A quarta cena20 sobre a qual vamos nos debruçar foi capturada por Jorge Luiz da Veiga e mostra um sumidouro21 a céu aberto.
O buraco de terra ocupa a maior parte da imagem, do centro à esquerda, e está cheio de um líquido escuro. Não há tampa ou qualquer outro recurso que vede sua abertura. Ao redor vemos tábuas ou tocos de madeira, barras de cimento, pedras e plantas agrestes. O caule e as folhas do mato já encobrem parte desses restos de material e avançam poço adentro. Próximo à altura da água observamos um cano claro, comprido e fino que sai da terra.
Em segundo plano, atrás do poço, há uma cerca de arame farpado, mas está caída. Depois da cerca, vemos a parte inferior de uma construção de tijolos sem reboco e um corredor de terra. Não há figuras humanas na cena.
A verbalização desses elementos possibilita uma descrição sintética da imagem e é a partir dela que iniciamos nossa leitura, pois seu registro num dado momento do passado é o Discurso construído por Jorge. Trata-se de um texto que tem como pressuposto o desejo de fala do autor, ou seja, a sua emergência em dizer algo sobre alguma coisa para alguém. É, também, o exercício da capacidade que temos de produzir uma mensagem observando o jogo dialético dos signos disponíveis, organizando-os não de modo aleatório, mas a partir de um contexto sócio-histórico do qual fazemos parte e que os engravida.
20 Anexo 04.
21 Poço de terra não revestido, para o despejo de líquidos domiciliares, para serem absorvidos pelo solo envolvente. (FERREIRA, 2004, p.691), vulgarmente chamado de “poço negro”.
Barthes (1978) diz que os Discursos estão em toda a parte, porque não há linguagem sem Discurso, e a linguagem é o elo do homem com o mundo. Contudo, essa discursividade, produzida continuamente pelos atores sociais, pode assumir distintas formas de expressão, como, nesta pesquisa, a Fotografia. Por meio dela seu autor, num momento único e irremediável, imobiliza, fraciona, o real, transformando-o em passado, ao mesmo tempo em que o acorda para o presente.
Mostrando o poço negro a céu aberto em algum lugar do bairro, Jorge interage com o universo em que está imerso, localiza ou aponta um fato, uma preocupação, pertinente àquela realidade. Mais do que isso, através da discursividade, procura entender sua dimensão, suprir uma lacuna de informação, mesmo que a imagem indicada pela Fotografia tenha uma verdade própria, que não depende de sua correlata real.
Trata-se de um documento de representação de uma segunda realidade, decodificada. Em preto-e-branco, a imagem do sumidouro distancia- se ainda mais do seu referente, que devia ter cores e variações de tonalidades, ter cheiro, e transforma-o em signo, em modelo de consciência do fotógrafo. Como espectadores, encontramo-nos com esse Discurso através de duas experiências de leitura, o Studium e Punctum.
O primeiro é a atenção comum despertada pela imagem no leitor. Diríamos que o Studium, aqui, está ligado à precariedade da situação em que o poço negro se encontra, pois o buraco parece fundo, a água, suja, contém elementos cortantes e não há cercas de proteção. Entretanto, não nos sentimos afetados ou intrigados com a Fotografia. Aliás, os mesmos signos que despertam o gosto coletivo pela imagem apontam para a presença estereotipada da idéia de descaso, relacionada à administração pública ou a algum morador do próprio bairro. Tal idéia é construída com base num conjunto de elementos que repetem o mesmo sentido.
Trata-se não apenas da dimensão do poço, mas do espaço na cena fotográfica que ele ocupa: está em primeiro plano, é o protagonista da foto. Além disso, o tom cinza indicando a cor escura do líquido que o preenche, a quantidade de materiais dispostos desordenadamente ao seu redor, a ausência de uma tampa para vedar o buraco e/ou uma cerca de proteção e o mato alto
tomam conta de todo o cenário. Associado a esse quadro, podemos ainda encontrar a idéia de abandono: do buraco, do bairro, dos moradores.
A categoria Mito manifesta-se aqui na Omissão da História, uma vez que a imagem, através de um primeiro plano, só foca o buraco. Não há identificação de onde ele está, do que há ao seu redor, quem o fez e por que ficou dessa forma, de modo que faltam informações suficientes para que o leitor possa fazer um julgamento.
Já o Poder aparece por intermédio da figura do fotógrafo, porque pode escolher o objeto (assunto) sobre o qual vai depositar o olhar, os enquadramentos que quer fazer e a idéia que vai apresentar ao leitor. Mas também o encontramos no outro, um anônimo, fora da imagem, associado àquele que abandona, que não está ali (o Estado como Poder institucional).
Por fim, temos o Socioleto construído historicamente pelos moradores do Leonardo Ilha e presente no texto, porque a denúncia é uma das suas figuras de linguagem. Ela se manifesta através da apropriação da potência de determinadas cenas selecionadas em detrimento de outras, transformadas em signo e que, ao circularem pelo espaço do bairro, indicam uma situação- problema, resgatando a necessidade de discuti-la.
Assim, quando o fotógrafo publica o sumidouro envolto numa condição adversa, de descaso ou abandono, revela mais do que a fala de um grupo, constituída de elementos simbólicos específicos. De certo modo, o que ele propõe é a ruptura com o discurso hegemônico, denunciando seu engodo, responsabilizando-o pelo problema denunciado e desequilibrando os poderes vigentes. Por isso qualificamos a predominância de um Socioleto Acrático.