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O cais da Alfândega, construído em 1863, era, até 1904, um dos principais pontos de embarque e desembarque de passageiros em Natal.60 Como vimos no primeiro capítulo, durante o século XIX, o desembarque de passageiros na cidade não era exclusivo de algum “porto” existente no espaço urbano. Em qualquer um dos “portos” presentes na capital norte-rio- grandense, como o do Passo da Pátria, Pedra do Rosário, ou o da 10 de Junho, os passageiros que vinham para Natal, poderiam desembarcar sem haver, por parte do poder público, uma maior regulamentação sobre as atividades desenvolvidas nesses locais. Mercadorias e passageiros circulavam nesses mesmos pontos de embarque e desembarque espalhados pela cidade, não havendo exigências dos grupos dirigentes locais em relação à especialização dos mesmos.

Com a instauração do Regime Republicano, tal situação mudou. O Estado passou a promover a especialização das atividades desenvolvidas na região portuária. Com isso, cada ponto de embarque e desembarque passou a desempenhar sua função, na cidade, com base no tipo de atividade escolhida pelo poder público, para ser desenvolvida nesses locais. Até 1903, por exemplo, o cais da Alfândega era o principal ponto por onde os passageiros desembarcavam na

capital norte-rio-grandense. No entanto, em 1904 o governador do Estado, Alberto Maranhão, decidiu investir verbas na reforma do cais da Praça Deodoro da Fonseca, o antigo cais da 10 de Junho. Esse cais se tornaria, pelo edital publicado pela intendência municipal no ano de 1905, o ponto exclusivo, em Natal, para o desembarque de passageiros.61 Nele, foi construída uma rampa de desembarque, junto a uma grade de ferro que permitiria as pessoas se aproximar da margem do rio Potengi.

A praça, em frente ao cais, foi toda arborizada, sendo desejo do governador Tavares de Lyra, para que, no futuro, o cais pudesse ser “um ponto agradável de reunião e recreio”.62 O cais, inaugurado em 1905, ganhou o nome do governador do Estado desse ano, Augusto Tavares de Lyra, fato que gerou grandes reclamações por parte do jornal Diário de Natal, periódico da oposição. Segundo o Diário, a substituição do nome do cais e da praça, que honravam a memória de uma das principais figuras políticas do país na proclamação da República, o Marechal Deodoro da Fonseca, era uma ingratidão dos atuais administradores do Estado, que mostravam “do que eram capazes.”63

A preocupação com a reforma do cais, nomeado de Tavares de Lyra, demonstra um pouco dos novos sentidos que passaram a ser atribuídos ao porto no Período Republicano. Desembarcar no cais, não deveria ser apenas um processo rotineiro no itinerário do viajante, mais a oportunidade para visualizar um ponto fundamental na cidade, visto como sua “sala de espera”: o porto. Como nos lembra Alain Corbin, a partir do final do século XVIII, a visita ao porto passou a ser estimulada e apreciada pelas elites locais europeias, integrando os novos guias de viagem que orientavam o itinerário da visita na cidade.64

Em 1908, foi lançada pelo Governo Estadual, a proposta de construção da avenida do porto, projeto idealizado por Pedro Velho, que havia falecido no ano anterior. O projeto consistia na abertura de uma nova avenida, entre a Tavares de Lyra e a Rua Sachet.65 A construção desta avenida, em frente ao cais, favorecia o passeio público por essa região, estimulando parte da população a visitar o cais, para contemplar o rio Potengi e os navios que desembarcavam no porto. Essa proposta de avenida nos mostra, como o porto passava no Período Republicano a ser

61 INTÊNDENCIA municipal: resolução n. 98. A República, Natal, 5 de jan. de 1905. 62 PARTE oficial: Governo do Estado. A República, Natal, 13 de jan. de 1905. 63 DIARIO de Natal, Natal, 08 jan. 1905.

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CORBIN, Alain. Território do vazio: a praia no imaginário ocidental. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 212.

pensado, pelos grupos dirigentes locais, como um espaço integrado totalmente à cidade, sendo um ponto obrigatório do itinerário de visitas na capital.

