• Sonuç bulunamadı

Para a discussão acerca dos processos de subjetivação, fomos conduzidos por Michel Foucault, apropriando-nos de seus textos como um elemento norteador da problematização acerca da constituição das subjetividades dos(as) DMEs, pois, como nos aponta Alain Touraine (2009), “Michel Foucault nada mais é do que um grande barqueiro (...) alcança a ideia de sujeito e de subjetivação que nos libertam do sufoco imposto pela noção de uma sociedade sem atores, sem reflexão e sem consciência” (TOURAINE, 2009, p. 101). Em nosso trabalho, aproximamo-nos do “domínio do ser consigo” (VEIGA-NETO, 2005, p. 47),12 sempre levando em consideração o alerta que nos faz o próprio Foucault a respeito de suas investigações, para quem o objetivo do seu trabalho não foi analisar o fenômeno do poder, mas “criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornaram-se sujeitos” (FOUCAULT, 2010g, p. 273). Foucault, mesmo descrevendo o modo de subjetivação na Antiguidade, pode nos remeter à problematização dos modos de subjetividades contemporâneos – quais são nossos processos de subjetivação hoje, em que lugares e como se produzem – em uma perspectiva que nos faria questionar não somente as dominações políticas e as lutas contra as explorações econômicas, mas principalmente as lutas contra as sujeições identitárias. É o que nos indica Deleuze (2013): “o que interessa essencialmente a Foucault não é um retorno aos gregos, mas nós hoje: quais são nossos modos de existência, nossas possibilidades de vida ou nossos processos de subjetivação” (DELEUZE, 2013, p. 129, grifo do autor).

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Para Veiga-Neto (2005), estabelecer categorizações para a obra de Foucault consiste em uma grande dificuldade, pois o que se ganha em didática perde-se em rigor. No entanto, a partir da divisão centrada no critério metodológico-cronológico, que estabelece a divisão de sua obra em fases – arqueológica, genealógica e ética – e no estabelecimento de três eixos de natureza ontológica: o “ser-saber”, o “ser poder” e o “ser consigo”, são estabelecidos os “domínios” nos quais nos tornamos o que somos, como sujeitos de conhecimento, de ação e constituídos pela moral. Cabe observar que essa categorização não deve ser estanque, visto que há uma incorporação de uma pela outra, de maneira que se tornam, portanto, intercambiáveis (VEIGA-NETO, 2005, p. 41-49). Acresce que, para Foucault, em uma análise retrospectiva de sua obra, não haveria “fases”, mas “deslocamentos”. O primeiro “deslocamento” seria da história do conhecimento para a análise dos saberes, das práticas discursivas que organizam esses saberes; o segundo dar-se-ia no sentido de passar da análise da norma à análise dos exercícios do poder, e desses exercícios de poder aos procedimentos de governamentalidade; por fim, o terceiro dar-se-ia no sentido de ir da questão do sujeito às formas de subjetivação por meio das técnicas da relação consigo (FOUCAULT, 2010f; 2010g).

Cardoso Jr. (2005), ao demonstrar de que forma Foucault relacionava a questão da subjetividade ao tempo e ao corpo, destaca o potencial de polêmica em que o conceito de subjetividade, da forma como colocava o filósofo, estava envolvido, pois o que faz “esvazia a noção de subjetividade de seus conteúdos corriqueiros e a preenche com outros, inovadores” (CARDOSO JR., 2005, p. 345). A subjetividade estaria ligada ao tempo em virtude do que em nós se relaciona com o mundo; seria uma maneira de afirmar uma determinada concepção, uma “maneira de abandonar a ideia de uma subjetividade imóvel em sua fixidez, como o ego cartesiano ou a ideia de uma subjetividade vinculada a um inconsciente onde a temporalidade está articulada a uma estrutura pulsional mais ou menos invariante, como supunha Freud” (CARDOSO JR., 2005, p. 345). A relação com o corpo é mais explícita, pois a subjetividade é algo que acontece em um corpo, está vinculada a ele, carregada de suas práticas e experiências.

