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Nosso estudo se inicia com a abordagem da categoria trabalho. Por esse motivo, poderiam nos indagar sobre os aspectos que nos levaram a aderir à opção teórico-metodológica de direcionar nossos esforços, redigindo algumas páginas sobre um tema tão bem explorado na literatura crítica, tanto no âmbito do Serviço Social quanto nas áreas afins.

Avançamos aqui com a discussão de alguns elementos de resposta: primeiro, porque ao decidirmos estudar determinado objeto, não podemos tomar as categorias a nos subsidiar a partir de uma dimensão puramente subjetiva e, sim, buscar encontrar as que mais conseguem traduzir sua reprodução, ou seja, aquelas capazes de nos permitir compreender a própria dinâmica desse objeto de investigação. Ora, pensamos que o entendimento da situação de precarização do trabalho na indústria têxtil, na Casa de Costura, não pode acontecer sem antes demarcarmos o lugar e os sentidos históricos do trabalho.

Ressaltamos, ainda, ser esta uma necessidade apoiada numa opção teórica

e política, trilhada na tradição marxista, que busca reafirmar a centralidade desta

categoria para a compreensão, numa perspectiva de totalidade, das complexas e contraditórias relações a perpassarem o ser social nos seus múltiplos espaços de criação e desenvolvimento. E, para finalizar, diríamos que esta categoria tem nos despertado o interesse há algum tempo. Todavia, tínhamos consciência de termos uma apreensão ainda insuficiente da mesma. Sentíamo-nos, então, instigados a entendê-la melhor, procurar saturá-la, enriquecê-la, buscando seus determinantes no real, tomado como totalidade.

Além desta categoria, discorreremos, ainda nesta seção, sobre as configurações assumidas pelo trabalho, especialmente no curso do processo de crise do capital e das alternativas implementadas pelas classes dominantes na tentativa de contê-la, desaguando, dentre outras medidas, num processo de reestruturação produtiva e, consequentemente, na modificação das condições e relações de trabalho processadas no universo fabril-industrial e, mais especificamente na indústria têxtil. Situamos, ainda, como se consubstanciou a substituição do padrão fordista-taylorista para o toyotista, no cenário mundial, traçando, ao mesmo tempo, algumas demarcações das particularidades e singularidades expressas no nosso lócus de pesquisa.

2.1 – Dos alfaiates aos operários: Os sentidos e as configurações históricas do trabalho

Em A ideologia alemã Marx e Engels (1998) desenvolvem a tese segundo a qual o pressuposto da existência humana está hipotecado às condições que os sujeitos possuem, no que se refere, por exemplo, às necessidades de alimentação, vestimenta e abrigo; ou seja, dos elementos fundamentais para viver e construir sua própria história. E, expondo isso, concluem: “[o] primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material” (MARX & ENGELS, 1988, p. 21).

Essa análise leva-nos a crer que, os homens possuem necessidades historicamente determinadas e, para satisfazê-las, (atender finalidades), trabalham. É importante anotar que, nesse momento, estamos falando de uma forma de trabalho embasada no metabolismo de primeira ordem, segundo a formulação de Mészáros, representando espécies de “‘microcosmos’ reprodutivos socioeconômicos altamente auto-suficientes” (2009a, p. 102), mais precisamente num momento distinto daquele fomentado, hoje, sob a égide do modo de produção capitalista20.

Através desse sistema natural,

[...] os indivíduos devem reproduzir sua existência por meio de funções primárias de mediações, estabelecidas entre eles e no intercâmbio e interação com a natureza, dadas pela ontologia singularmente humana do trabalho, pelo qual a autoprodução e a reprodução societal se desenvolvem (ANTUNES, 2009, p. 22).

De acordo com Mészáros (2009a), antes de instituir-se essa forma desmedida de controle sociometabólico inaugurada com o capital, observávamos, de modo geral, nos modelos de organização até então existentes “[...] um elevado grau de auto-suficiência (grifos do autor) no relacionamento entre a produção material e seu controle” (MÉSZÁROS, 2009a, p. 101). Dito de outra maneira, a produção

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Cabe ressaltar, contudo, que “ao contrário da mitologia apologética de seus ideólogos, o modo de operação do sistema do capital é a exceção e não a regra (grifos do autor) no que diz respeito ao intercâmbio produtivo dos seres humanos com a natureza e entre si” (MÉSZÀROS, 2009a, p. 96).

estava relacionada com a satisfação das necessidades de cada tempo, sobressaindo-se o valor de uso e não o valor de troca.

