6.2. Türkçe Tarih Söyleminde Sözbilimsel Kip Belirlemede Ölçüt Olarak
6.2.3. Türkçe Tarih Söylemi ve Etkinlikler / Koşullar
6.2.3.1. Zamanda Yerleşim
A última imagem23 a ser estudada nesta etapa da pesquisa foi capturada por Jorge Luiz da Veiga, e retrata uma das ruas do bairro em perspectiva, contemplando toda a sua largura, deste o primeiro plano até a linha do horizonte. O foco da cena está próximo à objetiva e localiza-se na metade direita do enquadramento, caracterizado pelo plano conjunto.
Como mencionamos anteriormente, a função técnica desse tipo de recorte é valorizar os sujeitos sem omitir as referências do cenário e, desse modo, permitir que o leitor observe os atores enquanto se relacionam entre si e com os elementos cênicos do palco onde estão situados.
A Fotografia apresenta como personagens dramáticas quatro crianças pequenas, curvadas ou agachadas ao redor de um filete de água, que desce pelo canto da calçada, paralelo à divisa de pedra que separa o espaço da rua do espaço reservado ao passeio pedestre. As personagens são, na sua maioria, meninas e estão entretidas em mexer na poça com gravetos de árvores. Elas não olham para a câmera.
A rua é feita de paralelepípedos desnivelados e, no local onde se encontram as figuras humanas, a sua situação é ainda mais irregular, pois estão cobertos pela água empoçada, pela terra e pela vegetação rasteira. Nesta região existem, ainda, alguns sacos plásticos rasgados e sujos, misturados aos pedregulhos e pedaços de papelão.
A água não é totalmente transparente, tem uma cor escura, e não conseguimos identificar com clareza sua origem. No entanto, dois elementos do cenário devem ser explicitados nesta descrição: primeiro, que o líquido aparece na imagem logo atrás das crianças, em curva; segundo, que, se observarmos desde o início da quadra, na linha do horizonte, até o eixo principal da imagem, veremos que há uma espécie de caminho, de trilha, tal qual acontece com a grama ao passamos seguidamente pelo mesmo lugar, revelando que aquele filete de água já passou por ali.
Ao lado das crianças, na extrema direita da foto, apresentado com pouca luminosidade, há um buraco fundo na calçada. É a entrada do esgoto pluvial, ou, como popularmente chamamos, a “boca-de-lobo”. Sua abertura não tem tampa ou proteção, mas dentro do fosso encontramos grandes galhos de
árvores, folhas secas e uma cerca de ferro lateral, levemente banhada pela luz. As personagens estão próximas dessa abertura.
A cena revela ainda a entrada de algumas casas, tanto no lado direito quanto no esquerdo, postes de luz, árvores, terrenos baldios e um pouco do céu, acinzentado, já que a Fotografia está em preto-e-branco. O conjunto desses elementos, selecionados e imersos numa relação translingüistica, forma o Discurso de Jorge. Ele poderia materializá-lo de diferentes formas, mas se apropriou de um plano de expressão, em particular, para isso: a Fotografia.
Registrar imagens é, aqui, então, uma forma de olhar pessoas, de compreender o bairro, sua população, sua arquitetura, suas configurações humanas. É uma forma de construir textos, não apenas sobre o urbano, mas como habitante dele, alguém que transita em seus espaços públicos e privado, que “escreve” segundo sua própria história de vida e, conseqüentemente, produz um texto marcado por ela. São opções que configuram a atuação do fotógrafo e que revelam sua atitude diante da realidade.
Cada sujeito está comprometido com certos aspectos da Cultura, e a bagagem de referências que constrói a partir dela, inclina-o a fazer determinadas escolhas, a perceber, por exemplo, que nas ruas do bairro Leonardo Ilha existem crianças brincando, correndo perigo, uma situação de descaso, de empobrecimento; e, mobilizados por um conhecimento e uma história de produção e leitura, particular, registrar os atores, seus gestos e as situações experimentadas, através de um traço estético que os reproduza, mesmo que nem sempre essas escolhas possam ser identificadas em outro momento.
Já o leitor, no esforço de compreender a imagem, abre diante de si um leque de possibilidades, sempre configuradas a partir daquilo que ele mesmo projeta na cena observada, e deixa-se atingir pela imagem por meio de dois processos de leitura, o Studium e o Punctum.