Não é objetivo dessa análise dos referencias teóricos trabalhados na pesquisa detalhar os deslocamentos efetuados por Foucault rumo à dimensão da subjetividade, passando pelas dimensões do saber e do poder; no entanto, com sustentação em Deleuze (2013), caberia apontar de que forma a subjetividade é compreendida por Foucault, como a problematização em torno do sujeito tornou-se um objeto central de suas últimas investigações. Dessa forma estaremos, na realidade, instrumentalizando-nos para compreendermos os processos de constituição de subjetividades dos(as) DMEs, sujeitos de nossa pesquisa, o que em suas ações são elementos constituintes dessa subjetividade, pois “Foucault é conduzido a uma história das práticas nas quais o sujeito aparece não como instância de fundação, mas como efeito de uma constituição” (CASTRO, 2009, p. 408).

De acordo com os incisivos apontamentos de Deleuze (2013), para além dos mal- entendidos e más vontades, não há um retorno ao sujeito em Foucault, visto este nunca ter decretado a “morte do homem”. O que há é uma abertura a uma nova dimensão de análise, uma “urgência” teórico-analítica; tratava-se de “inventar modos de existência, segundo regras facultativas, capazes de resistir ao poder, bem como se furtar ao saber, mesmo se o saber tenta penetrá-los e o poder tenta apropriar-se deles” (DELEUZE, 2013, p. 120-121). Para Deleuze, Foucault estaria experimentando o sentimento de estar se fechando nas relações de poder e se colocava a questão acerca de onde viriam as resistências contra os focos de poder. Nesse sentido, Foucault explicita, ele mesmo, essa busca:

é possível suspeitar que haja uma certa impossibilidade de constituir hoje uma ética do eu, quando talvez seja esta uma tarefa urgente, fundamental, politicamente indispensável, se for verdade que, afinal, não há outro ponto, primeiro e último, de

resistência ao poder político senão na relação de si para consigo (FOUCAULT, 2004, p. 306).

Segundo Deleuze (2013), Foucault não emprega a palavra sujeito como forma de uma identificação, por isso utiliza o termo “subjetivação”, como um processo, inteiramente variável de acordo com as épocas. Mas, os sujeitos existem, e em uma sugestiva metáfora, Deleuze (2013) nos mostra que eles “são os grãos dançantes na poeira do visível, e lugares móveis num murmúrio anônimo. O sujeito é sempre uma derivada. Ele nasce e se esvai na espessura do que se diz, do que se vê” (DELEUZE, 2013, p. 138). Nas próprias palavras de Foucault (2010c), subjetivação seria o “processo pelo qual se obtém a constituição de um sujeito, mais precisamente de uma subjetividade, que evidentemente não passa de uma das possibilidades dadas de organização de uma consciência de si” (FOUCAULT, 2010c, p. 262).

Em nossa pesquisa, aproximamo-nos da noção desenvolvida por Foucault das “técnicas de si”, que seriam, na síntese de Fischer (2012), uma “potência de fazerem do sujeito algo para além daquilo que está instituído” (FISCHER, 2012, p. 31), seriam, nas palavras de Foucault (2004), “uma atitude geral, um certo modo de encarar as coisas, de estar no mundo, de praticar ações, de ter relações com o outro” (FOUCAULT, 2004, p. 14). As técnicas de si seriam, ainda, uma “intensificação da relação consigo pela qual o sujeito se constitui enquanto sujeito de seus atos” (FOUCAULT, 1985, p. 47), ou ainda, técnicas que permitem aos indivíduos “realizar, por eles mesmos, um certo número de operações em seu corpo, em sua alma, em seus pensamentos, em suas condutas, de modo a produzir neles uma transformação” (FOUCAULT, 2010a, p. 95).

Seguindo o que nos aponta Gros (2008), a constituição da subjetividade, designada como “cuidado de si”, apresenta algumas características que devem ser destacadas, pois são uma maneira de compreender como tais processos se instauram e, dessa forma, possibilitam compreender os processos de constituição de subjetividades dos(as) DMEs. A primeira característica é que o cuidado de si “constitui um sujeito da concentração mais do que da meditação” (GROS, 2008, p. 130), ou seja, não se refere a uma introspecção, mas a uma atenção voltada para as próprias capacidades. A segunda característica, que dissipa o risco de se pensar na existência de uma moral individualista, é que o cuidado de si “se exerce num quadro largamente comunitário e institucional” (GROS, 2008, p. 131), o que significa que se deve buscar compreender a maneira como o sujeito se integra no social. A terceira característica apontada por Gros (2008) é que o cuidado de si sempre pressupõe o outro. Por fim, “o cuidado de si intensifica também a relação com a ação política (...) [introduzindo] entre o sujeito e o mundo uma certa distância, mas esta distância é precisamente constitutiva

da ação. (...) Não se cuida de si para escapar do mundo, mas para agir como se deve” (GROS, 2008, p. 132).

