2. KAVRAMSAL VE KURAMSAL ÇERÇEVE
2.2. Örgütsel Bağlılık Kavramının Tanımı, Önemi ve Unsurları
2.2.1. Örgütsel Bağlılık Kavramı ve Tanımı
4.3.1.1 O acabamento: tratamento exaustivo do objeto do sentido
O produtor mobiliza conhecimentos de mundo e de discurso pertinentes à situação comunicativa e ao gênero: identifica-se como autor do texto pela assinatura e por dados pessoais e sociais; representa-se no texto como eu; confronta o discurso de Lula com outros tipos de discurso e de eventos sociais, como programas televisivos e competições em que os vencedores recebem troféus. Incorpora também informações selecionadas no material oferecido para leitura. Entretanto, a referenciação decorrente das escolhas discursivas e sintático-semânticas do produtor torna algumas passagens imprecisas e lacunares. Tome-se como exemplo a passagem a seguir:
Ele diz criar um novo partido, so que enquanto houver políticos como os que estão lá, nada será adiantado. (4º§)
A imprecisão semântico-descritiva do sintagma novo partido, o uso do dêitico lá e do pronome indefinido nada sem referência cotextual e contextual tornam o texto impreciso; a remissão anafórica feita pelo pronome ele, com o referente distante (o pronome ele que já vinha sendo repetido sucessivamente em frases anteriores). O produtor considera desnecessária a explicitação desses aspectos e, tomando-os como de conhecimento geral, dispensa-se de representá-los por meio de sintagmas nominais descritivos nos enunciados.
Nos três primeiros parágrafos, o locutor caricatura o discurso do Presidente, fazendo uso de várias enumerações de conteúdo descritivo, o que traz o texto para a dimensão do concreto
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sensível. A baixa incidência de sintagmas nominais remissivos com demonstrativos ou possessivos anafóricos, combinada ao acúmulo de itens lexicais coordenados repetindo, parafrasticamente, uma mesma idéia, produz o efeito de progressão acelerada. É o que se observa nas seqüências chamar atenção de todos falando, agradecendo, parabenizando (1º§) e ser carregado no colo, ser beijado os pés, por empregos arrumados. Esse traço discursivo pode ser relacionado à influência do estilo oral informal e à não-explicitação de conclusões parciais: ao longo do texto, o locutor não retoma paulatinamente os argumentos para elaborar conclusões parciais, que encaminhem o leitor para generalizações e o preparem para a conclusão final. Como na maioria das produções comentadas, observa-se a dificuldade de dar acabamento global ao texto por meio de conclusão que retome, reitere e generalize os argumentos desenvolvidos.
Terminada a leitura, tem-se a impressão de que o produtor iniciou o texto expressando tudo o que sentia e pensava sobre as atitudes e palavras do Presidente. Depois, pressionado pela necessidade de cumprir as instruções da tarefa, passou a inserir informações selecionadas do material oferecido para leitura, sem preparar o leitor nem no início do texto, nem no momento da mudança de focalização, momento em que seria de se esperar algo como: “No discurso de sexta-feira, dia x, o presidente...”
4.3.1.2 Forma composicional: situação enunciativa e argumentação
O sintagma nominal indefinido um discurso, usado na primeira frase do texto, não permite ao destinatário identificar que discurso do presidente está sendo comentado, nem localizar, no tempo e no espaço, a enunciação do locutor-autor e a de vários outros agentes sociais chamados a participar da interlocução.
Pode-se considerar que o texto apresenta três seqüências discursivas. A primeira compreende os três primeiros parágrafos e pode ser assim sumarizada: o discurso de Lula é falso e populista. A segunda corresponderia ao quarto e ao quinto parágrafos em que se faz referência a declarações atribuídas a Lula. A terceira seqüência apresenta pronunciamentos de cidadãos acerca do discurso do presidente, uma contrária e outra favorável, e o posicionamento do locutor-autor frente a esses pronunciamentos. A paragrafação adotada pelo produtor não reflete a distribuição das seqüências, talvez porque lhe falte a habilidade de generalizar e explicitar para si mesmo as conclusões parciais de cada uma das seqüências.
O texto aproxima-se mais de um pronunciamento pessoal ou de uma carta de leitor do que de um artigo de opinião a ser publicado em um jornal impresso. O locutor-autor negocia pouco seu ponto de vista com os de seus interlocutores e, ao longo do texto, só apresenta uma justificativa para a convicção de que Lula estaria mentindo: a de que não se pode admitir que o presidente ignorasse o que acontecia em seu ambiente, justificativa baseada na premissa, não explicitada, de que é inevitável que as pessoas saibam o que acontece ao seu redor. Se faltam explicações, multiplicam-se as marcas de posicionamento pessoal, reiteradas por colocações diretas como acho, eu concordo, eu não concordo, responsáveis pelo tom de depoimento pessoal e de indignação predominante no texto.
4.3.1.3 Autoria e endereçamento: o querer dizer do locutor
Logo na frase inicial, o locutor-autor representa-se pelo paradigma da primeira pessoa e faz uso de três estratégias de modalização apreciativa: a forma verbal acho, indicativa do comprometimento pessoal do sujeito com o que diz; a expressão avaliativa com muita
hipocrisia; e a comparação entre o discurso de Lula e o discurso dos que se apresentam no
programa da Xuxa, de claro efeito caricatural. Todas essas marcas sinalizam para o destinatário a posição de crítica ao discurso do presidente.
