BÖLÜM 2: ÇALIŞMANIN YÖNTEMİ
2.7. Araştırma Süreci
2.7.1. Arşiv Araştırma Süreci
“Começo o meu diário na expectativa do início das aulas. Peguei aula ontem pela manhã. Estava muito ansiosa assim como os outros professores, ou melhor, professoras.” (Diário, 06 fev. 2002, p. 1)
A escola estadual na qual a professora atuava situava-se na periferia da cidade de São Carlos e apresentava estrutura física bastante precária. Alguns corredores que separavam os prédios de salas de aula possuíam paredes danificadas, entremeadas por jardins abandonados. Muitas portas e janelas estavam quebradas e não cumpriam suas funções de separar os ambientes e barrar o som das outras salas de aula. Trata-se, na opinião da professora, de uma escola
“cinza, pichada, com vidros quebrados, telas por todo lado... uma escola depredada, marginalizada tanto quanto seus alunos (que são pobres em sua maioria). Esta escola precisa de pintura, cores quentes, plantas, grafites, cara dos alunos, enfim, vida!“ (Diário, 30 abr. 2002, p. 57).
Entre os prédios de salas de aula havia um pátio grande com um palco ao fundo. Atrás dos prédios havia um terreno muito grande com quadras de esporte e área livre que, porém, ficavam sem iluminação à noite. Os alunos do curso supletivo do ensino médio (1a e 2a séries do período noturno) eram, em sua maioria, “migrantes do Paraná e Bahia, oriundos da zona rural, pobres, muitos negros e/ou descendentes de negros” (Diário, 30 abr. 2002, p. 57).
A professora escolheu essa escola mesmo sabendo de sua precariedade de recursos. Ela já conhecia uma professora da escola, que em uma conversa lhe confessara que o grupo de professores/as de lá era muito animado. Apesar de ser muito discriminada nas atribuições de aula, pela fama de ser violenta e desorganizada, a escola se apresentava como um espaço de possibilidades para a professora-pesquisadora. As múltiplas dificuldades estruturais, sua discriminação e a presença de um grupo forte de professores/as, configurava-se como um desafio para ela e a motivaram a escolher esta escola.
Logo que chegava à escola, a professora passava pela secretaria e, em seguida, ficava na sala dos professores se preparando para a aula. Esses momentos de preparação, enquanto checava a filmadora e arrumava seus materiais, também se
constituíam em momentos para se integrar com os/as professores/as de “janela8” e com a coordenadora pedagógica. Ouvia sobre os últimos acontecimentos da escola e participava do intervalo com todos/as os/as professores/as. Nesse momento, os professores se organizavam para arrecadar dinheiro para o café. Quem não pagava não podia tomar café.
Havia um boato muito intenso em torno da qualidade da água da escola. Dizia-se que um aluno havia urinado na caixa d’água e, depois disso, todos achavam que qualquer aluno poderia repetir a atitude. Muitos professores evitavam beber água da escola trazendo garrafinhas de suas casas. A água dos galões da sala dos/as professores/as, segundo eles/as, nunca era trocada. A professora-pesquisadora estranhou que professores/as e alunos/as duvidassem da qualidade da água e até criassem estratégias para não bebê-la, porém, não questionassem a direção da escola sobre essa situação! Certa ocasião ela questionou a diretora sobre o assunto, a qual respondeu dizendo que a desconfiança era infundada, pois a vigilância sanitária havia confirmado a qualidade potável da água em recente vistoria na escola, inclusive em seus bebedouros. Como essa comunicação ficou restrita aos/as professores/as daquele período, alguns mantiveram o hábito de levar água para a escola.