A construção desse espaço, do “cuidado de si”, segundo Martuccelli (2002), seria passível de ser analisada sociologicamente, escolhendo-se como objeto de estudo a comunidade social e cultural que dão forma a esse sentimento, a instituição da qual fazem parte os(as) DMEs. O interesse, portanto, não é sobre a constituição psíquica da personalidade humana. Nesse sentido, o estudo sociológico das subjetividades deve centrar-se nas manifestações sociais pelas quais ela se desenvolve e não sobre a relação entre a vida interior e as transformações sociais. A prática de si vincula-se, portanto, à prática social, pois “uma relação de si consigo mesmo vem atrelar-se às relações de si com o outro” (FOUCAULT, 2004, p. 192), ou ainda, como reafirma Foucault (1985), “a atividade consagrada a si mesmo não constitui um exercício da solidão, mas sim uma verdadeira prática social” (FOUCAULT, 1985, p. 57). Essa constituição ativa do sujeito, portanto, não é “alguma coisa que o próprio indivíduo invente. São esquemas que ele encontra em sua cultura e que lhe são propostos, sugeridos, impostos por sua cultura, sua sociedade e seu grupo social” (FOUCAULT, 2010e, p. 276).

As “técnicas de si” se apresentam como um dos elementos que possibilitam a constituição de subjetividades, pelas quais os indivíduos não somente fixam regras de conduta, mas também procuram se transformar. Para Foucault (1984),

toda ação moral comporta uma relação ao real em que se efetua, e uma relação ao código a que se refere; mas ela implica também uma certa relação a si, essa relação não é simplesmente “consciência de si”, mas a constituição de si enquanto “sujeito moral”, na qual o indivíduo circunscreve a parte dele mesmo que constitui o objeto dessa prática moral, define sua posição em relação ao preceito que respeita, estabelece para si um certo modo de ser que valerá como realização moral dele mesmo; e, para tal, age sobre si mesmo, procura conhecer-se, controla-se, põe-se à prova, aperfeiçoa-se, transforma-se (FOUCAULT, 1984, p. 37).

Buscar os elementos que possibilitam capturar essa “ação moral” dos(as) DMEs, seus posicionamentos frente à instituição e à função que exercem é uma maneira de compreender de que maneira são constituídas suas subjetividades para, em uma relação dialética, compreender como suas lógicas de ação são orientadas por esses preceitos e como essas as orientam.

Foucault (1984) nos apresenta alguns apontamentos que podemos ler como considerações de método quando se tem por objeto o estudo das formas e transformações da “ação moral” de um sujeito, de seus estados subjetivos. Tais considerações serviram, nesse trabalho, como uma forma de se construírem categorias de análise no sentido de apreender as

maneiras como as subjetividades se sedimentam nos(as) DMEs, como apreender empiricamente o que Martuccelli (2002) denomina “estados da alma” (p. 536).

Inicialmente, Foucault (1984) destaca a ambiguidade da palavra “moral”, que pode ser entendida como um conjunto de valores e regras a serem propostos aos indivíduos através de diversos aparelhos prescritivos, como as instituições educativas, por exemplo. Essas regras podem ser claramente expostas em alguma doutrina, mas podem, também, ser transmitidas de maneira difusa, permitindo ressignificações por parte desses indivíduos. Nesse sentido, é estabelecida uma diferenciação entre moral e ética. Enquanto a moral se apresenta como um conjunto de regras coercitivas, a “ética é um conjunto de regras facultativas que avalia o que fazemos, o que dizemos, em função do modo de existência que isso implica” (DELEUZE, 2013, p. 130). A partir dessas considerações, Foucault (1984) propõe para o estudo dessa “moral” cinco níveis de fenômenos.13

A seguir, serão tratados cada um desses níveis, relacionando-os ao objeto de pesquisa proposto.

