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4. Eserleri

4.3. Apolojik Eserleri

Há uma frase do poeta espanhol de Sevilha, Antonio Machado, recorrentemente, referida pela comunidade científica para dizer do método:

caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar. Geralmente, apesar de tal frase

ser bastante utilizada, e até concordarmos com ela, exigimos certezas ou pelo menos algo que nos dê alguma segurança para se por a caminho. Apresento um pouco mais dos versos do poeta:

Caminante, son tus huellas el camino y nada más; Caminante, no hay camino,

se hace camino al andar. Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar. Caminante no hay camino

sino estelas en la mar. Cuatro cosas tiene el hombre

que no sirven en la mar: ancla, gobernalle y remos,

y miedo de naufragar. (Antonio Machado10)

10 Dois versos do poeta espanhol Antonio Machado, XXIX e XLVII, que integram os Proverbios y cantares em Campos

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O desafio, primeiramente, foi enfrentar o medo do naufrágio sabendo que velas, remos, âncoras, bússolas e o próprio medo, não me serviriam no percurso desta senda. E depois, foi necessário seguir sem fazer do medo obstáculo intransponível, mantendo a esperança de que, tendo aceitado fazer o caminho ao caminhar, talvez, ao chegar ao final da estrada, eu pudesse olhar para traz e perceber o caminho percorrido, identificando as estrelas que antes não via, quando a estrada estava à minha frente, e que delas nada saberia, se pelo caminho, não tivesse afundado meus pés.

Os versos do poeta traduzem muito bem o meu espírito ao percorrer a senda que se descortinou para mim ao escolher este tema de pesquisa. Sim, fui com medo! O pouco que tinha comigo, que talvez pudesse me servir de bússola, tive que largar no meio do caminho para seguir. A frase do poeta não foi retórica, foi literalmente vivida por mim. Com os ventos da incerteza soprando frio segui, apenas com a esperança de ver alguma estrela ao entrar no sistema para percorrer seus circuitos.

Morin em seu primeiro livro da série O Método I. A Natureza da Natureza afirma que não traz um método, e sim, parte em busca dele com uma recusa consciente da simplificação disjuntiva e com a vontade de não ceder ao pensamento simplificador. Percorrendo a senda, também me esforcei para isso.

Em seu caminho do Método, o filósofo confessa que parte com um princípio de conhecimento que respeita e reconhece o não-idealizável e o não- racionalizável, e o que escapa às regras. Ele defende que precisamos de um princípio de

conhecimento que não respeite, mas revele o mistério das coisas. (MORIN, 2003, p. 36). Morin

nos alerta para inutilidades de algumas coisas ao percorrer o caminho, e fala da necessidade de nos livrarmos delas. Primeiro, ele diz ser preciso deixar as idealizações que nos fazem crer que a realidade pode ser absorvida pela ideia, e que o real é inteligível. Segundo, é necessário abrir mão da racionalização, convite sedutor que

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nos move a encerrar a realidade na ordem e na coerência de um sistema, dispensando quaisquer transbordamentos e buscando justificativas racionais para a existência dos fenômenos da realidade. E as normatizações com suas sugestões acalentadoras de eliminar o estranho, o irredutível, o mistério. Também elas, devem ficar pra traz.

Para seguir precisei me livrar de tais coisas reconhecendo sua inutilidade em mim. Livrar-se de coisas como essas das quais Morin fala não significa, simplesmente, se desfazer de algo como quem se livra de roupas ou objetos que carregamos conosco. Equivale sim, a arrancar a própria pele, raspar a cabeça, exorcizar fantasmas, caminhar sem proteção nos pés...

O que levaria eu comigo para percorrer esta senda? Não havia instrumentos pré-formulados, não era o caso desta pesquisa. Olhando hoje para o caminho que percorri, considero que contei com duas coisas muito valiosas.

