BÖLÜM 4: KAVRAMLAR VE TEORĐK ÇERÇEVE
4.2. KENTLEŞME
4.2.1. Hızlı Kentleşmeyi Oluşturan Süreçler
4.2.2.3. Çevre Sorunları
Historicamente, a prática da gestão dos eventos adversos é inerente aos primórdios da sociedade. Desde muito antigo era necessário desenvolver formas de convívio ou de amenizar os fenômenos naturais que o homem deveria enfrentar para assegurar sua sobrevivência. No entanto, com o desenvolvimento da sociedade, o homem passa a buscar uma posição de dominação, de supremacia sobre os demais organismos vivos e sobre as componentes físicas. Essa atitude desencadeia uma crise que ordem planetária. Então se alteram os contextos, alteram se também os princípios de gestão, incorporando-se novas medidas de gestão do risco que, diferentemente dos primórdios da humanidade, agora passam a serem medidas tomadas deliberadamente. Assim, podem ser citadas
a) medidas de gestão e regulamentação da ocupação do solo;
b) previsões e sistema de alerta e monitoramento, mitigação e organização de emergência e gestão da crise.
A recorrência de desastres nos últimos anos repercutiu enormemente nos delineamentos desta questão. O Relatório do IPCC em 2007, o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais, os boletins e relatórios do CRED e mais recentemente os apontamentos e discussões realizadas na Convenção sobre mudanças climáticas – COP21 realizada no mês de dezembro
de 2015, em Paris denotam a urgência de um realinhamento de interesses e ações, partindo do plano individual para o plano coletivo e institucional proporcionando assim uma construção de uma situação de corresponsabilidade entre os diversos setores sociais (SOUZA et al., 2011).
A questão dos riscos socioambientais urbanos insere-se em um contexto maior, distante da lógica do risco pelo risco unicamente, entendido aqui como um processo natural. Estes riscos são marcas de um sistema bem mais complexo, o qual aparece associado à pobreza, desigualdades socioespaciais e vulnerabilidades socioambientais e à lógica da dinâmica intrínseca ao desenvolvimento urbano que “repele” as populações menos abastadas para áreas mais distantes e vulneráveis. (JACOBI; ALEDO, 2014)
O que se verifica é que em situações como inundações, um dos desastres mais comuns e devastadores, os problemas gerados após um evento expõem a falta de planejamento de uso e ocupação do solo, o despreparo das autoridades e a falta de um ethos de prevenção na sociedade. Além disso, os agravantes associados às desigualdades sociais e à precariedade da infraestrutura urbana não são desconsiderados estes que amplificam as tragédias urbanas causadas pelo descontrole histórico do processo de ocupação. (JACOBI; ALEDO, 2014, p.1) As noções de gestão de risco pressupõem uma realidade socioambiental em que fica evidente o despreparo existente na capacidade de resposta da sociedade aos eventos extremos e suas consequências. Assim, não há de forma alguma a constituição de uma situação de resiliência destas comunidades, ou seja, pela falta de suporte estrutural ou informacional, ou até mesmo pela inexistência de articulações entre órgãos competentes (JACOBI; ALEDO, 2014).
Na medida em que há um expressivo aumento dos eventos, aumenta exponencialmente a necessidade de uma organização prévia, entendida aqui como gestão pré-evento, que necessariamente deve passar pela gestão conhecimento, no qual há um processo de conversão do conhecimento tácito, empírico, adquirido em experiências anteriores em conhecimento explícito, organizado e sistematizado, cuja análise, entendimento certamente trarão resultados positivos na atuação frente aos eventos adversos (URIARTE JUNIOR, 2008).
Em geral, as respostas aos eventos, após a sua ocorrência se materializam em um contexto de despreparo geral causado pela urgência da reação, e pela complexidade do evento e do impacto causado. A gestão do desastre incita uma atuação conjunta e sinérgica que por vezes é impedida pela ineficiência dos gestores ou pela interrupção dos sistemas de comunicação, interrupção dos serviços básicos (água, energia, fornecimento de alimentos e assistência médica). Então, materializa-se um contexto preocupante, onde o acesso a dados
aparece limitado e a urgência de ações é grande, sendo estas por vezes diferenciais na minimização dos impactos humanos diretos, entendidos aqui como óbitos.
Neste sentido, Marcelino (2007) infere a respeito dos planos preventivos de defesa civil, sua importância e abrangência de dados.
Os desastres naturais são desencadeados por processos complexos que envolvem um grande número de variáveis geofísicas (relevo, vegetação, rios, precipitação, etc.) e humanas (população, ocupação do solo, pobreza, atividades econômicas, educação, etc.). Consequentemente, os planos preventivos envolvem uma grande quantidade de dados que precisam ser coletados, organizados, armazenados e analisados para serem transformados em informações passíveis de serem aplicadas no processo de prevenção. (MARCELINO, 2007, p. 14)
O estado de Santa Catarina na região sul do Brasil, tendo em vista a recorrência, magnitude e impacto dos eventos extremos estruturou uma gestão específica para atuação neste cenário. Registros do Atlas Brasileiro de desastres naturais inferem que o estado de Santa Catarina sofreu no período de 1991-2012 um total de 5001 eventos, o que representa 12,82% do total de registros para o Brasil (38.996) e corresponde ao montante de 34% dos eventos contabilizados na região sul, embora sua população seja, proporcionalmente inferior a esse percentual. Tendo em vista que o estado conta com 295 municípios, analisando de forma bastante generalista, há uma proporcionalidade de 16,95 eventos por município no período correspondente.
