2. øMALAT SANAYøøNDE YEùøL øMALAT
2.2. ømalat Sanayiinde Yeúil ømalatÕn FaydalarÕ
2.2.4. ømalat sanayiinde yeúil iúlerin yaratÕlmasÕ
Diversos autores têm procurado destacar o avanço de formas religiosas ligadas ao protestantismo em territórios antes de absoluto domínio católico (MACHADO, 1996). Alguns trabalhos procuraram mostrar como em áreas rurais o catolicismo vem também perdendo terreno, tal como fora já assinalado acerca de áreas urbanas (MELLO, 2009; MONTEIRO, 2008). Na abordagem destes autores, em espaços de sociabilidade no campo, seja em torno de ferramentas de participação política, seja na reserva de um campo intimista de representação religiosa, denominações não-católicas têm tido franca participação de fiéis, mesmo quando não se fazem maioria. Outros autores ainda buscaram problematizar como no próprio meio rural ascenderam formas religiosas sincréticas, realizando bricolagens a partir de outras vertentes religiosas e ganharam considerável êxito e visibilidade, como tem sido o caso do Santo Daime, que ganhou terreno a partir dos primeiros núcleos formados nos longínquos pontos da floresta amazônica (REHEN, 2009). Esta configuração da dinâmica religiosa já exige de todos os estudiosos do tema uma reconsideração acerca dos rumos que parece ganhar o campo religioso no país, tal como considera Montes (2004).
Contudo, o avanço de denominações não-católicas não é considerado de forma consensual nas discussões acerca do tema. Outros autores como Gracino Junior (2009), buscam retratar em seus trabalhos as especificidades nas quais este avanço de outras denominações religiosas implicaria. Discute este autor que elementos como identidade local e resistência, são peças fundamentais para se compreender o quebra-cabeça que se configura no campo religioso brasileiro. Gracino Junior buscou compreender as razões
que explicariam os baixos índices de adesão ao pentecostalismo protestante, no interior de Minas Gerais. De acordo com sua perspectiva analítica, tal caracterização estaria intimamente relacionada ao contexto sociocultural do estado, de forma mais específica ao conjunto de características atribuídas à identidade mineira, o que receberia da parte de diversos sociólogos a qualificação de “mineiridade”.
Para salvaguardar a sua argumentação, lança mão de uma base de dados censitários que, em tese, parecem corresponder ao que procura problematizar. De acordo com sua discussão, um exame detalhado do mapa religioso no país tende a revelar que, ao contrário do que parece sugerir o significativo crescimento pentecostal nas últimas décadas, a inserção deste crescimento no território nacional está se dando de forma desigual e extremamente restrita em alguns estados:
Embora os pentecostais atinjam percentual importante do conjunto da população em alguns estados (Rondônia, 17,97%; Espírito Santo, 14,05% e Rio de Janeiro, 13,72%), mostram-se pouco representativos em outros, ficando bem abaixo da média nacional em estados do Nordeste. Nos estados de Sergipe e Piauí, os que apresentam o menor número de pentecostais, o percentual não atinge 5% do total da população. (GRACINO JUNIOR, 2009).
Nesse sentido, o autor procura chamar a atenção para o caso específico de Minas Gerais. Embora os dados apresentados no estado, no que tange ao total de adeptos do pentecostalismo, não pareçam se afastar da média nacional, sendo 9,23% e 10,58%, respectivamente, quando se enfoca a sua distribuição territorial, observa-se uma considerável disparidade. Os números dos censos, demonstram que considerável parcela dos pentecostais em Minas Gerais, cerca de 51%, concentra-se em somente cincos das sessenta e seis microrregiões geográficas em que se divide o estado, reservando paras as outras áreas números bastante reduzidos, similares aos encontrados na região nordeste.
Assim, destaca Gracino Junior (2009), parte significativa do território mineiro se apresentaria hoje como porto seguro para o catolicismo, talvez um de seus elementos fortes frente ao avanço pentecostal. Observa, ainda, que as áreas de maior resistência ao pentecostalismo no estado encontram-se justamente no interior, de forma mais específica, nas regiões de ocupação mais antiga. Nas regiões de ocupação mais recente a
mensagem pentecostal parece receber significativa acolhida, chegando à casa dos 22% da população, tal como se apresenta na microrregião de Ipatinga.