A primeira foi o pensamento complexo que me ajudou a me repensar o tempo todo, reformulando o meu pensamento por meio dos operadores cognitivos que propõe, e que me auxiliaram, desde o início, tecer, revisitar e amadurecer as ideias aqui apresentadas. O pensar complexo me ajudou a perceber o caminho que se descortinava para mim como um novo cheio de possibilidades inspiradoras, me ajudando a seguir apesar das incertezas do caminho. Algo que aprendi em minha existência como estudante e aprendiz da vida foi que o saber é algo que nos transforma, quando nele, nos implicamos. Nesta perspectiva o pensar complexo faz todo o sentido para mim nas palavras de Morin, quando nos diz que nunca é

afastando o conhecente que se vai rumo ao conhecimento complexo (...) É a partir da ideia de circuito e de metassistema que precisaríamos conceber um conhecimento que produza ao mesmo tempo auto-conhecimento. (MORIN, 2003, p. 467).

O modo de conhecer e de pensar a partir da complexidade é também, necessariamente, um novo modo de agir com possibilidades de auto-conhecimento que reconhece a desordem, o caos e o mistério das coisas, e advoga um princípio

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de ação que não ordena, mas organiza, não manipula, e sim, comunica, não dirige, anima. O método que construí durante a pesquisa se volta ao começo em um movimento espiralado do aprender a aprender e do aprender aprendendo. E o que sou agora é mais, e é menos do que era quando iniciei a jornada. Tudo isso acalmou o medo natural que emerge em nós frente ao desconhecido.

A segunda coisa valiosa que me auxiliou seguir nesta senda foi a Sociopoética que me serviu de inspiração e me ajudou a fabricar escadas e pontes que precisava para prosseguir no caminho. Foi durante o meu mestrado em Educação pela UFC, que por ocasião de um curso/vivência oferecido pelo Programa, ministrado por Jaques Gauthier, que conheci a Sociopoética. Considerei a metodologia muito interessante em seus princípios. E durante aqueles anos do mestrado tive outra oportunidade de vivenciar a metodologia quando acompanhei a pesquisa sociopoética de uma colega como auxiliar voluntária no intuito de auxiliar e aprender. A vivência da metodologia ficou na minha memória e me retornara como inspiração nesta pesquisa de doutorado. Retomei as leituras e percebi a coerência da proposta sociopoética com o caminho que precisava seguir.

A Sociopoética é uma metodologia de pesquisa que nasceu na encruzilhada entre a Pedagogia do Oprimido (Paulo Freire), a Análise Institucional (Renè Lourau) e a Educação Simbólica ou Escuta Mito-poética (Renè Barbier). Segundo Gauthier, a Pedagogia do Oprimido fez brotar o coração da sociopoética quando se propõe trabalhar com o grupo-pesquisador. Da Análise Institucional a Sociopoética herdou a análise, a auto-análise e a auto-crítica como dispositivos de pesquisa para tornar visível o que está escondido no cotidiano, sempre por meio de uma análise crítica da realidade social, trazendo à tona desejos e poderes que agem de maneira velada na vida social. Da Escuta Mito-poética ou Educação Simbólica referenda a poeticidade da existência humana porque reconhece que criamos a vida social incessantemente. Cabe ao pesquisador escutar falas e silêncios que dão ritmos e cores aos processos de criação em cada ser, pois são deles que se derivam os processos de conhecer. Segundo Gauthier:

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Na poética (tal como existe na palavra „sociopoética‟) da pesquisa e da aprendizagem encontramos a diferença do outro sob a forma de criação imaginária. O outro é realmente sujeito da pesquisa, uma vez que ele cria uma realidade que não existia antes da sua expressão-criação poética. A nossa hipótese é que os seres humanos estão sempre se fazendo e desfazendo, que a humanidade neles é precisamente este perpétuo fazer e desfazer. A sociopoética, ao considerar todos e cada um como poeta, pesquisa o que é humano no ser humano, sua plasticidade, seu poder de devanear, de encontrar-criar, cada dia, a realidade. (GAUTHIER,

1999, p. 14).

O que encontrei de muito valioso na Sociopoética e que me serviu de inspiração foi os cinco princípios que a fundamentam. Gauthier apresenta-os em seu livro “Sociopoética. Encontro entre Arte, Ciência e Democracia na Pesquisa em Ciência

Humanas e Sociais, Enfermagem e Educação”. Para esta pesquisa busquei respeitar estes

princípios em função de sua coerência com a proposta desta pesquisa.

