2. ULUSLARARASI VERGİ REKABETİ
2.5 Vergi Rekabetinin Zarar Verici Sınırı ve Zarar Verici Vergi Uygulamaları
2.5.3 Zararlı Vergi Rekabetine Yönelik Uluslararası Çalışmalar
O sujeito da contemporaneidade envolvido neste processo, o “neo- sujeito”, como denomina Lebrun (2008), apresenta uma grande dificuldade de aceitar a separação e lidar com a castração. Esta dificuldade é expandida para tudo que imponha algum limite ou faça menção à negatividade. O enfraquecimento do Outro leva a uma perda de legitimidade. Neste processo os pais se veem com dificuldades de instituir a lei, e a função do Terceiro fica comprometida. Segundo Lebrun, “tudo se passa como se os pais, não
dispusessem, mais da legitimidade que permitiria que ocupassem, durante o tempo necessário à subjetivação, o lugar de exceção”. (Lebrun, 2008, p. 181)
Para Dufour (2008), sem lugar para o Terceiro houve uma banalização da família.
Tanto Dufour (2008) quanto Lebrun (2008) coadunam com a hipótese de que não existem mais diferenças entre pais e filhos, como se houvesse uma decadência da diferença geracional, onde todos se igualam. Na verdade, o que presenciamos na pós-modernidade é quase uma inversão de papéis e de construções de identificações imaginárias, onde são os pais que procuram imitar os filhos e ter como modelo de ideal a juventude e a adolescência.
Nessa dinâmica psíquica de evitamento da separação, quando o sujeito se vê obrigado a ter que efetuar qualquer forma de separação, esta situação surgirá todo um “cortejo de dificuldades e sintomas”. (Lebrun, 2008, p. 221) Na economia psíquica, o que se passa na pós-modernidade é que o desejo, caracterizado por Lebrun como um desejo falso pelo fato de não ter sido constituído a partir da falta, fará uso de infinitos objetos, sem a simbolização destes. Na verdade, trata-se de uma forma de gozo. Notadamente percebemos
193 como o gozo prevalece sobre o desejo nesta dinâmica psíquica da pós- modernidade. Assim, as patologias surgem de forma diferente na contemporaneidade: não são mais advindas de um conflito na constituição do sujeito, mas de uma maior incapacidade de abandonar o gozo.
Segundo Dufour (2005), na pós-modernidade percebe-se um declínio das neuroses de transferência para um avanço das psiconeuroses narcísicas, contra as quais a última proteção é a perversão. Sem a passagem pelo Outro, o sujeito vive como um impostor que precisa fundar a si mesmo. A perversão surge em larga escala como um processo defensivo e não exatamente como uma estrutura.
Percebe-se uma alteração na formação do ideal do eu com uma nova complexidade e enfraquecimento do super-eu. Trobas (2003) enfatiza que isto já estava em Lacan no seu artigo de 1950: Introdução teórica às funções da
psicanálise em criminologia. Neste texto, Lacan prognosticou que este arranjo
levaria a uma inflação narcísica do eu, algo que favorece o individualismo, as relações de rivalidade, de sedução, o que beneficia a lógica do consumo e da ordem econômica. (Lacan apud Trobas , 2003, p. 14)
Com efeito, o desfalecimento da função paterna leva a uma transformação da castração, o que altera fenômenos psíquicos e fortalece a inibição e a debilidade. Como explanamos no capítulo anterior, a inibição está vinculada a uma função e a um processo do eu, como um contra-investimento a processos que possam ameaçar o eu ou trazer alguma angústia. E uma inibição global pode estar associada a uma depressão, uma tristeza que impedem o sujeito de agir.
Lebrun desenvolveu o conceito de uma comunidade de renegações como resposta à perda de legitimidade e às dificuldades apresentadas na constituição do sujeito. (Lebrun, 2008, p. 260) Também em Dufour encontramos a renegação como uma das características do sujeito da pós- modernidade. Lebrun emprega o termo “renegação” utilizado por Octave Mannoni para demonstrar o que acontece no desmentido, quando alguém sabe
bem sobre alguma coisa, mas mesmo assim age como se não soubesse.
194 ser inscrita, mas age como se não existisse a perda. Renegação (“verleugnung”) ou desmentido é diferente de recalque (“verdrüngung”) presente na neurose, e igualmente diferente da denegação (“verneinung”), processo típico da perversão. A partir destes fundamentos, Lebrun defende que o “neo-sujeito” continua nesta via ilusória de seu desmentido e assim cria-se uma permanente “recusa suspeita” ou um inabalável desmentido, formando-se uma comunidade de renegações.