Segundo Stuart Hall (2000), o pentecostalismo ganharia êxito em espaços sociais em que as identidades encontram-se descentradas, na mesma medida em que ficaria praticamente estagnado em regiões onde as identidades ainda se encontram unificadas, ou que tenham sido reorganizadas, com base em dispositivos discursivos entendidos como “centrados” e “coerentes”. Ainda nesse sentido, defende que o pentecostalismo, muito embora pareça crescer em contextos identitários plurais e destradicionalizados, pode acabar se utilizando da cultura local como substrato de seu discurso evangelístico, contribuindo para a manutenção, reforço e mesmo o ressurgimento de elementos culturais que poderiam estar esquecidos ou ainda apagados na memória coletiva. Desse modo tais formas religiosas poderiam utilizar posturas comedidas como a abstinência ao uso de bebidas alcoólicas, a reserva quanto à vida afetiva e a dedicação à própria vida religiosa, como meios de se conseguir junto ao meio social um certo tipo de aceitação. No caso dos pequenos vilarejos de Minas Gerais ou nas comunidades rurais, tais posturas de reserva, tenderiam assim a aproximar os sujeitos convertidos ao pentecostalismo, das posturas tradicionalmente valorizadas e recomendadas em torno das formas de ser e pensar percebidas no catolicismo tradicional.
Gracino Junior (2009) observa que a vida nos exemplares lugarejos de Minas é marcadamente organizada a partir de mitos religiosos. Dessa forma, romper com o catolicismo seria romper com a origem e também romper com a mineiridade, reorganizando a vida a partir de novas narrativas, novos grupos. Esta possibilidade coloca-se improvável em contextos regulados por sólidas identidades grupais. Diante de tal quadro, sustenta o autor que a conformação de um contexto identitário em Minas Gerais, que é transpassado pela cultura católica, serviria como entrave em relação ao crescimento dos núcleos pentecostais, sobretudo, por três fatores principais:
Em primeiro lugar, como veremos mais adiante, o catolicismo está intimamente ligado à família mineira, dando substrato à mineiridade, criando um contexto cultural amplamente regulamentado, em que as trocas simbólicas tornam-se bastante difíceis (...). Em segundo lugar, porque esse catolicismo se tornou um patrimônio cultural do Estado (...). Por último, pelo fato de que o poder executivo estadual vem trabalhando, há alguns anos, com uma ideologia de que o jeito mineiro, a mineiridade, seria um porto seguro frente às tempestades da modernização. (GRACINO JUNIOR, 2009).
Enfatiza o autor, que os depoimentos de seus entrevistados, que se caracterizam por serem moradores de pequenos vilarejos da área do circuito histórico de Minas Gerais, revelaram uma dificuldade considerável de trânsito religioso, tanto entre católicos quanto entre pentecostais, uma vez que muitos freqüentavam por longos anos igrejas evangélicas sem, no entanto, terem se convertido. Na mesma medida em que ressalta que no interior do estado festas como as de Nossa Senhora do Rosário e a Semana Santa atraem milhares de turistas, o que sustenta a argumentação de que a religião e os produtos que é capaz de gerar foram incorporados aos circuitos comerciais.
Neste estudo, onde procuramos compreender as relações entre as mudanças no universo das manifestações religiosas e as transformações sociais, econômicas e produtivas do rural brasileiro em tempos de alta-modernidade, escolhemos como unidade de observação as áreas rurais do Município de Viçosa- MG. Ao localizarmos geograficamente a situação de Viçosa (Figura 2), perceberemos que a cidade encontra- se dentro do contexto das regiões de ocupação antiga do estado, exatamente onde as estruturas sociais, políticas e culturais, em tese, encontram-se devidamente enraizadas e com baixa fluidez.
Figura 2. LOCALIZAÇÃO DE VIÇOSA NO ESTADO DE MINAS GERAIS.
Base Cartográfica: Laboratório de Geoprocessamento - DPS/UFV.
Tal constatação tenderia a nos dizer que o quadro de mudanças nos aspectos religiosos, encontrar-se-ia estagnado, ou quase estagnado como sugere Gracino Junior (2009). No entanto, partimos da hipótese de que as mudanças existem e que relacionam aspectos de
modernidade e tradição, na mesma medida em que imbricam as esferas econômico- produtiva ou material e a esfera da cultura e imaginário, ou ideal.
Assim, esta análise buscará investigar se tais trânsitos religiosos existem e em que medida eles estão se dando, da mesma forma em que tentaremos verificar o modo como estes processos não se encontram isolados das transformações econômicas que afetam o meio rural brasileiro na contemporaneidade. Para tanto, selecionamos quatro áreas rurais no Município de Viçosa, como unidade de observação onde centramos nosso estudo. Estas localidades foram escolhidas com ajuda da EMATER, órgão que atende todo o entorno rural da cidade, prestando serviços de assessoria técnica, dentre outros de apoio às famílias que residem no campo.