6. Sanal Diplomasinin Yapısal Belirlenimi
6.2. Sanal Diplomasi ve Maddi Alt Yapı Belirlenimi
6.2.2. Ağ Ekonomisi
313 “Uma obra de Sciencia”, O Estado de São Paulo, 20/11/1925.
314 Expressão empregada por Neiva em carta a Brandenburger, onde discorre sobre a criação do Instituto
No intervalo entre a derrota do projeto de criação do Instituto Biológico e sua reapresentação à Câmara Estadual, em 6 de dezembro de 1927,315 houve a troca de governo. Júlio Prestes assumiu a presidência do estado (1927-1930) e Fernando Costa, a pasta da Agricultura. Este era receptivo ao projeto do Instituto, propagandeando a modernização agrícola paulista:
A agricultura paulista não pode aplicar os mesmos processos usados em tempos passados, quando a terra, rica em húmus, tudo produzia exuberantemente. Já agora precisamos adotar métodos racionais...e, dentre estes, cito a necessidade de organizar a defesa sanitária animal e vegetal, envolvendo o estudo completo e minucioso de todas as moléstias das plantas e dos animais, dos processos científicos e meios de combatê-las (Costa apud Ribeiro, 1997, p. 26)
Com a ajuda do novo secretário de Agricultura, as sociedades agrícolas retomaram o lobby em favor do Instituto Biológico. Em julho de 1927, Julio Prestes visitou fazendas infestadas pela praga em companhia de Fernando Costa, Arthur Neiva e Adalberto Queiroz Telles.316 Possivelmente foi o meio que Neiva encontrou para aproximar-se do novo governo do estado e persuadi-lo da necessidade de uma instituição mais robusta de defesa do café. Dias depois, Neiva conferenciou com o secretário de Agricultura sobre esse assunto.317
O projeto de criação do Instituto Biológico foi reapresentado à Câmara dos Deputados em 6 de dezembro de 1927. Segundo correspondência de Neiva a Frei Thomaz Borgmeier, houve muitas alterações no novo projeto em relação ao anterior.318 As atribuições do Instituto referentes à irrigação, adubação, poda, hibridação do café passaram à esfera do Instituto Agronômico de Campinas, após as reformas organizacionais implementadas por Júlio Prestes,
315 Data em que o projeto entrou em primeira discussão. 93ª Sessão Ordinária. Annaes da Câmara dos Deputados
de São Paulo, p. 995).
316 O Estado de São Paulo, 29/07/1927.
317 “Notas e informações”, O Estado de São Paulo, 27/08/1927. 318 ANc – rs- 1926.08.12. Arquivo Arthur Neiva. CPDOc- FGV.
sobre as quais falarei mais abaixo. Por outro lado, foi anexada ao projeto uma divisão de defesa animal que compreenderia as seções de bacteriologia, fabricação de soros e vacinas, parasitologia animal e anatomia patológica. As seções da divisão vegetal eram as mesmas: fisiologia, botânica, química, entomologia agrícola e fitopatologia. O novo projeto ampliava consideravelmente as prerrogativas do Instituto, que passava a abarcar a lavoura paulista em todos os seus aspectos. Quaisquer atividades feitas pelo homem do campo, agricultura ou pecuária, eram contempladas na nova organização do instituto.
Em memória sobre a criação do Biológico, Fernando Costa diz que apresentou aos diretores da secretaria de Agricultura um projeto que centralizaria “a defesa e proteção dos animais e das plantas contra as pragas e doenças” (Costa apud Martins, 1991, p. 213). Neiva opôs-se, argumentando que já tramitava no Congresso estadual o seu próprio projeto de uma instituição para combate às pragas da lavoura. Finalmente, consentiu em negociar com Costa um novo projeto para o Instituto Biológico (Idem, p. 214). O perfil que foi reapresentado à Câmara em 1927, incluía a divisão animal e parece ter sido resultante da negociação entre Neiva e Fernando Costa.
A imprensa voltou à carga na defesa do projeto. O Diário da Noite, um dos jornais da rede de Assis Chateubriand (Capelato, 1989, p. 24), publicou uma série de entrevistas com pessoas versadas nas ciências agronômicas. Alcides Penteado, um dos entrevistados, qualificou o projeto institucional apresentado por Neiva como “a melhor obra da república no estado de São Paulo e, talvez, no Brasil.”319
Em 8 de dezembro de 1927, o projeto entrou em segunda discussão no Congresso Estadual; em 16 de dezembro, passou para a terceira discussão,320 e dois dias depois subia à sanção do presidente do estado. No dia 26 de dezembro era criado o Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal através da lei 2243.