Dessa forma, o estado está amplamente comprometido não somente com a atuação durante e pós-desastre, como também em situação anterior. Inúmeros trabalhos a respeito da organização e gestão de Santa Catarina foram realizados, e ao analisa-los pode-se ter a plena convicção da situação em que este estado se encontra em contexto diferente de vários outros. Pesquisas apontam que a defesa civil conta com aparato pessoal dedicado exclusivamente a esta função desde um longo tempo, o que permite a construção de um saber empírico e logístico essencial (CARDOSO, et. al, 2014).
Embora Santa Catarina, tenha um contexto diferente da grande maioria dos estados na questão de preparação, ainda há uma ampla gama de registros de eventos e impactos decorrentes, o que nos coloca diante de uma importante afirmativa feita por Giddens (2010) a respeito do atual contexto, correlacionando-o com os avanços e retrocessos do planejamento,
a pergunta feita pelo autor em seu livro14, no qual problematiza sobre a necessidade de um retorno ao planejamento, tece críticas e reflexões a respeito da contemporaneidade.
Tendo em vista os estudos e relatórios a respeito da recorrência de eventos adversos, do aumento de sua frequência e consequentemente, de seus impactos, torna-se unanime a conclusão a respeito da necessidade do recrudescimento das ações, da consecução de uma atuação organizada tanto em nível individual, quanto em nível institucional. Nas palavras de Souza et. al (2011, p. 377),
À vista do recrudescimento das ameaças, e pela simples interpretação dos argumentos apresentados e contextualizados, não é de se estranhar que o tema defesa civil - proteção deva estar integrado às ações dos governos preocupados em buscar alternativas para minimizar os riscos e tornar as cidades mais seguras. Porém, não basta a preocupação quando se pensa numa nação, e sim na existência de condições legais e estruturais para se trabalhar as alternativas em todos os níveis de governo (municipal, estadual e federal), e de ação (comunitária).
Lavell (2003, 1994) disserta a respeito da gestão de riscos; para ele esta deve ser entendida como um processo, como algo contínuo, e não apenas como produto único e isolável, concentrado especificamente em ações pós-evento. A gestão de riscos deve estar alinhada ao processo de desenvolvimento, buscando a integração e articulação entre diferentes atores sociais e níveis territoriais. A gestão de riscos só se dará efetivamente após a criação de uma situação de corresponsabilidade entre os setores e esferas institucionais envolvidas: poder público, sociedade civil e iniciativa privada, ambos articulados e organizados em rede (SOUZA et al., 2011).
Uma postura coerente, articulada e efetiva quanto a gestão de riscos é urgente. Ações que se pautem exclusivamente no assessoramento pós-desastre não são suficientes para a reversão deste cenário. Em verdade, na prática, o que ocorre é um mascaramento da realidade vivida, acompanhado de uma falsa sensação de segurança. As ações executadas devem prioritariamente ser realizadas não mais de forma pontual como vem ocorrendo, mas abrangentes e continuas, abarcando tanto a situação de pré, durante o evento severo e pós desastre (Figura 9).
14 GIDDENS, Anthony. O retorno ao planejamento. In. ____ A política da mudança climática. Rio de Janeiro:
Figura 9 - Modelo de gestão de desastres proposto por Lindell, Prater e Perry
Fonte: Braga et. al (2003)
Lindell, Prater e Perry (2001) corroboram com a questão de gestão das emergências e desastres15; para eles seria um requisito sine qua non elaborar sistematicamente um modelo de gestão apresentado na figura (Figura 9) que se apoie em análises realizadas a partir dos riscos e das vulnerabilidades para o adequado desenvolvimento de estratégias de gestão do território. O modelo necessariamente deve organizar sistemicamente o processo que possibilite pensar a gestão de risco e desastre, pautado em quatro momentos essenciais: mitigação, preparação, resposta e recuperação.
Em contrapartida, Alexander (2007) analisa a gestão de riscos e desastres comparativamente nos diversos países, apontando as dicotomias e fragmentações existentes nesse processo. Dentre as questões problematizadas pelo autor, constam as análises referentes aos processos de centralização e descentralização do processo administrativo. Em conformidade com o que Alexander propõe, a centralização pode transverter-se em uma estratégia ineficiente, inútil, considerando cinco motivos básicos apresentados pelo autor: a) as ordens e instruções provindas de órgãos superiores distantes podem gerar mal entendidos, b) o cidadão passa a ser reconhecido enquanto beneficiário passivo, portanto não participante, c) a não substituição, ou o aguardo de recursos estruturais emergenciais advindos de outras localidades podem ser ineficientes ou inapropriados e d) não fortalecer nem instigar as ações
locais, pode provocar repercussões negativas na população atingida, de cunho psicológico principalmente.
