Gökay Durmuş *
30 Aktulum, Parçalılık Metinlerarasılık, s 384.
O trabalhador social que opta pela mudança, não teme a liberdade, não prescreve, não manipula, não foge da comunicação, pelo contrário, a procura e vive (FREIRE, 1979, p. 28)
A atuação profissional do Assistente Social contempla, como citado anteriormente, diferentes interesses de classe e não há como pensá-lo isoladamente, fora das dimensões objetivas (determinantes sócio-históricos) e subjetivas (direção social que se imprime ao fazer). Em sua trajetória de consolidação, sua institucionalização e legitimação relacionam-se com intervenção do Estado, do empresariado e da Igreja Católica, no enfrentamento da Questão Social, viabilizando o processo de acumulação capitalista e o atendimento às necessidades sociais das classes subalternas. O desenvolvimento da profissão está vinculado à operacionalização das políticas sociais, que tem se caracterizado de forma fragmentada, pontual e localizada.
Iamamoto (2009) propõe uma análise dos espaços ocupacionais em que se inserem os Assistentes Sociais na atualidade, “considerando as formas assumidas pelo capital no processo de revitalização da acumulação no cenário da crise mundial” (p.342). Para a autora, as medidas de superação da crise incidem no controle da força de trabalho e nas expressões associativas da sociedade civil, entendida enquanto sociedade de classe. São medidas que aumentam a exploração e expropriação dos produtores diretos, ampliando a extração do trabalho excedente e o monopólio da propriedade territorial, comprometendo recursos naturais necessários à preservação da vida e os direitos sociais e humanos. Além disso, impulsionam a competição e o individualismo, desarticulando lutas coletivas, bem como promovem a privatização e mercantilização da satisfação das necessidades sociais.
Nesse contexto, garantir que os sujeitos tenham suas necessidades atendidas é responsabilidade atribuída à família, através dos rendimentos privados. Ao Estado, cabe a responsabilidade com o enfrentamento da pobreza extrema. Assim, tem-se um Estado mínimo para o atendimento das necessidades sociais, mas potente para o enfrentamento da crise estrutural do capital, reorientando o gasto público com esta finalidade.
Nos países centrais, constitui-se, como alternativa, a Terceira Via e atual social democracia como direção político-ideológica. Enquanto que, no contexto brasileiro, verifica-se o fortalecimento do neodesenvolvimentismo. O neodesenvolvimento captura diretrizes desenvolvimentistas e liberais. “Sob a fachada de um capitalismo humanizado, o novo desenvolvimentismo prega o
crescimento econômico atrelado, e em equilíbrio com a expansão do social” (CASTRO, 2013, p. 365). Nessa perspectiva, conforme Castro (2013), o mercado ampliado disponibiliza, além dos bens de consumo, os bens sociais. Os bens sociais são as políticas e os serviços sociais privatizados, acessados por quem pode compra-los. Para àqueles que não podem, restam políticas sociais de baixa qualidade. Os bens de consumo são disponibilizados para compra através da transferência de renda, a partir do que é possível comprar com o mínimo social. Há um enfrentamento da pobreza, mas articulada ao fortalecimento do mercado ampliado. No “lócus” do de mercado ampliado transitam diferentes interesses que, ideologicamente, têm suas distâncias diminuídas, pela ênfase no “direito ao consumo” como garantia de uma “integração social”, mas que responde a uma “inclusão forçada” necessária ao mercado.
Nessa condição, são reduzidos os investimentos em políticas sociais, restritos às estratégias de redistribuição de renda, o que não significa negar suas possibilidades no que diz respeito ampliação de acesso aos direitos sociais, mas chamar a atenção para sua restrição. Prates (2014, p. 2) reforça a análise do neodesenvolvimentismo como uma estratégia que favorece o capital por fortalecer o mercado e pacificar a população mais empobrecida. Essa população é estimulada a sentir-se privilegiada “com certo grau de autonomia para ‘vencer por si próprios’, reforçando o individualismo, a competição e a culpabilização”.
Trata-se de um movimento de sustentação econômica que reforça também o fortalecimento de parcerias público-privadas, desresponsabilizando o Estado na execução das políticas sociais (PERONI, 2013). Mesmo quando não privatizadas, a execução dessas políticas são voltadas para uma lógica de mercado, através de uma administração gerencial não democrática, que valoriza a produção de resultados, a eficiência e eficácia e minimiza os processos, enquanto experiências que possam conduzir os sujeitos envolvidos a uma participação efetiva e autônoma, numa perspectiva emancipatória.
