KONYA 2. ORGANİZE SANAYİ BÖLGESİ, KARAHİSAR SOK
T. ZİYAEDDİN CAD. NO:6
No Estado Social, a formação de regimes antidemocráticos e a burocracia desligada das aspirações populares (1) fragilizaram os atores que firmaram o pacto de solidariedade nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial; (2) fragmentaram as organizações; (3) destituíram de poder as instâncias de legitimação e efetivação das políticas sociais (Vianna, 1997), e (4) fizeram emergir a expressão de Estado Democrático de Direito.18 Ou seja,
um paradigma no qual a indivisibilidade, inter-relação e complementaridade dos direitos fundamentais se impuseram – em um processo em que se superou o aspecto contraditório entre a formulação do Estado Social com o Estado de Direito, por meio da síntese dos direitos civis, políticos e sociais, de maneira eficaz na qual:
O Estado social contraditou o Estado liberal que contraditou o Estado absoluto. Para superar a contradição entre o liberal e o social, entre a liberdade e necessidade, devem os opostos se converter um no outro. Mas eles se convertem um no outro se transformando um pelo outro, para se transformarem em outro, no qual se sintetizem. O Estado social e o Estado liberal se converterão um no outro na medida em que se transformem um ao outro no terceiro em que serão um só: o Estado Democrático de Direito (Barros, 2007: 261).
Assim como no paradigma liberal, o Estado Social contribuiu para a execução do paradigma do Estado Democrático de Direito. A “Constituição da República Federativa do Brasil”, promulgada em 05/10/1988, instituiu profundas e inovadoras alterações nas relações civis e políticas, inclusive entre os Poderes, entes federativos e órgãos públicos, desenhando um Estado distributivista, em perspectiva descentralizada, com incremento nos gastos sociais e sobrecarga nos tributos indiretos, para garantir os direitos fundamentais e prover os direitos sociais.
Já em seu Preâmbulo, descreve que a instituição do Estado Democrático de Direito visa assegurar “o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna,
18 “O termo burocracia incorporou-se ao léxico especializado na segunda metade do século IXX. Ao longo so século
XX, além de ter-se consolidado como conceito-chave para analisar o Estado, os governos, as políticas públicas e as organizações dos mais diferentes tipos (trata-se de um sistema racional de atividades regradas com que se busca um máximo de coerência entre meios e fins e um máximo de eficiência), também adquiriu sentido pejorativo, ao ser empregado – especialmente pelo senso comum – como sinônimo de lentidão processual, desperdício e ameaça à liberdade individual” (Nogueira; Di Giovanni, 2013: 116).
pluralista e sem preconceitos” (Brasil, 1988: 11). Preliminarmente, a centralidade dos valores constitucionais se assenta (1) na extensão e na disposição dos direitos sociais, (2) na participação direta da população nas deliberações sobre políticas sociais, (3) nas garantias constitucionais que visam assegurar a efetividade desses direitos (Simões, 2013).
No contexto dinâmico da Constituição, o tradicional dualismo liberal e social entre Estado e sociedade civil encontra sua mediação; acrescentando à garantia de seus pressupostos sociais o significado político da reaproximação e interpretação entre o Estado e a sociedade civil (Cohn; Draib; Karsch, 2003). No Estado Democrático de Direito, o interesse público expande-se para o interior da sociedade civil, ao assegurar nos direitos fundamentais e sociais a intervenção do poder público e a regulação econômica e social, sobretudo por meio de políticas públicas cidadãs, sem as quais a sociedade civil não se organizaria; desagregando-se, prejudicaria os interesses individuais e coletivos (Barros, 2007: 230).
4.1 Direitos fundamentais e direitos sociais
No Título I, “Dos Princípios Fundamentais”, o artigo 3º constitui os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, subdivididos em cinco incisos, a saber:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (Brasil, 1988: 13).
No Estado Democrático de Direito convive-se com a perspectiva de que o respeito à Lei corresponde ao meio de preservar o direito do cidadão frente ao possível arbítrio do governante, sendo explicitado que a existência do Estado é essencial para proporcionar ao seu povo os objetivos fundamentais inseridos nos incisos I a IV, do artigo 3º supra, especialmente no inciso I, que ao mencionar a constituição de uma sociedade “livre, justa e solidária”, remete ao paradigma da Revolução Francesa: “liberdade, igualdade e fraternidade” (Dellagnezze, 2010). No Título II, “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, Capítulo I, “Dos direitos de deveres individuais e coletivos”, o artigo 5º reza:
Os direitos e deveres civis, tanto os das constituições anteriores, como a função social da propriedade, a igualdade de todos perante a lei, a inviolabilidade do lar, a liberdade de pensamento e a garantia da irretroatividade das leis; quanto os direitos e deveres novos, como o direito de resposta, a inviolabilidade da imagem das pessoas, a facultatividade de filiação a sindicatos e associações e a representação processual das associações, a defesa do consumidor, o habeas data, (...) e a aplicabilidade imediata das normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais (Simões, 2013: 159).
O inciso II deste artigo sedimenta a ideia do Estado Democrático de Direito, no qual “ninguém será obrigado a fazer ou de deixar de fazer alguma coisa, senão em virtude de lei” (Brasil, 1988: 15). No Capítulo II, “Dos direitos sociais”, no mesmo Título, os direitos sociais universais foram expressamente instituídos do artigo 6º ao 11º, tendo, portanto, características de direitos fundamentais. Destacamos o 6º artigo: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a alimentação, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição” (Brasil, 1988: 20).