As diversas formas de relação estabelecidas, os objetivos e finalidades postos num determinado período do desenvolvimento da história humana, estão diretamente relacionadas ao papel que cumpre o trabalho, em cada momento21. Nas diversas conjunturas e a partir de sua atividade criativa, o homem progride enquanto sujeito histórico, sempre tendo em vista, nesse processo, que o novo demonstra o resultado de um percurso já trilhado pelas sociedades anteriores a expressar e a gestar no concreto da vida consequências futuras, que dão substância à história e à existência humana (LESSA & TONET, 2011).

Diante disso, importa-nos registrar, para não perder de vista o status conferido ao intercâmbio estabelecido entre homem e natureza, que o desenvolvimento do gênero humano enquanto complexo socioeconômico, político e cultural foi possível, fundamentalmente através das formas de trabalho realizadas no transcorrer dos tempos. Ora, na exata medida em que foi capaz de proporcionar sucessivos avanços, expressos nas rupturas das barreiras naturais e sociais existentes, o homem foi produzindo suas condições materiais e subjetivas de vida e se transformando pela via do trabalho. Corroborando com esta afirmação, Engels alerta que:

Foi necessário, seguramente, que transcorressem centenas de milhares de anos [...] antes que a sociedade humana surgisse

21 Em seus estudos, Engels (2004) discorre sobre a transformação do macaco em homem, dando ênfase ao significado do trabalho nesse processo de desenvolvimento. Para o referido autor, configura-se como fundamental o momento em que as formas primitivas de macacos começam a conseguir se movimentar sem a ajuda das mãos, órgãos até então indispensáveis ao ato da locomoção. Ora, com a autonomia desses membros superiores, deu-se, ainda segundo Engels, um passo decisivo na constituição do homem, na exata medida em que: “[...] a mão era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade” (2004, p. 13). E, esse aporte em destreza e habilidade se complexificava cada vez mais, com o transcorrer dos tempos, através da forma, dos níveis de conhecimento e do domínio que estes seres passam a ter da natureza, de um lado e, de outro, das próprias interlocuções estabelecidas entre eles mesmos. Assim, nos estágios menos desenvolvidos da humanidade, ou, na “infância do gênero humano”, como nos sugere Engels (2010a, p. 37) ainda que se registrasse a execução de algumas atividades de trabalho primitivo para permitir sua subsistência – o que se dava, fundamentalmente, com a caça e coleta de recursos naturais, onde eles se apresentassem –, os sujeitos encontravam-se embalados por uma situação de miséria, engendrada pela própria ausência de condições objetivas e subjetivas para garantir o suprimento de suas carências. Com o desenvolvimento da agricultura, passa a existir a possibilidade de os grupos deixarem de ser nômades e se fixarem, por um maior lapso temporal, num determinado espaço, permitindo, consequentemente, romper a situação de miserabilidade extrema e favorecer, sempre com base no trabalho, sua reprodução bio-social.

daquela manada de macacos que trepavam pelas árvores. Mas, afinal, surgiu. E que voltamos a encontrar como sinal distintivo entre a manada de macacos e a sociedade humana? Outra vez, o trabalho. (ENGELS, 2004, p. 17).

Nestes termos, esclarecemos que o trabalho acontece quando o homem explora as potencialidades que possui, através de sua força, bem como dos instrumentos que tem ao seu alcance (sejam eles primitivos ou mais elaborados), numa relação mediatizada com a natureza para suprir, de algum modo, suas requisições. Evidente, isto ocorre com a criação de valores de uso, ou seja, elementos socialmente necessários para os sujeitos. Essa relação mediada com a natureza, ou melhor, o modo como ela acontece, varia de acordo com a forma pela qual o homem pauta sua existência nos diversos momentos históricos.