Conforme Iamamoto (2009), as políticas sociais, nesse cenário, configuram-se como estratégia de manutenção do consenso de classe necessário à luta hegemônica. Manutenção que tem o apoio da mídia, das
inciativas empresariais – responsabilidade social e do Estado. E, “a Questão Social e as ameaças dela decorrentes assumem um caráter essencialmente político, cujas medidas de enfrentamento expressam projetos para a sociedade” (p. 343).
A atuação dos Assistentes Sociais é, então, condicionada pelas alterações da base técnica da produção, com as inovações tecnológicas e organizacionais, que potencializam a produtividade e a intensificação do trabalho (IAMAMOTO, 2009). Verifica-se, nos dias de hoje, essa intensificação sem freios, principalmente no que diz respeito ao tempo destinado ao trabalho. Sobre esses aspectos, Alves (2011) traz uma importe contribuição a partir da análise do que chama de “captura da subjetividade” a partir do capitalismo flexível que se vivencia na atualidade. Mas, ao utilizar o termo “captura”, explica que não se trata de uma captura de fato, pois se refere a um processo contraditório e complexo, de articulação de mecanismos de coerção/consentimento e de manipulação”. Em seus argumentos, o autor amplia a concepção de precarização do trabalho, para além do desmonte de formas reguladas de exploração da força de trabalho como mercadoria, através da desregulação da jornada de trabalho e de novas formas de remuneração e contratação flexíveis. Nesse sentido, busca evidenciar o sentido da “precarização do homem que trabalha”. O autor explica que a precarização do trabalho decorre da crise estrutural do capital, que repercute no complexo reestruturativo da produção do capital para constituir novas condições para a exploração da força de trabalho assalariado e na vigência da financeirização da riqueza capitalista. Mas, além disso, repercute no “processo crítico de (de)formação humano-social”.
Alves (2011) defende que o principal traço do desmonte de formas reguladas de exploração da força de trabalho é a flexibilidade, que adquiriu múltiplas determinações no processo de trabalho, com a mundialização do capital e a ofensiva neoliberal, a partir da “Quarta Revolução” (revolução informacional). Diante desse traço, trabalhadores fragilizam-se frente à imposição do cumprimento de metas, da remuneração flexível, da jornada de trabalho flexível – através de banco de horas, por exemplo, do contrato de trabalho flexível - por tempo determinado e/ou terceirizado. A precariedade
salarial e a dinâmica entre “os espaço-tempo de vida e espaço-tempo de trabalho”, na intensificação da jornada de trabalho corrói o “espaço-tempo de formação de sujeitos humano-genéricos”. Assim, a precarização do trabalho e a precarização do homem que trabalha implicam na crise da subjetividade humana, na vida pessoal, na sociabilidade (relação entre os homens) e na auto-referência pessoal.
Nesse contexto, Alves (2011) identifica ainda a ruptura dos coletivos de trabalho, através de uma “dessubjetivação de classe”. Esse processo se dá nas dinâmicas sociais, políticas, ideológicas e culturais, ao mesmo tempo em que se reforça o “individualismo na vida social”. Nesse sentido, capturar subjetividade é também capturar “intersubjetividade” e as relações sociais, pois não se concebe sujeito humano sem as teias das relações em que se insere. Tem-se, então, por exemplo, os coletivos colaborativos e funcionais à lógica do contratante em detrimento dos coletivos do trabalho, repercutindo na fragilização de movimentos sindicais, por exemplo.
Inseridos nesse contexto, identifica-se que o Assistente Social enfrenta, em seu cotidiano, essa “captura” descrita por Alves (2011), quando verifica-se as condições precárias de trabalho, o adoecimento e o quanto são apanhados pelo procedimentalismo exigido pelas próprias politicas sociais e seu conjunto de cartilhas e manuais, que reiteram a produção do já produzido, sem problematização e reflexão crítica. Também é possível verificar esse processo na formação profissional, pressionada para tornar-se mais tecnicista, atendendo em menor tempo as demandas do mercado e reduzindo custos do capital, por exemplo, na oferta de mestrados profissionais, na revisão curricular que flexibiliza carga horária e conteúdos, no aumento vertiginoso dos cursos à distância, iniciativas que reduzem os espaços de tempos para debates mais densos. Além disso, verifica-se as repercussões desse processo na massa intelectual tensionada pelo produtivismo e sobretrabalho (PRATES, 2014).