O primeiro princípio da Sociopoética consiste em reconhecer todo o corpo como

fonte de conhecimento. O corpo pensa! De acordo com Gauthier (1999) é na

comunidade que esse corpo pensa, é em interação com as pessoas e com o entorno que ele pensa, se pensa e se (re)pensa. A sociopoética reconhece o corpo e no corpo em interação uma preciosa fonte de conhecimento. É um conhecer relacional que considera a emoção e o sentimento encarnado como forma de conhecer o mundo. Nas palavras de Gauthier a emoção é a raiz vital de todo

pensamento. Assim, a ideia mais abstrata, o conceito mais distanciado, a teoria mais crítica, sempre existem sob dois aspectos: uma emoção, no lado físico, corporal, do nosso modo de estar no mundo, e uma imagem dinâmica no lado mental. (GAUTHIER, 1999, p. 23).

Estas ideias da Sociopoética corroboram com esta pesquisa e se coadunam com o pensamento de Dalmásio (2011) quando define e diferencia emoções e sentimentos. Emoções são complexos programas de ação, e os sentimentos que sempre decorrem das emoções são percepções compostas, relacionadas com o que ocorre no corpo e na mente, quando tem uma emoção em curso. Sentimentos são

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imagens de ações, e não as ações propriamente ditas. Tal distinção instaura um diálogo entre os autores confluindo para a ideia de que o corpo pensa e se constitui como rica fonte de conhecimento. Gauthier defende que é preciso usar nossa potência emocional como potência de pensar, e assim, nos tornarmos mais artistas em processos de pesquisar e aprender. Para ele o momento da emoção corresponde ao momento em que tocamos nossa força vital e reencontramos a nossa origem expressa na nossa história coletiva e individual.

Reconhecer o corpo como fonte de conhecimento traduz um modo de pesquisar coerente com esta investigação. Os vínculos humanos por sua raiz afetiva se instauram na memória do corpo, estão encarnados, e por isso, podem adquirir substancialidade consciente com nossa capacidade de representação simbólica. Considerar o corpo como fonte de conhecimento é algo muito pertinente para o que buscava compreender. Para compreender o vínculo é importante considerar este registro corporal, nem sempre acessível à consciência por meio da fala elaborada.

O segundo princípio da Sociopoética apresentado por Gauthier (1999) é

pesquisar com categorias e conceitos oriundos das culturas dominadas e de resistência. O interesse

sob o qual se erige a metodologia sociopoética é buscar encontrar o que foi silenciado, o saber que está nas raízes e que dorme. Des-cobrir o pensamento silencioso e silenciado, vivo, intenso e rico de significados. Como nos diz Gauthier, há os saberes da luz, já consagrados na luz da Razão. E os saberes escuros, da lama, reconhecidos somente por culturas antigas, culturas dominadas (africana, indígena) e obrigadas, em função da colonização, a não reconhecer seus saberes como válidos, a considerar sua expressão cultural como inferior em relação à cultura dominante europeia ocidental. São os saberes práticos das mulheres, vistos e não- vistos como saberes, porque misturados de afetividade e confinados a mero fazer; saberes de sobrevivência das culturas africanas, saberes populares marginalizados e desqualificados. Gauthier reconhece a emoção como um canal pelo qual, também,

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geralmente, se expressam tais saberes. A pesquisa é sempre uma troca de saberes entre o pesquisador e o grupo-pesquisador no qual se insere.

A produção de sentido para sociopoética é sempre contextualizada e desvirtuada de quaisquer abstrações sem vida. O conhecimento produzido propõe outro tipo de abstração, mais contextualizado, dita abstração por sobre-contextualização. Isso porque propõe cada um mergulhar no contexto de sua vida, da sua experiência singular, da sua memória e desejos inscritos no seu corpo. Tal abstração é possível em função da escuta sensível da fala do outro sobre si mesmo, da fala do outro sobre o que ele mesmo expressou de sua própria fala, de sua própria experiência. Isso é possível, graças também, à criatividade artística, onde cada um expressa, e escuta, também, do outro, o sentido de sua expressão, numa escuta plural, por vezes, contraditória, pela visão e integração das diferenças, e pela polifonia da vida. Uma escuta que inclui os saberes não apartados de outras fontes de saber, não restritos somente à razão, mas inclui a emoção, o sentimento e a intuição como suas fontes.

