1.4 Örgütsel İletişim
1.4.6 Örgütlerde İletişim Engelleri
Antonio Tabucchi, ao compor seu protagonista, enfoca questões relativas à problemática vivenciada pelo sujeito contemporâneo, como a questão da fragmentação, dos descentramentos e da perda de unidade e totalidade do ser, conforme a discussão de Stuart Hall, apresentada anteriormente.Em meio à sua busca, Roux acaba por refazer a trajetória de Xavier, o qual parece estar sempre um passo à frente, como alguém que foge, não querendo ser encontrado. No entanto, apesar de, no início do romance, termos a impressão de se tratar de uma simples procura por um amigo perdido, ao longo da narrativa, observamos que essa alteridade começa a se mesclar com o próprio “eu” do protagonista, o qual se confunde com o outro procurado. Esse movimento revela que a busca na qual Roux está envolvido não se resume ao simples encontro com seu amigo Xavier, estendendo-se à procura do próprio “eu”:
– E ele, por que é que está procurando você com tanta insistência?
– Quem pode saber? – eu disse –, é difícil, isso nem eu que escrevo o livro sei. Talvez procure um passado, uma resposta para alguma coisa. Talvez queira agarrar algo que tempos atrás deixou escapar. De qualquer modo está a procura de si mesmo (TABUCCHI, 1991, p.92-93).
Essa temática da busca do outro está intrinsecamente relacionada à experiência de cisão interna e inquietude existencial vivenciadas pelo sujeito, sendo que o outro existe somente na interioridade do indivíduo, se manifestando através da memória ou dos sonhos deste. A identidade se mostra conectada à alteridade de maneira indissociável: “l’incontro con l’altro o l’assenza dell’altro vengono rappresentati come elementi costitutivi per l’identità” (LAUSTEN, 2005, p.11).108
Em relação à estrutura da própria narrativa, esta permanece em aberto, já que, a partir da cena ambígua e sugestiva que nos é apresentada ao final do romance, não temos elementos suficientes para afirmar se Roux encontra ou não seu amigo no restaurante do Hotel Oberoi, obtendo, assim, as respostas que procurava. De fato, um enigma se impõe ao fim do romance, o qual se mantém insolúvel e indecifrável. É justamente essa impossibilidade de estabelecer sentido e ideia de inconclusão o que faz com que o mistério se perpetue. No entanto, parece ser essa a intenção do autor. Com efeito, para Antonio Tabucchi, a “verdade” é inalcançável. O que permanece, portanto,
108“o encontro com o outro ou a ausência do outro são representados como elementos constitutivos da identidade.” (Tradução nossa).
parece ser a impossibilidade de qualquer revelação em relação a essa busca por si mesmo, o que é traduzido pelo anticlímax conferido por Roux ao desfecho do romance que narra a Christine:
– E depois? – disse Christine –, o que é que acontece?
– Que um de nós dois termina de beber o café, dobra o guardanapo, ajeita a gravata, suponhamos que use gravata, chama o garçom com um sinal, paga a conta, levanta, puxa educadamente a cadeira da senhora que lhe faz companhia e que levanta com ele, e vai embora. Chega, o livro terminou.
Christine olhou para mim desconfiada.
– Parece-me um fim um pouco insípido – disse, colocando a xícara na mesa. – É, a mim também – disse colocando também a xícara na mesa –, mas não encontro outras soluções (TABUCCHI, 1991, p.96).
Ao longo da narrativa, o percurso do protagonista se torna cada vez mais obscuro e misterioso. No começo do livro, este ainda se preocupa em se localizar através de seu guia India, a travel survival kit e um mapa de Bombaim. Porém, à medida que penetra nos mistérios da Índia, estes também penetram nele. Dessa forma, o guia é dispensável e Roux continua seguindo o rastro de Xavier, utilizando apenas as instruções que recebe de alguns dos personagens com os quais se encontra, além da sua própria intuição.
A partir dessas considerações, observamos a ocorrência de uma mudança no protagonista ao longo do romance. Em um primeiro momento, este parece estar simplesmente à procura de um amigo, porém, aos poucos, assume a alteridade como parte de si e se reconhece como sendo outro ao mesmo tempo em que não deixa de ser ele mesmo. Nesse contexto, podemos dizer que a escolha da Índia por Antonio Tabuchi como cenário para a sua narrativa se explica pelo fato desse país, como já evidenciado, ocupar um lugar significativo no imaginário ocidental enquanto representação do Outro, caracterizando-se como o estereótipo da alteridade. Nesse sentido, a Índia é tida para o Ocidente como um lugar do sonho e do devaneio. Por se tratar de um lugar distante, que habita a imaginação, torna-se indistinto e impalpável.
Apesar de a Índia apresentada em Noturno Indiano não ser o espaço do exótico, do maravilhoso e do encantado, imagens que, muitas vezes, estão associadas ao imaginário construído em torno daquele país, o escritor italiano se vale dessa atmosfera vaga e fugidia atribuída à Índia para auxiliá-lo, em Noturno Indiano, na construção de um espaço labiríntico e enigmático. Como afirma um dos personagens do livro: “Na
Índia, muita gente se perde (...) é um país feito de propósito para isso” (TABUCCHI, 1991, p.20). É nesse sentido que, em Noturno Indiano,
a Índia surge como um espaço onde todas as referências – sociais, econômicas, políticas e, sobretudo, culturais e simbólicas – são fugidias. Buscar uma sombra, mover-se nesse espaço indefinido significa, assim, instaurar uma discussão sobre as possibilidades de delineamento de uma identidade (SANTOS, 1996, p.11).
O romance Noturno Indiano tem a busca como substância constitutiva da narrativa, sendo ponto central e desencadeador da história narrada. No entanto, para que a busca seja possível, é necessário o deslocamento do sujeito, o que se dá pela viagem através da Índia. Partindo desse ponto de vista, verificamos que, nesse romance, o elemento crucial é a procura, é o processo e não o fim: o que realmente importa é buscar e não encontrar. Assim, o que compõe a matéria de Noturno Indiano é o movimento que caracteriza tal processo, é a apreensão do deslocamento empreendido pelo narrador/protagonista em sua incessante busca.
JOGOS FICCIONAIS E CONSTRUÇÃO DE ESPELHOS EM ANTONIO TABUCCHI
Viviamo questa vita come se fosse un revés, per esempio stanotte, tu devi pensare che sei me e che stai stringendo te fra le tue braccia, io penso di essere te che sto stringendo me fra le mie braccia.109
Antonio Tabucchi, Il gioco del rovescio