Ao longo da história humana, as universidades têm servido como local para que cientistas desenvolvam conhecimento fundamental, sendo responsáveis pelo avanço da compreensão da natureza e de todos os elementos que a cercam, nos quais se inclui o próprio homem. Além da compreensão natural e humana, é também nas universidades que são pensadas abordagens através das quais se possa repassar o conhecimento cientí- fico, processo através do qual ele próprio é aprimorado, refutado, alterado e atualizado. O ambiente acadêmico torna-se, portanto, propício para DC, sendo também responsável por despertar vocações científicas e formar lideranças intelectuais.
O ambiente de uma organização acadêmica que se dedica ao avanço do conhecimento estimula os jovens estudantes a aprender e os ensina a usar a mente segundo as regras do método científico- para entender o mundo e, eventualmente, modificá-lo (CRUZ, 2010)
No Brasil, a produção científica, em sua grande maioria, é originada na universi- dade pública. De acordo com Cruz (2010), oito universidades brasileiras respondem a aproximadamente dois terços dos artigos científicos publicados em periódicos interna- cionais, sendo que a Universidade de São Paulo (USP), em 2008, gerou 26% dos artigos científicos internacionais do país, seguida pela Universidade Estadual de Campinas (U- nicamp) que, no mesmo ano, respondeu por 9% da produção científica internacional (CRUZ, 2010). De 1996 a 2011, o número de artigos científicos publicados por pesqui- sadores brasileiros superou mexicanos, estadunidenses e alemães, conforme mostrado na figura 4:
Figura 4: Evolução do número de artigos científicos publicados em diferentes países
(Fonte: ZAGO, 2010)
Embora a produção científica brasileira se destaque em termos de quantidade, não se pode dizer o mesmo a respeito da qualidade dessa produção. De acordo com Za- go (2010), quando se discute o quesito qualitativo da produção científica, o Brasil fica abaixo de diversos países, entre eles Índia, China, Rússia e Coreia do Sul. Não nos ape- garemos a essa discussão específica, pois ela foge do escopo da pesquisa. Entretanto, vale destacar a reflexão de Fausto Neto (2012), que afirma que a produção do conheci- mento científico e sua respectiva divulgação são etapas de um mesmo processo.
O ciclo de uma atividade científica possui elementos que se retroali- mentam: construir, divulgar e aplicar são ações dos atores que partici- pam do ciclo processual do fazer ciência e a universidade tem um pa- pel crucial nesse processo (FAUSTO NETO, p.72)
Antes de destacar o papel das universidades na divulgação da ciência, especial- mente o das públicas, é preciso resgatar alguns pontos, nos quais se incluem a impor- tância do próprio Estado, como regulador dos interesses efetivamente públicos. Outra preocupação do Estado deve estar voltada à formação docente e discente que, como já mencionado, é bastante deficitária no Brasil, especialmente nas áreas de exatas, vista, muitas vezes, como o primeiro "degrau" para o avanço científico e tecnológico.
Seja para preparar novos profissionais para esse cenário, seja para de- senvolver importantes conhecimentos científicos e tecnológicos, em sua relação com processos econômicos, e para responder a novas de- mandas sociais por qualidade, bem como a um grande conjunto de problemas e preocupações que passam a fazer parte do cotidiano das sociedades, o papel das instituições de ensino superior é considera- velmente destacado (CASTILHO; FACÓ, 2011, p.1-2)
As universidades em geral, portanto, são vistas- e idealizadas- como produtoras do conhecimento e, por sua vez, como uma das maiores responsáveis pelo desenvolvi- mento e prosperidade nacionais. No caso das universidades públicas, esse papel é mais fortemente destacado, e por diversas razões. A primeira delas é que estas são mantidas com dinheiro público e, portanto, naturalmente carregam a obrigação de servir a esse mesmo público que a financia, o que se dá através do desenvolvimento e, especialmen- te, a resolução de problemas que afetam diretamente sua população. Baumgarten (2008) destaca que o elemento fundamental para a sustentabilidade econômica e social do país parece repousar na articulação entre produção de conhecimento, seu locus privilegiado- a universidade- e as potencialidades e necessidades locais (BAUMGARTEN, p.106). Outro importante papel das universidades públicas está, justamente, na formação de recursos humanos capazes de fazer uma avaliação crítica sobre o que é produzido nestes locais. Visto que o conhecimento é o ativo mais valioso no meio universitário, a produção e os resultados gerados pelos pesquisadores envolvidos na educação superior são considerados como avanços no campo da ciência e tecnologia. Além disso, o conhe- cimento proveniente da ciência e aplicado na sociedade, consequentemente, resulta na atração de mais investimentos para própria ciência (CASTILHO; FACÓ, p.2). Com- plementa-se essa reflexão com o fato de que a formação docente no Brasil deixa a dese- jar, especialmente se o aspecto educacional estiver em foco. Levando-se em conta que a universidade existe para produzir conhecimento e, mais do que isso, gerar pensamento crítico e, consequentemente, formar líderes (inclusive na ciência), nota-se que o atual paradigma do conhecimento universitário é o disciplinar. Esse modelo, entretanto, tem sofrido uma mudança. De acordo com Fausto Neto (2012, p.44), emerge na atualidade o modelo "pluriuniversitário", caracterizado pela contextualização, na medida em que o princípio organizador da sua produção é a sua aplicação possível, abrindo espaço para outras formas de interação entre pesquisadores e usuários.
Porém, a produção em C&T voltado à resolução de problemas nacionais (e regi- onais e locais) não é valorizada nas universidades públicas, bem como seu reconheci-
mento. Esse fato fere, inclusive, a prática de DC, que não é, por consequência, estimada. Trigueiro (2012) chama a atenção para esse fato, ao afirmar que as instituições de ensi- no superior, nas quais se incluem as universidades públicas, são instadas a mudar pro- cessos, rotinas, currículos e sua própria forma tradicional de inserção e relacionamento com a sociedade (TRIGUEIRO, p.163).
Essa mudança de paradigma já pode ser vislumbrada. Fausto Neto (2012) afirma que as universidades brasileiras, especialmente as públicas, vêm ganhando maior visibi- lidade, e justifica essa afirmação ao enumerar três fatores responsáveis por isso: o viés produtivista das políticas públicas de pesquisa e pós-graduação adotados desde a década de 1990, que abrigam a divulgação contínua dos resultados frente aos investimentos governamentais nessas áreas; as crescentes facilidades de organização e difusão da in- formação, bem como de produção midiática em diferentes formatos digitais propiciados pelo ambiente tecnológico da internet e; a mudança qualitativa no perfil dos jornalistas que trabalham em assessorias de imprensa ou de comunicação social, assinalada por diferentes autores desde os anos de 1980 (FAUSTO NETO, p.30)