O que acontece na pós-modernidade é que o efeito fálico passa pelo sujeito e desta forma não se desenvolve uma estrutura psicótica ou perversa, mas ele se comporta como se nada tivesse acontecido. Não é o processo da neurose clássica, mas o sujeito se aprisiona no seu desmentido sem conseguir sair sozinho dessa condição, alerta Lebrun (2008). Esse mecanismo do desmentido aproxima-se de um mecanismo perverso, mas não necessariamente se configura como uma perversão. O “neo-sujeito” utiliza o desmentido para evitar a subjetivação, enquanto o perverso faz dele sua fundamentação. O verdadeiro desmentido atual é no sentido de aniquilar a alteridade do Outro e manter um acordo entre o regime materno e o social.
Lebrun qualifica este fenômeno como uma espécie de mèreversão para contrapor e diferenciar da perversão, ou mesmo uma espécie de perversão
afálica, ou ainda como fenômenos de “aspecto perverso”, como definido por
Lacan. (Lebrun, 2008, p. 214) Com a falência da lei paterna prevalece a relação entre mãe e filho, conservando a relação dual no registro do imaginário. Assim, o sujeito se vê preso a uma economia do gozo sem acesso à economia do desejo, ou do simbólico.
Vale ressaltar que Lebrun, ao descrever estas características da pós- modernidade pela leitura da figura do pai associado ao Outro, não realiza uma exaltação ao patriarcado ou mesmo culpabiliza uma forma de matriarcado para as questões da pós-modernidade. Trata-se de descrever uma dinâmica psíquica sobre as funções maternas e paternas que têm desdobramento na construção do laço social e das relações sociais. Lebrun define o “neo-sujeito” como um sujeito que permaneceu apenas como filho da mãe. (Lebrun, 2008, 251) Uma condição próxima da posição débil.
195 Neste processo, os filhos, como eternos filhos da mãe, evitam crescer, o que Lacan já havia previsto em 1968 ao afirmar que o futuro seria da criança
generalizada, em “Lettre de l’enfant e de l’adolescent”. Para Dufour, a criança
generalizada de Lacan cedeu lugar à criança fora da lei generalizada, uma menção à perversão generalizada de Lebrun. As crianças sem uma referência para se constituir e com a evitação de todo conflito, ficam “sem recursos” para enfrentar as angústias necessárias a “todo confronto com um impossível que é
justamente o que torna possível levar adiante projetos”. (Ibid., p. 193) A inibição
como uma das defesas contra a angústia se apresenta como mais “lucrativa” para o sujeito nesta nova economia psíquica.
Quando o “neo-sujeito” enfrenta de alguma forma a separação, pode também se apresentar como vítima. O processo de “vitimização” e ressentimento é algo que tem crescido na contemporaneidade e desde os anos 80 foi incluído no vocabulário da ONU. (Cf. Eliacheff, 2007) Todorov alerta que o processo de vítima aparece com a perda de autonomia do indivíduo - quando ele não é responsável pelos seus atos mas os outros são e ele se posiciona como vítima do destino. Para este autor, o que surge como novidade na contemporaneidade é que este papel de vítima que antes era reivindicado de forma individual se tornou público. Ele denuncia que na sociedade americana houve uma substituição do ideal heroico para o ideal vitimário. (Cf. Todorov, 1999, p. 226)
Todorov afirma que, de forma contraditória, é no seio da sociedade do espetáculo que surge esta vontade de impotência da figura da vítima, pelo fato de a condição de vítima ser mais proveitosa no mundo contemporâneo e na lógica do capital, do que a dos antigos heróis. A troca que se exige no processo de vítima é uma reparação, e esta é mais econômica do que a troca simbólica. A vantagem está no fato da condição de vítima pressupor uma reparação; no entanto, a partir desta reparação, o sujeito perde toda sua autonomia e culpa sobre a ação, “é algo vantajoso, mas inteiramente passivo”, afirma o autor. (Ibid., p. 235) Para Todorov, neste processo o sujeito se coloca livre de toda a responsabilidade e “ver-se livre de toda responsabilidade diante de seu próprio
destino é considerar-se sempre uma criança”. (Ibid., p. 227) Também aqui
196 dificuldades de assumir sua posição como sujeito autônomo e permanecendo em uma posição infantil, ou mesmo débil.