No âmbito nacional as situações não bem resolvidas são muito semelhantes às registradas em outras realidades. Neste sentido, Ferreira (2012, p.20) problematiza a promulgação da Lei 12.608 e seus desdobramentos resultantes da incorporação do item proteção enquanto obrigatório,
proteção e defesa civil é o ciclo de ações [prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação] executadas pelo sistema formado por [órgãos] entidades e pela sociedade civil, articulado e integrado para a garantia da segurança global da população, face principalmente ao risco, [integrando-se a gestão deste com o gerenciamento de desastres]
O processo de gestão de proteção e defesa civil passa a ser caracterizado após o esclarecimento deste instrumento legal, pela sua ciclicidade, anteriormente, embora reconhecida as deficiências na gestão e sua necessidade de ações que abarcam mais enfaticamente o pré-desastre, distanciava-se do discurso e silenciava-se até a recorrência de um novo evento. Estas deficiências foram percebidas das opiniões vertidas nas entrevistas16 realizadas mostrando as dificuldades que o gestor deve enfrentar constantemente (Figura 10).
Figura 10 - Ciclo de Gestão de Defesa Civil
Fonte: Ferreira (2012)
Observando o ciclo exibido na figura 13 estimamos que, possivelmente, tendo em vista as conformações espaciais, as relações de poder e os fatores indutores de vulnerabilidade, os quais não respeitam limites físicos, temos a representação de um cenário um pouco distante, visto que a gestão de risco e a gestão de desastre necessitam ser complementares, representar as faces de uma mesma moeda, devem ser cíclicos e não periódicos e fazer parte de um processo contínuo e participativo que envolva gestores e sociedade civil na busca desse equilíbrio.
Obviamente que a construção de uma atuação sinérgica não deve ser momentaneamente, considerando a complexidade dos elementos que a compõem. Articular e realinhar órgãos já atuantes são ações dificultosas e desafiadoras, sob a lógica de uma nova perspectiva, cujas alíneas e objetivos foram recentemente alinhados (vide Figura 8). Mas certamente, a gestão de riscos na atualidade, ao menos à luz dos princípios teóricos, acreditamos ser mais efetiva por estar instituída por Lei, instrumento regulador maior.
Uma postura coerente, articulada e efetiva quanto à gestão de riscos é urgente. Ações que se pautem exclusivamente no assessoramento pós-desastre não são suficientes para a reversão deste cenário. Na verdade, o que ocorre é um mascaramento da realidade vivida, acompanhado de uma falsa sensação de segurança.
Christofoletti (1984) já alertava na década de 1980 a urgente necessidade de reordenarmos nossas ações em prol de manejos que permitam realocar-nos da situação de vulnerabilidade considerando o texto transcrito a seguir
Nos lugares onde tais manejos não são possíveis, procura-se espacial e fisicamente rearranjar a distribuição das atividades humanas de acordo com os padrões de probabilidades que se conhece a respeito das características e das frequências dos eventos. Sob a perspectiva dominante, então o desastre é atribuído ao funcionamento da natureza, como sendo algo distinto da sociedade humana e desligado dos azares ocasionados pela ação humana. [...]
Se a natureza constitui o elemento desencadeador do evento catastrófico, as consequências e os prejuízos podem ser intensificados ou amenizados pelas características da sociedade humana (p.17).
Tendo em vista a data desta em que foi publicada, é notório seu caráter extremamente atual. Em consonância com o exposto por Moruzzi, Cunha e Conceição (2012) os eventos severos, no caso as inundações, são cada vez mais recorrentes e imprimem a necessidade de repensar todo o processo de ocupação dos espaços. A complexidade dos sistemas ambientais, a urgência de uma tomada de decisões que seja afetiva, e cujos resultados sejam a redução das condições de vulnerabilidade, as quais somos diariamente expostos. Assim estudos hidrológicos, modelagem de fluxos hidrológicos e obras estruturais podem auxiliar na
dissolução deste cenário, especificamente na bacia do nosso interesse, considerando que o planejamento e a gestão dos eventos extremos exibe muitas dificuldades para ser aplicado com os resultados desastrosos conhecidos.
Por fim, o somatório dos instrumentos apresentados, nos seus aspectos estruturais, ação e sistemática almejada delineia, ao menos no plano teórico, um cenário ideal que, além da possibilidade de redução dos eventos extremos oportuniza a redução dos impactos de todas as ordens, reduzindo as condições de vulnerabilidade a qual são submetidas constantemente.
Além disso, instigar a integração destas ações às politicas de gestão e ordenamento territorial é de notória importância e de máxima urgência para a promoção do almejado e utópico desenvolvimento sustentável.
CAPÍTULO IV - Fragilidade e vulnerabilidades da bacia do Ribeira do Iguape