Este segundo principio também se coaduna a esta investigação direcionada para busca de compreender o que está silenciado, adormecido. Há os saberes não reconhecidos, relegados e destituídos de sua legitimidade, como bem reconhece Gauthier. Ora, não são assim os saberes oriundos do sentir? O que há de mais negado em função da cisão mente/corpo que instaura a modernidade ocidental? Neste aspecto todos vivemos a opressão que nega a legitimidade do sentir. Como afirma Toro a afectividad es una de las funciones psicológicas más perturbadas y reprimidas

dentro del mundo relacional, social, educacional e político actual. (TORO, 2012, p. 31).

Na perspectiva aqui delineada a opressão, o silencio que aqui se alude não é “privilégio” de classe social, cultura, etnia ou gênero etc. A legitimidade do sentir como expressão da identidade humana, como um dos aspectos mais negados e silenciados no mundo ocidental, se apresenta como uma enfermidade da civilização. E a opressão aqui também tem a face da modernidade colonialista que

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mascara a relação opressor/oprimido tornando-a mais complexa porque não a reduz aos aspectos econômicos e de escolaridade. Este princípio da pesquisa sociopoética adquire legitimidade quando refiro ao contexto desta pesquisa e os sujeitos que dela participam, quais sejam, os profissionais de saúde e usuários da atenção básica do SUS.

O terceiro princípio da sociopoética segundo Gauthier (1999) é considerar

os sujeitos pesquisados como responsáveis pelos conhecimentos produzidos. O centro-vivo da

sociopoética, como defende o autor, é o grupo-pesquisador que se torna uma exigência ético-política da sociopoética. As pessoas pesquisadas são convidadas a compor um grupo-pesquisador. Isto vai além de compreendê-las somente como sujeitos produtores de dados e/ou informações, para quem o sentido final da pesquisa, acaba, por vezes, escapando-lhes quase que totalmente. Sobre esse ponto Gauthier apresenta importantes reflexões. O que esta pesquisa trará para esses sujeitos? Que efeitos, favoráveis, úteis trará ou não? Ficará nas gavetas? Sua utilidade se restringe ao uso acadêmico do pesquisador e se prende à lógica individualista utilitária? A pesquisa terá um sentido partilhado, dialogado com o grupo produtor dos dados? Estas eram questões também muito cara para mim.

A partir de seus princípios a sociopoética busca criar dispositivos para romper com estas práticas ao transformar os sujeitos da pesquisa em grupo- pesquisador, outorgando-lhes poder na produção e realização da pesquisa até o seu final, com a socialização, que assume a forma criativa que o grupo sugerir. Os pesquisados são co-pesquisadores, parceiros dos facilitadores da pesquisa, tanto em termos de construção, como de decisões sobre a pesquisa. Isso implica um planejar cuidadoso sobre a entrada no grupo sujeito da pesquisa. A escolha do tema que gere interesse por parte do grupo em aprender e/ou gerar conhecimento, a produção, a análise e a interpretação dos saberes que serão gerados pela pesquisa, sua socialização e teorização. Na sociopoética importa, pois uma co-construção ou co-produção, ou ainda, co-criação de conhecimentos.

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Este princípio, embora à primeira vista, pareça não ter coerência com a proposição desta pesquisa, em função do tema previamente escolhido, adianto aqui que, ao longo do seu percurso metodológico, o tema passou a ser também de interesse para o grupo pesquisador. Reconheço aqui que a proposição e o desejo de saber sobre o tema foi meu, inicialmente, até compor o grupo pesquisador. Entretanto, reconheço que passou a ser curiosidade também do grupo pesquisador. Primeiro porque era um tema inerente ao seu processo de trabalho e, segundo, por tratar de um assunto nunca antes debatido entre eles.

O quarto princípio de acordo com Gauthier é a criatividade de tipo artística no

pesquisar, no conhecer e no aprender. Para o autor a sociopoética transgride a linha

divisória entre arte e ciência. Ela solicita as pessoas sua expressão sobre o não dito, o escondido, seja no pensar, seja no sentir por sob a camada da pele, e presente no corpo. Durante o processo de pesquisar o grupo pesquisador é sempre convidado a um relaxamento que propicia baixar o nível de controle consciente para que possa ter espaço para expressão de saberes imersos, congelados, enterrados na história coletiva e individual do grupo-pesquisador. Esse relaxar é o caminho para expressão da imaginação que também fez parte do nosso caminho como grupo pesquisador. A criatividade também faz parte da sociopoética na criação e proposição de dispositivos com potencial capaz de mediar a produção de conhecimento por parte do grupo pesquisador.