A professora foi estabelecendo relações com o coletivo escolar, nesses encontros, de forma cuidadosa. Fazia movimentos de aproximação e de recuos nos relacionamentos com as professoras de sua área
Não encontro a turma de Biologia. Os que já encontrei me pareceram fechados ao "diálogo” ou trabalho em conjunto. Preciso me aproximar mais deles, coisa que ainda não fiz com afinco. Conversei com uma professora de Ciências e Biologia que, cortando o assunto, me aconselhou procurar a (profª.) RIA, pois ela não trabalhava com 2º colegial e por isso não adiantava conversarmos sobre isto. Devo confessar que estou com certo receio de procurar as prof.as de minha área. Chegou CIA, que é Profa. de Biologia e eu já conheço. Ela é uma professora meio “cansada” e desanimada com o ensino (Diário, 03 mai. 2002, p. 63).
As interações iniciais pareciam esbarrar em resistências tanto da professora- pesquisadora, como de sua colega que também lecionava Biologia. Pode-se refletir sobre o que está envolvido nesse jogo relacional entre professores/as da mesma área de conhecimento. Será o receio de expor as competências relacionadas ao conteúdo disciplinar? Se, por um lado, a professora tinha receio de se aproximar das professoras de
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Termo utilizado pelos professores do Estado de São Paulo que expressa intervalos de uma ou várias aulas no quadro de horários do professor.
sua área, por outro, observava o perfil da outra professora “cansada e desanimada” com a profissão.
As aproximações aconteciam a seu tempo, em conversas descontraídas sobre temas triviais e pela afinidade que a professora ia identificando em alguns/umas de seus/suas colegas de profissão (independente da área de formação).
No decorrer do semestre foi convidada por outros dois professores para colaborar num projeto de arborização da escola.
Fiquei de conversar com um funcionário da prefeitura municipal sobre as mudas, formas de plantio, ajudas, etc. Quem sabe, a partir das mudas realizamos um projeto de mudança do ambiente escolar. Por que esta escola está assim? Com certeza, muitos destes professores já tentaram modificá-la, já reclamaram desta situação e possivelmente não conseguiram mudanças. (Diário, 03 mai. 2002, p. 65)
Esse convite reavivou seus desejos de promover mudanças no espaço escolar. Ao mesmo tempo, identificou com consciência – a partir da “reflexão-na-ação” (SCHÖN, 2000) — que esse contexto escolar era fruto de uma construção imbricada no tempo e em esforços coletivos. A professora dá um salto reflexivo ao reconhecer que não é a primeira pessoa a querer modificar a escola. Demonstra uma percepção dos limites, do tempo e dos múltiplos esforços necessários à mudança escolar.
No início do ano letivo, logo após o planejamento escolar, os professores foram solicitados a aplicar um questionário sobre o que os alunos gostavam e não gostavam na escola. A professora tomou algumas iniciativas para dar maior sentido a essa atividade. A coordenadora pedagógica afirmava que iria sistematizar o material, mas, em diversos momentos deixava claro que não iria dar conta dessa tarefa. A professora convidou TATI— uma colega da pós-graduação que também pesquisava na escola – para sistematizarem os questionários dos/as alunos/as do período noturno. Em seguida convidou um professor de matemática para preparar os gráficos dos dados. Fizeram várias reuniões na escola para sistematizar as respostas. Reuniam-se na sala dos professores justamente para aguçar a curiosidade deles. “Acho que esta escola tem uma brecha para uma construção coletiva.” (Diário, 30 abr. 2002, p. 58)”
Porém, essa “brecha” não era tão acessível assim. Após várias tentativas de apresentar os dados sistematizados nas HTPCs, somente no segundo semestre TATI e a professora tiveram a oportunidade de apresentar a sistematização dos questionários para um grupo de professores do período noturno.