Trata-se de um cenário que exige o fortalecimento da orientação do trabalho do Assistente Social pelo projeto ético-político e o compromisso com valores democráticos e competência teórico-metodológica, subsidiada pela teoria crítica, para a leitura das contradições que criam limites e possibilidades para a atuação. Na contradição inerente as relações sociais capitalistas, sua
autonomia relativa permite potencializar espaços para a luta por direitos, imprimindo uma direção social ao seu fazer e um “vir a ser” na constituição da identidade profissional. Trata-se de uma constituição marcada pelo caráter histórico e mutável de uma profissão de práticas “velhas” e “renovadas” que coexistem e são exigidas de diferentes formas dentro da divisão sócio-técnica do trabalho coletivo.
Para Iamamoto (2009), tem-se um dilema entre o projeto ético-político e o estatuto assalariado em que se configura a atuação do Assistente Social. O que sustenta esse dilema é a relativa autonomia na condução de suas ações, que encontra suas bases na formação acadêmica, no aparato legal e organizacional da profissão. Diante desse dilema, a autora indica alguns desafios como o rompimento com as unilateralidades (fatalista/messiânico) e a participação de um empreendimento coletivo que tenha o trabalho cotidiano do assistente social como questão central da pesquisa e da produção acadêmica dessa área, atribuindo na análise a sociabilidade da sociedade do capital e, simultaneamente, o potencial que dispõe para impulsionar a luta por direitos e a democracia com posicionamento teórico-prático.
Ao buscar a análise de Iamamoto (2009) em relação aos espaços ocupacionais, busca-se enfatizar o caráter contraditório da atuação profissional, que através da sua relativa autonomia, pode buscar uma direção para a sua ação diferente daquela esperada pelo empregador, buscando legitimá-la e potencializá-la nas necessidades e demandas das classes populares a quem, predominantemente, se destina essa ação. Para isso, é necessária essa leitura crítica desses espaços e identificação de forças políticas que possam se somar nesse tensionamento cotidiano.
Nesse sentido, os espaços ocupacionais constituem-se também como campo potente de aproximações com os sujeitos, inserindo-se no cotidiano das relações sociais. Nesse campo cria-se a oportunidade do diálogo, que pode proporcionar o conhecimento das diferentes realidades e a construção e/ou fortalecimento de lutas coletivas. Nesse encontro, o Assistente Social tem, na particularidade de suas demandas, o atendimento às necessidades sociais, produzindo resultados concretos, mas também tem a ação socioeducativa, interferindo em comportamentos e valores (YAZBEK, 2009).
Yazbek (2009) chama a atenção para o fato de que, na sua trajetória, o Serviço Social constroem referências na constituição de sua identidade, que derivam de sua inserção objetiva nas relações sociais. A autora observa que o Serviço Social vem desenvolvendo sua intervenção junto aos segmentos mais pobres e subalternos da sociedade, constituindo também uma ação pedagógica.
É pela prestação de serviços socioassistenciais que o assistente social interfere nas relações sociais que fazem parte do cotidiano de sua população usuária. Esta interferência se dá particularmente pelo exercício da dimensão socioeducativa que tanto pode assumir um caráter de enquadramento disciplinador destinado a moldar o "cliente" em sua inserção institucional e na vida social como pode direcionar-se ao fortalecimento dos projetos e lutas das classes subalternizadas na sociedade (YAZBEK, 2009, p. 136).
