente institucionalizadas que lhe são anteriores (formações discursivas). O sujeito deve, então, ser
compreendido na imanência das relações causais (não-lineares) na/pela linguagem, sem concatenação lógica9, pois criadas historicamente, e não biológica ou matematicamente.
Para Foucault (2008), o cogito deve ser destranscendentalizado e a sua natureza desnaturalizada. O sujeito é uma posição-sujeito, tendo como condição de possibilidade a regionalização da linguagem em/por mecanismos de saber e poder. Tomá-lo como posição- linguagem surgida a posteriori, descentrada em relação ao indivíduo (base orgânica), fundamenta aquilo que Maingueneau (2007, p. 50) define por uma “escola francesa que opta pela historicidade radical de qualquer discurso”, ou seja, pela história levada às últimas consequências na conformação da subjetividade humana. No dizer deste autor,
Pensada [competência] como um sistema desligado da história, correlato de uma
subjetividade transcendental, ela não parece excluir uma escola francesa que opta
pela historicidade radical de qualquer discurso, inclusive em epistemologia, e que pretende promover um “descentramento” das formas de subjetividade filosófica tradicionais? (MAINGUENEAU, 2007, p. 50. Grifos nossos).
Nessa perspectiva, a epistemologia da AD se propõe a desconstruir a concepção existencialista/humanista na Filosofia, que concebe o ser humano como ser transcendental, fruto da homogeneidade sistêmica entre as suas características internas em relação ao mundo que o envolve. Caso fosse assim, o sujeito poderia ser causa dele mesmo, o ponto de origem que move a si mesmo e atribui sentido a si e ao mundo, como aponta Pêcheux (2009) através da metáfora imagética das mãos que se desenham uma a outra. Reconhecendo a historicidade radical como perspectiva organizadora desse domínio, torna-se possível aproximar algumas reflexões realizadas por alguns autores canônicos desse campo de problematização da linguagem, sobretudo no que concerne à relação entre discurso, subjetividade e cognição.
Apesar das diferenças existentes entre as perspectivas de Pêcheux (2009) e de Orlandi (2009) em relação à de Maingueneau (2007), compreendemos que tais autores se utilizam das contribuições da arqui-genealogia foucaultiana para o estudo da história e dos sujeitos, avaliados no âmbito das práticas de saber e poder, privilegiando, assim, o funcionamento em detrimento da forma. A respeito das práticas discursivas, Foucault (2008, p. 138. Grifos nossos) observa:
Finalmente, o que se chama "prática discursiva" pode ser agora precisado. Não podemos confundi-la com a operação expressiva pela qual um indivíduo formula uma ideia, um desejo, uma imagem; nem com a atividade racional que pode ser acionada em um sistema de inferência; nem com a "competência" de um sujeito falante, quando constrói frases gramaticais; é um conjunto de regras anônimas,
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históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa.
Focar no conceito de prática discursiva possibilita, então, demonstrar uma aproximação essencialmente não-contraditória entre o quarteto Foucault-Pêcheux- Maingueneau-Orlandi, os quais representam uma perspectiva de discurso anti-humanista. Avaliando o sujeito enquanto materialização de uma dada posição da/na linguagem em uma dada prática discursiva, tais autores estão em consonância com a desconstrução da psicologia interna10 ao sujeito nos seguintes termos: discurso → regras de enunciação históricas → composição histórica (externa) da linguagem (em oposição à concepção internalista/inatista) → subjetividade imanente à linguagem (em oposição à subjetividade transcendental).
A aproximação dos seus estudos é tanto possível quanto necessária para o esclarecimento das questões que buscamos resolver nesta pesquisa. Para nós, a proposta de “sujeito-assujeitado” às estruturas da língua, do inconsciente e da história representa a tentativa de superar a “ontologia do ser” nas explicações ditas materialistas de alguns domínios das Ciências Cognitivas, sugerindo, para tanto, a desconstrução radical da categoria de sujeito na linguagem, sem que, com isso, ela prescinda da possibilidade de se teorizar sobre a intencionalidade humana, sobre o pensamento e a sua relação com a memória.