A freqüente referência a palavras da ordem do dizer (discurso; chamando todo mundo de
“amigo”, falando, agradecendo, parabenizando) permite ao destinatário situar a enunciação
como uma ação de linguagem que se constrói sobre outras ações de linguagem, contribuindo para a ancoragem temática e enunciativa do texto. Entretanto, as imprecisões temporais e espaciais, bem como a baixa freqüência de sintagmas nominais fazem com que um destinatário que não tenha lido os textos apresentados ao produtor — e esse era o destinatário a ser considerado na produção do texto — pergunte-se de que discurso estaria o locutor-autor falando, qual seria a fonte e a origem dos discursos citados e relatados.
Apesar de mostrar dificuldade em usar notações gráficas, como aspas e parênteses, e de confundir os padrões sintático-semânticos de inserção do discurso citado e os do discurso relatado, várias pistas do enunciado apontam para um produtor que tem percepção crítica dos jogos discursivos e seus efeitos argumentativos: a encenação crítico-irônica dos recados enviados por participantes de programa televisivos de auditório a parentes e amigos, a analogia estabelecida entre esse discurso e o do presidente, o emprego de aspas no vocativo
amigo usado por Lula, marcando o distanciamento do discurso do locutor-autor em relação ao
discurso do Presidente.
Até o terceiro parágrafo, o discurso do produtor parodia o de Lula. No quarto e no quinto parágrafos, com o uso do articulador só que, o locutor marca sua refutação às declarações do presidente, reiterando sempre a oposição entre as ações apresentadas como positivas e o efeito negativo da corrupção: criar um novo partido versus manter os políticos corruptos; trabalhar
muito versus continuar com a corrupção. No penúltimo parágrafo (...que presidente [é] esse que não sabe do que se passa em seu meio de trabalho?), apesar da omissão do verbo ser e da
falta de ponto de interrogação no final da frase, percebe-se que se trata de uma pergunta retórica, que contesta os pronunciamentos do presidente.
Procurando atender às instruções da tarefa, o produtor incorpora ao seu discurso passagens do pronunciamento de Lula e de dois outros discursos. O primeiro destes, favorável a Lula, tem seu ponto de vista contestado pelo locutor-autor por meio da apresentação direta de um verbo indicativo de um ato de linguagem (Eu não concordo), seguido de uma breve justificativa (... que presidente é esse que não sabe o que se passa em seu meio de trabalho?). De forma semelhante, mas sem apresentar justificativa, o locutor-autor endossa o ponto de vista do segundo discurso (Eu concordo com a Maria de Fátima.), no qual o enunciador considera que Lula estaria mentindo.
4.3.1.4 Apreciação geral
O produtor percebe diferenças entre os discursos e seus efeitos de sentido. Sabe que, no gênero, o locutor-autor deve emitir uma opinião pessoal e se identificar. Entretanto, ainda não construiu uma representação completa da forma composicional de um artigo de opinião, sobretudo no que se refere à criação de um quadro de referências para a situação enunciativa e para a definição do objeto de sentido (introdução e retomada do tópico discursivo por meio de sintagmas nominais), bem como à fundamentação das conclusões em argumentos lógicos, mais que em crenças.
Pode-se inferir da totalidade do texto a posição do locutor frente ao tema, embora na superfície do enunciado haja marcas da dificuldade de segmentar e articular as idéias por meio da escolha de itens lexicais e de estruturas sintático-semânticas claras. Na passagem, a seguir, por exemplo, o problema parece decorrente tanto da dificuldade de emprego dos sinais
de pontuação, sobretudo do ponto e da vírgula, quanto da transposição de automatismos do estilo oral não-monitorado para a produção escrita em gêneros secundários. O produtor usa nove vezes o gerúndio nos dois primeiros parágrafos, sucessivas coordenações e, tanto nessa passagem como em outras, mostra dificuldade em usar notações gráficas como aspas, parênteses, maiúsculas e minúsculas.
Acho que o Lula começa um discurso com muita hipocrisia, chamando todo mundo de “amigo”. Querendo mesmo que chamar atenção de todos falando, agradecendo, parabenizando como no programa da “Xuxa”. (“Quero mandar um beijo e agradecer minha mãe, meu pai... especialmente você.”)
Mostrando o que ele fez como se quisesse receber um troféu do melhor do ano, querendo colocar o que a população está sentindo e achando de tudo isso, ele está sempre colocando de onde ele veio, o que ele passou e suas dificuldades.
No terceiro parágrafo, deixando de lado os problemas sintáticos, diante do segmento por
empregos arrumados para pessoas que muitas vezes não dão valor algum, perguntamo-nos: o
que ele será que ele está querendo dizer?
Pelo que parece ele deseja ser carregado no colo, ser beijado os pés, por empregos arrumados, para pessoas que muitas vezes não dão valor algum. Já os presentes materiais, parece mais compra de votos para as próximas eleições.
No capítulo 5, será analisada a enunciação oral em que o produtor tenta explicar o que queria dizer na passagem acima. Como se verá, na superfície do texto ficaram apenas umas poucas pistas de um pensamento complexo, que o sujeito não conseguiu organizar em unidades discretas inter-relacionadas.
Se a freqüência do gerúndio e da coordenação e o uso da preposição para com o verbo
dizer (5º§) podem ser atribuídos a automatismos da oralidade, o mesmo já não se pode dizer
de certos volteios sintáticos como o uso do que em Querendo mesmo que chamar atenção de
todos (1º§), o uso das estruturas passivas em ser beijado os pés ou nada será adiantado (3º§),
o emprego da preposição a no segmento ele vem a dizer (5º§), a omissão de um conector lógico em só que não adianta nada continuar com a corrupção que está (5º§). Como explicar essas ocorrências? No capítulo 5, voltaremos a discutir a hipótese de que se possa explicá-las pela emergência de traços da fala interior na escrita do sujeito.