No cenário atual, Abreu (2002), em relação ao perfil pedagógico atribuído ao Serviço Social, aborda as metamorfoses da “ajuda” e da “participação”, anteriormente descritas, quando se retomou aspectos da consolidação da profissão no Brasil. A autora relaciona esses perfis pedagógicos à necessidade de despolitização da Questão Social, mascarando interesses de classe na disseminação da solidariedade indiferenciada, constituindo uma possível pedagogia da “solidariedade”. Destaca a ênfase na individualização e responsabilização das classes subalternas quanto à busca de respostas às suas necessidades básicas, dificultando a formação de uma consciência de classe autônoma e a construção do processo de emancipação. A função pedagógica do Assistente Social é condicionada, então, pelos interesses de classe em confronto e há uma
(...) reatualização da função pedagógica tradicional vinculada às modalidades de “ajuda psicossocial individualizada” e de “participação” para o ajustamento, integração e promoção sociais, mediante incorporação de novos elementos e mediações que refuncionalizam essas pedagogias no processo de reorganização da cultura pelos detentores do capital (ABREU, 2002, p. 190)
Ainda em suas considerações, a autora admite a possibilidade concreta de redimensionamento da função pedagógica do Assistente Social num sentido emancipatório, “mediante construção de estratégias de efetivação de direitos, a
partir da incorporação das necessidades dos usuários como parte da dinâmica dos serviços institucionais (...), mediante a participação dos mesmos na gestão desses serviços e politização de problemáticas e relações usuários/instituições” (ABREU, 2002, p. 197).
Essa função pedagógica, para Abreu (2002), está vinculada à capacidade de mobilização e participação popular, a partir de um processo de reflexão, identificação de necessidades, formulação de demandas, controle das ações do Estado de forma qualificada, organizada e crítica, rompendo com práticas tuteladoras/clientelistas na relação entre Estado e sociedade. Nesse processo, assim como Iamamoto (2009), Abreu aponta a importância do acesso à informação na ótica do direito social, enquanto uma das atividades desenvolvidas pelo Assistente Social. Destaca-se aqui, através dessa atividade citada pelas autoras, a importância de fundamentar a reflexão sobre a relação pedagógica entre usuário e Assistente Social, já que ao assumir o papel de “transmissor” da informação, o profissional estabelece um processo de ensino/aprendizagem, em que a compreensão do mesmo pode potencializar a ação.
Contudo, em suas argumentações, Abreu (2002) apresenta exemplos de contextos de atuação como “mecanismos democratizantes”. Contrapondo-se as idéias desenvolvidas pela autora nesse ponto do seu debate, acredita-se que não se trata de contextos específicos de atuação, como exemplifica com a experiência do “orçamento participativo”, entre outros, para constituição de possibilidades concretas de processos numa perspectiva emancipatória, mas sim de relações que se estabelecem em espaços diversos, constituídas a partir da relativa autonomia profissional. Trata-se, portanto, de processos sociais que podem ser favorecidos por “mecanismos democratizantes”, mas esses mecanismos não determinam o caráter dessa atuação e, como processos, podem ser instigados em qualquer contexto. Como exemplo, é possível verificar os espaços dos conselhos de políticas públicas como contextos que podem ser considerados como favorecedores de uma atuação voltada para ampliação de processos emancipatórios. Contudo, os mesmos não determinam esse caráter e, conforme Silveira (2013), não é raro encontrar, nesses espaços,
uma arena de disputas políticas, onde predominam práticas clientelistas e repressoras31.
Nesse sentido, corrobora-se com a análise de Iamamoto (2008) no debate que estabelece em relação à obra de Abreu (2002). Iamomoto busca, na literatura especializada brasileira recente sobre a profissão, um debate com as principais teses – selecionadas pela mesma por apresentar ampla difusão na categoria profissional e exercer influência no processo de renovação crítica do Serviço Social. Entre as teses trabalhadas, traz a discussão de Abreu como uma daquelas que refletem a aproximação do Serviço Social brasileiro com Antônio Gramsci.
No debate, Iamamoto (2008) identifica, em relação às experiências citadas na obra, “uma distância entre a radicalidade da proposta da ‘pedagogia emancipatória’” (p. 326). Além disso, chama a atenção para a contradição que se verifica quando Abreu seleciona alguns espaços de atuação com potencial para as “práticas pedagógicas emancipatórias”, como se nem todos fossem passíveis de disputas políticas. Ao mesmo tempo, Abreu reconhece que os diferentes interesses de classe nos espaços ocupacionais apresentam “possibilidades de relações pedagógicas emancipatórias, constitutivas de processos de politização das necessidades sociais e dos serviços sociais públicos e por estes processos constituídas” (ABREU, 2002, p. 198).
