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Amerika Birleşik Devletleri, Çin Halk Cumhuriyeti ve Türkiye’de Karşılaşılan

Uma das consequências do nível mais sutil de descontextualização – relacionado às habilidades musicais – é a imposição de certas maneiras de se perceber música, através da ênfase nas habilidades de leitura e escrita musical – as

74 GROSSI, C. Percepção e sentido da música para a educação musical. Anais do XIV Congresso

quais, “descontextualizadas” de sua efetiva função de comunicação, são ressignificadas como instrumentos de um processo de inculcação de significados unívocos. Tal aspecto é de suma importância para compreender os impactos do ensino tradicional sobre a escuta dos alunos, e será abordado em profundidade no próximo capítulo75. Nesse momento, considerarei a afirmação de Bernardes (2000) acerca do caráter autoritário e excludente do ensino da escrita musical:

Nos ditados, solfejos e coisas do gênero, quando empregados da maneira usual, parte-se do pressuposto de que todos ouvem e lêem a mesma coisa, da mesma forma, no mesmo tempo. São procedimentos pedagógicos que subentendem um movimento de fora para dentro, portanto, de alguma

forma, autoritários [...] (BERNARDES, 2000, p. p.133, grifos nossos)

O caráter autoritário pode se manifestar também na ênfase na memorização dos símbolos da escrita convencional, em detrimento de habilidades advindas de outros terrenos performáticos, em que a escuta é mais valorizada. Tal caráter impositivo pode ser exemplificado a partir de alguns depoimentos colhidos nos grupos focais. Em um deles, Eduardo associa a ênfase imperativa no adestramento e na memorização a sua desistência e consequente desinteresse por estudar música.

Eduardo: Quando eu tinha uns 6 anos eu fiz uma aula de piano também, com uma mulher que falava esquisito, num quarto muito escuro.... E é engraçado como é que você traumatiza um moleque com um negócio desses. Na primeira aula, na hora que eu fui embora, ela falou assim: „Você

tem que decorar!‟. Aí ela começou a explicar a pautinha: „Decorar! Fá, sol...‟. Eu já tinha essa noção de odiar tudo que era pra decorar, e gostava

de deduzir os trens sozinho. Fiquei chateado fazendo essa aula e falei com

minha mãe que não ia mais voltar lá. Eu devia ter uns 6 ou 7 anos.

Eu seu depoimento apresentado mais acima76, Ricardo também compartilha com Eduardo a experiência frustrante de aulas de teoria musical ministradas simultaneamente a aulas de piano clássico, explicitando o caráter “forçado” e o repertório limitado. Para ambos, tais experiências criaram um preconceito acerca das aulas de música que, na visão de Eduardo, pode ter retardado seu próprio desenvolvimento musical posterior, desencorajando-o a estudar violão.

75 Cf. item 3.1.1.3, Significados unívocos como base para julgamentos absolutos, p. 111. 76 Cf. p. 60.

Ricardo: Eu também não gostava de jeito nenhum.

Eduardo: É por isso que eu demorei pra pegar o violão pra poder aprender, porque eu ficava achando que toda aula de música ia ser esse

negócio... Foi fazendo eu ficar com nojo.

Ricardo: Eu não queria, cara. Era meio forçado. E sempre foi erudito. E eu

não gostava muito de erudito...

Eduardo: Cria um preconceito danado, né? Cria um preconceitão por causa disso.

Embora os alunos investigados nesta pesquisa tenham dado continuidade a suas trajetórias musicais após adquirirem os conhecimentos formais, é preciso notar que a notação musical, para alguns autores, pode se constituir em um poderoso instrumento de exclusão, no contexto da aula de percepção (SOUZA, 2004, p. 206; GROSSI e MONTANDON, 2005, p. 122).