Na sociedade contemporânea todo aquele que foi submetido a um preconceito passa a ter o direito a compensações. São sujeitos que não se tornam engajados e ativos em sua condição, mas que, de forma passiva, buscam apenas a reparação dos prejuízos dos quais foram vítimas. Tal processo, mais uma vez, mantém o sujeito na economia do gozo e não do desejo, “a reivindicação é um processo que está longe de ser um
acontecimento desejante”. (Koltai, 2004, p. 10) Ao mesmo tempo, na pós-
modernidade existe uma mudança do sentimento de culpa que era dirigido ao Outro para o de vergonha que é voltado para si. Não havendo o recalque, os sujeitos estão imunes à culpabilidade, mas subordinados à vergonha. A queda dos ideais leva ao enfraquecimento do super-eu em sua face simbólica e se a culpa levava a uma elaboração de um projeto pessoal que tinha a possibilidade de uma compensação simbólica, a vergonha exprime uma intolerância narcísica à frustração.
Os sujeitos se tornam indiferentes ao sentido que devem dar para os seus próprios atos; não tendo que elucidar suas condutas diante da culpabilidade, a sua ação está inscrita na sua natureza. (Cf. Dufour, 2008) A incapacidade de ter um olhar reflexivo sobre as ações e uma busca por ações no imediatismo, na satisfação imediata favorece a relação de adicção ao objeto. Neste caso, o Outro pode ser inscrito muito mais na ordem da necessidade e do que na do desejo, o que, segundo Dufour (2008), pode aumentar determinados processos, como a adicção. Acrescentamos neste processo a debilidade e a passagem ao ato, pelo fato de o sujeito, nestes dois processos psíquicos, resistir à reflexão, por ser recusar a qualquer saber.
Alguns sintomas são perceptíveis e surgem nesse “neo-sujeito”, como o denomina Lebrun. O autor afirma que “vemos desenvolver uma clínica no
entrecruzamento do social e do psiquiátrico, que corresponde tanto às fobias escolares ou à obesidade infantil quanto às passagens destruidoras ao ato”.
(Ibid., p. 43) Lebrun cita o trabalho de François Parot (uma professora de psicopatologia clínica) que descreve que a falta de limites simbólicos se traduz em uma ausência de limite corporal e físico. A psicopatologista utiliza este
197 argumento para justificar o aumento de crianças consideradas hipercinéticas, ou portadoras do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).80 A autora afirma que neste caso são os adultos em sua volta que estão deficientes ou inadaptados. (Cf. Parot, 2004 apud Lebrun, 2008, p. 191) Lebrun utiliza-se desta tese para defender que tal diagnóstico é efeito tanto da construção do aparelho psíquico quanto da vida coletiva.
Este diagnóstico de TDAH clássico e tão comum na psiquiatria na contemporaneidade é um exemplo de novos sintomas. A motricidade exacerbada no TDAH é uma forma da criança realizar a repetição no próprio corpo, como uma vertente da motricidade no tratamento da angústia. Neste sentido, Trobas (2003) assinala que o culto exagerado ao esporte na contemporaneidade é também uma forma de se utilizar da atuação como uma fuga da angústia de castração. O déficit de atenção está associado ao processo da contemporaneidade, no qual não existe o espaço para o pensar, para a alteridade e a simbolização. Nesta dinâmica, o não pensar leva à ampliação da motricidade e da atuação no próprio corpo.
Se a neurose se instala a partir da submissão ao Outro, a não passagem por essa submissão leva a outras formas psíquicas, e Dufour destaca a “histerologia” como sendo uma delas. Este autor define a histerologia como uma rejeição à castração, com um forte desejo de onipotência, o que leva a um narcisismo desordenado e a uma presunção subjetiva, processo que também acarreta a depressão e o ataque de pânico. (Cf. Dufour, 2005) O autor faz uma analogia desse processo com a política do escabelo, mencionada por Lacan, na qual cada um se crê admirável na sua arrogância. Em 2008, Dufour afirma que não se trata mais de se definir a contemporaneidade como uma época de individualismo nem tão pouco como narcisismo e conclui que “nossa época não
sofreria mais de individualismo, ainda menos de narcisismo, mas de egoísmo”.