A ressalva final deste dispositivo, “na forma desta Constituição”, remete-nos, entre outros dispositivos, aos de seu Título VIII, “Da Ordem Social”, sobre a educação, cultura e desporto (Capítulo III) e sobre a família, a criança, o adolescente e o idoso (Capítulo VII) (Simões, 2013: 160).
Ressaltamos ainda o artigo 7º, que manteve os direitos trabalhistas individuais dos trabalhadores urbanos e rurais (direitos sociais clássicos), e o artigo 14º (Capítulo IV “Dos direitos políticos”), que assegurou o direito e o dever de voto aos maiores de 18 anos de idade, facultativamente a partir dos 16 anos, aos analfabetos e aos maiores de 70 anos (Brasil, 1988: 24-25).
Para a eficácia desses direitos, a CF/88 criou, de forma inovadora, algumas garantias, especialmente a assentada no §1º, inciso LXXVIII, do 5º artigo, o qual declara que “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”, pois dotadas de plena normatividade (Brasil, 1988: 20).
As disposições econômica, social, geográfica, populacional e histórica, com maior ou menor intensidade, podem ser identificadas como obstáculos que limitam os avanços dos governantes ou da própria sociedade, ou como potências criativas para atingir as metas previstas dentro de um artigo da lei ou
de uma Constituição, para prosperar e oferecer a todos “o bem-estar e a justiça sociais”, como propõe o artigo 193º da CF/88. A polarização torna-se mais evidente no contexto neoliberal. Se por um lado não avançou na execução de políticas públicas sociais, por outro lado desencadeou a descentralização do Estado.
4.1.1 Descentralização: “desvio de rota”?
A descentralização do Estado, que tem por base a outorga de maiores poderes para a esfera local, é reconhecidamente princípio amplamente defendido na teoria política neoliberal (Silva, 2009; Barbosa, 2010).19 No
contexto histórico, a entrada do neoliberalismo, na década de 1990, especialmente nos países latino-americanos, limitou o avanço no campo das políticas públicas destinadas a assegurar os direitos sociais instituídos nos preceitos constitucionais – desconsiderados pelos Estados em favor de uma reforma com base no projeto cosmopolítico neoliberal, que “se deu pela renegociação das dívidas externas, quando os países credores obrigaram os países devedores a pôr em prática um ajuste fiscal com o objetivo de saldar essas dívidas” (Carinhato, 2008: 39).20 O “desvio de rota” dos preceitos
constitucionais pelo Estado Democrático de Direito propiciou à sociedade civil se organizar; e representou enfatizar a esfera pública, ao defender que a maior eficácia do governo democrático está diretamente relacionada à maior participação social local. Do mesmo modo que o Estado Social ofereceu alternativas à crise do liberalismo, os neoliberais tornaram suas ideias aceitáveis ao defenderem, especialmente, a descentralização do Estado.
Porém, no modelo ideológico neoliberal, com aspectos da ordem política e econômica, as políticas públicas em geral e a política social em particular, claras no plano ideológico, do discurso, assumem características seletivas e compensatórias – e, consequentemente, a efetivação dessas políticas esbarra
19 Alexis de Tocqueville, pensador político, historiador e escritor francês do século XIX, baseado em suas viagens aos
EUA, publicou, em 1832, a obra “Da democracia na América” – considerado o teórico social mais importante na área do associativismo civil e da participação cidadã (Silva, 2009: 01), teria sido um dos primeiros pensadores a colocar em destaque o governo local (“local self-government”) como aspiração de igualdade entre os homens (Barbosa, 2010: 02).
20 O denominado “Estado Neoliberal” surgiu em 1960, tendo como marco inicial a publicação do livro “Capitalism and
Fredoom” (Capitalismo e Liberdade), lançado no ano de 1962, por Milton Friedman: economista norte-americano,
influente teórico do liberalismo econômico, para ele a liberdade econômica gera uma condição essencial para a liberdade das sociedades e dos indivíduos; foi conselheiro do governo chileno de Augusto Pinochet (1973-1990); muitas de suas ideias foram aplicadas na primeira fase do governo Richard Nixon (1968-1974), e em boa parte do governo Ronald Reagan (1981-1988), nos EUA; e, em 1976, recebeu o Prêmio Nobel de Economia, em Estocolmo (Dellagnezze, 2010: 76).
de um lado na escassez de recursos financeiros e de outro na inabilidade administrativa para provê-las, comprometendo a sua efetivação. Disso decorre a dificuldade do alcance efetivo da inclusão social, fazendo com que o período pós-Constitucional fosse avaliado como:
(...) pleno de ambiguidades e de profundos paradoxos. Pois se, por um lado, os avanços constitucionais apontam para o reconhecimento de direitos e permitem trazer para a esfera pública a questão da pobreza e da exclusão, transformando constitucionalmente essa política social em campo de exercício de participação política, por outro, a inserção do Estado brasileiro na contraditória dinâmica impactante das políticas econômicas neoliberais coloca em andamento processos articuladores, de desmontagem e retração de direitos e investimentos públicos no campo social, sob a forte pressão dos interesses financeiros internacionais (Yasbek, 2004: 24).21
O projeto neoliberal desencadeia, ainda hoje, o debate sobre a disposição política e o sentido do Estado como instituição social (Barbosa, 2010); no Brasil, a entrada se deu por meio da implantação de dois planos políticos complementares entre si: econômico e político.