A obra Nomes da terra: história, geografia e toponímia do Rio Grande do Norte não é exclusivamente toponímica, como o próprio título explica. A obra se organiza em três partes: a primeira trata da toponímia do estado, tendo como entradas topônimos que nomeiam tanto elementos físicos como humanos. A segunda parte aborda a origem dos
municípios e um resumo de seu movimento povoador. A terceira parte conta a história de fundação dos cento e cinquenta municípios.
Aqui trataremos somente da primeira parte por ser esta a que trata de topônimos e se aproxima de uma organização dicionarística. Apresenta os dados organizados em ordem alfabética e possui uma microestrutura parcialmente homogênea em todos os verbetes.
As entradas são formadas por topônimos que nomeiam elementos como: povoados, riachos, rios, ribeira, município, serrote, lagoa, lugar, camboa, praia, cordilheira, serra, olho d’água, nomes anteriores etc. Todas em letras maiúsculas e em negrito seguidas de dois pontos. Observamos dois itens que aparecem na quase totalidade dos verbetes é o tipo do elemento que consta juntamente com a localização, configurando uma microestrutura constante, representado no exemplo abaixo com os itens ‘serra’ e ‘Currais Novos’:
IMBURANA: - Serra em Currais Novos. Topônimo popular. É a
árvore Bursera leptophylocos, Engl. De imburana, parecido, semelhante ao imbu, o falso imbu. (CASCUDO, 1968, p. 92)
Notamos que apenas em alguns verbetes não são especificados o tipo de elemento que leva o topônimo que forma a entrada, como é o caso do citado abaixo, no qual não há a indicação de qual elemento é nomeado com topônimo ‘Caatinga’:
CAATINGA: - Topônimo divulgado pelo Nordeste e usual desde o
vale superior do Rio São Francisco, grandes trechos de Minas Gerais e Bahia, até o Piauí, sul do Maranhão e norte de Goiás. Significa região xerófila, de árvores lenhosas, de porte reduzido, perdendo a folha no verão, mas resistentes as precárias condições de umidade. Ausência de grupos vegetais, abundância de plantas espinhosas cactos, bromélias, cipós rijos. De CAA-TINGA, mato branco, ralo, pouco denso, permitindo fácil travessia. O conde de Stradelli explicava ‘Caátinga. Mato Branco, mata rala. A mata rala e raquítica que cresce nas terras arenosas e fica como uma mancha clara no meio da mata circundante’. Beaurepain Rohan sugeria provir de CAA-TINGA, mato seco, desfolhado. Mantendo a grafia original e legítima CAATINGA, evita- se a confusão com CATINGA, mau cheiro. Ambos os vocábulos são tupis, mas o indígena prolongava a primeira vogal determinando a imagem oral de CAA, mato, e não de CATI, odor desagradável. A característica da CAATINGA não é o terreno, mas a vegetação. (CASCUDO, 1968, p. 73)
Observamos, no verbete acima, que a unidade léxica ‘caatinga’, bastante comum no nordeste, é descrita em relação à seus aspectos enciclopédicos, em detrimento de sua aplicação como topônimo.
Quando acontece de mais de um elementos ser nomeados com o mesmo topônimo eles figuram uma só entrada, como no verbete ‘Caraibeira’ que nomeia uma lagoa, um serrote e um riacho:
CARAIBEIRA: - Lagoa e serrote em Serra Negra. Riacho em Currais
Novos. Lagoa em Caicó. De caraíba, a acepção de forte, superior, resistente, e o sufixo português eira. Madeira de cerne conscistente. Alt. Craibeira, denominação de uma localidade em Nova Cruz. O mesmo que Caraúbas. (CASCUDO, 1968, p. 79)
Algumas entradas são formadas pelo elemento geográfico juntamente com o topônimo e não somente pelo topônimo, como na quase totalidade da nomenclatura. Encontramos essa característica nos verbetes ‘Serra do Doutor’ e ‘Serra do Lima’, exemplificado abaixo:
SERRA DO LIMA: - Nos arredores da cidade do Patu, famosa pela
capela de Nossa Senhora dos Impossíveis, construída em 1758 pelo coronel Comandante Antônio de Lima Abreu Pereira. Deu nome a Serra do Lima. Já em 1760 a Capela, no alto da Serra do Lima, era lugar de peregrinações. (CASCUDO, 1968, p. 122)
Também em relação às entradas, alguns topônimos citados na microestrutura não formam novos verbetes, em ‘Zumbi’, apresentado abaixo, são citados os topônimos ‘Touros’ e ‘Nísia Floresta’ que, embora suponhamos que sejam localidades ou regiões, não figuram como entradas na nomenclatura.
ZUMBI: - Povoação em Touros e Nísia Floresta. Lagoa em
Goianinha. Em 1777 Manoel Gomes Tição possuía o sítio do Zumbi na prais do Punahu. Em Angola diz-se Zambi ou Zumbi. N’Zambi é divindade, potestade, N’ganga, Zambi, Senhor Deus. Por translação aplica-se aos chefes, soberanos, aos Sobas poderosos. O chefe negro do quilombo dos Palmares tinha o título de Zumbi. O Zumbi significa espectro, duende, assombração, vindo de N’Zumbi. Assim, Nzambi é deus, rei, chefe. Nzumbi é fantasma, visagem, diabinho. Ambos os vocábulos são pronunciados da mesma forma, Zumbi. O Zumbi que os escravos angolanos trouxeram para o Brasil é o espírito atormentador, zombeteiro, inquietante (CASCUDO, 1968, p. 133)
Em relação às remissivas, o autor apresenta um tipo de verbete formado pela indicação ‘Ver’ seguido da indicação entrada do verbete principal. Para exemplificar, demostramos os verbetes ‘Quandu’ e ‘Cuando’.
QUANDU: - Ver CUANDU (CASCUDO, 1986, p. 118).
CUANDU: - Lugar em Currais Novos e Nova Cruz. É o ouriço-
cacheiro, porco-espinho, Coendu villosus. De quã-adu, ligeiro e rumoroso (L.F.R. Clerot) (CASCUDO, 1986, p. 84)
Nota-se que o topônimo que gera entrada de verbete remissivo é uma variação do nome, acima, podemos depreender que há duas formas de nomeação para o lugar: ‘Quandu’ e ‘Cuando’.
Por fim, não podemos deixar de ressaltar que a obra teve a consultoria de Teodoro Sampaio, autor cuja autoridade no campo das línguas indígenas agrega confiabilidade teórica ao trabalho, especialmente por que a nomenclatura é formada em grande parte por topônimos de origem indígena.
3.5 O Dicionário Histórico Geográfico de Minas Gerais (Waldemar de Almeida