(Dufour, 2008, p. 22)
80 TDH (F.90), segundo o CID 10 (1993) é um grupo de transtornos caracterizados por início
precoce (habitualmente durante os cinco primeiros anos de vida), falta de perseverança nas atividades que exigem um envolvimento cognitivo, e uma tendência a passar de uma atividade a outra sem acabar nenhuma. Associados a uma atividade global, desorganizada, incoordenada e excessiva, estes transtornos são acompanhados frequentemente de um déficit cognitivo e de um retardo específico do desenvolvimento da motricidade e da linguagem.
198 Tanto Dufour quanto Lebrun defendem haver uma exacerbação da depressão que assola o sujeito da contemporaneidade:
A depressão seria, de algum modo, o preço a pagar pela liberdade e nossa emancipação do domínio do grande Sujeito. Ela se exprime pela tristeza, pela astenia (pela fadiga, isto é, a antiga “acedia”), pela inibição ou por uma dificuldade de agir que os psiquiatras chamam de “lentidão psicomotora”. Ela traduz a impotência mesmo de viver. (Dufour, 2005, p. 93)
Mais uma vez, nestes relatos podemos perceber embutida a nossa tese de que a debilidade, como fenômeno social, tem se manifestado na contemporaneidade de forma mais ampliada e com outros diagnósticos, com outras manifestações. A condição para que ela se estabeleça é altamente favorável nesta economia psíquica que não propicia a subjetivação. O fracasso escolar é ampliado pelo fortalecimento da inibição e por uma recusa em lidar com a alteridade do saber ou com alguma forma de simbolização.
Podemos acrescentar que a debilidade se apresenta como uma forma de reação e uma defesa a essa ausência de referência. A ausência do Outro provoca um medo do que virá no futuro, existe uma perda de referência sobre si mesmo e a posição débil pode representar uma saída para esse impasse, mantendo o saber em um Outro artificial. Por outro lado, o fortalecimento do imaginário e a fixação da relação materna entre mãe e filho são a base de instalação da debilidade. O sujeito débil mantém o regime da relação mãe-filho e neste caso é como se o discurso social vigente consentisse com a manutenção de tal regime. A renegação ou o desmentido também se aproximam da debilidade, pois o débil, apesar de saber sobre a castração, a rejeita, recusa-se a saber sobre ela. Assim, mantém-se como uma eterna criança presa no desejo obscuro da mãe.
A posição de vítima também fortalece o quadro de debilidade e a falta de autonomia. Presenciamos essa posição sendo mantida tanto pelas pessoas com deficiência na reivindicação de seus direitos como pelos pais, ou mesmo pelos profissionais das instituições especializadas, sendo que estes últimos se colocam como vítimas do próprio processo de inclusão. A correlação entre a culpa e a deficiência, citada anteriormente, é algo que poderia ser trabalhado para que o sujeito superasse a condição de debilidade. No entanto, o
199 sentimento de culpa passou ao sentimento de vergonha e de vitimização, o que provoca maior resistência ao trabalho de simbolização.
Nesta confusão vivida na contemporaneidade, os pais reivindicam tanto a inclusão quanto a manutenção da segregação como resposta ao processo de vitimação. As pessoas com deficiência e seus familiares se percebem como vítimas por terem sido expulsas das escolas comuns e por terem sido mantidas segregadas em instituições especializadas; nestes casos, considera-se a inclusão escolar como uma necessidade de ressarcimento. Ao mesmo tempo, existem outros pais e pessoas com deficiência que se percebem vítimas da própria inclusão, considerando-a como um movimento autoritário por não permitir mais a escolarização especializada e por operar como um corte na manutenção de uma relação de maternagem nessas instituições.
Logo, a inclusão toma contornos distintos: em alguns casos enfatiza a deficiência e em outros nega a deficiência ou a necessidade de um tratamento necessário. Neste caso, a inclusão serve para fortalecer a fuga do sujeito da angústia de castração presente na debilidade. Neste arranjo pós-moderno da inclusão, que chamamos de uma inclusão sem sujeitos, sem autonomia ou sem reconhecimento do outro, mais uma vez se busca um Outro artificial ou um arremedo de autonomia. Assim, o único tratamento aceito será aquele que apresentar uma saída de imediato, ou que permita o fortalecimento de uma forma do gozar, oferecendo o objeto para satisfação imediata, como uma pílula miraculosa, ou que consiga resultados práticos e alcançados em curto prazo. As instituições escolares se encontram presas nestas armadilhas da contemporaneidade e das posições subjetivas diante deste arranjo, o que merece uma análise detalhada.