319 Diário da Noite, 09/12/1927.
O governo foi alvo dos mais exaltados encômios e seu chefe, Júlio Prestes, como “the
right man in the right place”.321 Finalmente, São Paulo atendia à “antiga aspiração da lavoura paulista”.322
A criação do Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal estava inserida num programa mais amplo de reformas empreendidas por Júlio Prestes na estrutura administrativa da agricultura. Incluíam o desdobramento da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas em dois órgãos: a Secretaria de Viação e Obras Públicas e a Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio. Navarro de Andrade louvou a ação de Júlio Prestes nas páginas d’ O Estado:
A lavoura vivia, na Secretaria da Agricultura, das sobras das obras públicas, a alimentar-se das migalhas que caíam dos banquetes da viação. Nesta vida quem não chora não mama e a classe agrícola de São Paulo há muitos anos que soluça apenas e, assim mesmo, em voz baixa, não incomodando os vizinhos.323
Uma das modificações dessa reforma era impulsionar a diversificação agrícola, acelerada no período do entre guerras com a expansão da pequena propriedade. Sua produção destinava-se ao mercado interno, ampliado com o crescimento demográfico de São Paulo apesar de o café manter a primazia nas exportações. As reformas de Júlio Prestes, além do pragmatismo que o levara a mobilizar as ciências para a resolução das questões práticas da economia, tinham a ver com a tentativa de racionalizar as estruturas do Estado para enfrentar tanto a sua crise de legitimidade como seu estrangulamento financeiro (Figueirôa, 1987, p. 110).
Os órgãos subordinados à secretaria da Agricultura sofreram mudanças para se ajustarem à nova direção adotada por Júlio Prestes. Além do desdobramento da secretaria,
321 O Estado de São Paulo, 25/12/1927.
322 “Ao lado da sua tarefa defensiva, de ação imediata, [o Instituto Biológico] vai constituir uma oficina de
ciência, um viveiro de pesquisadores, de sábios, talvez, com que muito há de lucrar o desenvolvimento intelectual da nossa população, pois nunca uma instituição da sua natureza e capacidade deixou de retribuir o povo que a mantém com o prestígio e a boa fama peculiar a todo foco de verdadeira cultura.”
houve a criação do Conselho Superior de Ensino Agrícola; a reforma do Serviço Florestal do Estado e a reorganização da Indústria Pastoril (Martins, 1991, p. 205- 29). A secretaria da Agricultura abrigaria três frentes de pesquisa: fomento agrícola, fomento animal e defesa da produção animal e vegetal (Ribeiro, 1997, p. 27). As duas primeiras frentes estavam relacionadas a programas de instrução dos lavradores, partindo-se do pressuposto que a ausência desta era um dos fatores responsáveis pelo atraso da agropecuária (Oliver, 2001, p. 50).
Assim como a broca do café impulsionou a criação do Instituto Biológico de São Paulo, o mosaico da cana teve como desdobramento a Estação Experimental de Plantas Sacarinas e Oleaginosas, voltada, entre outros objetivos, para estudo das variedades de cana a introduzir no país. De fato a crise do mosaico foi um fator preponderante para que a carência de espaços institucionais dedicados à cana-de-açúcar fosse suprida. A produção do açúcar havia acompanhado o desenvolvimento do mercado interno advindo com a expansão da cafeicultura e a criação dessa Estação Experimental embasaria todo o processo posterior de modernização da agroindústria canavieira (Oliver, 2001, p. 27; 58-60).
O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) foi uma das principais preocupações de Fernando Costa. Alcides Penteado, um dos entusiastas da defesa profilática da lavoura, pregava sua subordinação ao Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal, considerando um “erro irreparável” manter a autonomia da instituição campineira.324 Para a Sociedade Paulista de Agricultura, ela já não era capaz de dar conta de um cenário de crescente complexidade:
Já não basta o IAC, que tem realizado muitos trabalhos de valor, mas é insuficiente para resolver tantos problemas de tamanha complexidade. Torna-se imprescindível fundar o Instituto de biologia e Defesa do Café, como complemento dos órgãos já existentes, com atribuições bem definidas cada um, apresentando porém, uma frente única ao inimigo, para combatê-lo em qualquer terreno que se apresente.325
324 “O Instituto Biológico”, O Estado de São Paulo, 11/12/1927.
