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Türkçe Tarih Söyleminde Süreçler

6.2. Türkçe Tarih Söyleminde Sözbilimsel Kip Belirlemede Ölçüt Olarak

6.2.2. Türkçe Tarih Söyleminde Süreçler

A quinta foto22 selecionada para o estudo foi realizada por Darlan Anholeto, morador do Leonardo Ilha há sete anos, que retrata dois catadores de lixo numa rua do bairro.

A Fotografia está em preto-e-branco e o enquadramento adotado pelo fotógrafo é o plano geral. Esse tipo de recorte tem como objetivo técnico referendar o cenário, valorizá-lo; por isso, a figura humana aparece em tamanho reduzido, mas no centro da cena.

Para obter uma descrição detalhada podemos dividir a imagem em três blocos horizontais. A parte inferior, em toda a sua extensão, é composta por uma vegetação agreste misturada a tufos de grama e flores do mato. Essas plantas se estendem pela área reservada ao passeio pedestre, dificultando o trânsito na região, e invadem a rua, por cima da divisória de pedra.

Em primeiro plano, à esquerda da foto, vemos um toco de madeira, não muito alto, e uma cerca de arame farpado, arrebentada, que segue para fora do retrato. No bloco central da cena está a rua, construída com paralelepípedos, que também atravessa a fotografia de um lado a outro. É nesse espaço que estão as personagens, localizadas na esquina direita da quadra em frente à calçada de mato. São duas e as vemos de corpo inteiro.

A personagem da esquerda aparece de costas para a câmera, é uma figura feminina, tem um pano amarrado na cabeça e está curvada, mexendo em vários sacos brancos de lixo. A outra fica ao seu lado, de perfil, porém não é possível identificar o sexo; está igualmente curvada, mas sobre um carrinho- de-mão, organizando os materiais que carrega. Diante das duas, vemos árvores, a garagem de uma casa e uma rua diagonal.

Por fim, temos o terceiro bloco da imagem: nele há uma caixa d’água, um fio de luz e o céu, cinza-claro.

Com essa descrição apresentamos alguns dos elementos visuais que compõem o Discurso de Darlan, que se apropriou da imagem experimentada num momento ímpar, a partir do enquadramento, ângulo e opções de iluminação. Poderíamos dizer, ainda, que, naquele momento, o fotógrafo jogou com o referente, transformando-o em registro e, além disso, em texto. Essa discursividade se dá a partir de uma dupla necessidade: a de dizer e a de ser ouvido.

Ao produzir uma fala qualquer, relacionamo-nos com o mundo e com o outro, e o fazemos a partir da apropriação de fragmentos ou referências de textos aos quais tivemos acesso durante essa relação e, com base neles, colocando-nos em esforço para compreender e para nos fazer compreender. Não é diferente quando Darlan fotografa, porque os Discursos são múltiplos e podem se manifestar de diferentes formas, uma das quais é a Fotografia.

Se ele escolhe determinadas cenas para capturar, como os catadores de lixo ou os papeleiros, é porque os reconheceu como atores de um

determinado cenário, como imagem significativa e, conseqüentemente, dispôs- se a compreender a dinâmica instalada por tais sujeitos naquele contexto. O fotógrafo, então, participa e compartilha a sua idéia de mundo com alguém por meio da fala que produz.

Além disso, esses textos imagéticos não são produtos isolados, desterritorializados; ao contrário, são motivados por um contexto que envolve fotógrafo e fotografado e que está, de alguma forma, expresso na mensagem. A opção do autor pelo plano geral, por exemplo, evidencia na cena analisada o lugar onde se encontrava o referente no ato do registro e de onde fala Darlan; observação que não seria possível, ou seria mais difícil, se outro enquadramento fosse adotado. Já o ângulo da imagem a partir do qual o autor realizou o seu recorte, registrando as personagens, delata a relação entre ele e os sujeitos flagrados.

Assim, distintas leituras podem ser empreendidas pela observação de tais elementos, algumas mobilizadas pelo senso comum; outras, pelos afetos.