É comum encontrar pessoas que frequentaram aulas de teoria da música afirmando ter abandonado o estudo musical devido à ineficácia de um ensino que privilegia a informação mecânica, a memória e a prática descontextualizada de sentido para aqueles que buscam aprender música. (GROSSI e MONTANDON, 2005, p. 122)

Além de Eduardo, que relatou sua desistência em relação à aula de piano e teoria devido à ênfase na memorização, também Carla citou exemplos de amigos que desistiram de estudar música por não encontrarem sentido nas aulas de teoria e percepção musical. Em sua opinião, embora esteja em decadência, esse tipo de ensino é ainda muito presente:

Carla: Tenho muitos amigos, que estudavam comigo no colégio, que falavam: „Ah, eu tava fazendo aula de guitarra, mas eu parei, porque eu acho um saco aula de teoria. Eu sento lá, e ele fica uma hora falando ou escrevendo um monte de bolinha no quadro. Aí eu não entendo nada‟. Esse ensino tá em decadência, mas o pior é que ainda existe muito. Tem várias

pessoas que desistem por causa disso.

Da mesma forma, Júlio também revelou que a teoria se mostrou “limitante”, desempolgando-o da prática. Somente após alguns anos, ele voltou a se interessar pela música – mas reconhece que nem todos têm estímulo pra voltar.

Júlio: Eu cheguei num ponto que eu desempolguei e, nessa época, eu já achava que teoria era um pouco limitante. Depois que eu voltei a estudar e empolguei, aí eu tive a abertura suficiente pra entender o que é teoria, e

ver como que é possível usar aquilo. Eu acho que pode ser

desestimulante. Tem muita gente que pára antes.

Por outro lado, Cláudio relata uma situação em que seu ouvido musical teria sido considerado “ruim” por sua professora, “daquelas tradicionais” que “quase batia na mão”, fruto de uma pedagogia tradicional e autoritária, focalizada na aprendizagem da escrita, e em seu caráter não auditivo, mas “visual”:

Cláudio: Eu tive muita dificuldade. A professora falava: „Cláudio, pára de usar o ouvido‟. Ela sentia que eu tava usando o ouvido, caçando a nota, e isso foi muito complicado pra mim. Até hoje eu sinto essa dificuldade. Porque quando se acostuma a ter essa ferramenta, a gente assimila tudo pelo ouvido, sabe? E a partitura é uma assimilação mais visual: identificar uma figura, um acorde: você olha o desenho e toca! Hoje, fica mais natural, mas, na época, a questão do ouvido falava muito forte. A questão de memória. Até hoje é difícil. Pra ela, o ouvido tava substituindo

o papel: as figuras, as notas, o padrão rítmico. E eu já identificava tudo

muito bem: „Ah, essa parte é escala menor harmônica!‟ [canta a escala]. Aí quando eu errava a nota e depois acertava, ela dizia: „Cláudio, você tá usando o ouvido!‟.

Feichas (2006, p. 171) aponta que:

[...] „tocar de ouvido‟ parece ser uma atividade tão cercada de tabus do ensino tradicional que confunde as pessoas. Não é raro ver professores de música aconselharem os alunos a evitarem tocar de ouvido, porque poderia atrapalhar suas habilidades de leitura. Em muitos casos, ela age como uma proibição. Esta forma de prática musical esteve fora da tradicional esfera acadêmica de conhecimento, cultivada nas escolas e universidades. É considerada uma forma cultural iletrada e, consequentemente, a música produzida tem sido encarada como simples demais, indigna de investigação ou talvez desinteressante [...].77

O emblemático depoimento de Cláudio, mais acima, explicita ainda uma outra dimensão do processo de descontextualização: a ênfase na escrita em detrimento da memória.

77 “[…] „playing by ear‟ seems to be an activity that is so surrounded by the taboos of traditional teaching that it confuses people. It is not unusual to see music teachers advising pupils to avoid playing by ear because it could disturb their reading skills. In many cases it acts as a prohibition. This form of musicmaking has been outside the traditional academic sphere of knowledge cultivated in schools and universities. It is considered a non-literary form of culture, and consequently the music produced has been looked upon as too simple, not worthy of research or maybe uninteresting […]”.