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2. ULUSLARARASI VERGİ REKABETİ

2.1 Doğrudan Yabancı Sermaye Yatırımlarına Yönelik Destek Stratejileri

2.1.3 DYSY’ye Yönelik Rekabet Politikası

O outro com a marca da deficiência não é qualquer outro, é alguém que possui uma marca “estranha”, desconcertante, um estigma, algo que provoca um misto de repulsa e comiseração, por remeter a esse mesmo sentimento de estranhamento singular. As pessoas que possuem alguma deficiência não possuem uma imagem ideal de completude; pelo contrário representam algo que parece “estranho” ao sujeito, algo que é impossível de subjetivar na demanda parental. Como descrevemos, esta inquietação diante do “unheimlich”, do inquietante, corresponde ao que existe de mais íntimo para o sujeito. O sentimento de estranhamento é com relação à própria fragilidade vivida no primeiro momento da constituição do sujeito. Existe uma relação com essa questão psíquica que leva a rejeição da deficiência, e que tem a ver com como o sujeito lida com sua própria castração e com a falha que lhe é natural, tanto a própria incompletude quanto a incompletude do A. Assim, a pessoa com deficiência pode representar a encarnação ameaçadora do Outro responsável pela castração.

163 A deficiência também faz alusão aos outros pontos que trazem sofrimento ao homem, sublinhados por Freud (1930), como a preponderância da natureza e a fragilidade do corpo humano. Ter alguma deficiência ou déficit nas funções orgânicas é natural a qualquer ser vivo e se não acontecer no decorrer da existência pelo menos no final da vida advém a falha natural pelo desgaste dos órgãos e de suas funções. Não querer envelhecer ou não querer aceitar ser deficitário corresponde tanto a uma ameaça de retorno a um estado de desamparo infantil, quanto à impossibilidade de atingir o ideal humano de ser um super-homem; corresponde, ainda, à impossibilidade de alcançar o ideal do eu formado na constituição do sujeito ou, também, o ideal de homem cunhado pela sociedade moderna que prega com severidade o ideal de não envelhecimento. O encontro com alguém com alguma deficiência causa sofrimento por não se querer conhecer a própria fragilidade e finitude humana. Em um processo de negação, essa pessoa é afastada do convívio comum. Esta atitude de distanciamento remete à falha da constituição do sujeito e a toda forma de negatividade absoluta do sujeito, o que tem consequências sociais.

A questão da alteridade que se coloca diante da deficiência se aproxima daquela considerada mais radical, definida por Baudrillard e Guillaume. (apud Quessada, 2007, p. 50) A alteridade radical é aquela que corresponde ao Outro, a tudo aquilo que é exterior ao sujeito e que não tem referência com algo que significa o ser para o sujeito, como o si. Uma diferença que é irredutível ao sujeito. A alteridade radical configura uma alteridade absoluta que se torna incompreensível, inassimilável e até mesmo impensável.

A deficiência tem relação com o próprio conceito de real lacaniano, como algo que designa uma realidade fenomênica que é imanente à representação, mas impossível de simbolizar, ou de difícil simbolização. A discriminação e o afastamento destas pessoas podem corresponder a uma tentativa de afastar o próprio real com o qual se quer evitar o confronto. Žižek elaborou uma releitura do conceito de real de Lacan propondo três noções para o Real (com R maiúsculo) que podem se referir à forma com a qual o sujeito lida com a deficiência. Para Žižek, existe um Real real, que seria correlacionado à Coisa: a cabeça da medusa, o abismo, o Monstro. O Real simbólico, um Real sem

164 sentido, por não se conseguir integrá-las em uma forma de significação, ou científico, que corresponde às fórmulas científicas. (Cf. Žižek, 2006. p. 87) E um Real imaginário, que designa o Real da própria ilusão, representando um traço elusivo no outro que incomoda; segundo o autor, é o ponto do Real no Outro. Para ele, o Real imaginário é frágil e elusivo. A rejeição à deficiência e, consequentemente, às pessoas que a possuem, tem correlação com essas categorias do Real de Žižek, desde o real imaginário, com a deficiência representando um traço elusivo no outro que incomoda, até o real simbólico, com as descobertas científicas e novas síndromes e patologias consideradas raras e de diagnósticos complexos, passando pelo Real real, que remete à conceituação de monstro desenvolvido por Foucault. Diante desta experiência de evitamento do confronto com o real, o relacionamento com os portadores de algum tipo de deficiência teria como condição a discriminação e afastamento destas pessoas em lugares diferenciados dos demais, com a finalidade de se evitar o confronto direto.