O quinto e último princípio da sociopoética é o sentido humano e espiritual da

pesquisa e da construção do conhecimento, como apresenta Gauthier (1999). Esse

princípio é o que afirma o posicionamento ético da sociopoética sintetizando os anteriores. Para a sociopoética o grupo-pesquisador é construído e o pesquisar junto é um aprender mútuo em que o pesquisador facilita o processo de aprendizagem criando dispositivos e proporcionando um espaço-tempo para construção de conhecimento.

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As experiências vividas se constituem como troca em que a visão crítica e autocrítica, em um espaço de autonomia e liberdade, desvela novos saberes e abre para construção de outros. Gauthier esclarece que a espiritualidade no pesquisar toma

uma forma iniciática através da descoberta de que nosso saber é abertura para um não saber radical. Já, o respeito fiel, carinhoso, da palavra dos outros, nas nossas análises e experimentações, era uma preparação para este não saber. (GAUTHIER, 1999, p. 71). Para o autor esse não saber é duplamente crítico. Primeiro porque essa atitude respeitosa, imbuída de

uma escuta sensível, proporciona distanciamento crítico em relação às demais falas. E assim, ele não se deixa abusar por estes conhecimentos novos, alvo de críticas e questionamentos, tanto em termos institucionais como espirituais.

Estes cinco princípios da pesquisa sociopoética foram fundamentos e inspiração para os passos do caminho que aqui trilhei. Reconheço como pesquisadora que ciência, arte, filosofia e espiritualidade não se separam. E mais, há uma preocupação em (re)criar a democracia na produção do conhecimento. Gauthier afirma que a sociopoética não é uma nova teoria científica, inclui uma teoria da pesquisa e do ensino/aprendizagem. Sobre isso, ele declara que:

A sociopoética é uma construção, talvez feita de pedras, talvez de águas, talvez de lama, talvez de chamas, talvez de magmas, talvez de ventos e nuvens e relampados, mas uma construção sim, explicitamente filosófica. Instituir um grupo- pesquisador, convidar culturas de resistência para participarem da leitura de dados produzidos pelo corpo inteiro, a partir de técnicas artísticas intensificando as potências do inconsciente, da emoção, das sensações, de intuição e da razão, questionar o sentido da pesquisa, todo isso é, além de um posicionamento filosófico, uma prática específica da filosofia. Assim torna-se o grupo-pesquisador um filósofo coletivo, um pensador consciente de si, um fragmento de espaço-tempo na vida popular, que participa da criação filosófica. (GAUTHIER, 2005, 25).

O filosofar para sociopoética não é tarefa reservada somente para especialistas, mas deita suas raízes no “plano da imanência”. Este, segundo o autor, é o plano em que mergulha o grupo-pesquisador, tendo na escuta sensível e na

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escuta-fala sensível dos facilitadores e dos membros do grupo, a condição para um desvelar e analisar os problemas da vida social no plano do pensamento.

Os cinco princípios apresentados permitem um modo de tradução de problemas formulados do plano da imanência para o plano de consistência, explica Gauthier. O plano da consistência é um lugar onde os conceitos filosóficos são (re)criados, (re)formulados, destruídos, (re)organizados em redes e nós, tecendo uma composição artística criadora, desveladora da realidade. A produção de conhecimento pelo grupo pesquisador ocorre justo na passagem do plano da imanência para o plano da consistência em que se dá a criação dos confetos - conceitos misturados com afetos, explica Gauthier. Os confetos se constituem como crítica aos conceitos instituídos. Isso porque traçam linhas de desterritorialização, linhas de fuga que expressam novos desejos e desvelam a atividade filosófica.

Para Petit e Adad (2009) a elaboração do pensamento pelo grupo- pesquisador mediante a produção de confetos é um diferencial da sociopoética e convergem para o objetivo de potencializar o grupo pesquisador para ser capaz de criar pensamento. Nesta perspectiva a sociopoética se constitui como criadora, potencializadora, reveladora e analisadora de confetos. Os confetos, que podem ser