Assim, não podemos pensar a constituição do homem enquanto ser social e da sociedade, de maneira geral, descolada da natureza, entre outros fatores pois ela fornece a base e os recursos indispensáveis para que, mediante o trabalho, os indivíduos consigam atender suas necessidades. Dito de outro modo, a natureza é responsável por fornecer-lhes as condições elementares de sobrevivência. Nas palavras de Lessa (2011, p. 132): “[...] qualquer forma de sociedade seria inviável se ela não dispusesse da natureza como fonte dos meios de subsistência e de reprodução”.

Certamente, por esse motivo, no início de Crítica ao programa de Gotha, Marx (2012) começa sua dissertação contrariando Lassalle, esclarecendo-nos sobre o lugar e o papel da natureza na construção e reprodução do mundo dos homens, afirmando ser ela (e não o trabalho, como defendia tal agitador do movimento operário alemão) a fonte de todas as riquezas existentes no seio da humanidade. Aponta, igualmente, que, o devir histórico move-se através da contínua e ininterrupta relação operada na relação sujeitos-natureza, instrumentalizados/orientados pelo imperativo de romper e ultrapassar os limites com os quais se deparam na cotidianidade da vida, em uma determinada etapa do seu percurso sóciohistórico.

A necessidade de afirmar o lugar e a importância ocupados pela natureza se fundamenta na desmistificação dos ideários relativos à ciência burguesa – à economia política clássica, por excelência – que busca, a todo custo, ocultar ou

esconder o verdadeiro sentido do trabalho e dos complexos sociais22, mais “[...]

precisamente do fato de que o trabalho está condicionado pela natureza e deduz-se que [a] força de trabalho tem que ser, necessariamente, em qualquer estado social e de civilização, escrav[a] de outros homens [...]” (MARX, 2012, p. 425). Em verdade, homens não sobreviveriam sem a contínua transformação da natureza, transformação essa, por intermédio da qual eles se produzem e, concomitantemente, reproduzem-se. Nas palavras de Marx, trata-se de um:

[...] processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. (MARX, 1996, p. 282).

Assim, para que haja essa transformação, o homem parte de necessidades que começam a ser satisfeitas com o desenvolvimento de ideias, suposições formuladas em sua mente, por deter a capacidade teleológica, isto é, a aptidão de projetar na imaginação (na esfera das abstrações), o que deseja, antes de materializar, de fato. Com efeito, desde o começo de seu trabalho, desenvolve suas ações orientadas para um determinado fim. Em síntese, através dele (trabalho) o homem constrói, no plano material, algo que está internalizado em sua mente, ou seja, o resultado de seu trabalho, nada mais é que um processo de externalização de seu eu. Desse modo, quando ocorre a objetivação dessas ideias, um “[...] novo ente [o resultado do trabalho] é inserido na malha causal já existente, passando a sofrer influências e a influenciar a totalidade do existente” (LESSA, 1996, p. 08).

Por isso, quando há a concretização, no plano real, da escolha feita pelo sujeito no nível das ideias, consuma-se um momento no qual o objeto adquire certa autonomia e distancia-se de seu criador, fazendo com que, muitas vezes, ganhe

22 Afirma o filósofo alemão: “O trabalho não é a fonte (grifos originais) de toda a riqueza. A natureza é a fonte de todos os valores de uso (que são os que verdadeiramente integram a riqueza material!), nem mais nem menos que o trabalho, o que não é mais que a manifestação de uma força natural, da força de trabalho do homem” (MARX, 2012, p. 425). Engels, por sua vez, também tece esclarecimentos nesse sentido. Diz ele: “O trabalho é a fonte de toda a riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana” (ENGELS, 2004, p. 11).

contornos e desdobramentos não previstos a priori. Sobre isto, são esclarecedoras as observações de Engels (2004), ao alertar-nos sobre a denominada “vingança da natureza”23.

Contudo, se de um lado a inter-relação homem/natureza faz vir à tona ocorrências inesperadas, também é verdade que, ao mesmo instante, contribui para favorecer, mediante essas experiências cotidianas, o surgimento de reflexões fundamentais para uma compreensão mais aprofundada dos nexos que definem a realidade em toda a sua dinâmica. Desse modo, leva-nos a conclusões cada vez mais universalizáveis. Para usar as palavras de Lessa e Tonet: “Observe-se como o ‘período de consequências’ é importante. Ele fornece novas indicações e informações sobre a realidade e sobre o que foi produzido, possibilitando aos homens adquirirem conhecimentos até então sequer imagináveis” (2011, p. 46).

