2.1 ARAġTIRMANIN KURAMSAL ÇERÇEVESĠ
2.1.4 Kısa Süreli Çözüm Odaklı Terapi
2.1.4.11 Çözüm odaklı kısa süreli terapinin avantajları ve dezavantajları
Um livro que merece destaque nos kits, que apresenta uma particularidade na forma como é organizado, trata-se de A cor do preconceito (CAMPOS; CARNEIRO; TOLEDO, 2006). A princípio, trata-se de um livro de literatura infanto-juvenil, cuja protagonista é Mira, uma menina negra. O texto ficcional, composto por vinte capítulos, conta a trajetória de Mira, uma excelente aluna da escola pública, que, devido à sua dedicação aos estudos, consegue uma bolsa para estudar em um dos melhores colégios particulares de sua cidade. A troca de cenário permite que a garota vivencie situações em que sofre preconceito e racismo. A personagem principal passa então a refletir mais sobre sua identidade étnico-racial, o que a leva ler sobre temas relacionados aos/às negros/as e a se apaixonar pela África. Ao fim da narrativa a menina consegue ter uma percepção mais madura de si mesma e da pluralidade do mundo em que vive. Entretanto, a cada cinco capítulos há uma série de textos informativos que abordam aspectos históricos e discussões de caráter social sobre a cultura afro-brasileira. Além disso, no decorrer de toda a narrativa, há uma série de notas explicativas que auxiliam o/a leitor/a a compreender
melhor a temática. Dessa forma, informações sobre a cultura africana e afro-brasileira vem sendo apontadas no decorrer de todo o livro.
Vale destacar também que trata-se de um livro escrito por três autoras que contribuíram de diferentes formas para a sua composição: a escritora Carmen Lucia Campos, a pesquisadora, historiadora e professora de História Vera Vilhena, e a antropóloga, pesquisadora e diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra –, Sueli Carneiro. O lugar de onde falam as três autoras contribuiu para que o livro, além de ter um enredo envolvente, permitisse que o/a leitor/a, ao final se sua leitura, estivesse mais informado/a sobre diversos temas que a ficção levanta, tais como: resistência negra durante a escravidão; dados sobre as desigualdades sociais produzidas pelo racismo e pela discriminação; história do continente africano; informações sobre personalidades negras que contribuíram nas ciências, na literatura, nas artes plásticas entre outras áreas; contribuição dos negros na formação da sociedade brasileira etc. Esse livro é um exemplo de uma obra que aborda a cultura africana e afro-brasileira de uma forma mais atualizada, trazendo referências culturais atuais. A concepção de cultura que esse livro apresenta é um pouco diferente da dos demais livros. Mais que reiterar símbolos de uma cultura, tal livro os apresenta e os contextualiza. Muitas vezes os retoma, mas para mostrá-los inseridos no contexto atual. O efeito discursivo que tal livro provoca destoa de vários outros, pois não fixa, muito antes pelo contrário mostra essa cultura em movimento.
Todavia, de modo geral, é possível dizer que, nos livros analisados, ao se apresentar os objetos, os costumes, os valores e os rituais, opera-se uma essencialização das culturas, de um apego à tradição, de uma volta ao passado, objetivos utópicos. Como afirma Bhabha (1998, p.20) a “representação da diferença não deve ser lida apressadamente como o reflexo de traços culturais ou étnicos preestabelecidos, inscritos na lápide fixa da tradição”. O autor nos alerta de que uma suposta homogeneidade, organicidade e univocidade de cultura está em profundo processo de redefinição. O que há é um constante fazer-se, pois a cultura é “uma prática de significados em que diferentes grupos produzem e são produzidos, transformam e são transformados, governam e são governados, construindo, assim, experiências de diferentes tipos, dependendo dos modos como tais práticas são vivenciadas” (PARAÉSO, 2008, p.109). Meyer (1998, p.371) mostra a importância de se “problematizar as ideias de homogeneidade, fixidez e herança biológica e social que subjazem aos conceitos tradicionais de cultura, frequentemente presentes no currículo escolar”. Afirma que, “longe de limitar-se a englobar a totalidade das experiências compartilhadas pelos grupos, a cultura está implicada com a forma pela qual tais experiências,
crenças, tradições... são produzidas, nos sistemas de significação, estruturas de poder e instituições sociais” (MEYER, 1998, p.370).
Se os livros literários que compõem os kits de literatura afro-brasileira avançam ao trabalharem à exaustão, apesar das críticas que podem ser feitas, culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas, quando se analisa as práticas escolares, esses livros não representam uma grande diferença, como mostram Carvalhar e Paraíso (2010, p.51) que, ao investigarem as práticas de escolas de educação infantil da rede municipal de Belo Horizonte, narram que: “Nas histórias infantis, nas práticas curriculares, nos desenhos e imagens das atividades, nos brinquedos, nos murais, nas mochilas, nas agendas, nos desenhos das roupas usadas além do uniforme, nos filmes assistidos, não havia qualquer menção às culturas diferentes da cultura branca”.
Assim, ao reiterarem objetos, costumes, cenários, valores, rituais relacionados aos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas, os livros de literatura infantil analisados operam de modo a estabelecer jogos de verdade que “ganham corpo em conjuntos técnicos, instituições, esquemas de comportamento, em tipos de transmissão e de difusão, em formas pedagógicas, que ao mesmo tempo as impõem e mantêm” (FOUCAULT, 1997, p.11). Ora tais jogos contribuem para romper com discursos que posicionavam as culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas como culturas menores, exóticas, diferentes; ora tais jogos contribuem para dar continuidade à forma como essas culturas eram/são vistas, ao retomarem, explicitamente objetos, costumes, cenários, valores e rituais pelos quais essas culturas são reconhecidas, restringindo a possibilidade de uma diversificação. Todavia, acredito que essas possibilidades de trabalho, e também esses limites, estarão sempre postos, uma vez que a cultura é um campo de luta por significados. Levando-se em consideração, as representações culturais analisadas, penso que as estratégias utilizadas pelos livros de literatura infantil dos kits de literatura afro- brasileira – de destaque de alguns objetos; de reposicionamento de costumes; de composição de cenário; de reafirmação de valores culturais e de descrição e valorização de rituais – trata- se de estratégias culturais. Isto é, de estratégias para que culturas antes silenciadas, negadas e estereotipadas passem a ser ditas, problematizadas, divulgadas. Tais lutas culturais não são travadas apenas com base na ressignificação de práticas cultuais desses grupos, também são travadas no que diz respeito à forma como os corpos negros e indígenas são representados, como será discutido no próximo capítulo.