Assim, reitera-se, nesse estudo, o entendimento de que as práticas pedagógicas constituídas de caráter emancipatório podem fundamentar os encontros, onde se estabelecem as relações entre profissionais e usuários, nos diversos espaços sócio-ocupacionais e no desencadear das diferentes competências e atribuições profissionais. Os limites e possibilidades objetivas para a direção que se quer dar para essas práticas – a partir do projeto ético- político profissional - serão mediadas pelo estatuto assalariado do profissional. Desse modo,
Considerando as possibilidades diferenciadas de autonomia que dispõe o Assistente Social nos vários espaços ocupacionais e a força dos interesses sociais distintos que neles se refratam, a efetivação de um projeto profissional não
31 Para aprofundar a análise sobre os espaços de controle social nos conselhos de políticas
pode depender de uma seleção de tipos seletivos de práticas; mas da direção social e política impressa ao trabalho nos diferentes espaços ocupacionais, consoante os limites e possibilidades de um fazer profissional que, embora denso de conteúdo político, distingue-se da arena da militância política (IAMAMOTO, 2008, p. 329).
A leitura crítica de realidade necessária para identificar as contradições inerentes aos espaços sócio-ocupacionais, enquanto limites e possibilidades para uma prática com direção social dada pelo projeto ético-político profissional, exige uma formação teórico-metodológica, ético-política e técnico- operativa qualificada. Esta é uma preocupação evidente na discussão das Diretrizes Curriculares do Curso de Serviço Social, formulada pela categoria profissional.
Contudo, a relação que se estabelece no cotidiano do exercício profissional do Assistente Social, com usuários e demais trabalhadores que compartilham espaços sócio-ocupacionais onde os mesmos se inserem, constitui-se de uma dimensão socioeducativa que pode ser aprofundada para que se conduzam encontros dialógicos facilitadores de uma direção social emancipatória. Essa dimensão pode encontrar fundamento nos conhecimentos acumulados da área da educação, aprofundando a reflexão sobre a mesma. Trata-se de um diálogo entre as áreas que se evidenciou já no percurso da consolidação do Serviço Social no Brasil.
Para Mioto e Lima (2009, p. 31), ações socioeducativas “são amplamente reconhecidas como estruturantes do Serviço Social”. Mas, as autoras entendem que “são definidas, na melhor das hipóteses, apenas em relação à direção dada pelo projeto ético-político” e “a maioria das vezes, (...) são pouco decodificadas em relação às diferentes orientações teóricas sobre elas e ao próprio processo de sua realização”.
Considerando essa dimensão socioeducativa, é necessário questionar- se, posicionar-se e buscar aprofundamento necessário para definição da educação que se deseja, considerando o pressuposto de relação pedagógica que a mesma deve estabelecer. Esse pressuposto pode fortalecer uma postura profissional no diálogo com os demais sujeitos que retome “os trabalhos de base – de educação, mobilização e organização popular - (...) o que parece ter sido parcialmente submerso do debate profissional ante o refluxo dos
movimentos sociais e dos processos massivos de organização sindical e social, a partir da década de 1990” (IAMAMOTO, 2009, p. 362). Iamamoto defende essa retomada já em outra obra (2002), onde complementa que os trabalhos de base provocam a formação profissional para repensar a mobilização e a Educação Popular, sem confundir-se com a “ressurreição de um passado perdido”, mas com uma “releitura crítica da tradição profissional do Serviço Social” (p. 56).
Nesse sentido, essa reflexão sobre a “postura pedagógica” exige a definição de um posicionamento teórico-metodológico e ético-político em relação à concepção de educação que se quer imprimir à dimensão socioeducativa da profissão do Assistente Social, orientando as decisões técnico-operativas. Essa definição pode contribuir na fundamentação da formação de “um profissional versado no instrumental técnico-operativo” potencializador das ações “estimuladoras da participação dos sujeitos sociais nas decisões que lhes dizem respeito, na defesa de seus direitos e no acesso aos meios de exercê-los” (IAMAMOTO, 2009, p. 368).
Além disso, Iamomoto (2009) refere que, na atualidade, há novas exigências de qualificação profissional na perspectiva de um profissional capaz de formular, recriar e avaliar propostas para a progressiva democratização das relações sociais, tendo como horizonte uma “democracia de base”, ampliando a democracia representativa e respeitando a universalidade dos direitos. A autora amplia a noção de “executores terminais das políticas sociais” descrita por Netto (1992), afirmando a constituição de novas funções na formulação,