Veremos mais adiante neste capítulo, que o surgimento de uma nova percepção sobre o porto também foi acompanhado de novas sensibilidades sobre o mar, tornando-o tema objeto de inspiração de vários poetas natalenses, que destacaram a importância dos natalenses em admirar e contemplar o rio Potengi A visita ao cais, permitiria, para os grupos dirigentes locais, que os transeuntes pudessem admirar o rio, que na República, figuraria nos discursos dos administradores locais, como uma das principais forças capazes de projetar Natal no mercado mundial e no caminho das cidades que eram consideradas como modernas e civilizadas.

Imagem 01 – Fotografia do cais da Tavares de Lyra

Fonte: MIRANDA, João Maurício Fernandes de. Evolução urbana de Natal em 400 anos 1599-1999. Natal: Iarte, 1999. p. 59.

Na foto acima, tirada em 1904 por Bruno Bougard, podemos visualizar o início do processo de arborização da praça em frente ao cais, idealizado pelo governador. A questão das árvores na cidade perante o processo de modernização mobilizado no espaço urbano rendeu várias matérias nos principais periódicos natalenses, que viam como essencial a sua manutenção na capital. A presença destas, no tecido urbano, representou, para uma parte dos natalenses, a sobrevivência de uma Natal antiga, da tradição e dos valores associados ao tecido urbano que não

poderiam se perder com as mudanças promovidas pelo estado, na capital. Além disso, a presença das árvores era considerada importante, para o embelezamento da área urbana e para a saúde dos corpos.

Nas resoluções publicadas pela intendência municipal, podemos visualizar o esforço de organização e especialização das atividades portuárias, principalmente, em relação à questão das funções de cada “porto” espalhado no espaço urbano. Na Resolução n. 40, publicada ainda em 1900, foi definido que, “as embarcações na pesca do peixe destinado ao consumo desta capital, devem aportar no local chamado de Passo da Pátria, local designado pela capitania do porto, até que a mesma designe para tal fim um porto definitivo.”66

Dez anos antes, no começo da República, a intendência proibira o desembarque de tijolo, telha, lenha e outros materiais transportados para capital, por pequenas embarcações que não fossem nos pontos indicados, que eram o Passo da Pátria, a Pedra do Rosário, o cais dos Menores, o cais da Alfândega e o barracão da Capitania do Porto.67 A imagem a seguir, mostra esses vários cais presentes na cidade, que passaram na República a serem hierarquizados:

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RESOLUÇÃO Nº 40. A República, Natal, 08 de jun. de 1900. Extraído de: ARRAIS, Raimundo Pereira Alencar; ROCHA, Raimundo Nonato Araújo da; VIANA, Hélder. (Orgs.). A intendência e a cidade: fontes para o estudo da gestão da cidade de Natal (1892 a 1919). Natal: EDUFRN, 2012. p.25.

67 RESOLUÇÃO Nº 3. A República, Natal, 07 de jan. de 1893. Extraído de: ARRAIS, Raimundo Pereira Alencar;

ROCHA, Raimundo Nonato Araújo da; VIANA, Hélder. (Orgs.). A intendência e a cidade: fontes para o estudo da gestão da cidade de Natal (1892 a 1919). Natal: EDUFRN, 2012. p.13.

Imagem 02 – Fotografia aérea dos vários cais espalhados pela cidade

Fonte: Arquivo Particular de Willian Galvão.

É interessante notar, como a partir da República, o termo “porto de Natal” passou a ser associado, cada vez, mais a um cais específico da cidade, neste caso, o da avenida Tavares de Lyra. Como já falamos anteriormente, no Império, falar do porto de Natal, incluía qualquer um dos “portos” distribuídos no litoral da capital. Já na República, a compreensão de que existe um porto principal e outros secundários, leva o termo a ser associado a um ponto específico do espaço urbano, representado como sua “sala de espera”. Prosseguindo nossa viagem pelo porto, direcionaremos nosso olhar para outro ponto importante do porto, presente na festa da recepção de Pedro Velho: os armazéns das ruas próximas ao cais.