O primeiro nível é classificado por Foucault como sendo o da “moralidade dos comportamentos”, que seria o comportamento real dos indivíduos em relação às regras e valores que lhes são propostos, como se submetem ou não a um princípio de conduta. O estudo desse aspecto da moral procura determinar “de que maneira e com que margens de variação ou de transgressão, os indivíduos ou grupos se conduzem em referência a um sistema prescritivo, que é explícita ou implicitamente dado em sua cultura” (FOUCAULT, 1984, p. 34). A noção de qualidade da educação seria um exemplo de como os(as) DMEs fazem uma releitura de valores que lhes são propostos, como concebem tal qualidade, que convicções subjazem às suas lógicas de ação.

O segundo nível refere-se ao que Foucault chama de “determinação da substância ética”, que são as formas que o indivíduo constrói para se conduzir, como deve constituir-se a si mesmo, como deve operar “não simplesmente como agente, mas sim como sujeito moral dessa ação” (FOUCAULT, 1984, p. 34). Seria buscar compreender as formas pelas quais o indivíduo procura conhecer-se, controlar-se, pôr-se à prova, aperfeiçoar-se, transformar-se. Em relação ao objeto de pesquisa, deve-se destacar que buscamos esse nível de análise na elucidação das trajetórias dos(as) DMEs, bem como das formas como eles mobilizam determinados conhecimentos para conduzir suas ações.

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Esses cinco níveis de fenômenos foram utilizados para a construção do roteiro de entrevista com os(as) DMEs, configurando-se como alguns dos objetivos de determinadas questões. Ver Anexo B. Foram também utilizados como categorias de análise dos processos de subjetivação (Capítulo 5).

Os “modos de sujeição”, ou seja, a maneira pela qual o indivíduo estabelece relação com uma regra e se reconhece como ligado à obrigação de colocá-la em prática, constitui o terceiro nível de fenômenos ligados à ação moral do indivíduo. Procuramos investigar, em relação aos(às) DMEs, os valores que orientam a construção de suas lógicas de ação, seus pertencimentos políticos, religiosos, suas concepções pedagógicas.

Outro nível de fenômeno estaria ligado à “elaboração do trabalho ético” que se efetua sobre si mesmo, “não somente para tornar seu próprio comportamento conforme a uma regra dada, mas também para tentar se transformar a si mesmo em sujeito moral de sua própria conduta” (FOUCAULT, 1984, p. 34). Um exemplo desse nível de fenômeno estaria no fato de que alguns(mas) DMEs já atuaram como líderes de sindicatos ou associações docentes, como apontado nas entrevistas realizadas, e de que no exercício do cargo de dirigente tentam conciliar suas convicções políticas com as exigências da função. Por outro lado, também podem acabar vivenciando um conflito quando do confronto entre suas convicções e as medidas que devem adotar no novo espaço institucional que ocupam em seus municípios.

Por fim, o quinto nível de fenômeno corresponde à “teleologia do sujeito moral”, que relaciona uma ação ao conjunto de uma conduta, ao lugar que ela ocupa nesse conjunto, visto que

uma ação moral tende à sua própria realização; além disso, ela visa, através dessa realização, à constituição de uma conduta moral que leva o indivíduo, não simplesmente a ações sempre conforme aos valores e às regras, mas também a um certo modo de ser característico do sujeito moral (FOUCAULT, 1984, p. 36).

As formas encontradas pelos(as) DMEs para a aplicação de programas gestados no MEC, em nível federal, evidenciam suas concepções de mundo e os valores que os guiam, bem como os arranjos institucionais possíveis que estabelecem para a tradução desses programas aos seus contextos de ação.

Mas, como Foucault define esse sujeito? Para ele, o sujeito não é uma substância, mas uma forma; dessa maneira, aponta um “ceticismo sistemático em relação a todos os universais antropológicos (...) e também, certamente, os de um humanismo que defenderia os direitos, os privilégios e a natureza de um ser humano como verdade imediata e atemporal do sujeito” (FOUCAULT, 2010b, p. 235). Ao investigarmos os processos de constituição de subjetividades dos(as) DMEs, não se buscaram apenas os sistemas de regras que são impostas a esses indivíduos, nem somente a conformidade de suas ações a essas regras, mas também as formas de subjetivação, ou seja, as formas de “constituição de sujeitos morais de um momento histórico” (FONSECA, 2003, p. 108).