Juntamente com a Diretoria de Inspeção e Fomento Agrícolas, o IAC realizaria pesquisas na área vegetal. Teria agora por finalidade o “estudo dos fatores da produção agrícola e da vida e melhoramento das plantas cultivadas” (Lei 2227-A apud Martins, 1991, p. 210). Sua estrutura passava a ser composta pelas seções de fiscalização, química e tecnologia agrícolas, agronomia, horticultura, genética, botânica, entomologia aplicada, bacteriologia agrícola e indústrias de fermentação. Buscou-se dar ao Agronômico uma orientação mais condizente com as demandas da indústria. A seção de indústrias de fermentação cuidaria do estudo dos:
processos modernamente empregados na indústria do álcool, acetificação, laticínios etc, para escolher os mais utilizáveis, conforme as condições mesológicas do estado; conservação, transporte e utilização dos produtos agrícolas; depuração das águas residuárias das fazendas e seu aproveitamento agrícola (Teixeira & Tisselli apud Martins, 1991, p. 211).
O Instituto Biológico, por sua vez, teria como atribuições o estudo das questões concernentes à defesa agrícola e animal; o estudo e análise de produtos químicos – fungicidas, inseticidas, parasiticidas -; a orientação dos produtores no combate às epifitias e epizootias; a preparação de soros para diagnóstico e de vacinas e outros produtos para tratamento e profilaxia das doenças veterinárias; a divulgação dos estudos realizados; o intercâmbio com outros centros de pesquisa agrícola, nacionais e estrangeiros, e por último, a implementação de cursos práticos sobre as pesquisas desenvolvidas para leigos e especialistas (Lei 2243, de 26/12/1927 apud Ribeiro, 1997, p. 28).
O diretor superintendente cuidaria da gestão administrativa e científica da instituição, e seria secundado por dois subdiretores responsáveis pelas duas grandes divisões do Instituto Biológico: a Divisão de Defesa Vegetal e a Divisão de Defesa Animal.
A direção foi entregue a Arthur Neiva, um dos idealizadores do Instituto. Este convidou Henrique da Rocha Lima para chefiar a Divisão de Defesa Animal, composta pelas seções de bacteriologia, fisiologia, anatomia patológica e ainda entomologia e parasitologia animal. A seção de Bacteriologia ficou a cargo de Genésio Pacheco, outro ex-assistente do
Instituto Oswaldo Cruz. Ele trouxe consigo antigos freqüentadores do curso de especialização de Manguinhos: Celso Rodrigues, Adolfo Martins Penha, Otto Bier e, posteriormente, José Reis (Idem). Paulo Enéas Galvão, ex-assistente de Fisiologia de Manguinhos foi nomeado assistente chefe de Fisiologia do Instituto Biológico. Como desenhista, designou-se Carlos Rodolfo Fischer, desenhista do Instituto Oswaldo Cruz e responsável pela ilustração do material de divulgação da campanha contra a broca. Fischer era alemão e veio ao Brasil a pedido de Oswaldo Cruz para fazer os trabalhos litográficos de Manguinhos. A anatomia patológica era chefiada por Juvenal Ricardo Meyer, e a entomologia e parasitologia animal, por Rodolpho von Ihering (Idem, p. 37-8).
A Comissão de Estudo e Debelação da Praga Cafeeira foi extinta, incorporando-se os seus membros à nova instituição, principalmente à Divisão Vegetal, cuja direção foi entregue a Adalberto Queiroz Telles. Esta Divisão era composta pelas seções de entomologia e parasitologia agrícola e a de química. A primeira daria prosseguimento aos estudos concernentes à broca do café, sem deixar de atender as consultas de particulares e de outras instituições públicas de pesquisa agronômica (Idem, p. 34). Da seção de entomologia passaram a fazer parte José Pinto da Fonseca, antigo membro da Comissão e naturalista viajante do Museu Paulista; Mário Autuori, também entomologista da Comissão (atuaria no combate à saúva) e Frei Thomaz Borgmeier, amigo pessoal de Neiva e dedicado aos estudos sobre insetos.
A seção de Botânica e Agronomia herdou o herbanário cuja origem remontava à antiga Comissão Geográfica e Geológica. Ele havia sido incorporado ao Instituto Butantã quando Neiva esteve à frente do Serviço Sanitário de São Paulo, transformando-se no Horto Oswaldo Cruz. Neiva pretendia converter o Butantã num centro produtor de medicamentos, como quina e quenopódio, além de cultivar plantas tóxicas e anti-helmínticos. Para comercializar os produtos, criou o Instituto de Medicamentos Oficiais (Benchimol & Teixeira, 1993). A iniciativa não deu certo, e o herbanário foi incorporado ao Museu Paulista. Passava agora a compor uma repartição do Instituto Biológico, onde atenderia a consultas e faria intercâmbio de amostras (Ribeiro, 1997, p. 33).