O Studium, enquanto presença pública de interesse coletivo, está

relacionado à questão do lixo e, particularmente, aos catadores de lixo, que constituem, na atualidade, uma profissão do mercado informal de trabalho. Sua presença freqüente nas ruas das cidades brasileiras denuncia as precárias condições de sobrevivência de uma parcela da população.

Já o Punctum, ou melhor, o ponto da imagem que nos toca, está

ligado à distância entre o fotógrafo e as personagens, bem como à posição em que se encontram em relação à câmera fotográfica. Darlan está longe dos atores da cena, que, por sua vez, estão de costas para o leitor. A impressão que temos é de uma imagem furtada, na qual os sujeitos da foto não percebem que estão sendo observados e, muito menos, que se transformam em elementos de uma discursividade, apontando sua presença naquele cenário, seu papel.

Ainda sobre essa questão, o fotógrafo parece se esconder no meio da vegetação agreste, atrás da cerca de arame farpado, como um caçador à espreita da caça, esperando o momento certo, ou a imagem certa, para sacar a arma, ou a câmera fotográfica. É como se não fosse necessário ir ao encontro das cenas que se deseja registrar, porque as que merecem registro estão, mesmo, é por toda a parte e a qualquer instante podem cruzar sua objetiva,

como podem cruzar o nosso olhar. Quando isso acontecer, o fotógrafo caracterizar-se-á por um único gesto, o do disparo, “matar” o referente, que, depois daquele “clic”, nunca mais vai existir.

Outro aspecto significativo conotado pelo Punctum da Fotografia é que as cenas, espalhadas pela floresta cotidiana, inquietam o autor e, apesar de reconhecê-las, ele não se aproxima delas. Darlan fica atrás da cerca de arame farpado, escondido no meio do mato alto, pois não quer que o vejam; no entanto, ao mesmo tempo, denuncia que a cerca é sustentada por um pedaço de madeira velho e, agora, está arrebentada, aberta. Em outras palavras, seu registro flagrou naquele momento a relação que existe entre o autor e o contexto, pois ali ele aparece como partícipe da selva: é caçador e é caça.

No que tange à categoria Estereótipo, identificamos duas formas naturalizadas: a do abandono e a da pobreza. A primeira pode ser observada a partir da vegetação agreste, que cresce indiscriminadamente em todo o bloco inferior da imagem, avançando rumo aos paralelepípedos, por cima da divisa de pedra, tomando o espaço do passeio público; sem contar a cerca caída, de arame enferrujado, configurando uma situação de descaso, de descuido com a rua, com o bairro, com as pessoas que ali moram.

Do mesmo modo, temos a forma da pobreza evidenciada pela ação das personagens: catar lixo. A própria combinação dessas duas palavras já conota certa precariedade, uma vez que “catar” se refere ao ato de selecionar e recolher uma coisa entre tantas e “lixo” é aquilo que se varre da casa, da rua, que se joga fora porque é imprestável. Ora, as figuras em cena estão escolhendo e pegando para si algo que já foi varrido, que já foi considerado inútil ou descartável, que já foi usado, comido. Que outra condição de vida senão a de pobreza e miséria levaria um sujeito a procurar entre os restos de outrem meios de sobrevivência?

Esse pressuposto nos leva ao Mito da Constatação, figura de outra categoria de análise, que reconhecemos porque, de certa forma, o texto, proposto por Darlan apresenta-se como fala acerca da situação daqueles atores sociais e de si próprio frente a eles. Porém, de outra forma, como uma conclusão, que estabelece aquela circunstância como verdade, como paisagem do bairro.

Também temos, neste caso, o Mito da Omissão da História, porque, embora a imagem seja assinalada pelo plano geral, indicando o lugar onde estão as personagens, não revela quem são, que lixo é aquele, de onde vem e por que está ali.

E, por fim, talvez tenhamos o Mito da Identificação, uma vez que o