O Studium dessa Fotografia está relacionado à atenção que comumente damos às crianças; mais do que isso, está no interesse para o qual despertamos ao vê-las em situação de risco, num lugar duplamente perigoso: primeiro porque se trata de uma água, possivelmente, poluída, ou suja, que traz riscos para a saúde; segundo, porque estão ao lado de um buraco sem
tampa e podem cair lá dentro a qualquer momento. Além disso, culturalmente, é sensato preocupar-se com esgoto a céu aberto, mesmo o pluvial.
O Punctum, por outro lado, está vinculado ao afeto ou inquietação que determinado aspecto da imagem acorda no leitor. Nesta cena, por exemplo, ele é a linha do horizonte, delimitada pela rua, borrada e fora de foco, e um pouco além, ligado a alguns postes de luz que nos indicam: o caminho segue, embora a situação em primeiro plano seja complexa e alarmante. Dito de outra forma, a estrutura do fato explicita que ainda há uma outra parte da estrada a percorrer e, diríamos, ao julgar pela luminosidade que banha a cena, onde tudo pode ser resolvido. Trata-se de um trajeto, um jogo, que não acaba no fim da rua, nem nos limites do bairro Leonardo Ilha; depois do horizonte existem outros personagens, novos cenários, uma infinidade de Discursos e múltiplos sentidos.
A cena também qualifica alguns Estereótipos, entre os quais o do “descaso das autoridades”, evidenciado pelas condições em que se encontra a região: água empoçada, sujeira e pedregulhos ao redor, boca-de-lobo sem a grade de proteção na abertura, galhos de árvores jogados dentro do buraco e crianças brincando. E, ao indicar tais condições, Joselina assume a fala, cristalizada, de que toda a responsabilidade por essa situação é da administração pública, pois deve providenciar as medidas de segurança para evitar o contato da população com o esgoto e viabilizar o trânsito pela região, sem riscos. Mas parece não importar para a sua fala quem entupiu o fosso ou quebrou a calçada.
O rótulo da “infância pobre” é outra forma presente na Fotografia. O texto traz implícita a idéia, normalizada, de que as crianças de classe baixa não têm um lugar apropriado para brincar nem condições de comprar brinquedos. Assim, quando seus pais saem para trabalhar e elas ficam sozinhas, a única opção de diversão é brincar na rua, com os materiais ali disponíveis. Além disso, a composição reforça a idéia de que essa diversão implica correr riscos.
O Mito da Omissão da História é explicitado pela origem da água, que não aparece de forma clara. Igualmente, não sabemos quem são aquelas crianças, por que estão sozinhas na rua ou como a boca-de-lobo ficou naquele estado. Aliás, o ângulo e a iluminação não privilegiam as condições do buraco, protagonista do perigo, maquiando sua profundidade ou amplitude.
Identificamos, ainda, no retrato o Mito da Constatação, que se manifesta na medida em que o texto de Jorge aparece como uma verdade, concluída por intermédio da experiência de sociabilidade e presente como natureza: “a vida sempre foi assim”.
Quanto à categoria Poder, acreditamos que assume diferentes formas no texto e revela-se pela ação do fotógrafo, na ausência da figura do adulto e na referência conotada à administração pública.
O fotógrafo, por ser o autor do texto, elege, com satisfação, o que quer mostrar e, principalmente, elimina o que não lhe interessa. A ausência do adulto revela o seu poder diante da criança, afinal, em Fotografia, como já dissemos, tudo aquilo que não está visivelmente posto na imagem significa tanto quanto aquilo que está. Assim, na foto, sem ele, as personagens correm perigo. E a administração pública representa o Poder institucional; é a responsável pela manutenção dos serviços urbanos num município.
O Socioleto, neste discurso, é Acrático, pois Jorge fala de um lugar fora do poder, apesar de revelar, através da cena, todas as relações a que está contextualmente submetida. Ele constrói, então, um texto que aponta para a classe dominante e a constrange, uma vez que denuncia o fracasso da sociedade burguesa, mostrando o esgoto como paisagem e as crianças, como personagens dramáticas, que representam o primeiro ciclo da vida, em situação de desamparo.
O fotógrafo exibe, ainda, como elemento cênico, em destaque, o filete de água no canto da rua, assim como, implicitamente, assinala para a condição da comunidade moradora do bairro: à margem. Com isso, mantém as figuras comuns ao Discurso dos moradores na tentativa de impedir o outro, que está fora, de invadir este espaço de expressão e garantir àqueles que estão dentro a possibilidade de manutenção do sentimento de pertença.