Na medida em que os homens estabelecem essa relação com a natureza, em busca da sobrevivência, há uma dupla transformação: de um lado, da própria natureza, em suas dimensões físico-orgânicas; de outro, do homem em si, que, por meio dos desafios encontrados nessa “troca de substâncias com a natureza” - para usar as palavras de Marx (1996, p. 39), se modifica, na medida em que adquire novos conhecimentos e cria novas situações. Neste processo, de acordo com Lessa (1996, p. 05), “[...] toda objetivação resulta em novos conhecimentos e novas habilidades - sendo breve, em novas possibilidades, e por isso ao transformar a natureza, o indivíduo também se transforma”. Com estes apontamentos, portanto, acreditamos ter os elementos teóricos precisos para afirmar ser o trabalho o fundamento ontológico do ser social, na medida em que “[...] não pode haver existência social sem trabalho, ainda que certamente a existência social não se resuma a ele” (LESSA, 1997, p. 06).

É preciso ter claro, todavia, que, no âmbito da natureza, se desdobram inúmeros processos físico-biológicos os quais obedecem a leis inerentes à própria natureza, que acontecem independentemente das vontades e interesses dos homens. Em verdade, trata-se de uma causalidade posta, ou melhor, de um “princípio automotivo que repousa sobre si mesmo” (LUCKÁCS, 1978).

23 Afirma o autor, referindo-se aos fatos ocorridos em algumas regiões do globo, como Mesopotâmia e Grécia: “[...] os homens que [...], devastaram os bosques para obter terra para cultivo sequer podiam imaginar que, eliminando com os bosques os centros de acumulação de reserva de umidade, estavam assentadas as bases da atual aridez dessas terras” (ENGELS, 2004, p. 23-4).

Assim, a interferência do homem, nesse universo, por meio da prévia- ideação e posterior objetivação via trabalho corrobora para promover a transformação do mundo natural em social e, quanto mais observamos o desenvolvimento das forças produtivas, maior é a complexificação desse processo e as relações sociais que se conformam. Não podemos esquecer, todavia, o fato de que o ser social é: “[...] ontologicamente distinto da natureza, mas essa distância apenas pode surgir e se desenvolver numa complexa articulação com o mundo natural, pela qual este último é constantemente submetido a transformações teleologicamente orientadas” (LESSA, 2012, p. 57).

É preciso enfatizar, ainda, que o desenvolvimento do trabalho dá ao homem a possibilidade de escolha entre alternativas concretas, estando por isso, intrinsecamente relacionado à liberdade, aqui entendida como a capacidade dos sujeitos de avaliarem as opções e caminhos mais convenientes para atender a suas finalidades. No momento do pôr teleológico, o sujeito precisa optar por um caminho ou outro, por este ou aquele material. E, com o aprofundamento e desenvolvimento da sociedade, este ser também passa a pensar, para além de si e das questões mais imediatas que lhe são postas, numa dimensão humano-genérica, ou seja, nas possibilidades e interferências que seus atos podem acarretar para outros indivíduos e/ou grupos. A liberdade, portanto, em sua dimensão ontológica, diverge da configuração que ganha no marco da sociedade capitalista, pela qual tem sua significação restrita à liberdade de venda da força de trabalho.