Por outro lado, está contido nos princípios democráticos que se deve garantir oportunidades iguais para todos cidadãos; e quanto àqueles mais necessitados ou com necessidades especiais deve-se criar condições especiais para atende-los. Castel define este dispositivo criado para se manter as oportunidades iguais, como as ações “especiais”, como uma forma de discriminação positiva, diferenciando-a de uma discriminação negativa. (Cf. Castel, 2008)

Para o autor, na discriminação positiva disponibilizam-se recursos suplementares para que o indivíduo possa desenvolver suas capacidades e, assim, possa se integrar ao regime comum. Mas o que significa se integrar ao regime comum? Na modernidade veremos que muitas vezes significa exatamente o esvaziameno da particularidade e da diferença. Gardou (2005) afirma que o respeito à singularidade do outro, seja ela radical,68 supõe uma aceitação da complexidade irredutível do real e não uma simplificação precipitada. Essa simplificação leva a categorizar e a ignorar o real humano, com um tipo de classificação determinada pelo olhar e pela ação. (Cf. Gardou, 2003, p.25)

165 Žižek (2003) contribui para essa discussão ao lembrar que sempre que se usa a nomenclatura para nomear algo que é considerado “especial” há uma conotação de um excesso, como, por exemplo, quando um parceiro sexual pergunta ao outro se quer algo especial ou numa técnica especial de interrogatório, todos têm uma correlação com uma prática pervertida. As práticas adotadas como uma necessidade especial em nome de uma discriminação considerada positiva tiveram, em muitos casos, um cunho perverso, o que analisaremos mais adiante.

Quanto à discriminação negativa, Castel é enfático em afirmar que

[...] a discriminação é escandalosa por se constituir em uma negação de direitos, e ainda que a igualdade dos cidadãos diante da lei não é uma palavra vazia, já que é a condição de entrada na modernidade democrática e fixa os contornos de uma sociedade na qual, os cidadãos podem ser por eles mesmos responsáveis pelo próprio destino. (Castel, 2008, p.12)

Castel descreve a discriminação negativa como algo que estigmatiza o indivíduo com um “defeito quase indelével”, condição própria da pessoa com deficiência. O que se percebe é que apesar de se criar dispositivos próprios de uma discriminação positiva, a discriminação negativa é mantida e as duas condições coexistem. A inclusão escolar, bem como as reservas de cotas como uma ação em favor da igualdade de oportunidade, reservando vagas para alunos e ou trabalhadores com deficiência, não eliminam esta discriminação negativa no âmbito das salas de aula ou das organizações empresariais. Nessas condições, as pessoas com deficiência estariam dentro, mas completamente fora; não seriam mais expulsos, mas suportados, tolerados sem reais condições de pertencimento.

O conceito de Homo sacer de Agamben é mais um conceito que ilustra bem essa condição das pessoas com deficiência: Homo sacer é uma figura obscura da lei romana, uma pessoa que é excluída de todos os direitos civis, enquanto a sua vida é considerada "santa" em um sentido negativo. (Cf. Agamben apud Žižek, 2003, p. 111) Assim, o Homo sacer apesar de ser um ser humano vivo não faz parte da comunidade política. O filósofo esloveno afirma que “o Homo sacer de hoje é o objeto privilegiado da biopolítica humanitária:

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que é privado na humanidade completa por ser sustentado com desprezo”.

(Ibid.) Diante das políticas compensatórias como as de concessão do benefício de prestação continuada pelo Ministério da Previdência (BRASIL, 1991) e diante da política de reserva de cotas para se garantir a inserção laboral nas organizações empresariais e mesmo de programas específicos de assistência à saúde e a própria política de inclusão escolar, as pessoas com deficiência se encontram muitas vezes nesta classe de ser “sustentado com desprezo”. O autor faz referência a esse conceito para dizer que existe uma distinção entre aqueles que estão na ordem legal e aqueles que são considerados como Homo

sacer, e que esta distinção não é horizontal, mas vertical, assim como a

mesma distinção está no nível do subjetivo de forma antagônica. Ou seja, todos somos submetidos ao imperativo da Lei (com maiúsculo representando a lei paterna da constituição do sujeito), mas, no plano obsceno do Super-eu somo tratados como Homo sacer. (Cf. Žižek, 2003, p. 47) Mais uma vez, a relação com a deficiência e as pessoas que a possuem remete a uma condição humana de uma forma ampliada e extremada, transpondo para um nível coletivo o que se dá em uma ordem subjetiva.

Mas, como a deficiência expõe este processo de forma explicita e sem rodeios, a rejeição a esses indivíduos é extremamente forte. Além disso, se todas as deficiências físicas ou sensoriais trazem esta questão à tona, a DM parece sofrer maior rejeição por conter o déficit na condição mais preciosa do ser humano: a condição de ser racional, que o diferencia dos demais seres e que confere aos homens uma posição de superioridade diante dos demais seres vivos e até mesmo de determinadas culturas consideradas menos racionais e, por isto mesmo, inferiores. O que traz incômodo nesta deficiência é que ela revela que o mais racional na escala da natureza conserva em si algo de irracional, que algo do saber lhe escapa, e esta é outra condição que o homem moderno quer desconhecer.