Ao discutimos sobre a proficiência linguística, adotamos a postura coerente com a de Scaramucci (2000), que caracteriza a proficiência em duas modalidades: a do uso técnico e a do uso não técnico. O sentido não técnico diz respeito a julgamentos de teor
41 impressionista, baseados em visões mais holísticas da linguagem, e leva à interpretação de proficiência como um conceito estável, único. Geralmente, o termo proficiência, visto sob essa visão, é baseado em descritores mais gerais e representa uma separação entre indivíduos proficientes e não proficientes.
Em seu sentido técnico, o termo proficiência é utilizado no âmbito de controle operacional da língua, variando conforme a especificidade da situação de uso da mesma, englobando uma gradação de níveis, ou seja, oscila do menos proficiente ao mais proficiente. Assim, segundo a autora, “em vez de uma proficiência única, absoluta, monolítica, baseada naquela do falante ideal, teríamos várias, dependendo da situação de uso da língua” (SCARAMUCCI, 2000, p.14).
De acordo com Scaramucci (op. cit.), a proficiência só deve ser definida a partir do contexto específico de ensino-aprendizagem vivenciado pelos alunos e dentro do qual ocorrem as possíveis interações. Assim, devem-se avaliar os aspectos da língua não de forma isolada e indivisível, mas de forma a abranger toda a sua complexidade, que é refletida na comunicação.
O conceito de proficiência representa, de forma geral, uma fonte de classificação para aprendizes proficientes e não proficientes. Porém, a autora afirma que a proficiência deve ser entendida como um termo dependente de outras variáveis, como o contexto de ensino e aprendizagem, suas características e suas metas, que acabam por influenciar diretamente no desenvolvimento dos alunos.
Uma distinção entre proficiência e competência é feita por Taylor (1988, p.166), que afirma ser a proficiência a “prática” da competência, uma vez que esta pode ser vista como estática (relacionado à estrutura, estado ou forma), enquanto que aquela é extremamente dinâmica e relacionada a processo.
42 Um ponto de vista distinto do abordado por Taylor é o de Savignon (1983), pois, segundo essa autora, a competência comunicativa é um conceito dinâmico, que depende da negociação de significados entre os falantes e dos conhecimentos que eles possuem sobre a língua. Sendo assim, a manifestação da competência, que também é dinâmica, é chamada proficiência.
Stern (1987) caracteriza a proficiência como um conceito multifacetado, que abrange o conhecimento linguístico e sociolinguístico e a habilidade ou capacidade de colocar esse conhecimento em uso. Entretanto, Teixeira da Silva (2000), com a finalidade de proporcionar uma definição mais precisa da competência comunicativa, diferencia o conceito de proficiência oral, com base em Scaramucci (1999), do conceito de competência comunicativa, ao afirmar que
é proficiente o indivíduo que em situações reais de comunicação é capaz de atuar fazendo uso das formas que são gramaticalmente corretas e socialmente adequadas, e que for capaz de negociar significados envolvendo não só conhecimentos lingüísticos, mas outros conhecimentos compartilhados e capacidades: conhecimento de mundo, competências estratégicas, textuais, discursivas, culturais: não apenas regras de língua, mas também regras de uso da língua. A proficiência envolve não apenas conhecimento estático, seja de língua, de uso da língua ou de conhecimentos das normas sócio- culturais, como também uma competência comunicativa, ou seja, a capacidade de saber usar a língua, usando essas regras mencionadas, ultrapassando barreiras impostas pela própria situação de comunicação (TEIXEIRA DA SILVA, 2000, p.54-55).
Concordamos com a autora supracitada, uma vez que a mesma afirma que, para ser proficiente, não basta ao falante apenas ter o domínio estático da língua, sendo que esta traz consigo características vivas, que se transformam de acordo com o uso, pois apenas um domínio dito estático não seria suficiente para acompanhar as mudanças trazidas pelas diversas situações de comunicação.
Consolo e Teixeira da Silva (2007) buscam englobar os principais aspectos levantados pela literatura em Linguística Aplicada e definem o termo proficiência com
43 uma habilidade com características processuais para usar a competência lingüística, assim como um construto teórico que depende dos objetivos para o desenvolvimento lingüístico e que se alinha com a abordagem adotada ao se ensinar e aprender uma língua. (p.4)
É interessante notar que termos como “habilidade linguístico-comunicativa” e “proficiência” parecem ser providos de características similares. Segundo Cavalari (2009), essas similaridades aparecem porque (i) a habilidade linguístico-comunicativa envolve competência e desempenho em relação a fatores afetivos, conhecimento de mundo e conhecimento estratégico, e (ii) a proficiência envolve a relação entre competência, desempenho, fluência e variáveis contextuais.
Segundo Wielewicki (1997), dentre os diferentes termos relacionados ao termo proficiência, três deles merecem atenção especial, sendo eles: competência, habilidade e desempenho. Entendemos, como já discutido em nosso trabalho, competência não somente como a utilização de regras gramaticais da língua, mas também como o domínio de saber como e onde utilizar tais sentenças. Sendo assim, acreditamos que a caracterização de competências seja mais geral, de forma que possa gerar, por exemplo, a proficiência linguistica.
Já habilidade é visto como um termo mais específico, uma vez que condiz à capacidade de um indivíduo realizar determinadas tarefas em contextos específicos. É o que vemos acontecer em exames de proficiência em LE, que apresentam tarefas cujo intuito é fazer com que o candidato manifeste sua habilidade em falar, ouvir, escrever. Já o desempenho vem nos mostrar como o avaliado se saiu em dada tarefa, ou seja, qual foi seu desenvolvimento.
Sendo assim, acreditamos que “habilidade” seja um termo menos amplo que “competência”, de forma que a competência estaria constituída por várias habilidades.
44 Entretanto, uma habilidade não "pertence" a determinada competência, uma vez que uma mesma habilidade pode contribuir para competências diferentes.