Assim, dotamos o trabalho de um estatuto de complexidade, de tal forma que só pode ser desenvolvido pelos seres humanos. Entendemos que as atividades realizadas por outros animais atendem a um processo biológico que lhes é inerente, pré-estabelecido, ou, nas palavras de Netto e Braz (2008, p. 30), realizado “[...] no marco de uma herança determinada geneticamente [...]” sem que possam imprimir, nesta ação, sua subjetividade, como acontece com os homens e mulheres. Por exemplo, em todas as latitudes do globo, as colmeias produzidas pelas abelhas, serão as mesmas ou, quando existirem diferenças, serão mínimas. Não é o caso do homem, que consegue arquitetar moradias, em um leque de simples barracos a gigantescos e suntuosos palácios, conformando um processo de mudança e desenvolvimento constante. Então, por meio desse atendimento de finalidades, através do trabalho, percebemos uma acentuada diferença entre o homem e a natureza. Ele se faz único, distinguindo-se dos outros seres e a ultrapassa, realiza

um salto ontológico. Para confirmar nossa discussão, acreditamos ser esclarecedora a afirmação de Marx, na qual nos deparamos com uma comparação entre a abelha e o arquiteto. Nesta comparação, o trabalho é concebido como uma atividade que:

[...] pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias [sic]. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. (MARX, 1996, p. 283).

Assim, de maneira geral, podemos distinguir ou diferenciar os homens dos demais animais porque detectamos, nesses primeiros, a existência de um saber, ou melhor, de uma consciência a lhes mover e orientar nas diversas escolhas e ações realizadas no dia a dia. Voltando à discussão d´A ideologia alemã, Marx e Engels (1998) afirmam ainda que os homens, em si, conseguem captar essa diferenciação quando gestam as condições materiais de sua sobrevivência. Em suas palavras: “[...] eles próprios começam a se distinguir dos animais logo que começam a produzir seus meios de existência, e esse passo à frente é a própria consequência de sua organização corporal” (MARX & ENGELS, 1998, p. 10).

Corroboramos a ideia de que ao trabalho se somam outros elementos imprescindíveis para o desenvolvimento do homem em sociedade, como a linguagem e a sociabilidade, esta última entendida aqui como o conjunto de relações entre os seres sociais que compõem a totalidade da vida social. A partir das reflexões de Netto e Braz (2008), pensamos que o trabalho não pode acontecer de maneira isolada, ou seja, feito por sujeitos de maneira individual. Assim, ele supõe a inter-relação entre os seres do gênero humano. Isso, por sua vez, requer a existência de um sistema que permita a troca de informações e saberes entre os indivíduos, principalmente através da comunicação via linguagem.

O próprio Engels (2004), em seu ensaio, brinda-nos com uma exposição que contribui para elucidar o desenvolvimento das potencialidades relacionadas, por exemplo, à fala e à audição, às quais concorrem para a constituição desse ser social. Em suas palavras:

Primeiro o trabalho e depois dele e com ele a palavra articulada foram os dois estímulos principais sob cuja influência o cérebro do macaco foi se transformando gradualmente em cérebro humano [...] E à medida que se desenvolvia o cérebro, desenvolviam-se também

seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos (ENGELS, 2004, p.16).

Contudo, reforçamos que, dentre os elementos supracitados, o trabalho tem papel de centralidade no desenvolvimento do homem e da sociedade, na exata medida em que é fundante para o ser social. Centralidade esta, encarada em sua perspectiva ontológica24. Com efeito, o modo como os homens e mulheres se organizam historicamente para produzir seus meios de vida, construindo relações de produção determinadas, condiciona as formas de expressão e de materialização do trabalho em cada sociedade. Marx examina o caráter histórico das relações sociais e dos modos de produção que as determinam, para extrair daí a forma de ser do trabalho e como se edificam os modos de exploração desde o momento em que surge a produção de excedente e a acumulação de riquezas. Sobre isto, assevera o pensador alemão: “O que distingue as diferentes épocas econômicas não é o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz” (MARX, 1989, p. 204).

Lembremos que a vida nos exige o atendimento de algumas necessidades. A vestimenta é uma delas. Certamente, todos os dias, utilizamos diversas peças de roupa que servem para nos proteger do frio, do sol e chuva, etc. Mas, devem ser raras as pessoas que pensam o que há por traz de cada uma delas: como foi produzida cada peça, se estão envolvidos nesse processo adultos ou crianças, homens ou mulheres, se o trabalho desses sujeitos é protegido do ponto de vista das garantias trabalhistas ou se, ao contrário, estes direitos estão parcial ou totalmente ausentes em seu cotidiano, dentre tantas outras reflexões possíveis.

Se a vestimenta é uma necessidade real, os homens e mulheres sempre