Nesse sentido, o sujeito ético, não o sujeito ideal do conhecimento, é compreendido por Foucault como “transformável, modificável: é um sujeito que se constrói, que se dá regras de existência e conduta, que se forma através dos exercícios, das práticas, das técnicas etc.” (GROS, 2008, p. 128). Foucault, portanto, “multiplica o sujeito”, e, dessa forma,

a pergunta “quem fala?” desdobra-se em muitas outras: qual o status do enunciador, qual a sua competência, em que campo de saber se insere, qual seu lugar institucional, como seu papel se constitui juridicamente, como se relaciona hierarquicamente com outros poderes além do seu, como é realizada sua relação com outros indivíduos no espaço ocupado por ele (FISCHER, 2012, p. 83).

Todas essas questões são relevantes no sentido de se buscarem compreender os processos de constituição de subjetividades dos(as) DMEs, pois são perguntas que dizem respeito à própria constituição do sujeito a partir da compreensão de seus contextos de ação.

Esses contextos de ação podem ser tratados, também, sob a perspectiva da “problematização”, que seria “um conjunto de práticas discursivas ou não discursivas que faz algo entrar no jogo do verdadeiro e do falso e o constitui como objeto para o pensamento (seja sob a forma da reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política etc.)” (FOUCAULT, 2010d, p. 242). A perspectiva da problematização permite compreender como os(as) DMEs apresentam determinadas respostas a certos tipos de problema de uma dada época (REVEL, 2004), como se posicionam, interagem com os diferentes modos de regulação. Seria buscar “definir as condições nas quais o ser humano ‘problematiza’ o que ele é, e o mundo no qual ele vive” (FOUCAULT, 1984, p. 17). E essa problematização realiza-se, efetivamente, nas práticas discursivas.

O que buscamos, também, na obra de Foucault foi o caráter positivo das relações de poder, a partir da análise de uma ação produtora de condutas (de como conduzir a sua própria conduta e a dos outros), de subjetividade, e não somente seu caráter negativo, quando o poder atua por restrições. Foucault (1988) descreve sua compreensão do que o poder não é, o que nos auxilia a balizar nossa análise e compreender melhor a atuação dos(as) DMEs. O poder não é apenas um conjunto de instituições que tenha como objetivo a sujeição do indivíduo ao Estado, tampouco um modo de sujeição que tenha como forma a regra: “A análise em termos de poder não deve postular, como dados iniciais, a soberania do Estado, a forma da lei ou a unidade global de uma dominação; estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais” (FOUCAULT, 1988, p. 102). Conclui o filósofo: “o poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a

uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada” (FOUCAULT, 1988, p. 103).

As relações que se estabelecem, por exemplo, entre o Governo Federal e os municípios podem ser lidas sob a perspectiva apontada por Foucault (1988) em suas proposições sobre o poder. Mesmo que seja uma relação interinstitucional, não existiria um binarismo entre dominadores e dominados, ou seja, uma aceitação imediata e sem traduções das ações advindas do poder central, mesmo porque as resistências são constituintes do poder, seriam “o outro termo nas relações de poder” (FOUCAULT, 1988, p. 106). Cabe questionar, à maneira de Foucault (1988), quais seriam as relações de poder mais imediatas nas relações entre o MEC e os(as) DMEs? Que estratégias discursivas são mobilizadas nessas relações? Um dos focos de análise dos dados obtidos com a pesquisa empírica refere-se a essas relações. As ações dos(as) DMEs em face das suas relações com o Governo Federal foram, portanto, analisadas, tendo como referência e ponto de apoio as proposições sobre o poder trabalhadas por Foucault (1988), e, a título de reforço de tal perspectiva, reproduzimos a síntese apresentada pelo autor:

Trata-se, em suma, de orientar, para uma concepção do poder que substitua o privilégio da lei pelo ponto de vista do objetivo, o privilégio da interdição pelo ponto de vista da eficácia tática, o privilégio da soberania pela análise de um campo múltiplo e móvel de correlações de força, onde se produzem efeitos globais, mas