Éramos em oito professores/as e a coordenadora pedagógica e TATI. Lemos os dados em conjunto e discutimos livremente, questão por questão. Vários comentários foram surgindo, alguns deles preconceituosos, taxativos: “os alunos mentiram nas respostas, tem muita coisa aqui que não é o que eles pensam”; “os alunos/jovens pobres gostam de RAP ou FUNK, músicas pouco intelectualizadas”; “os alunos do noturno tem maior dificuldade de aprendizagem”. Mas muitos comentários foram no sentido de identificação com as criticas e sugestões apontadas pelos alunos: querem mudanças físicas no prédio da escola; reclamam da desorganização escolar e da falta de atitude da direção; falam da sujeira dos banheiros, da água contaminada. Aspectos estes que são unânimes entre os professores. Quase no final da HTPC, perguntei se a escola já desenvolve algo no sentido de “limpeza/consciência para a limpeza”, já que era um tema muito citado em nossas discussões (naquele dia). A resposta foi sim. “Isso nós cansamos de falar para os alunos. Todo mundo fala isto.” Perguntei de outra forma: “ mas já desenvolveram algo em conjunto? Algo que fosse um projeto coletivo, de todos os professores?” A resposta foi unânime: Não!” A coordenadora pedagógica respondeu: “vamos fazer isto – um projeto de limpeza coletivo! Vamos levar esta idéia no HTPC coletivo, de Quarta-feira. Eu “xeroco” aqui na escola uma tabulação para cada professor” (Diário, 10 set. 2002, p.142).
A idéia de desenvolver um projeto coletivo na escola não foi apresentada nas HTPCs seguintes pela coordenação pedagógica. Os resultados da reunião coletiva ficaram desconectados e sem encaminhamentos.
As iniciativas individuais eram, em geral, dissipadas no meio escolar. A coordenadora pedagógica exercia outras funções — atendendo demandas administrativas e organizacionais — e não articulava um projeto pedagógico coletivo. E mesmo que desejasse (embora não promovesse qualquer esforço neste sentido), ela demonstrava não dominar saberes relacionados à mediação da formação do grupo de professores/as.
Além do questionário aplicado aos/às alunos/as pelo conjunto de professores/as, houve uma atividade naquele ano que envolveu todos os/as alunos/as da escola. Duas professoras da área de Português/Letras organizaram uma gincana em que os/as alunos/as apresentaram musicais, danças, recital de poesias e teatro. Foi um momento de manifestação cultural bastante intenso e festivo! Os/as alunos/as se envolveram bastante e se emocionavam com as apresentações. Ao perceber que a professora estava filmando as atividades, vários grupos repetiram suas danças para que pudessem garantir todo o registro da festa. Os demais professores e professoras se envolveram pouco com a atividade. “Alguns ficaram na sala dos professores/as, outros conversavam durante as apresentações e não pediam silêncio aos alunos”. (Diário, 10 set. 2002, p. 140)
Outros momentos coletivos com os/as professores/as também levavam a professora a procurar entender esse cotidiano escolar, como por exemplo quando os/as professores/as assistiram à conferência do novo secretário estadual de Educação. Muito de seu discurso se relacionava à forma da família e do/a professor/a lidar com o/a adolescente:
“A escola tem obrigação de conhecer seus alunos, não dá para enfrentar o que não se conhece”. “Se o adolescente cala a boca, fecha os ouvidos, se ele abre a boca, abre os ouvidos”. Também foi debatido que o/a professor/a interpreta uma atitude do aluno sempre no campo pessoal. Ele/a representa a escola e deve ter consciência disto. O secretario falou de Paulo Freire, de revolução na educação, de irreverência e sentimento de pertença. Falou da importância à abertura aos temas transversais, às disciplinas de Sociologia, Psicologia, Filosofia, Artes e Educação Física. Falou sobre a auto estima do professor/a: “temos que investir na pessoa. E como investir no aluno se o professor não investe em si?” (Diário, 2002, p. 103).
Os/as professores/as conversaram o tempo todo, paralelamente à conferência. Foi uma negação generalizada ao que parecia soar como um discurso externo à realidade e dificuldades prático-político-estruturais da escola e da formação de professores.